O que Passos Coelho uniu

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 22/10/2015)

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         Daniel Oliveira

                        Daniel Oliveira

Anda tudo muito concentrado nas posições de alguns deputados – claramente minoritários no seu grupo parlamentar – e de socialistas como Francisco Assis e Sérgio Sousa Pinto. A decisão de Sousa Pinto não comparecer à Comissão Política foi tratada como um alívio para António Costa. Cheira-me que será mais o oposto: Sousa Pinto não terá de se confrontar com o reduzido peso que a sua posição tem no partido. Do que sei, por via de muitos socialistas com que vou falando, o PS não está a viver tempos de guerra interna. Parece ser claramente maioritária a posição que está a ser defendida por António Costa. Quem conhece as dinâmicas destes partidos consegue pressenti-lo com facilidade. Fosse outra a divisão, seriam figuras de outro peso a dar voz à insatisfação e a desafiar a liderança de Costa. Sem desprimor para os próprios, o facto de ter sido Sousa Pinto a bater com a porta e Assis a liderar a suposta revolta interna deixa claro que a situação, na base, estará relativamente pacificada.

Não quero, nestes tempos de grandes mudanças repentinas, fazer qualquer prognóstico. Mas o sonho de ver um grupo de deputados viabilizar o governo de Passos Coelho não me parece ser, por agora, mais do que isso: um sonho. Para um conjunto de deputados furar a disciplina de voto numa moção de rejeição, caso em que consensualmente essa disciplina sempre foi aceite em todos os partidos, era preciso ter uma larguíssima base de apoio na militância do PS e, a liderá-lo, pessoas de um peso pelo menos comparável ao de António Costa. Não é decididamente o caso. Tal opção seria, por isso, um extraordinário caso de suicídio político. Se essa cisão existisse, os orçamentos e os programas passariam a ter de ser negociados com os 230 deputados. É uma possibilidade que provavelmente obrigaria à mudança do sistema eleitoral.

De todos os relatos que me chegam – que podem estar sempre marcados pela vontade dos mensageiros –, há, em torno desta negociação, um apoio claríssimo da maioria dos militantes do PS. Ou seja, o PS está tão unido como consegue estar em torno desta solução. Ao contrário do que possam imaginar, essa unidade é também bastante evidente no Bloco de Esquerda e no PCP. Mesmo que entre alguns dirigentes exista apenas uma aceitação contrariada de uma inevitabilidade, as bases militantes parecem estar satisfeitas com esta solução. Quanto aos eleitores dos três partidos, não ficarei no papel de interpretador de votos que são sempre contraditórios. Uma coisa é certa: a única sondagem conhecida deixa o PS com a mesmíssima votação que teve nas eleições. Não é aí que a coligação iria buscar mais votos, que continuariam a não lhe dar maioria para governar. A ser assim, quem votou no PS não se zangou com esta solução. Certo é que a comunicação social está longíssimo de refletir os equilíbrios de posições existentes na sociedade. Não encontro, aliás, quase nenhum jornalista que não o reconheça. Mas sobre isso já escrevi e voltarei a escrever, em separado, noutros textos.

A pergunta que resta fazer é esta: como foi possível que militantes, dirigentes e, na minha opinião, a maioria de eleitores do PS, BE e PCP conseguissem vencer divisões de décadas em tão pouco tempo? A explicação não é difícil de encontrar: foi Pedro Passos Coelho que os uniu. Os últimos quatro anos foram de uma tal violência ideológica e social que a fratura política que se deu tornou-se intransponível.

É verdade que PSD e CDS conseguiram reconquistar, no fim da corrida, o seu voto mais fiel (tiveram um dos resultados mais baixos da direita desde o 25 de Abril). Mas quem votou PS, BE e PCP não quer Passos no poder nem mais um dia. Dirão que se trata de um voto negativo. É verdade. Mas ele é de tal forma sentido que os partidos de esquerda se viram obrigados a transformá-lo num voto positivo.

Alguns dos comentadores e jornalistas menos apetrechados para a análise política resumem tudo a análises de personalidade. Acham que o que está em causa é a sede de poder de Costa. Confesso que é um tipo de debate que me interessa pouco. Mas mesmo que assim fosse, não faltaram políticos com sede de poder. E, no entanto, nunca nenhum, à esquerda, conseguiu fazer o que Costa está a fazer. Porque as condições são totalmente novas. António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa ouviram, na campanha, a mesma coisa dos seus eleitores: “entendam-se!” Os seus militantes, que são cidadãos com os problemas dos demais, entram-lhes nas sedes para lhes dizer o mesmo: “entendam-se!” Porquê? Pela mudança a que estamos a assistir, e que terá efeitos profundos e duradouros no sistema político-partidário, a direita só deve agradecer ao radicalismo político do líder do seu maior partido. Não há ação sem reação. Esta capacidade de entendimento é fruto de um sentimento comum ao chamado “povo de esquerda”. E esse sentimento é a reação ao que foram os últimos quatro anos.

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3 pensamentos sobre “O que Passos Coelho uniu

  1. Cavaco jamais seria tão brutal nas suas declarações se não estivesse seguro que um numero suficiente de Deputados do PS não estariam desde já comprados e embrulhados prontos a viabilizar um Governo da direita. Quem viver verá.

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  2. Nem sempre tenho estado de acordo com o Daniel Oliveira, mas desta concordo com tudo o que ele diz. E acrescentaria mais: o discurso de Cavaco, ao indigitar Passos Coelho, só veio reforçar mais a unidade à esquerda. O que é revelador da escassa inteligência de Cavaco, pois acabou por beneficiar precisamente aqueles que ele pretendia enfraquecer.

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  3. Diz-nos o governo de Coelho e Portas de que “para não deitarmos a perder o que já alcançamos”, isto é, para não deitarmos a perder o empobrecimento (“ajustamento”) já alcançado será necessário prosseguir com o ajustamento (empobrecimento) ou, o que é o mesmo, com as medidas de austeridade.
    Resumindo, o governo da coligação e seus apoiantes querem convencer-nos de que PARA SAIR DA AUSTERIDADE É PRECISO CONTINUAR COM A AUSTERIDADE.
    E, quem não tiver pelos ajustes, aos mais novos aconselha-se a emigração e aos mais velhos recomenda-se “que não sejam piegas” e que “custe o que custar” há que aguentar (“ai aguenta, aguenta”).
    E é a esta política de AUSTERIDADE SEM FIM que dois ou três inscritos como militantes no PS querem que o PS e António Costa lhe dê continuidade e suporte?

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