Marques Mendes e outros bruxos, quiromantes e lançadores de búzios da política

(Carlos Esperança, 01/11/2021)

Ontem foi um fartar vilanagem contra o PCP e o BE pela primeira leva de comentadores que surgiram nas TVs a explicar o que todos vimos, com reincidência no dia de hoje.

Para atacar António Costa esteve Ana Gomes, referida como sendo da área do Governo, ao serviço dos neoliberais do PS, enquanto resguardam Francisco Assis, Sérgio Sousa Pinto, Henrique Neto e outros ressabiados do PS. Os trânsfugas e adversários internos aguardam o momento de glória para se vingarem e serem vistos e ouvidos em casa.

Os panegiristas do PR justificaram a imprudência, ao ter anunciado as eleições antes do chumbo do OE-22, ninguém acreditava e o PR não tinha outra alternativa, o que é falso. Aproveitaram para dizer que Marcelo, embora tivesse obrigação de dizer a Rui Rio que recebia Rangel, recebe quem quiser, a ética tem dias, Marcelo não tem de esconder as preferências nem os protegidos. Já lhe basta Nuno Melo valer tão poucos votos.

António Barreto não faltará a zurzir tudo o que estiver à esquerda da ala neoliberal do PSD e não deixará de fazer campanha a favor de Rangel, o líder dos eurodeputados com piores resultados de sempre, PSD – 6, PS-9, BE-2, PCP-2, PAN-1 e CDS-1, Nuno Melo, agora a lutar pela vaga improvável em Lisboa no partido em comissão liquidatária.

Apesar de os vários partidos defenderem a necessidade urgente das eleições, 9 ou 16 de janeiro, com a esmagadora maioria a apontar o dia 16, os comentadores afetos a Belém e a Paulo Rangel já fazem campanha pelo dia 30 de janeiro ou mesmo fevereiro. O PR dará explicações para tudo e, se não convencerem, Marcelo tem outras.

Os próximos dias são para preparar o país para a possibilidade de derrotar as esquerdas e, durante a campanha, unir toda a direita para que possa ter mais votos do que o PS. A chantagem já começou com um apelo à obrigação de o PS apoiar a direita, para evitar o partido fascista, como se a direita o dispensasse, depois do precedente nos Açores.

Ninguém duvide da violência mediática contra a esquerda em geral e António Costa, em particular. Não será mais urbana do que há seis anos, quando Cavaco ululava anátemas, devorando sais de fruto a debelar a azia do Governo apoiado por toda a esquerda, que o velho salazarista fora constrangido a empossar.

Já então, Marques Mendes e os habituais comentadores intrigavam, em sintonia com os jornais, enquanto as redes sociais faziam eco dos despautérios da direita mais jurássica e Cavaco e Passos Coelho apregoavam o apocalipse que lesaria Portugal se, casualmente, tal dupla merecesse crédito para lá de Vilar Formoso.

Enquanto se repete que o PR falará ao País na quinta-feira, como se não fosse habitual, várias vezes ao dia, todos os dias, e os vassalos promovem Rangel contra Rui Rio, vale a pena revisitar as capas dos jornais de há seis anos, já que as profecias do bruxo e dos avençados habituais se perderam no tempo e ruído da intoxicação da opinião pública.


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Decálogo da crise

(Carlos Coutinho, 28/10/2021)

Moscambilha e artimanha são sinónimos quase perfeitos e este “quase” tem a ver apenas com uma certo apreço implícito no uso da palavra “artista” que é, em si mesma, um sinónimo mais que imperfeito de “arteiro”, embora ambos vivam das mesmas práticas.

A verdade, julgo eu, é que ninguém diz “artimanheiro” nem “artimanhoso”, não obstante ambos viverem das mesmas práticas.

Também não me lembro de alguma vez ouvir alguém dizer “moscambilheiro”, referindo-se ao mesmo “artista”, embora ambos sejam farinha do mesmo saco, ou seja, manhosos, e apenas me fosse possível discordar da qualificação de algum como “artista”.

Esta arte cultivou-a Marcelo Rebelo de Sousa desde a sua dourada infância colonial em Moçambique e muito especialmente nos seus anos na Redação do “Expresso”, como frisa o seu patrão desses tempos, Francisco Pinto Balsemão, nas suas recém-publicadas “Memórias”.

O artista Marcelo trouxe para Portugal uma especialidade espúria que a imprensa britânica e francesa já exploravam e plantou-a no semanário de Paço d’Arcos, criando e fertilizando bem a secção “Gente” com os mais insidiosos “factos políticos” que, muitas vezes, nem sequer tinham ocorrido em lugar algum deste mundo.

Assim, uma dezena de impressões minhas são hoje uma constatação da espantosa vigência de uma obra escrita por um anónimo do século XVII, “ A Arte de Furtar”, cujo Capítulo I tem o seguinte título : “Como para furtar há arte, que é ciência verdadeira”.

Alegam os eruditos que este anónimo é um jesuíta de Évora de seu nome Manuel da Costa, que no Capítulo XXXIX postula: “E o certo é que esses mesmos zoilos que murmuram, quando querem a sua fazenda segura ou o seu dinheiro bem guardado, nas mãos destes anjos da guarda depositam tudo.”

Ora, aqui tenho eu releitura para os próximos dias. E também tenho velhos amigos que entraram na vida ativa pela mão da APU, agora CDU, e que, logo que os ventos mudaram, precisaram de fazer pela vidinha, entendendo que o principal era ter emprego e que não podiam desagradar ao patrão. Normalíssimo. É tanto da condição humana como da desumana e da subumana.

Alguns até entendem hoje que se pode extirpar as trompas a uma poetisa, pequena ou grande, para a poderem designar por “poeta”, curvando-se à moda do intelectualismo kitsch. Outros saltaram de igreja em igreja, para se reformarem confortavelmente. E todos precisam de agora proclamar por escrito que vão votar no PS.

É da vida, dirá muita gente de boa fé. E eu não duvido, porque já conheci de tudo, apesar de nunca ter sido jesuíta, embora tenha frequentado durante quatro anos o seminário onde se aprendia bom latim, além de uma certa arte de furtar, ou, pelo menos, “bem cavalgar em toda a cela”.

Ouso, por isso, transmutar para decálogo, ressonâncias das leis da vida e da vidinha que o jesuíta de Évora passou a escrito. Ou seja, uma dezena de convicções que os factos verdadeiramente políticos confirmarão, ou não, a muito curto prazo.

1ª – Marcelo e Rio nunca foram amigos do peito, mas agora só Marcelo tem a faca e o queijo na mão. Como sempre, o senhor dos afectos não hesitou em transformar em queijo mole o peito de Rio.

2ª – A última facada, para já, foi a receção espalhafatosa em Belém do actual rival de Rio nos futuros comandos do PSD, varrendo para o lixo e isenção e o velho ‘modus faciendi’ que até o Cavaco Silva nos negócios da Aldeia da Coelha aparentemente sempre respeitou, mesmo quando falou da “má moeda”.

3ª – Sabendo que de um só golpe era possível prejudicar António Costa, tão calculista como ele, ao evidenciá-lo como seu concorrente nas artimanhas, empurrou-o para o abismo sem esconder que está a igualá-lo na iniquidade que tenta fazer passar por virtude.

4ª – Apesar de tão calculista quanto Marcelo, Costa destapa a sua verdadeira obediência de sempre que é igual à do sue cúmplice do conjuntural – patronato, Bruxelas e NATO, mas jura que é outra a sua vontade, apelando aos seus ex-aliados à esquerda para que não o deixem estatelar-se com estrondo no pântano em que Guterres foi o estreante.

5ª – Assim, o preço que os seus ex-aliados teriam de pagar seria fingirem que Costa cumpriu minimamente os acordos escritos e os compromissos verbais que com eles assumiu, ocultando tanto quanto possível, tudo quanto herdou e zelosamente conservou do mandato troikista, incluindo o retrocesso nas condições laborais, na manutenção das empresas públicas estratégicas, na Saúde e na própria Educação.

6ª – Com isto e com a chantagem de uma crise política teatralizada por Marcelo e, minuto a minuto martelada na Comunicação Social, até podem parecer indesejáveis ou catastróficas as eleições que a Lei e a Grei não impõem, mas em que Belém e S. Bento estão mancomunadamente apostados. Só que Marcelo fica pendurado num fracasso, apesar do eminente “artista” que é, e Costa, aproveitando o que as leis lhe dão, talvez prefira não se demitir, para que o Governo se mantenha em funções com base orçamental nos conhecidos duodécimos e apenas dando, de vez em quando, umas migalhitas limianas aos ex-aliados para os segurar, porque se sente mesmo à beira do abismo. Ou do pântano.

7ª – Só que também os partidos de esquerda parecem ter percebido tudo isto e, obviamente, não vão entrar no jogo. Ou cair na ratoeira, como preferirem.

8ª – Talvez com a mesma tesourada Marcelo e Costa acabem por ficar carecas e as eleições, assim inevitáveis, não venham a ser a magna “crise política” que ambos apadrinham e os seus seguidores manipuladamente temem.

9ª – Talvez a abstenção e as transferências de voto venham, “irritantemente”, a acontecer onde menos se espera e Marcelo acabe o seu mandato reinando sobre escombros, enquanto Costa prepara algum voo para fora das fronteiras. Quanto a Rui Rio, talvez prefira fazer o ninho noutra árvore, em vez de propiciar o calor de uma asa ferida ao lacrau que já está a picá-lo bem, como o próprio confessou e Marcelo indignamente propiciou.

10ª – Talvez nos ziguezagues do processo histórico os sobreviventes percebam que é com eles que a História e o bem-estar dos povos se constroem e que o que realmente conta é o que eles vão ter de fazer para irem além da Taprobana.


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Vai chegando o pós-covid

(António Guerreiro, in Público, 29/10/2021)

António Guerreiro

Quando a pandemia estava no auge, perguntava-se por todo o lado e de maneira insistente: “Como vai ser o mundo depois da covid-19?” Ao que uns — digamos, os guelfos — respondiam: “Nada deve ser como antes, devemos erguer barreiras contra o regresso à ordem anterior à crise sanitária, de modo a evitarmos o desastre, agora que ficámos a saber que afinal é possível suspender de maneira global e no mesmo momento um sistema económico que tinha o benefício do argumento da força irreversível, como o comboio do progresso que avança sobre carris e não pode ser desviado”. E os outros — digamos, os gibelinos — retorquiam: “É preciso relançar o mais rapidamente possível a produção, erguendo um plano de resiliência e lançando-nos na batalha da recuperação”.

Pouco mais de um ano depois, começamos a perceber que nem sequer é fácil decidir sob que condições podemos declarar que entrámos num tempo pós-covid. Em primeiro lugar porque o vírus, num certo momento, perde força nalgumas regiões e a sua difusão parece controlada, enquanto se dá o seu recrudescimento noutras regiões (mas algum tempo depois pode dar-se uma alternância). Em segundo lugar porque a passagem ao pós-covid não pode ser proclamada com base na experiência dos cidadãos, depende de decisões políticas e essas não se regem universalmente pelos mesmos critérios: há factores culturais que contam bastante e desde o início tornou-se evidente que ser de esquerda ou de direita é um factor que influencia fortemente a imposição das restrições e o seu levantamento. Em terceiro lugar porque os impactos da pandemia não são apenas sanitários, são também económicos e sociais. Há efeitos em vários planos e, por isso, em rigor, só podemos dizer que entrámos no tempo pós-covid quando todos eles estiverem controlados.

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Podemos então perceber que por enquanto, e talvez por muito mais tempo do que previmos a partir do momento em que surgiram as vacinas, não existe uma resposta clara quanto à definição do pós-covid. E há sinais de que as crises se vão encastrando umas nas outras. Que a crise sanitária potencie crises políticas, era previsível. Mas começa a ganhar forma uma crise um pouco obscura, com uma origem indefinida ou que ainda não nos foi explicada devidamente. De repente, instalou-se a ameaça de que tudo começa a faltar: primeiro, foram os combustíveis em Inglaterra e os chips para a indústria automóvel. Aí, as anomalias pareciam dever-se meramente a problemas logísticos. Mas agora, quando nos é dito, e isso se torna um assunto importante na Feira do Livro de Frankfurt, que começa a haver falta de papel para fornecer a indústria editorial, já estamos muito para além dos problemas logísticos (ou é o que parece a quem desconhece os meandros). E quando se começam a ouvir avisos públicos de que o próximo Natal será marcado pelo que vai faltar, há boas razões para pensar que estamos longe de alcançar o tempo pós-covid. De Espanha, tal como antes de Inglaterra (mas aqui o Brexit serviu de explicação), chega-nos a notícia de que faltam milhares de camionistas, e faltam carpinteiros, e faltam electricistas, etc. Por cá, estas faltas não são certamente menores, mas há algum cuidado em publicitá-las.

O que é intrigante para o leigo cidadão é porque é que passámos da abundância à falta de tanta coisa sem termos mudado de regime económico. É certo que houve o tempo de desaceleração da máquina produtiva (mas também da máquina consumidora) durante algum tempo. Mas isso não explica tudo o que se está a passar hoje. O regime da falta é o que de mais perturbante existe na regra económico-política em que vivemos, no coração do capitalismo globalizado. A falta era um problema do mundo periférico, subdesenvolvido, onde tudo o que sucede, fenómenos naturais, políticos ou sociais, se traduz em catástrofe.

A velocidade do tempo catastrófico também não é o mesmo em todo o lado. No mundo rico, ocidental, a catástrofe é sempre lenta, a não ser aquela que é causada por desastre naturais (por exemplo, um vulcão que entra em erupção na ilha de La Palma); no mundo pobre, a catástrofe chega sempre em grande velocidade.

Para o mundo rico, o tempo da catástrofe avança quase sempre de maneira gradual e progressiva. Por isso, começa por ser imperceptível. Tão imperceptível como o Messias que, na mística judaica, chega todos os dias mas ninguém dá pela sua vinda.



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