As milícias do fascismo, isto é a sério

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 17/11/2022)


Foi hoje publicada na revista Visão um trabalho de jornalismo de investigação da autoria de Miguel Carvalho sobre as milícias organizadas clandestinamente nas Forças de Segurança e identificadas com um partido político. O título está escarrapachado nas montras: O Braço Armado do Chega.

O Chega é, embora não pareça, um partido político que existe na ordem constitucional portuguesa, que proíbe milícias partidárias e religiosas. Sobre o assunto, que se saiba, nem a Procuradoria da República, nem o Presidente da República, nem o Presidente da Assembleia da República, nem qualquer dos partidos parlamentares, nem o Tribunal Constitucional agiu: Uma investigação criminal, uma investigação parlamentar? Moita, carrasco! São cúmplices?

Se a Polícia Judiciária mobiliza uma centena de agentes para arrestar a adega de um inofensivo (embora amante do bom da vida)antigo banqueiro, que diabo, não haverá meios para expurgar das forças de segurança potenciais inimigos da ordem em que vivemos? Ou não haverá vontade? Ou os aparelhos políticos portugueses (e europeus) já estarão tão contaminadoss de fascistas como a PSP e a GNR?

Sem fintas semânticas: Um órgão de comunicação social com tradições de seriedade chama para a sua capa este facto: Um partido político tem uma milícia que defende o racismo, a violência, a xenofobia, o ódio organizada no interior das forças de segurança! E o Estado, senta-se e contempla.

Também é da história que, na ausência da autoridade do Estado, a sociedade se organiza para se defender. Temos em Portugal exemplos recentes.

Mas qual a reação da opinião pública (a massa inorgânica que sustentou o Estado Novo) que urra perante a nomeação (dentro da lei) de um jovem licenciado para o gabinete de uma ministra, que urrou durante meses contra um ministro que seguia num carro oficial que teve um acidente, que exigiu a demissão da ministra da saúde por causa de um parto mal sucedido de uma cidadã estrangeira que chegou nos últimos dias da gravidez a Portugal para obter a nacionalidade, qual a posição dos grandes órgãos de manipulação da opinião sobre o facto?

A demagogia tem, nesta ausência de reação uma boa prova da sua eficácia. A massa é serena: continua a suportar com resignação a pedofilia de católicos romanos, o esbulho através dó dizimo dos evangelistas americanos e brasileiros, as violências contra as mulheres dos islâmicos e, pelo que vemos, aceita agentes policiais fascistas, racistas, xenófobos, sem caráter, que utilizam a força do uniforme e da arma para imporem a sua lei.

Qual a reação das mais altas instâncias do Estado Democrático a este estadp de coisas? Uma comissãozinha de inquérito?

É conhecida a origem destas milícias fascistas nas sociedades ocidentais e está bem estudada. É conhecida a organização dos operários e dos camponeses no início do século originadas pela revolução industrial e pela revolução russo, é conhecida a resposta das classes possidentes, com o nazismo e o fascismo, o aproveitamento que fizeram recrutando o lupmen proletariado. (É neste meio que são recrutados estes jagunços que ganham a vida como psps e gêéneres — PSP e GNR, instituições que merecem respeito e apoio da sociedade, mas que têm de se expurgar desta sarna, destes vermes que as corroem.)

Estas organizações, como estes azoves da PSP e da GNR portuguesas, estão estudadas, sabe-se que interesses está por detrás do chamado Movimento Zero, como quem está por detrás do Chega. Como se sabia quem estava por detrás das SS e dos camisas negras de Mussolini, ou, mais recentemente dos GRAPO, de Estanha, ou da OAS em França. Estamos perante organizações com grandes financiamentos, com grandes meios e com objetivos conhecidos. Não estamos perante amadores de lutas de ginásio, nem de garnisés apanhados a esmo porque falam de bola nas TVs e mandam gafanhotos para os microfones como fazem o Ventura nacional e o Zelenski pelas bases da Ucrânia.

A guerra na Ucrânia é uma prova real para os regimes democráticos e para os democratas. Quando aceitamos defender milícias nazis do AZOV, sem nada ter aprendido com a cumplicidade que Reagan estabeleceu com a Al Qaeda de Bin Laden, crismando os fanáticos de “combatentes da liberdade” estamos a fazer o nó na corda que nos vai enforcar. Estes azov do Chega são um inimigo da nossa sociedade. É como um perigo e um inimigo que as autoridades portuguesas têm de os tratar.

Já tivemos as milícias da Legião Portuguesa, as FAC (Formação Automóvel de Choque/Força Anticomunista de Combate, comandada por Casal Ribeiro), parece existir quem os queira de volta, com carros novos, claro, mas com os mesmos princípios de cães de fila dos poderosos.

Julgo que estes jagunços gritarão Viva a Ucrânia (Slava Ucrania!) e que serão fervorosos seguidores de Zelenski!

Os comandantes e dirigentes da GNR e da PSP, o governo e os políticos com consciência têm de agir e matar no ovo esta bicheza.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Estamos assistir ao fim do capitalismo, e com ele as suas consequências

(André Campos, in comentários na Estátua de Sal, 17/11/2022)

O capitalismo só foi possível com a energia barata. A festa acabou!

Guerras, fomes, revoluções, etc., etc., são os efeitos secundários do fim do capitalismo. O declínio energético conduzirá ao caos socioeconómico global e, por conseguinte, a um declínio da população mundial. Não é impossível que a população mundial caia para menos de um ou dois mil milhões de pessoas em poucas décadas, se a humanidade não encontrar uma nova fonte de energia ilimitada e de progresso tecnológico para alimentar e cuidar da população mundial. Acredito que isto vai acontecer… ordem através do caos, por falta de uma palavra melhor e pela loucura de alguns bilionários megalómanos e, na sua maioria, psicopatas.

Certamente o capitalismo trouxe um certo progresso na nossa maneira de ver as coisas. Mas hoje, é um dos motores da nossa desintegração civilizacional! Atualmente, o conceito de interesse geral já não está na ordem do dia. E o sistema oscila entre dois conceitos de sociedade: a sociedade universal e individualista. Tudo depende da origem étnica e cultural do cidadão-consumidor.

”O capitalismo é a espantosa crença de que o pior dos homens fará o pior das coisas para o maior bem de todos” – Keynes.
Devemos voltar ao básico: o capitalismo não é nosso amigo, as guerras industriais mostraram-no, a produção de armas de destruição maciça denuncia o absurdo do “nosso” comportamento. O nosso consumo industrial tem como consequência devorar o mundo de forma abusiva, excessivamente em relação às nossas necessidades reais e sacrificamos o futuro das gerações futuras sem voltarmos à razão, desde que deixemos os homens e as ideias que são esmagados pelas consequências dos seus atos e pelas práticas que geram. Quando levarmos isto a sério, tanta água poluída terá corrido sob a ponte que não haverá mais água para nos mostrar a clareza do que precisa de ser feito.
Bertrand Russell: “O problema com este mundo é que os tolos estão certos e as pessoas sensatas são duvidosas.”
O liberalismo é anarquia organizada para que os ricos tenham tudo a ganhar, mas as suas almas e os pobres tenham tudo a perder.
O mundo livre deve ser o nosso farol para não deixarmos o caminho certo.
A loucura liberal está a afundar o interesse geral ao perseguir a ordem pública dos lobos esfomeados e esfomeados dentro de si, pilhando os recursos das gerações futuras. O nosso progresso cega-nos e engana os nossos princípios para favorecer a velocidade do lucro. Nada temos a invejar às sociedades arcaicas e bárbaras baseadas em sacrifícios humanos no que diz respeito às nossas guerras.

A riqueza e a pobreza atraem o indivíduo abaixo e para além da humanidade comum sem se encontrarem. O idiota é o indivíduo que não sabe que está privado do que quer e não é capaz de cuidar de outra coisa que não sejam os seus assuntos privados. O individualismo é o triunfo da liberdade do indivíduo para cuidar apenas de si próprio, é uma reivindicação dos ricos, os ricos reivindicam a sua superioridade social e o domínio da sua ordem.
A recusa de submissão, das nossas elites e daqueles que lucram com o sistema, à realidade que se impõe sobre a razão que deveria ter estado no comando, é a nossa maior ameaça. Paul Virilio denunciou-o sem que tivéssemos tomado todas as medidas construtivas: O dano colateral do progresso “é mascarado pela propaganda do progresso que mascara o acidente do progresso” …Um mundo de progresso que mascara o acidente do progresso… “Não é uma questão de ser contra o progresso; é uma questão de ser contra o progresso de uma catástrofe que é paralela” e consubstancial ao progresso. E aí os ecologistas que são a parte do acidente, o acidente de poluição, não estão à altura desta dimensão escatológica e receio que o niilismo regresse com um programa do fim. Há aqui uma grande questão com a globalização, com a incerteza da democracia neste momento, com a fraqueza da democracia.

Esquecemos o essencial e afundamo-nos na escuridão porque cavar o nosso tempo perdido para o dourar é apressarmo-nos a entrar na boca dos nossos problemas.

O mal absoluto do nosso tempo são os bilionários que estabelecem monopólios, destruindo o capitalismo ao impedir a concorrência e corrompendo os governos para escapar aos impostos e restrições legais.

Isso aconteceu nos EUA no final do século XIX e início do século XX. Os multimilionários da época eram os Vanderbilt (caminho-de-ferro), Rockefeller (petróleo), Carnegie (aço), J.P. Morgan (banca), Thomas Edison (eletricidade, entre outras coisas). Os seus monopólios permitiram-lhes fixar preços e empobrecer as massas que exigiam condições de vida mais humanas, mas em vão, apesar das greves e revoltas sangrentas. Entre eles, Morgan, Carnegie e Rockefeller representavam mil biliões de dólares numa América onde 90% da população vivia com um rendimento inferior a 100 dólares por mês.

Para evitar ter o governo americano contra eles, à medida que as eleições de 1896 se aproximavam e o candidato democrata, William Bryan, prometia reformas, formaram uma coligação, (diríamos agora uma conspiração) dotada de vários milhões de dólares para ter o seu homem eleito como presidente. Esse homem era William McKinley. Subornaram a imprensa, ameaçaram os seus empregados com despedimento se Bryan fosse eleito; como a votação não era secreta, a ameaça foi eficaz. É claro que McKinley foi eleito e tudo permaneceu na mesma. Os bilionários ficaram mais ricos. J.P. Morgan, para além das suas actividades bancárias, criou, através de aquisições e fusões, a US STEEL que se tornou a maior empresa siderúrgica dos EUA. Durante os quatro anos seguintes, um jovem político republicano, Theodore Roosevelt, tornou-se governador do Estado de Nova Iorque e começou a regular os monopólios. Nas eleições federais de 1900, os bilionários retomaram as suas manobras, mas sem conseguirem corromper Teddy Roosevelt; assim, para o neutralizar, foi-lhe oferecido o posto de vice-presidente, o que foi mais honorário do que real. Na eleição de 1900, McKinley foi reeleito, mas em 1901, durante uma viagem, Leon Frank Czolgosz, um trabalhador despedido por J.P. Morgan quando a U.S.STEEL foi criada, matou McKinley que morreu oito dias depois. O vice-presidente reformista, Teddy Roosevelt, tornou-se presidente.

Um pesadelo para os bilionários. Apesar das manobras destes tiranos, começou uma guerra total e, após vários processos judiciais de alto nível, os monopólios foram desmembrados. Se não fosse esta situação imprevisível e única, não teria havido classe média nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar, e o apetite destes ogres teria sido infinito.


Hoje, os herdeiros destes tiranos, Bill Gates, George Soros, Jeff Bezos, Warren Buffet, Elon Musk, Mark Zuckerberg e o grupo de Davos aprenderam a sua lição. Corromperam todos os principais meios de comunicação social ao serem seus proprietários, corromperam todos os partidos políticos e sindicatos e neutralizaram todos os potenciais opositores.

Nada impede, pois, o seu desejo de pilhar empresas estabelecidas através da uberização, de roubar recursos nacionais e internacionais, de roubar poupanças através da especulação bolsista e da inflação desenfreada, etc.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Da Faculdade de Letras à CGD

(Raquel Varela, in raquelcardeiravarela.wordpress.com, 14/11/2022)

Uma das grandes conquistas da modernidade foi a autonomia universitária – antes do capitalismo, quando havia feudalismo, pensar era um dogma religioso, a Igreja, que dominava a propriedade com os senhores feudais, juntos eram o Estado, a afirmação da ciência fez-se afirmando a autonomia universitária contra Deus e contra o Estado. Entrar com a polícia dentro da Faculdade de Letras, quando não estavam pessoas em perigo, não é só ir contra estudantes em luta, é ir contra a afirmação da liberdade cientifica, é o Estado a dizer que pode mandar onde e em quem pensa criticamente.

Para criar dirigentes e cidadãos críticos eles têm que passar pelo processo organizativo de lutas, aprender fazendo, contra o Estado e as instituições – errando também. E sejamos ou não simpáticos à sua causa ninguém poucos duvidam que estes estudantes em Letras e nas outras escolas estão a formar-se e a afirmar-se como cidadãos, não estão resignados a olhar um telemóvel, olhando o umbigo, estão colectivamente a organizar-se por uma causa comum pública. O que se passou em Letras é inadmissível e só é possível graças ao agigantamento da força do Estado na pandemia – com o apoio dos que acharam que saúde pública não era reforço de pessoal e da saúde comunitária (de proximidade) mas ameaças e multas, e, claro, na atitude dos dirigentes de Letras está o impacto da normalização do Chega, que afirma a força bruta contra a luta e o conflito social. Que numa sociedade saudável é um conflito normal, não abafado, com polícia armada a entrar numa Faculdade contra estudantes desarmados que não puderam em perigo ninguém.

Esta semana foi anunciado pela Caixa Geral de Depósitos, cito, “o maior dividendo da sua história”, isto é, lucros extraordinários distribuídos aos activistas que vivem de juros, aos militantes da dívida pública, aos lutadores das taxas, impostos e comissões bancárias. São o Estado. Teria feito algum sentido mandar para lá a polícia e tentar desocupar o banco público dos interesses privados e perguntar, já agora, como é possível anunciar 692 milhões de euros de lucro, e dizer com o orgulho, “é o maior”, quando metade da população vai ao supermercado e tem alarmes na proteína, essencial à vida, ao funcionamento do cérebro, ao desenvolvimento.

Ao Chega, que se diz defensor dos polícias, não ocorreu perguntar porque os polícias são enviados para retirar os estudantes da Faculdade e não para proteger o investimento público do saque privado, a que todos os dias somos sujeitos, pondo em causa a nossa vida, os nossos hospitais, qualidade de vida e bem estar.

O Director da Faculdade, o Reitor, o Governo o que têm a dizer sobre o este atentado democrático aos direitos, liberdades e garantias, onde está a protecção da autonomia universitária, direito basilar das sociedades modernas civilizadas?

Há algo que aqueles estudantes aprenderam e que lhes servirá para a vida toda como estratégia política. O Estado nunca esteve lá para eles para lhes dar um ensino público e gratuito, mas apareceu em dois dias para lhes mandar a polícia. É assim que se aprende sobre teoria geral do Estado, de Weber a Marx a Faculdade de letras teve uma aula prática.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.