A ordem mundial mudou já em 2022

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 10/01/2023)


É uma constante da História : as mudanças são raras, mas súbitas. Aqueles que sofrem as consequências são geralmente os últimos a vê-las a chegar. Só as percebem tarde mais. Contrariamente à imagem estática que reina no Ocidente, as relações internacionais foram alteradas em 2022, principalmente em detrimento dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França, muitas vezes em proveito da China e da Rússia. Com os olhos fixos na Ucrânia, os ocidentais não são capazes de ver a redistribuição das cartas.


É raro que as relações internacionais sejam tão viradas do avesso como foram em 2022. E isto não acabou. O processo que se iniciou não vai parar, mesmo que alguns acontecimentos o venham perturbar e até eventualmente interromper por alguns anos. A dominação do Ocidente, ou seja, tanto dos Estados Unidos como das antigas potências coloniais europeias (principalmente o Reino Unido, a França e a Espanha) e asiática (o Japão), chega ao seu fim. Já ninguém obedece a uma chefia, incluíndo os Estados que permanecem vassalos de Washington. Todos começam agora a pensar por si próprios. Não estamos ainda no mundo multipolar que a Rússia e a China tentam fazer emergir, mas já o vemos a ser erguido.

Tudo começou com a operação militar russa para fazer cumprir a Resolução 2202 do Conselho de Segurança e proteger a população ucraniana, no seu todo, do seu governo «nacionalista integralista». Claro, este acontecimento não é, de forma alguma, o que é percebido nos Estados Unidos, na União Europeia, na Austrália e no Japão. Os ocidentais estão convencidos que a Rússia invadiu a Ucrânia para mudar as fronteiras pela força. Ora, isso não foi nem o que o Presidente Vladimir Putin anunciou, nem o que o Exército russo fez, nem a maneira como os acontecimentos se desenrolaram.

Deixemos de lado a questão de saber quem está certo e quem está errado. Tudo depende de se saber se estamos conscientes da guerra civil que dilacerava a Ucrânia desde a deposição do seu Presidente democraticamente eleito, Viktor Yanukovych, em 2014. Os ocidentais ao esquecerem os 20 000 mortos dessa guerra não podem aceitar que os russos tenham querido parar este massacre. Como desconhecem os Acordos de Minsk, pelos quais, portanto, a Alemanha e a França se tinham constituído como garantes ao lado da Rússia, não podem aceitar que a Rússia tenha posto em prática a «responsabilidade de proteger» que as Nações Unidas proclamaram em 2005.

Ora a antiga chancelerina alemã, Angela Merkel [1], e o antigo Presidente francês, François Hollande [2], afirmaram ambos publicamente que haviam assinado os Acordos de Minsk, não para pôr fim à guerra civil, mas, pelo contrário, para ganhar tempo e armar a Ucrânia. Estas duas personalidades gabam-se de ter armadilhado a Rússia ao mesmo tempo que a acusam de ter a exclusiva responsabilidade pela guerra actual. Não é de surpreender que estes dois antigos governantes se orgulhem da sua duplicidade perante as suas opiniões públicas. Todavia, as suas declarações, quando escutadas em outras partes do mundo, soam de modo diferente. Para a maioria da Humanidade, os ocidentais mostram-se como realmente são: tentam sempre dividir o resto do mundo e armadilhar aqueles que querem ser independentes; falam de paz, mas fomentam guerras.

É errado imaginar que o mais forte quer sempre impor a sua vontade aos outros. Esta atitude ocidental raramente é partilhada pelos outros seres humanos. A cooperação provou o seu valor mais do que a exploração e as revoluções que ela suscita. É a mensagem que os chineses tentaram propagar, evocando para isso relações «ganhador-ganhador». Não se tratava para eles de falar de relações comerciais justas, mas de fazer referência à forma como governavam os imperadores da China: quando um imperador promulgava um decreto, devia velar para que tal fosse seguido pelos governadores de cada província, inclusive por aqueles que não eram destinatários dessa decisão. Ele mostrava-lhes que não os havia esquecido, oferecendo a cada um deles um presente.

Em dez meses, o resto do mundo, quer dizer, a sua esmagadora maioria, abriu os olhos. Se, em 13 de Outubro, havia 143 Estados a seguir a narrativa ocidental e a condenar a «agressão» russa [3], já não mais seriam a maioria a votar assim, hoje, na Assembleia Geral das Nações Unidas. A votação, em 30 de Dezembro, de uma Resolução pedindo ao tribunal interno da ONU, o Tribunal Internacional de Justiça, para declarar a ocupação dos territórios palestinianos por Israel como uma «ocupação» é a prova disso. A Assembleia Geral já não se resigna diante da desordem ocidental do mundo.

Até agora na órbita da França, 11 Estados africanos fizeram apelo ao exército russo ou a uma empresa militar privada russa para garantir a sua segurança. Eles não acreditam mais na sinceridade da França e dos Estados Unidos. Outros ainda estão cientes que a protecção ocidental contra os jiadistas anda de mãos dadas com o apoio oculto dos ocidentais aos mesmos jiadistas. Eles inquietam-se publicamente com a transferência maciça de armas destinadas à Ucrânia para os jiadistas do Sahel ou para o Boko Haram [4], a ponto do Departamento de Defesa dos EUA designar uma missão de acompanhamento para verificar o que acontece com as armas destinadas à Ucrânia; uma maneira como outra qualquer de enterrar o problema e prevenir a intromissão do Congresso nestas manigâncias obscuras.

No Médio-Oriente, a Turquia, membro da NATO, joga um jogo subtil a meio caminho entre o seu aliado EUA e o seu parceiro russo. Ancara compreendeu há muito que nunca integraria a União Europeia e, mais recentemente, que não era bem vista tentando restaurar o seu império sobre os árabes. Virou-se então para os estados europeus (como os búlgaros, os húngaros e os kosovares) e asiáticos (como o Azerbaijão, o Turcomenistão, o Usbequistão, o Cazaquistão e o Quirguistão) de cultura turca (e não de língua turca como os uígures chineses). De repente, Ancara reconcilia-se com Damasco e prepara-se para trocar o Ocidente pelo Oriente.

A chegada da China ao Golfo, por ocasião da Cimeira de Riade, virou o jogo nessa região do mundo. Os Estados árabes viram que Pequim era razoável, que os ajudava a fazer a paz com seus vizinhos persas. Ora, o Irão é um aliado milenar da China, mas esta defende-o sem deixar transbordar os seus excessos. Eles constataram, assim, a diferença existente relativamente aos ocidentais que, ao contrário, não cessaram desde 1979 de os dividir e de os virar uns contra os outros.

A Índia e o Irão trabalham no duro com a Rússia para edificar um corredor de transporte que lhes permita comerciar, apesar da guerra económica ocidental (apresentada no Ocidente como «sanções», muito embora elas sejam ilegais face ao Direito Internacional). Desde logo, Mumbai está ligada ao sul da Rússia e em breve a Moscovo e a São Petersburgo. Isso torna a Rússia e a China complementares. Pequim constrói na Euroásia rotas de Leste a Oeste, e Moscovo faz o mesmo segundo as longitudes.

A China, para quem esta guerra é uma catástrofe que perturba os seus planos de construção das Rotas da Seda, jamais acreditou na narrativa ocidental. Ela é uma velha vítima da Rússia que, no século XIX, participou na ocupação de Tianjin e de Wuhan (Hankou), mas ela também sabe que os ocidentais tudo farão para explorar as duas. Ela recorda a sua ocupação anterior para estar ciente que o seu destino está ligado ao da Rússia. Ela não compreende muitos dos problemas ucranianos, mas sabe que a sua visão da organização das relações internacionais só pode ver a luz do dia se a Rússia triunfar. Ora, ela não tem nenhuma vontade de se bater ao lado da Rússia, mas intervirá se esta for ameaçada.

Esta reorientação do mundo é muito visível nas instituições governamentais. Os ocidentais humilharam a Rússia no Conselho da Europa até que Moscovo o deixou. Para sua grande surpresa, a Rússia não para por aí. Ela deixa um a um todos os acordos concluídos no Conselho da Europa, em todo o tipo de domínios, do desporto à cultura. Os ocidentais constatam de repente que se privaram de um parceiro generoso e culto.

Isso deverá prosseguir em todas as outras organizações intergovernamentais, a começar pelas Nações Unidas. É a velha história das relações Ocidente-Rússia que remonta à exclusão de Moscovo da Sociedade das Nações, em 1939. À época, os soviéticos inquietos por um possível ataque nazi contra Leningrado (São Petersburgo) pediram à Finlândia para alugar o porto de Hanko. No entanto, tendo as negociações se arrastado no tempo, invadiram a Finlândia, não para a anexar, mas para colocar a sua marinha em Hanko. Este precedente é hoje mostrado como um exemplo do imperialismo russo quando o próprio Presidente finlandês Urho Kekkonen reconheceu que a atitude dos soviéticos fora «compreensível».

Voltemos às Nações Unidas. Excluir a Rússia só poderá ser possível após ter sido aprovada uma reforma da Carta pela Assembleia Geral. Era possível em Outubro, mas já não o é mais hoje em dia. Este projecto acompanha-se de uma reinterpretação da história e da natureza da ONU.

Garantem que aderir à Organização interdita a guerra. É absurdo. Aderir à ONU obriga a «manter a paz e a segurança internacionais», mas sendo os homens o que são, autoriza a fazer uso da força em certas condições. Às vezes, esta autorização torna-se até uma obrigação em virtude da «responsabilidade de proteger». É isso exactamente o que faz a Rússia pelas populações de Donbass e da Novorussia. Note-se bem que Moscovo não é cega e recuou no que diz respeito à margem direita (parte Norte) da cidade de Kershon. O Estado-Maior russo retirou-se para trás de uma fronteira natural, o rio Dnieper, considerando impossível defender a outra parte da cidade face aos exércitos ocidentais e isso quando a população de toda a cidade havia pedido, através de referendo, a adesão à Federação da Rússia. Jamais houve qualquer derrota russa em Kherson, mas isso não impede os ocidentais de falar na sua «reconquista» pelo regime de Zelensky.

Acima de tudo, obscurece-se o funcionamento da ONU ao pôr-se em causa o directório do Conselho de Segurança. Quando a Organização foi fundada, tratava-se de reconhecer a igualdade de todos os Estados no seio da Assembleia Geral e de dar às grandes potências da época a capacidade de prevenir conflitos no seio do Conselho de Segurança. Este não é o lugar da democracia, mas do consenso: nenhuma decisão pode ali ser tomada sem o acordo de cada um dos seus cinco membros permanentes. Finge-se espanto de não poder aí condenar a Rússia, mas alguém se espantou por não se ter condenado lá os Estados Unidos, o Reino Unido e, por vezes, a França pelas suas guerras ilegais no Kosovo, no Afeganistão, no Iraque e na Líbia? Sem o direito de veto, a ONU irá tornar-se uma assembleia absolutamente ineficaz. No entanto, esta ideia ganha terreno no Ocidente.

Além disso, seria absurdo pensar que a China, a primeira potência comercial mundial, permanecerá numa ONU da qual a Rússia, a primeira potência militar mundial, tivesse sido excluída. Pequim não dará caução a uma operação contra o seu aliado, pois está persuadida que a morte desta será o prelúdio da sua própria. É por isso que os russos e os chineses preparam outras instituições que só irão apresentar se a ONU for desnaturada, se ela se transformar numa assembleia monocromática e perder assim sua capacidade de prevenir conflitos.

Percebemos que a única saída possível é que os ocidentais aceitem ser apenas aquilo que são. Mas, de momento, não são capazes disso. Eles deformam a realidade esperando assim manter os seus séculos de hegemonia. Mas esse jogo já terminou. Tanto porque eles estão fatigados, como – e sobretudo -, porque o resto do mundo se transformou.


[1] “Hatten Sie gedacht, ich komme mit Pferdeschwanz?“, Tina Hildebrandt und Giovanni di Lorenzo, Die Zeit, 7. Dezember 2022.

[2] «Hollande: ‘There will only be a way out of the conflict when Russia fails on the ground’», Theo Prouvost, The Kyiv Independant, December 28, 2022.

[3] «Ukraine: UN General Assembly demands Russia reverse course on ‘attempted illegal annexation’», UN News, October 13, 2022.

[4] «Buhari : les armes utilisées en Ukraine pénètrent dans les pays du bassin du lac Tchad», Tass, Alwihda Info, 8 Décembre 2022. «Le Sahel menacé par le djihadisme: une nouvelle Syrie», Leslie Varenne, Mondafrique, 15 décembre 2022.


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Opressão “democrática”

(Hugo Dionísio, in Facebook, 09/01/2023)

As mentiras não são democraticas – SOS

O tratamento que a imprensa corporativa do Atlântico Norte deu à questão do cessar-fogo de 36 horas (de 6 para 7 de Janeiro), é um retrato fiel do uso destes órgãos para fins eminentemente propagandísticos. Perante a proposta de cessar-fogo, não foi apenas Biden que a ridicularizou, referindo que o seu homólogo estaria a tentar “ganhar oxigénio”. Foi o próprio regime banderista que declarou rejeitá-la.

Refira-se que, esta “rejeição”, muito raramente foi noticiada na imprensa do Norte Atlântico, em termos tão explícitos, como pudemos encontrar em órgãos noticiosos que operam fora desta órbita, como é o caso da Al-Mayahdeen ou mesmo da Al-Jazeera. O facto é que, não só assistimos a uma ridicularização da proposta unilateral, como não assistimos a qualquer consternação pela rejeição da proposta por uma das partes.

Passado o período das 36 horas, o que sucedeu? O que já se esperava. A intenção de aproveitamento, de uma suposta baixa de guardas, esbarrou num estado de alerta permanente e numa capacidade de resposta rápida, associada à prontidão ofensiva das frentes ligadas aos “músicos” mercenários. Foi simples: “já que não aceitam, também não pensem que aqui vamos estar de pernas abertas”. E a devastação fez-se sentir com 5 aviões derrubados e mais de 600 militares eliminados. E então sim, aí veio a consternação.

Assistimos a um desfilar de acusações porque as forças proponentes “não cumpriram” o seu próprio cessar-fogo. E até já se fala de queixas internacionais. Ou seja, rejeitaram o cessar-fogo e agora estão chateados porque os proponentes não o cumpriram. Mas o que esperavam? Que se deixassem atacar? Que aplicassem um rígido cessar-fogo unilateral enquanto a outra parte aproveitava para atacar sem dó nem piedade? Lógica da batata: “foi uma armadilha”! E se foi? Não serão as armadilhas próprias do combate? E porque rejeitaram a proposta de cessar-fogo? Não o fizessem, e já teriam moral para se queixar. Agora, não aderir e acusar a outra parte de recuar na sua pretensão…

Mas se o desespero é evidente, à medida que se aproxima o general Inverno, e as remessas multimilionárias de material de guerra nem suficientes são para repor o que foi perdido. A questão que se deve colocar é a seguinte: quanta mais destruição é necessária para que o regime banderista e os seus promotores considerem a hipótese de fazer a paz e não a guerra?

Imaginem que o dinheiro usado para comprar, preparar e reparar os 367 aviões, 200 helicópteros, 2,856 drones, 400 sistemas de defesa aérea, 7,460 tanques e outros veículos blindados, 972 lançadores de mísseis, 3,793 canhões e morteiros e 7,978 unidades de equipamento especial (julgo que jipes, pickups e outros), já destruídos pelas forças moscovitas neste conflito, ao invés de ser usado para a guerra, tinha sido usado para a paz? Imaginem que os acordos de Minsk não tinham servido para ganhar tempo para construir este exército (já confirmado por Merkel e Hollande), mas para evitar a guerra, como pretendia o povo e alguns envolvidos?

Para se ter uma ideia do que vale isto tudo, este exército, já destruído, equivale, a números calculados por diversos especialistas, a um ou dois Produtos Internos Brutos do país, quantia gasta durante 8 anos, desde que conquistaram o poder, em 2014.

Temos, pois, um país que estava em paz com os vizinhos, cujo governo, em 2014 – após um golpe de estado e extinção forçada de 13 partidos da oposição, que representavam cerca de metade da respetiva população (considerando as eleições de 2012) -, entra numa deriva militarista que resulta, não apenas, numa guerra civil contra uma das duas etnias mais representativas, como empreende um esforço económico absurdo para construir um exército absolutamente desproporcionado, face à sua dimensão.

Este país, à data, em paz com os vizinhos e, por isso mesmo, sem razões para esta deriva militarista, é vítima de um golpe de estado, trabalhado a partir do exterior, perpetrado para o dividir e o fazer entrar numa deriva belicista e por procuração, que se sabia ser, ela própria, desestabilizadora. O regime saído de 2014 faz isto tudo contra as pretensões do seu povo, prometendo a paz e a reconciliação nacionais, quando se preparava, apenas e só, para a guerra.

Este país, que o Ocidente coletivo diz representar a guerra da “democracia” contra “as autocracias”, manteve-se durante penosos oito anos como o mais pobre e corrupto país da Europa, usando fundos intermináveis para possuir uma das forças armadas mais preparadas DO MUNDO! A suposta “democracia” ocidental não impediu este povo de ser miserável, de se usarem centenas de milhares de milhões de euros em armas e preparação para a guerra, enquanto o FMI – pilar da sua destruição – sugava a propriedade pública que ainda restava, colocando-a nas mãos de obedientes oligarcas. Hoje a Blackrock tem uma parte importante das terras mais produtivas do país. Tudo se paga e a “democracia” garante-o.

Para se ter uma ideia da “importância” da “democracia” ocidental para este país, vejamos que, à data de 1991, este país tinha, de acordo com alguns estudos, o melhor nível de vida da URSS. No final de 2020, este país “democrata” não apenas tinha um PIB per capita 5/6 vezes inferior ao dos seus desavindos vizinhos “autocratas”, como as instituições, economia, cultura, infraestruturas desses dois países estão muito à frente das suas. A “democracia” ocidental não impediu este país de se manter atrasado, devastado e de ser terreno fértil de máfias da prostituição, armas e droga.

Mas se a situação deste país é em si emblemática sobre o papel e objetivos da implantação artificial (porque promovida a partir do exterior) da “democracia” ocidental, olhando para os países que dizem promover tais “valores” da “democracia” e dos “direitos humanos”, constatamos que, mesmo aí, nem todos se podem gabar de serem protegidos por tão “avançado” regime.

Assim, por muitos “valores” que sejam propagados, a verdade é que a “democracia” não impediu os EUA de: manter a pena de morte; abrir e manter em funcionamento um campo de concentração e detenção sem acusação ou direito a defesa, como Guantánamo; implementar legislação que permite a tortura em interrogatórios; criar uma forma de processo-crime sem garantias para o arguido quando se trate da acusação e espionagem ou de terrorismo – o espionage act que vitima Julien Assange; implantar e manter um apartheid sobre os negros e índios, que ainda hoje persiste em muitos estados e sectores sociais; manter sem sistema de saúde mais de 40 milhões de americanos; manter milhões de americanos a viver em tendas, nas ruas, em automóveis, roulottes ou casa pré-fabricadas sem saneamento básico.

Mas se isto não chegar, gostava de deixar uma questão: que outra “democracia” ou “autocracia” se pode orgulhar de possuir a maior população prisional do mundo? Com 5% da população mundial, os EUA têm atrás das grades 25% da população prisional mundial, sendo que, uma esmagadora maioria são negros e latinos. A “democracia” possui um sistema de encarceramento em massa superior e a fazer inveja a qualquer “autocracia”.

Esta mesma “democracia” ocidental, sempre tão leve e descomprometida para a elite ocidental, é tão pesada para o sul global. Afinal, esta mesma “democracia” não impede os países que a propagam, de aplicarem sanções a mais de 50 países pobres, matando de fome e privação alimentar centenas de milhares de crianças, jovens e mulheres, todos os anos. Nestes mais de 100 anos de sanções “democráticas”, são incontáveis os milhões de mortos, doentes e miseráveis causados por tanto respeito pelos “direitos humanos”.

Foi este mesmo respeito pelos “direitos humanos” que justificou – e justifica – as guerras de agressão a dezenas de países. Entre os mais recentes temos o Iraque, a Síria, o Iémen, o Afeganistão, a Jugoslávia, a Sérvia, a Líbia, num desenrolar de bombardeamentos “democráticos” que mataram e destruíram as vidas de dezenas de milhões de seres humanos, muitos deles arriscando as suas vidas em botes de borracha. Depois de verem os seus países destruídos pela pilhagem desenfreada iniciada há cerca de 500 anos, ainda são acusados pela extrema-direita – a face mais agressiva do sistema económico capitalista ocidental – de quererem “invadir” o Ocidente. O mesmo Ocidente que tanta “democracia” lhes levou.

A “democracia” ocidental também não impediu que em 1948 tenha sido implantado um estado apartheid na Palestina. Este estado, não apenas matou e deslocalizou milhões de seres humanos para aí se implantar, baseando as suas ações numa ideologia teocrática que busca na bíblia – e noutros textos religiosos – a base da legitimidade do seu supremacismo racial, e que se mantém até hoje, agravando-se sucessivamente, à custa de armas, entre elas, as nucleares. Hoje, com um governo de extrema-direita, com gente que defende a exterminação do povo palestiniano.

A mesma “democracia” que hoje justifica o “desacoplar” dos países “autocráticos”, classificados como tal, apenas e só, porque não sucumbem à pilhagem dos seus recursos; pilhagem que os manteria na profunda miséria de onde vieram por ação “protetora” dos “direitos humanos”, é aquela que agora é responsável pela degradação – injustificada e inexplicada – das condições de vida dos povos europeus, arrastados para uma luta que não é a sua, nem lhes interessa minimamente.

Considerar que temos de morrer à fome para proteger a “democracia”, deve fazer-nos questionar o papel que hoje tem a própria “democracia”. É que, a “democracia”, não pode constituir um emaranhado de palavras vazias, usadas para justificar todos os fins.

A “democracia” tem de constituir um instrumento do desenvolvimento das condições de vida e de trabalho dos povos, um instrumento e não um fim em si mesma. Tratada como um fim em si mesma, a democracia deixa de o ser, para se transformar num ritual vazio de sentido ao serviço de fins nada democráticos. É o problema da forma e da substância. E um exemplo desta contradição, que encontra no modelo ocidental um fim em si mesmo, é a comparação do comediante encartado, a Churchill.

Esta comparação, totalmente vazia de sentido, não deixa de comportar em si a contradição que a origina e que radica na desvalorização da própria democracia enquanto instrumento ao serviço do desenvolvimento. Se o objetivo é valorizar o comediante, tal só é possível perante a fábula. E, neste caso, podemos dizer que uma fábula – a de que Churchill era democrata – origina outra fábula – a de que o comediante é democrata e está ao serviço do seu povo.

Para se ter uma ideia do que valia a “democraticidade” de Churchill, basta olhar para o que foi o domínio britânico na India. Não é necessário ir a mais nenhum lado. De acordo com um estudo académico realizado, (ver aqui), no pico do poder imperial na India, entre 1880 e 1920, morreram 165 milhões de pessoas em resultado do agravamento das condições vida resultantes da pilhagem de recursos e da repressão.

Este é apenas um pequeno exemplo da brutalidade genocida do imperialismo. Churchill, não apenas o abraçou, como o continuou e como foi peça-chave no agravamento da repressão contra a luta de Gandhi, sendo ator principal de uma sangrenta história que, a contar-se e a recordar-se, faria esmorecer qualquer defensor do imperialismo. A “democracia” de Churchill não impediu a matança, o genocídio material e moral, de continuarem. Hoje, e a provar que a repetição histórica é uma farsa, o comediante de serviço, usa os recursos do Império para conduzir o seu povo para a morte, o seu próprio povo. Actor-chave na deriva belicista, no incumprimento dos acordos e Minsk, na promessa incumprida de paz e na utilização de fundos que fariam falta para desenvolver o seu país, na aquisição de armas, o Churchill farsola abraçou o projeto, continuou-o e deu-lhe ainda mais gás. A “democracia” não o impediu de o fazer.

Outro exemplo do valor da “democracia” ressalta de um olhar sério para a votação das resoluções, que se vai fazendo na Assembleia Geral da ONU. Rapidamente se chegará à conclusão do papel atual, que os poderes de facto, conferem à “democracia” e aos “valores” ditos “ocidentais”. Do ambiente aos direitos humanos, passando pela economia e política, o mundo divide-se constantemente em dois, uma minoria a que chamamos de “Ocidente coletivo” e uma maioria imensa a que chamamos de “Sul Global”, (ver aqui).

 Será que a “democracia” pode estar ao serviço da opressão e mesmo assim ser democracia?


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O Parlamento da Ucrânia aclama colaborador nazi

(Peoples Dispatch, in a Viagem dos Argonautas, 08/01/2023)

Uma colagem de uma fotografia de um comício de direita em homenagem a Stepan Bandera e o tweet do parlamento ucraniano a 1 de Janeiro de 2023

Desde 2014, o regime pós-Maidan na Ucrânia e as suas milícias de extrema-direita têm vindo a glorificar o legado de extrema-direita, hiper-nacionalista da Segunda Guerra Mundial, do colaborador nazi Stepan Bandera (…)


Ler artigo completo em:

A Viagem dos ArgonautasA Guerra na Ucrânia — O Parlamento da Ucrânia aclama colaborador nazi. Por Peoples Dispatch


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