Trump e Pump: outro atoleiro petrolífero

(David Schultz. in CounterPunch.org, 07/01/2026), trad. Estátua)

Cleptocracia, capitalismo de compadrio, imperialismo, colonialismo, política do carbono ou política ao estilo Kissinger. Chame-lhe o que quiser. Mas o semi-golpe de Trump na Venezuela é mais um exemplo da política retrógrada da administração Trump, e está destinado a arrastar os EUA para mais um atoleiro, que lembra o Iraque, o Afeganistão e talvez até o Vietname

Há um ditado que diz que os Estados estão sempre preparados para lutar a última guerra. As visões incoerentes de Trump sobre os EUA sempre foram retrógradas, portanto, tornar a América grande novamente sempre foi retrógrado, olhar para os EUA através de óculos cor-de-rosa, vendo uma época em que os EUA dominavam o mundo.

No entanto, como Karl Marx observou uma vez em O 18 Brumário, a primeira vez que a história se repete é uma tragédia, a segunda vez é uma farsa. O que está a acontecer na Venezuela encaixa-se perfeitamente nessa segunda categoria. Não é apenas repetição, mas repetição desprovida de seriedade estratégica. O que resta é um espetáculo disfarçado de arte de governar.

Desde o início, ficou claro que a Venezuela nunca teve a ver com drogas. A Estratégia de Segurança Nacional 2025 do governo Trump deixou isso claro. Em vez de se concentrar em narcóticos, governança ou questões humanitárias, ela ressuscitou uma visão explicitamente imperialista de domínio do hemisfério. A Venezuela foi enquadrada como um problema de controlo, não de aplicação da lei.

Esse documento exigia uma atualização da Doutrina Monroe, que alguns críticos rapidamente apelidaram de «Doutrina Donroe». A premissa era direta: os Estados Unidos deveriam dominar o hemisfério ocidental. A Europa seria deixada para a Europa, a Ásia para a Ásia e a África mal merecia menção. Isso não era realismo, mas sim nostalgia disfarçada de estratégia.

No entanto, a Estratégia de Segurança Nacional de 2025 dificilmente era uma estratégia. Parecia um discurso de campanha travestido na forma de política externa. Oferecia slogans, não planos, e branding em vez de análise. A Venezuela parecia menos um estudo de caso e mais uma oportunidade de marketing.

O documento prenunciava o que logo ficou claro: a Venezuela nunca foi uma questão de drogas, mas de domínio. Esse domínio baseia-se numa memória histórica mais antiga, enraizada no início do século XX. Durante esse período, os Estados Unidos trataram grande parte da América do Sul como uma extensão económica das suas próprias necessidades industriais. O petróleo da Venezuela foi extraído, exportado e monetizado com pouca consideração pela soberania venezuelana.

O semi-golpe orquestrado por Trump é uma tentativa de recapturar essa era perdida. É uma tentativa de recuperar o petróleo que os Estados Unidos outrora tomaram abertamente e sem remorsos. A lógica é surpreendentemente familiar. Como foi dito uma vez durante os debates sobre o Canal do Panamá, o que foi roubado “de forma justa” deve ser mantido. Essa mesma lógica agora sustenta a política dos EUA em relação à Venezuela.

A decisão de Trump de acusar Nicolás Maduro de crimes relacionados com drogas é igualmente retrógrada. Ela faz lembrar a justificação do governo Bush para prender Manuel Noriega décadas antes. Em ambos os casos, as acusações criminais substituíram a legitimidade política. A aplicação da lei tornou-se uma fachada para a mudança de regime.

Essa política retrógrada também visa reviver a política do carbono num momento em que ela está a perder rapidamente a relevância. A trilogia de Daniel Yergin — The Prize, The Quest e The New Map — documenta como o século XX girou em torno do petróleo e do domínio energético. Mas a lógica económica que antes favorecia os combustíveis fósseis está a desgastar-se. A energia renovável não é mais especulativa; está cada vez mais barata, rápida e escalável.

A China compreende essa mudança e está a agir de acordo. Está a investir fortemente em energia solar, eólica, baterias e infraestrutura elétrica. Os Estados Unidos, por outro lado, sob Trump, procuraram dobrar a aposta no petróleo e no gás. A Venezuela torna-se, assim, um campo de batalha simbólico entre os regimes energéticos do passado e os do futuro.

Mesmo para os padrões de mudança de regime, esse esforço é estranhamente incompleto. Henry Kissinger, apesar de todas as suas falhas morais, pelo menos compreendeu como executar um golpe de forma decisiva. O Chile sob Allende é uma prova sombria dessa competência. O que Trump arquitetou, em vez disso, foi um semi-golpe, sem legitimidade e sem controlo.

Trump declarou que os Estados Unidos irão governar a Venezuela, mas não necessariamente de forma direta. Em vez disso, irão recorrer a sanções, embargos, pressão financeira e apreensão das receitas do petróleo. A oposição ao regime não foi trazida a terreiro, mas sim marginalizada. A vice-presidente de Maduro continua no cargo e há poucas evidências de que os militares tenham desertado.

O resultado é um impasse perigoso. Isso cria as condições para um conflito civil, em vez de uma transição política. À medida que a instabilidade cresce, o envolvimento dos EUA aprofundar-se-á por necessidade, e não por planeamento. A infraestrutura petrolífera precisará de proteção, e a proteção exigirá tropas.

Quando esse momento chegar, a justificação mudará. Será enquadrada como segurança, estabilidade ou necessidade humanitária. Mas o motivo subjacente permanecerá o mesmo. O controlo dos recursos será mais uma vez disfarçado como interesse nacional.

A fase final deste episódio provavelmente envolverá enriquecimento pessoal. Trump tem consistentemente confundido a linha divisória entre poder público e ganho privado. A Venezuela oferece outra oportunidade para branding e lucro. Isso é a repetição de como as elites americanas anteriores, incluindo os Rockefellers, beneficiaram do petróleo venezuelano há um século.

Bem-vindos à América de Trump e Pump. Quanto mais bombeamos, mais nos dizem que crescemos. É uma história antiga com um novo logótipo. E, como tantas vezes antes, é provável que termine mal.

David Schultz é professor de ciências políticas na Universidade de Hamline. É autor de Presidential Swing States: Why Only Ten Matter.

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A Nova Ordem (de Hitler a Trump)

(Manuel Loff, in Público, 07/01/2026)


A dupla impunidade imperialista e fascista, com Trump como com Hitler, consegue-se quando quem tem capacidade de a impedir prescinde de o fazer.


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Perguntada anteontem se a UE entendia que o ataque militar dos EUA à Venezuela foi “uma intervenção, uma invasão, um ato de agressão, um golpe externo?”, a porta-voz da Comissão Europeia recusou-se a discutir a “terminologia” dos acontecimentos, e criticar ou condenar Trump. “Não creio que isso seja relevante” (PÚBLICO, 6/1/2026 ). O tom foi o mesmo entre os governos da UE, desde o chanceler alemão (para quem a questão legal é “complexa”) até Paulo Rangel, que não só encontra “intenções benignas” em Trump, como, jurista que é, precisava ainda assim de falar com “os seus “homólogos na Europa e os EUA, no sentido de ter uma visão mais completa da situação” para poder definir o ataque à luz do Direito Internacional.

É coerente que Israel, campeão das violações de direitos humanos e da legalidade internacional, tenha “felicitado” Trump “pela sua decisão” e “aplaudido as forças militares estadunidenses que levaram a cabo uma operação impecável” (a expressão é a mesma que tem usado a oposição antichavista e os seus vários porta-vozes em Portugal). A ele juntaram-se Milei, Zelensky e Corina Machado; era inevitável. Mas é patético que Rangel, para quem Portugal “valoriza sempre a legalidade internacional e a Carta das Nações Unidas”, não consiga perceber o que percebeu Guterres e os governos dos maiores países da América Latina ou o de Espanha: que se trata de uma violação descarada de toda a legalidade internacional. E que este é, depois da impunidade israelita na Palestina, um dos atos fundadores da Nova Ordem trumpista. Hitler quase conseguiu impor uma na II Guerra Mundial. Foi o que se viu.

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Mas voltemos à questão da “terminologia”. Regularmente insultados por toda a pandilha MAGA, que os neoliberais que dominam quase todos os governos europeus, em grande parte dos casos de mãos dadas com neofascistas que se sentem vingados por Trump, manifestem tanta falta de vontade em chamar as coisas pelos nomes, quer face a este ato de guerra ilegal contra a Venezuela como em três anos de genocídio em Gaza, diz tudo do processo de degeneração política que o neoliberalismo tem significado desde há já meio século. Esse processo tem um nome: fascização.

Trump reproduz neste século o que Mussolini inaugurou na política de massas de há cem anos: uma “liderança desinibida” e narcísica como lhe chama Wendy Brown em Nihilistic Times (2023). Quando a justiça italiana acusou, em 1925, vários squadristi fascistas do assassinato de Matteotti, um dos deputados socialistas que ainda sobravam no Parlamento, Mussolini, já então à frente do Governo, vangloriou-se de ser o capo do partido dos assassinos e desafiou, mão na anca, quem o quisesse enfrentar: “Fui eu que quis que as coisas chegassem a este ponto extremo”. Chama-se a isto impunidade, e o fascismo é, nos anos 1920-45 como nos dias de hoje, a reivindicação da impunidade do mais forte para fazer valer uma supremacia que julga ter-lhe sido dada pela acumulação de riqueza, pela tradição, por Deus ou simplesmente pela sua capacidade real de desprezar os valores da igualdade e todas as regras da própria constitucionalidade liberal.

A dupla impunidade imperialista e fascista, com Trump como com Hitler, consegue-se quando quem tem capacidade de a impedir prescinde de o fazer. No sistema internacional, deveria ser a ONU e o TPI quem deveriam atuar. Que não o possam fazer agora, e que continuem a não poder fazê-lo no genocídio de Gaza, deve-se exclusivamente aos EUA e aos seus aliados europeus no Conselho de Segurança. E à desoladora cobardia política (e moral) dos dirigentes dos aliados dos EUA na NATO, esse bando de “chamberlains”, como lhes chamou Ana Sá Lopes neste jornal em referência ao estadista britânico que apaziguou Hitler até ele invadir a França em 1940. Já nem sequer é ironia que eles se possam encontrar muito brevemente na mesma posição de Maduro quando Trump mandar invadir a Gronelândia, convencido, como dizia ontem com razão um assessor de Trump, que “ninguém oporá resistência armada aos EUA”. Apostamos em como a primeira-ministra da Dinamarca vai engolir a sua tese de que esse dia seria o do “fim da NATO”?

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

40 anos a exterminar Portugal

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 07/01/2026)


O cenário irá agravar-se nestes dias em que começam a celebrar-se os 40 anos de vida de Portugal em versão União Europeia, uma caricatura de país que arrasta os restos mortais, atacado por uma cegueira suicida.


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Ainda se ouvem os ecos das 12 badaladas, sempre muito enobrecidas pelo «anúncio do ano» em todas as televisões; ainda ressoam os estrondos das despropositadas trovoadas de fogos de artifício e já começaram as escutar-se as vozes de necrófilos e necrófagos que irão alimentar um tétrico coro  durante os próximos 365 dias.

Preparemo-nos para ser avassalados por enxurradas de loas e hossanas aos 40 anos que passam sobre a integração forçada de Portugal na Comunidade Económica Europeia, depois reciclada em União Europeia para reforço do nível de atrocidades, em especial o desaparecimento da moeda nacional e consequente submissão ao terrorismo do euro.

Integração forçada porque nesta espécie de democracia, a que chamam «liberal» para atacar cada vez mais os interesses populares, não houve o cuidado mínimo de perguntar aos cidadãos se aceitavam ou não que o país fosse integrado numa comunidade internacional, passo esse que tinha como contrapartida a perda de aspectos fundamentais da soberania nacional. Escondidos ou «explicados» com toques épicos de manipulação, mas existentes para quem não estivesse distraído.

Na sequência do golpe reaccionário e estrangeirado de 25 de Novembro de 1975 foram postos em prática vários métodos convergentes para enganar o povo em relação à integração europeia. 

O poder não organizou qualquer referendo ou outra forma de consulta de opinião (que não sondagens)  para dar capacidade democrática de decisão aos cidadãos sobre essa matéria transcendente para a soberania nacional. 

Em relação a esta realidade insofismável, a classe política usurpadora da vontade popular costuma explicar que o assunto esteve implícito nos programas políticos e nas campanhas eleitorais para eleições parlamentares. Refinada mentira: as campanhas eleitorais não são períodos de esclarecimento, são feiras de vaidades, elegias ao bacoco, espectáculos medíocres com a profundidade mental de um talk-show tipo Big Brother ou – com um cariz familiar muito educativo no quadro doutrinário judaico-cristão – «A minha mãe com o teu pai». Por isso, um tema que exigia uma pormenorizada clarificação, honesta e profícua, foi abordado pela rama e em termos propagandísticos, apresentado como a nova árvore das patacas capaz de fazer cada um de nós um rico, no mínimo um desafogado.  

Os métodos usados para submeter o debate à enxurrada de mentiras que intoxica as campanhas eleitorais e para propagar as benesses associadas à integração no melhor dos mundos, foram reforçados por outra prática que se transformou num contexto obrigatório dentro da verdade única do regime: as pessoas ou as instituições que explicam, com factos concretos e inquestionáveis, as consequências nefastas da integração europeia são expostas no pelourinho reservado aos antipatriotas, aos antidemocratas, aos inimigos do progresso, aos totalitários, aos nacionalistas retintos. Esse comportamento assumido pelo regime militar, económico, político e social em vigor, reforçado através da faceta mistificadora, manipuladora e panfletária da comunicação social dominante, tornou-se um dogma que transforma em heréticos todos os que, racional e factualmente, se recusam a dizer ámen ao sagrado europeísmo.

O cenário irá agravar-se nestes dias em que começam a celebrar-se os 40 anos de vida de Portugal em versão União Europeia, uma caricatura de país que arrasta os restos mortais, atacado por uma cegueira suicida. Neste quadro de indigência assumida, a dignidade, a história, a cultura, as raízes e a própria língua de uma comunidade nacional quase milenar foram sacrificadas sem que a aliança de poder neoliberal/fascista pestanejasse. E um país que soube manter-se vivo no fio dos séculos – não discutamos agora alguns dos métodos usados – foi ofertado numa bandeja a um regime estrangeiro para servir de pasto a um sistema militarista, explorador, inculto e ignorante, racista e xenófobo, expansionista, intelectualmente doente e consolidado para usufruto do mercado, do dinheiro e do globalismo desumano – estado supremo do capitalismo neoliberal.

A realidade dramática que destrói o mito

A realidade, porém, é mais forte que o dogma. Daí a necessidade de o regime imposto em Lisboa (e mais 26 capitais) pelo sistema de poder transnacional de Bruxelas esconder a realidade nacional, substituindo-a por uma realidade virtual e paralela fabricada pela propaganda.

Dizer que a soberania de Portugal foi entregue, de mão beijada, a um regime federalista encapotado que se converteu de vez ao militarismo imperial parece não incomodar a generalidade dos portugueses. Uma grande maioria dos cidadãos, na verdade, não conhecem o que se passa e também não lhes é permitido saber que os principais poderes supostamente desempenhados pelos órgãos de soberania nacionais já foram transferidos para Bruxelas, quantas vezes à socapa.

Nesta «democracia liberal» as pessoas votam para um Parlamento, um governo e um chefe de Estado e, na realidade, estes só decidem e executam o que lhes é permitido decidir e executar pelos poderes sombrios que mexem os cordelinhos de instituições poderosas, não eleitas e totalitárias como a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu. Isto é, a maioria vota em pessoas e nas instituições A, B ou C (o «arco da governação», incluindo a tara venturista) enquanto, lá longe, gente com rosto de euro ou dólar decide por elas, como se ninguém tivesse votado. A ditadura deixou, aparentemente, de ser bruta e sangrenta; refinou, tornou-se elegante, sofisticada, até «progressista», embora a arbitrariedade e a exploração continuem a ser poder e o sangue humano não deixe de correr, se necessário, o que parece estar cada vez mais próximo. Até as «esquerdas» fofinhas e bem falantes, perdidas em algaraviadas oportunistas e graxistas para receberem festinhas do poder e da comunicação social, acham o federalismo fixe, capaz de democratizar a União Europeia e de a transformar numa bem aventurança para os cidadãos. Esse reaccionarismo engalanado com floreados de mentiras e propaganda bem construídas atinge, sobretudo, gente que vive nas cidades e se cultiva lendo e ouvindo a casta «de referência» e ama afagar os pobrezinhos sempre que chega o Natal e nos curtos intervalos deixados pelas febres do consumismo e as férias e fins de semana em paraísos exóticos.

Em Portugal existe um mapa informal que corresponde às atrocidades que foram (e ainda são) cometidas em território português pela CEE/União Europeia, com custos humanos e materiais incalculáveis. Esse mapa assinala as feridas ainda expostas e deixadas pelo terramoto arrasador que liquidou o tecido produtivo português e tornou o país refém dos altos e baixos do turismo e consequente transmutação alienante do estilo de vida de vastas camadas da sociedade portuguesa. Além de igualmente refém de importações, chegadas de todo o mundo, de produtos que eram fabricados e cultivados, com altíssima qualidade, em Portugal e pelos trabalhadores portugueses.

A tragédia tornou-se real a partir de 1986, ano da integração na CEE, quando se dizia que chovia dinheiro europeu do qual todos iríamos tirar proveito. O tiro de partida, como atrás se escreveu, fora dado em 25 de Novembro de 1975, mas, militarmente e politicamente, a integração europeia veio reforçar os objectivos do golpe, não apenas para tentar liquidar os desenvolvimentos genuinamente democráticos tornados possíveis a partir de 25 de Abril de 1974, mas também para implantar os mecanismos repressivos e paraditatoriais talhados com o objectivo de impedir quaisquer correcções de rota ditadas pela vontade democrática e popular.

Em sectores de produção considerados essenciais para a sobrevivência dos portugueses, como o dos cereais, a comparação entre os números decorrentes da integração europeia e, por exemplo, os dos tempos da amaldiçoada Reforma Agrária não mentem. Em 1976, depois da Novembrada mas ainda antes da guerra aberta contra a Reforma Agrária, Portugal conseguia produzir três quartos dos cereais que consumia, pelo que importava um quarto do total necessário. Portugal «não era auto-suficiente em pão», dizia-se então, como um libelo acusatório contra uma das maiores conquistas da Revolução de Abril.

No ano de 1986, e apesar das malfeitorias iniciadas nos governos constitucionais de Mário Soares – quando a Reforma Agrária estava muito ferida mas não extinta – Portugal ainda produzia 60% dos cereais que consumia, pelo que importava 40%.

Pois 40 anos depois do início da integração europeia, aplicada a preceito a famosa «política agrícola comum», Portugal consegue produzir cerca de 18% dos cereais que consome. Isto é, tem de importar 82%, pouco menos que a totalidade. Obrigado Soares, Cavaco, Guterres, Sócrates, Barroso, Santana, Coelho, Costa e Montenegro, eis no que transformaram os «celeiros de Portugal», a começar pelo generoso Alentejo, ao rastejarem perante a UE/CEE.

Volta a Portugal em ruínas

Mas há matéria física, imune a qualquer propaganda virtuosa, que exibe os desmandos da integração europeia. Se, por uma vez na vida, o leitor fizer uma viagem em que ponha de lado as belezas, as tradições e as raízes culturais fantásticas do território nacional e procurar o contraponto trágico para a vista e outros sentidos, ficará vacinado de vez contra os mitos, as mentiras e as atrocidades propagandísticas da União Europeia/CEE.

Sabemos que a União Europeia, através da inteligentíssima desindustrialização, que agora precisa de ser invertida, como proclamam os irresponsáveis dirigentes, ficou vulnerável e irrisória, do ponto de vista produtivo e competitivo, perante o resto do mundo. Agora aqui d’el rei que os bárbaros querem destruir o nosso jardinzinho.

Para conhecer, sem sofismas, a imensa chaga deixada no sector produtivo português ao cabo de 40 anos de UE e de federalismo cada vez menos indisfarçado, está disponível uma volta a Portugal em ruínas industriais – e com roteiros bastante diversificados, consoante a vontade do viajante.

Se quiser começar pela capital, visite regiões de Marvila e do Beato, onde se produziam artigos tradicionais de consumo comum, como os prosaicos fósforos, sabões, massas e bolachas, alguns deles agora importados, e detenha-se na enorme ferida que é a Rua do Açúcar.

Adverte-se, desde já, que o panorama geral das ruínas já foi amainado pela museologia da arqueologia industrial e, em várias outras regiões ex-produtivas das margens norte e sul do Tejo, por condomínios privados e de luxo, destinados às riquíssimas minorias nacionais e aos especuladores estrangeiros que podem dar-se a esses luxos.

Depois siga por Mafra e Sintra, mais precisamente Pêro Pinheiro, Montelavar, Maceira e Pedra Furada, e conhecerá as chagas da indústria do mármore, actividade quase artesanal, artística, familiar e desenvolvida em pequenas e médias empresas que colocaram Portugal no topo internacional da qualidade neste sector.

Não se fique por aqui e reserve um tempo para descer até ao chamado anticlinal de Estremoz, também conhecido pelo «triângulo do mármore Borba-Estremoz-Vila Viçosa». Tanto nos concelhos de Mafra e Sintra, como na citada zona do Alentejo, os cenários repetem-se, como maior ou menor densidade: ruínas de fábricas e armazéns, restos e cacos de mármore espalhados nas imediações, esqueletos de máquinas enferrujadas, amplas pedreiras abandonadas, transformadas em lagos insalubres pestilentos. A União Europeia ignorou as pequenas e médias empresas, desprezou a qualidade e abriu o sector à «livre concorrência», isto é, a uma concorrência desleal em que os grandes empórios, sobretudo não-europeus, devoram os lugares onde o trabalho árduo e competente produzia arte. A qualidade do produto importado é muito inferior? Não interessa, os lucros são muito maiores e assim é que deve ser, para todos prosperarmos.

O leitor pode seguir depois pelos caminhos da extinta indústria pesada, onde o escândalo ganha ainda maiores dimensões. As estruturas industriais da CUF/Quimigal, no Barreiro, desabaram em quarteirões imensos mortos e fantasmagóricos; o magnífico e imenso santuário da indústria naval na Margueira, em Almada, admirado pela qualidade do seu trabalho, transformou-se num cemitério tão desolador como revoltante; o alto forno abandonado em Paio Pires, Seixal, assinala a redução à ínfima espécie da produção siderúrgica. Entre Almada e Setúbal, a obra da União Europeia e da respectiva desindustrialização expõe os efeitos de uma guerra contra Portugal da qual resultou a destruição quase total das outrora florescentes indústrias química, metalomecânica, siderúrgica, da reparação e construção naval.

De Lisboa a Vila Franca de Xira multiplicam-se as ruínas daquele que foi o epicentro do magnífico sector da cintura industrial de Lisboa situado na região a norte do Tejo. Vale a pena conhecê-las e admirar os destroços produzidos pelo querido europeísmo.

Requiem pelos têxteis e o vidro

Na região da Covilhã e no vale do Rio Ave pode o leitor testemunhar como a integração europeia exterminou a emblemática indústria têxtil, orgulho de Portugal, a maior concentração operária feminina de sempre e sustento de centenas de milhares de famílias.

Nas margens de ribeiras, tanto na Beira Baixa como através dos concelhos de Santo Tirso, Famalicão, Guimarães, Vila das Aves, Vizela e outros sucedem-se os complexos de fiação abandonados, os restos de naves vazias ou com destroços de máquinas e os bairros operários degradados.

Na Marinha Grande multiplicam-se restos mortais de outro orgulho de Portugal, a indústria do vidro. Vêem-se fornos que além de frios estão em ruínas, mais um cartão de visita da União Europeia a que podem associar-se os destroços industriais nas regiões de Coimbra, Figueira da Foz, das moagens de Montemor-o-Velho e dos bolsões produtivos de Cantanhede, Condeixa e Lousã.

O roteiro das feridas abertas em Portugal ficará mais completo se o viajante não perder de vista os sinais profundos de abandono dos complexos mineiros do Lousal (Grândola), Pejão (Castelo de Paiva) e do desprezo pelos recursos da faixa piritosa ibérica, em Aljustrel, Beja, lugar de intensa, dramática e incansável luta operária contra o fascismo.

Consequência de todo esta actividade produtiva arrasada – e em sentido contrário ao desenvolvimento da utilização do comboio através da Europa – é o abandono de estruturas ferroviárias no território nacional, em especial na Beira Interior, e a continuação da desertificação do país.

Linhas e ramais sem utilização, estações abandonadas, oficinas em ruína entregues à ferrugem e à vegetação invasora, apeadeiros mortos, carris inutilizáveis, enferrujados e soltos – o cenário não podia ser mais desolador, além de ter um âmbito praticamente nacional.

Os  poderes e respectivos apêndices começaram a celebrar as quatro décadas vividas por Portugal no Interior da CEE/União Europeia. A insensibilidade desumana de uma festa no lugar de um requiem: milhões de vidas destroçadas e mergulhadas na pobreza, prejuízos incalculáveis que pesam sobre os cidadãos, um país em extinção e a dignidade nacional perdida – eis o que os nossos dirigentes com responsabilidades nos órgãos de soberania e a comunicação oficial corrompida pela propaganda saúdam alegremente. E lá vão pregando, rindo e mentindo.