É o colonialismo, estúpido!

(Boaventura Sousa Santos, in Brasil247, 06/01/2026)

O que aconteceu na madrugada do dia 3 de Janeiro em Caracas deixou o mundo estupefacto. Mas a razão mais forte para estupefação é mesmo o facto de o mundo ter ficado estupefacto. O se passou estava anunciado aos quatro ventos. Desde quando? Os menos avisados dirão que desde a subida de Donald Trump ao poder. Mas é, sobretudo, desde a publicação da National Security Strategy, em Novembro de 2025, onde está consignado que os EUA se reservam o direito de intervir em qualquer país sempre que os seus interesses estejam em causa.

Recuemos na historia e analisemos os três componentes principais do que se passou: a surpresa, a captura ilegal de um líder político e as razões invocadas para o acto.

Quanto à surpresa e razões basta recuar a Setembro de 1939. Em 1939, o mundo (o mundo que contava era então a Europa e os EUA) ficou estupefacto com a surpresa do ataque de Hitler à Polónia. Justificação do líder nazi:

“O Estado polaco recusou a resolução pacífica das relações que eu desejava e recorreu às armas… Para pôr fim a esta loucura, não tenho outra escolha, a partir de agora, senão responder à força com força… Destruir a Polónia é a nossa prioridade… Nunca se pergunta ao vencedor se o que ele disse era verdade ou mentira. No que diz respeito a iniciar e travar uma guerra, não há lei – a vitória é o factor decisivo. Há que ser brutal e sem piedade”.

Quem seguisse de perto o comportamento de Hitler podia prever o que se ia passar. Hitler inventava publicamente a agressão polaca enquanto ordenava secretamente ataques surpresa, dizendo aos seus generais para agirem impiedosamente para alcançar a vitória, ilustrando a natureza enganosa da invasão. Inventava-se uma agressão polaca, transformava-se a invenção em realidade através da propaganda e invocava-se a invasão como um acto de legítima defesa. Estava em causa a segurança da Alemanha. Acontece que os diplomatas europeus olhavam, mas não viam, ouviam, mas não escutavam, liam, mas não entendiam. A negação era o disfarce da impotência e da baixa qualidade política dos líderes políticos de então.

Quanto à captura ilegal de líderes, é fácil lembrar o caso do Presidente do Panamá, Daniel Noriega, em 3 de Janeiro de 1990. É, no entanto, preciso recuar muito mais para vermos como uma táctica semelhante já fora usada no passado durante o período do  colonialismo histórico. O Rei Ngungunyane foi, entre 1884 e 1895, o rei do império de Gaza, um território que hoje corresponde em grande parte a Moçambique. Pela sua resistência contra o colonialismo português era conhecido como o “leão de Gaza”. Foi derrotado pelas tropas colonialistas em 1895, em Chaimite. Não satisfeitos com a vitória e temendo que o rei continuasse a alimentar a resistência anti-colonial, os colonialistas capturaram-no e trouxeram-no para Portugal como troféu de guerra. Exibiram-no pela avenida principal de Lisboa. Deportaram-no depois para a uma das ilhas dos Açores, onde morreu em 1906.

Em agosto de 1897, os colonialistas franceses impuseram o controlo colonial sobre o reino Menabé do povo Sakalava, no oeste de Madagáscar, massacrando o exército local. O rei Toera foi morto e decapitado: a sua cabeça foi enviada para Paris, onde foi colocada nos arquivos do Museu de História Natural. Quase 130 anos depois, a pressão dos descendentes do rei, bem como do governo da nação do Oceano Índico, abriu caminho para a devolução do crânio.

Ou seja, exibir na metrópole como troféu os símbolos da resistência (por vezes os líderes em pessoa, os seus crânios ou os seus objectos de arte) é uma prática consistente do domínio colonial. Que o “depósito” seja numa ilha, num museu ou num centro de Nova Iorque é uma questão menor, uma questão de conveniência para o vencedor.

O colonialismo voltou?

Esta é talvez a pergunta mais ingénua que se pode formular neste momento. Assenta na ideia de que o colonialismo é uma coisa do passado, tendo acabado com as independências das colónias europeias. Nada mais errado. O colonialismo é o tratamento de um povo ou de um grupo social considerado como sub-humano e, como tal, indigno de ser defendido pela legalidade internacional ou nacional, pelos direitos humanos ou pelos tratados internacionais. A justificação é perfeitamente racional:  sendo sub-humanos, seria um contrassenso tratá-los como humanos. Isso poria em perigo a defesa dos seres considerados plenamente humanos. O colonialismo é racismo, escravatura, pilhagem de recursos naturais e humanos, ocupação por uma potência estrangeira, expulsão de camponeses ou de povos originários dos seus territórios ancestrais para dar lugar aos “projectos de desenvolvimento”, ao desmatamento ilegal das florestas, ao ethnic profiling, à discriminação racial.  

O colonialismo é um componente permanente e essencial do capitalismo. Escrevendo na Inglaterra e tendo presente sobretudo ocaso inglês, Karl Marx enganou-se quando escreveu que a violência colonial seria uma fase inicial do capitalismo (a acumulação primitiva ou originária) que daria depois lugar à “monotonia das relações económicas assentes na exploração do trabalho livre assalariado”. A violência colonial é permanente e sem ela não existiria capitalismo. Não está presente da mesma forma em todos os lugares do mundo precisamente porque o colonialismo-capitalismo é um projecto global desigual e combinado. De Rosa Luxemburgo a Walter Rodney e David Harvey, este facto é hoje quase consensual que a acumulação primitiva é, de facto, permanente, ainda que não seja a única forma de acumulação.

Mais recentemente, o que foi a criação do Estado de Israel senão um acto de ocupação colonial, um modo revoltante de os europeus descarregarem sobre os povos palestinianos a expiação dos hediondos crimes que eles, europeus, tinham cometido contra os judeus?  A transformação de Gaza na Riviera do Mediterrâneo oriental é algo mais que um acto de recolonização?

Um outro sinal de recolonização é o regresso anacrónico da pirataria. Em tempo de paz ou de guerra não declarada, interferir com a navegação em águas nacionais ou internacionais é um acto de pirataria.

Se Karl Marx, ao tempo em que escreveu (meados do século XIX), vivesse na India, no Egipto ou na Nigéria, em vez de viver na Inglaterra, certamente que teria dado mais atenção ao colonialismo do que ao capitalismo.  O colonialismo foi o primeiro projecto global moderno, primeiro como pioneiro do capitalismo e depois como componente central da consolidação do capitalismo. Por isso, os países pioneiros (Portugal e a Espanha) foram prontamente marginalizados logo que o período pioneiro terminou.

Um período de recolonização e a dualidade de critérios

É justo pensar que a violência colonial e a monotonia capitalista, apesar de serem irmãs gémeas, tiveram períodos de desigual convivência. O período do pós-Segunda Guerra Mundial deu mais e melhor publicidade à irmã capitalista enquanto no período actual, que não começou com Trump nem acabará com ele, a publicidade está do lado da irmã colonialista. Estamos num período de recolonização, enquanto os intelectuais distraídos e com falsa consciência cantam hinos ao pensamento descolonial. Outros, como Yanis Varoufakis, que muito estimo, falam de tecno-feudalismo, esquecidos de que o feudalismo, mesmo na Europa, foi um regime muito mais confinado do que se pensa. Se há algo de novo no mundo, não é o tecno-feudalismo, é o tecno-colonialismo.

Uma das características fundamentais do colonialismo é a linha abissal que separa o “nós” (a sociabilidade metropolitana dos plenamente humanos) e o “eles” (a sociabilidade colonial dos sub-humanos). Esta divisão não tem nada de essencial ou ontológica (a humanidade é una).  É accionada com objectivos tácticos de curto alcance. E o objectivo principal é sempre o acesso livre aos recursos ditos naturais sem os quais o capitalismo não sobrevive. A legitimidade de Vlodymyr Zelensky é tão grande ou tão pequena quanto a de Nicolas Maduro, mas enquanto o primeiro é recebido como um herói, o outro é capturado e tratado como um criminoso. Se de facto Nicolas Maduro não ganhou as eleições, Zelensky é produto de um golpe de Estado disfarçado de revolução colorida (2014) – em que a senhora Victoria Nuland andou a distribuir sanduíches aos manifestantes – e o seu mandato há muito terminou. O prolongamento da guerra é a apólice de seguro para ele se manter no poder. Zelensky há muito que entregou os minérios e as terras às empresas norte-americanas. O crime de Maduro foi não ter entregado o petróleo até agora. Além disso, Zelensky serve para incomodar a Rússia, o principal aliado da China, enquanto a Venezuela se acomoda com ambos

O medo de Vladimir Putin e de Xi Jinping

Como os actuais líderes ocidentais medem os outros pela sua medíocre medida, a sua preocupação não é com a ilegalidade aberrante e bárbara cometida na Venezuela. Estão sobretudo preocupados com a possibilidade de Putin estar agora legitimado para capturar Zelensky ou a China para invadir Taiwan. Não gosto de fazer previsões, mas estou convencido de que os EUA acabam de proporcionar à China e à Rússia uma oportunidade dourada de mostrarem a sua superioridade moral em relação ao Ocidente. Enquanto impérios ascendentes, tem outros meios para impor a sua vontade e de o fazerem com a aparência credível da soma positiva: todos os países ganham, embora a Rússia e a China ganhem mais.

O que se segue?

Li com muita atenção A National Security Strategy (NSS) publicada em Novembro de 2025. Trata-se de um documento importante que devia se lido por todos os democratas do mundo.  O mundo está dividido entre dois poderes rivais, sendo que um deles está disposto a usar todos os meios para vencer o seu rival e de o fazer o mais rapidamente possível. Para isso, tem de transformar a sua zona de influência numa fortaleza defendida por vassalos leais. Os dois vassalos leais são a Europa auto-mutilada (a Rússia é parte da Europa) e a América Latina.  O acesso da China à Europa já está bloqueado. Foi esse o objectivo da guerra da Ucrânia, que os europeus se encarregam agora de consolidar a expensas suas.

O importante é enfraquecer ainda mais a Europa e torná-la cada vez mais dependente dos EUA. Para isso é importante reduzir a União Europeia à irrelevância. O primeiro acto foi o Brexit e recuperar a incondicional lealdade do reino Unido. Agora trata-se mesmo de acabar com a União Europeia: isoladamente, os países europeus são mais fracos e fáceis de governar. Notemos uma das prioridades da política da NSS para a Europa (p. 27): “Construir nações saudáveis na Europa Central, Oriental e Meridional através de laços comerciais, venda de armas, colaboração política e intercâmbios culturais e educativos”.

  Esta formulação mostra como os países dominantes da União Europeia estão excluídos desta política, sobretudo a França, a Alemanha e os países nórdicos. Na Europa Central, Oriental e Meridional reside a esperança da vassalagem. São os países mais débeis, com uma social-democracia mais fraca e, portanto, mais susceptíveis de serem governados por partidos conservadores (de preferência, de extrema-direita), cuja lealdade aos EUA nunca será posta em causa. Os italianos, os gregos, os espanhóis e os portugueses sabem o que isso significa. Por exemplo, os portugueses, em vésperas de eleições presidenciais, certamente já notaram os grandes investimentos na publicidade do partido de extrema-direita, Chega.  Os pobres votam, mas os ricos pagam. Tudo isto para além da enorme presença nas redes sociais. Num sistema semi-presidencialista, um candidato do Chega, uma vez eleito Presidente da República, facilmente convencerá os portugueses que bem quer mudar Portugal, mas que o sistema não o deixa porque a isso se opõem os partidos do bloqueio. Não há outra solução senão provocar uma crise política, dissolver o parlamento, convocar eleições e esperar que o seu partido ganhe as eleições (sozinho ou em coligação com um partido de direita – PSD – cuja agenda política já esteja “adaptada à da extrema-direita). Depois tudo será diferente…

A América Latina é problemática devida às suas importantes relações comerciais com a China. Os processos de desestabilização têm de ser mais duros.  O caso da Venezuela é bem revelador. No caso do rapto do Osama Bin Laden por forças especiais, não morreu nenhum soldado norte-americano e apenas morreram alguns familiares de Osama. No caso de Maduro, terão morrido entre 30 a 40 soldados da guarda presidencial, muitos deles cubanos, conforme informação do governo cubano. Por enquanto, nada se pode confirmar, nem sequer se houve negociações e quem participou nelas. Uma coisa é certa, o povo venezuelano nada sabia e foi apanhado de surpresa. E do conjunto do povo venezuelano ainda menos se sabe (ou se quer saber) do que pensam os povos indígenas venezuelanos (Wayuu, Warao e Pemon, Yanomani, etc) que são 2-3% da população e cuja relação com a revolução bolivariana há muito era tensa devido  à exploração dos  recursos naturais (mineração) nos seus territórios ancestrais.

Seguem-se os três grandes quebra-cabeças da NSS: Brasil, México e Colômbia. México é uma prioridade porque dele vai depender a sobrevivência de Cuba e Cuba tem de cair por ser uma questão de prestígio para o grande estadista, Marco Rubio. As intervenções variam. Gustavo Petro já foi declarado um narco-terrorista. Por sua vez, como os brasileiros bem sabem, o candidato do bloqueio, Lula da Silva, foi preso em 2018 para ser retirado da corrida presidencial.  Os governos que se seguiram privatizaram a riqueza estratégica do país de modo a que, se não se pudesse evitar o regresso de Lula da Silva, este regressasse a um país muito diferente do que o que deixara. E assim foi. Nicolas Maduro também pode voltar, mas se tal acontecer, irá encontrar um país muito diferente, sobretudo no domínio do controlo da exploração do petróleo

Em cada país a estratégia será diferente, mas todas terão algo em comum: a intervenção massiva da BigTech e o controle que estas têm na Internet, nas comunicações estratégicas por satélite e nas redes sociais. Os apagões digitais selectivos vão ser uma das armas para imobilizar a resistência aos desígnios imperiais. A China e a Rússia já hoje começam a precaver-se e penso que têm boas razões para o fazer.

A América Latina está mais dividida do que nunca, como se tornou claro na recente reunião da CELAC (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos). Aliás, alguns dos países não podem jogar a cartada da inocência e da surpresa em tudo o que se passa na Venezuela. Em meu entender, o Brasil cometeu um gravíssimo erro estratégico ao bloquear a entrada da Venezuela nos BRICS. Foi um contributo importante para o isolamento da Venezuela. O outro, ainda mais perverso, veio dos europeus ao conferir o Prémio Nobel da Paz a quem tinha pedido a intervenção militar dos EUA no seu próprio país. Donald Trump é o protagonista desta barbárie, mas não actuou sem receber sinais encorajadores. Sinais impostos por ele? Talvez nunca saberemos.

            E como bloquear a China em África e no Medio Oriente? É difícil dizer se Israel é, à semelhança da Europa, o vassalo leal dos EUA, porque, neste caso, não se sabe quem é vassalo e quem é senhor. O Irão é o grande quebra-cabeças no Médio Oriente; em África, é a Nigéria. A estratégia está bem definida. De uma ou de outra forma, ambos os países estão na mira da neutralização. O elefante dentro da sala da NSS é o que acontecerá no interior dos EUA, uma sociedade empobrecida, dividida, ignorante sobre o que é hoje e iludida sobre o que foi ontem, em suma, uma sociedade onde uma guerra civil a conta-a-gotas já está a ocorrer com massacres nas escolas, supermercados e igrejas. O que nos vale é que a história não é determinista e que o acaso e a resistência dos povos têm razões que a razão imperial desconhece.

Que fazer       

A esquerda e a guerra de libertação

Se é verdade que estamos num período de recolonização, a resposta dos povos só pode ser a guerra de libertação. Mesmo que seja muito diferente das guerras anteriores, a começar com a do Haiti em 1804. Infelizmente, o pensamento crítico e a política de esquerda ainda não se deu conta da transformação, e cada partido vai apresentando o seu candidatozinho ou a sua candidatazinha com o seu programazinho para entreter os longos serões de inverno ou de verão (conforme os países).

ONU e Conselho Europeu

No plano institucional ouso fazer duas sugestões que envolvem dois portugueses que o destino pôs à frente de duas instituições que já morreram e apenas apresentam provas de vida devido à ilusão criada pela inércia da história.

No caso da ONU, António Guterres devia demitir-se de imediato. Seria o único acto de impacto semelhante e de sinal oposto ao da invasão e recolonização da Venezuela. Quem conhece Guterres sabe que ele terá algumas virtudes, mas há uma que não tem: coragem. Lembramo-nos de Kofi Annan e de Boutros-Boutros Ghali e do preço que pagaram por se oporem aos desígnios dos EUA. Guterres já engoliu tantos sapos que virou sapo.

No caso do Conselho Europeu, presidido por António Costa, também este se devia demitir porque a soberania dos povos deixou de ter sentido, sobretudo quando se pertence à zona de influência dos EUA que acaba de lançar a soberania no esgoto dos magníficos edifícios de Bruxelas. Mas Costa tem o mesmo problema de Guterres e tem um outro problema. Para orgulho dos portugueses, o António Costa nunca foi vítima de racismo (que eu saiba) enquanto foi ministro e primeiro ministro de Portugal. No entanto, estou certo de que, se ousasse sair do guião redigido pela embaixadora dos EUA na EU, Ursula von der Leyen, o Presidente Trump seria a primeira pessoa a lançar a carta racista contra Costa com a grosseria que lhe é tão natural. O mesmo aconteceu a Obama quando ocupava a Casa Branca. Obama portou-se tão bem que até foi o grande promotor da morte à distância e asséptica por meio de drones. Vários milhares de pessoas morreram. E até tinha ganho o Prémio Nobel, pois claro. Por isso, de Costa nada a esperar.

Resta o quê? Tudo.

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Chalupas, ignorantes ou cegos ideológicos

(Ana Kandsmar in Facebook, 08/01/2026)


E, entretanto, aqueles que andam a comparar a Ucrânia com a Venezuela, acham que eu tenho distúrbios mentais por me recusar a fazer o mesmo. Ora, eu não tenho distúrbios rigorosamente nenhuns, exceto aqueles que me provocam os vossos comentários.

Bem sei que a Mãe Natureza não foi favorável a todos e se a uns deu neurónios funcionais, a outros entregou ervilhas completamente inúteis. Para o comprovar vamos aos factos que mandam às malvas as vossas ridículas comparações.

1 – A Venezuela está a mais de 4 mil km dos EUA, a Ucrânia faz fronteira com a Rússia.

2 – A Ucrânia tem uma longa história de parte integrante da Rússia, a Venezuela nunca foi parte dos EUA.

3 – A Ucrânia e a Rússia partilham a história, língua, religião e um povo que é, efetivamente irmão, a Venezuela não tem nada que a ligue aos EUA a não ser o chão no mesmo continente.

4 – A Ucrânia tornou-se, efetivamente, uma ameaça para a integridade territorial da Rússia, a Venezuela nunca foi ameaça para os EUA.

5 – A NATO procurou implementar-se na Ucrânia para atacar a Rússia, nenhuma força militar inimiga dos EUA pretendeu alguma vez implementar-se na Venezuela para atacar os EUA.

6 – A Ucrânia perseguiu, durante décadas, a população pró russa residente em território ucraniano, a Venezuela não tem sequer uma população pró americana e ainda que a tivesse, não consta que a tivesse perseguido.

7 – A Venezuela é, de facto, uma ditadura, mas a Ucrânia anda muito longe de ser um país democrático e, aliás, tendo em conta todas as medidas de Zelensky para se manter no poder, se há um pingo de democracia na Ucrânia, então, também há na Coreia do Norte.

8 – Por último, mas não menos importante,ontem mesmo caiu por terra a principal acusação de Trump a Maduro sobre este ser líder de um cartel que, na realidade, nem sequer existe. Aliás, todas as acusações de Trump para legitimar o rapto e detenção de Maduro em solo americano, não têm qualquer fundamento à luz do Direito Internacional, já a ação de Putin contra a Ucrânia tem, observado o direito à defesa do território russo.

Em suma, comparar a Ucrânia com a Venezuela só é possível para 3 tipos de pessoas:

1 – Chalupas.

2 – Ignorantes, que não têm a mínima ideia do quão ignorantes são.

3 – Cegos ideológicos e/ou intelectualmente desonestos.

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Os Idiotas úteis de estúdio e a subserviência em prime time

(Luis Rocha, in Facebook, 08/01/2026)


Se há coisa verdadeiramente notável neste episódio do rapto de Maduro não é a ilegalidade da operação norte-americana, essa é evidente para qualquer pessoa, mesmo que não tenha passado os olhos por um manual básico de direito internacional, mas sim o espectáculo deprimente protagonizado pelos comentadores portugueses do costume, essa fauna residente de estúdio que surge sempre que Washington estala os dedos.

São os mesmos de sempre. As mesmas caras. As mesmas opiniões. Mudam os cenários, trocam os grafismos, mas o discurso é rigorosamente idêntico ao do século passado, com o mesmo brilho servil no olhar. Quando os Estados Unidos invadem, raptam ou bombardeiam, não é agressão, é “liderança”. Não é ilegalidade, é “determinação”. Não é crime, é “ordem internacional baseada em regras”, desde que as regras sejam escritas em inglês e aplicadas selectivamente.

Enquanto o Departamento de Justiça dos EUA recua discretamente na acusação de que Maduro liderava um cartel de droga estruturado, desmontando o pretexto central da operação, cá por casa os comentadores continuam firmes, como se nada tivesse acontecido. Ignoram o detalhe inconveniente. Passam por cima como quem pisa um tapete. Para eles, a realidade não corrige a narrativa, a narrativa corrige a realidade.

É quase enternecedor vê-los explicar, com ar professoral, que isto é “inevitável”, “necessário” ou “infelizmente indispensável”. Infelizmente para quem? Para o direito internacional, certamente. Para a soberania dos Estados, sem dúvida. Mas não para estes especialistas do saloismo ideológico, cuja função principal é normalizar o inaceitável e embrulhar a brutalidade em linguagem tecnocrática.

E depois temos ainda o tom moralista. Esse nunca falha. De repente, figuras que nunca se indignaram com Guantánamo, Abu Ghraib ou as dezenas de invasões baseadas em mentiras descobrem uma súbita paixão pelos “direitos humanos”. Claro que não explicam como é que esses direitos são promovidos através de raptos, prisões arbitrárias e violações flagrantes da Carta das Nações Unidas. Detalhes. Pormenores. Coisas menores que atrapalham a opinião formatada.

O mais patético é que muitos destes comentadores se apresentam como “realistas”. Realistas de microfone aberto, claro. Porque o verdadeiro realismo dir-lhes-ia que este filme já foi visto demasiadas vezes. Noriega, Saddam, Kadafi, sempre o mesmo guião, sempre a mesma propaganda, sempre os mesmos aplausos. E sempre, invariavelmente, o mesmo desfecho caótico que depois fingem não ter apoiado.

Mas o idiota útil português tem uma particularidade no seu ADN. A subserviência com pedigree histórico. Há ali qualquer coisa de herança mental do Estado Novo, aquela ideia entranhada de que Portugal é pequeno demais para pensar por si próprio e que o melhor é alinhar, obedecer e agradecer. Ontem era Londres, hoje é Washington. Muda o dono, mantém-se a trela.

Quando Trump manda, eles acenam. Quando os EUA recuam na acusação, fingem que não ouviram. Quando o direito internacional é atropelado, fazem de conta que é um passeio pela natureza. Tudo para não desafinar do coro atlântico, tudo para não perder o convite para o próximo painel televisivo.

E assim se constrói o consenso artificial. Não com debate sério, mas com repetição exaustiva. Não com pensamento crítico, mas com frases feitas. Não com jornalismo, mas com catequese geopolítica.

No fim, estes comentadores não informam, domesticam. Não analisam, legitimam. Não esclarecem, adestram a audiência para aceitar que há países soberanos e há territórios disponíveis, há líderes julgáveis e há líderes intocáveis, há crimes condenáveis e há crimes estratégicos.

O rapto de Maduro não é apenas um atentado ao direito internacional. É também um reflexo desconfortável da mediocridade intelectual instalada em grande parte do comentário político português. Um comentário que não questiona o poder, mas que o serve. Que não incomoda, mas tranquiliza. Que não pensa, mas repete.

E enquanto os idiotas úteis de estúdio aplaudem mais um acto de força como se fosse virtude, o mundo desliza, passo a passo, para um estado em que a lei é opcional e a soberania é negociável. Depois, quando a barbárie bater à porta errada, perguntarão, com ar genuinamente espantado, como foi possível chegar aqui.

A resposta, claro, estava todos os dias na televisão.

Beijinhos e até à próxima…

Referências consultadas:

https://www.reuters.com/world/americas

https://www.bbc.com/news/world

https://www.icrc.org/…/what-international-humanitarian-law

https://www.un.org/en/about-us/un-charter

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