m alguns lugares restritos no mapa choveu granizo, mas, de resto e de norte a sul, os primeiros dias de Setembro trouxeram apenas uma chuva miudinha aos campos, à disposição dos espíritos e à vida política. Desde as areias de Monte Gordo, um mês antes, Marcelo foi alimentando as expectativas da imprensa sem notícias com a segunda volta do Conselho de Estado, marcada para a primeira semana de Setembro. Aí, avisou ele, teria ocasião de proferir a intervenção final — aliás, já escrita, houvesse o que houvesse —, porém dando antes generosamente o direito a António Costa de se defender da previsível catanada. Mas Costa, repousado das férias, optou por aquilo que qualquer estratego aconselharia: se a sentença já estava dada, mais valia abdicar da defesa. E parece que Marcelo ficou assim meio sem chão, desarmado pelo silêncio da vítima e desarmado pelos avisos que, concertado ou não com o primeiro-ministro, o governador do Banco de Portugal lançara para cima da mesa dois dias antes. Que sentido faria voltar à carga com o caso TAP e o caso Galamba, voltar a falar da “folga” orçamental ou da “justa luta” dos professores quando Mário Centeno alertava para uma possível recessão no horizonte próximo importada de fora, na miragem da “folga”, que afinal não é assim tanta, e na necessidade de continuar a reduzir a dívida para “não sermos outra vez apanhados desprevenidos”? Quando na véspera a Rússia e a Arábia Saudita tinham mais uma vez feito subir os preços do petróleo e a guerra da Ucrânia, cuja continuação Marcelo tão entusiasticamente apoiara na sua visita a Kiev e que é razão primeira para todos os problemas económicos que a Europa e Portugal enfrentam, promete assim eternizar-se sem fim à vista e com o aplauso geral de quem nos governa?
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO
Não, não há almoços grátis. Não há sol na eira e chuva no nabal. Não há guerras que sirvam aos povos e não aproveitem aos vendedores de armas, de alimentos e de energia. Não há PRR que nos salve, não há dinheiro que chegue para fazer funcionar uma economia paralisada, não há planeta que resista a tamanha criminosa estupidez.
De que mais resta falar se todos os dias somos confrontados com imagens apocalípticas de seca ou inundações até em lugares inimagináveis há uns anos, de incêndios imparáveis ou icebergues a desfazerem-se no oceano, e os líderes que elegemos só pensam em mais armas, mais munições, mais aviões para a guerra da Ucrânia? Vamos entreter-nos a falar do beijo de Rubiales em Espanha, da proibição da abaya em França ou da heróica revolta do adjunto do ministro Galamba?
Temos então, aqui, a “birra”, ou o “amuo”, de António Costa no Conselho de Estado a dar origem àquilo que Luís Montenegro, sem mais, classificou como “a mais grave crise institucional” de que ele tem memória. Ora cá temos, assim, uma crise institucional para nos animar e desviar as atenções nesta rentrée de chuva miudinha. Mas como não há milagres, o essencial permanece. E o essencial são as escolhas, como disse há tempos Marcelo, antes de a seguir começar a desdizer-se: governar é escolher. Por exemplo: pagamos os tais 6 anos, 6 meses e 23 dias aos professores, acumulando mais da despesa permanente de que fala Mário Centeno, ou investimos o dinheiro na construção de habitação pública para os jovens e a classe média? Investimos nas Forças Armadas ou na Saúde? Em comboios do século XXI que tirem os carros da estrada ou em radares para multar os carros na estrada? Agravamos a despesa pública com mais apoios e subsídios ou desagravamos a sério os impostos e apostamos na criação de riqueza pelos privados?
Ou, como até aqui, continuamos a apostar que há dinheiro para tudo — para satisfazer todos os lobbys, todos os grupos de interesses e todos os eleitorados — e não é preciso fazer escolhas?
2 Com o indisfarçável entusiasmo que sempre põe nestas coisas “disruptivas”, o “Público” noticiou com grande destaque que “a Bienal de São Paulo conta outra história de Fernão de Magalhães”. Fiquei curioso: o que levaria uma exposição de arte a desvendar uma outra versão da extraordinária história desse navegador do século XVI para além do facto de Magalhães reunir em si características hoje quase interditas nos círculos artísticos — ser homem, branco, ao que se sabe heterossexual e, pior ainda, português e logo de Quinhentos? E que nova versão seria essa digna de merecer duas páginas num jornal de referência, chamada de primeira página e todo esse destaque na Bienal de S. Paulo? Acaso teriam descoberto que ele, afinal, não imaginou e comandou uma expedição de circum-navegação que deu a volta ao mundo, provando que a Terra era redonda, que chegou lá abaixo à Terra do Fogo e descobriu a passagem do Atlântico para o Pacífico, depois imortalizada com o seu nome, que foi o primeiro navegador a cruzar todo o Pacífico, que assim baptizou, e que morreu em combate em Mactan, nas Filipinas, aos 41 anos, não podendo fazer parte dos 18 sobreviventes que, três anos depois da partida, regressaram a Espanha, completando, em 1522, uma das mais fantásticas aventuras humanas? Que teria a Bienal descoberto de novo que tanto entusiasmou o “Público”? Pois parece que descobriram que Magalhães não foi morto em combate pelo chefe tribal da ilha de Mactan, Lapu-Lapu, mas sim pela sua mulher — que assim, por proposta do cineasta/escultor filipino Tidiak Kahimit (a quem a humanidade tanto deve), é justo passar a ser ela a heroína da história, pois que matou o homem que se atreveu a dar a volta ao mundo numa casca de noz e ir incomodar os filipinos no seu exaltante remanso. E, então, a Bienal dedica à heroína uma escultura à entrada, da autoria do dito cineasta/escultor, e antes de se passar por um “espaço multimédia e que é também — explica o “Público” — um espaço de encontro e discussão”, baptizado com o nome arrebatador de “Sauna Lésbica”. E tudo, todavia, acontecendo num edifício desenhado por um dos mais extraordinários artistas do nosso tempo, Oscar Niemeyer — que, fosse ainda vivo, não teria direito a convite, pois que, tal como Magalhães, sofria de três males hoje sem remissão: ser homem, branco e heterossexual. E tudo parte integrante do objectivo central da Bienal, que é, ensina-nos ainda o “Público”, o de “coreografar um novo pensamento capaz de combater a negação dos saberes não hegemónicos”. Razão pela qual certamente nós, contribuintes portugueses, estamos lá representados por dois artistas de raça negra, cujo nome vocês jamais ouviram e escolhidos pela nossa curadora, Grada Kilomba. A mesma que há uns tempos protagonizou uma feroz discussão — acompanhada ao pormenor pelo “Público” —, envolvendo todos os crocodilos excelentíssimos que zelam pela nossa cultura, a qual consistia em saber quem merecia representar Portugal na Bienal de Veneza: se uma mulher negra ou um branco que se apresentava como o primeiro artista sem sexo definido. Excluindo a primeira, estávamos perante um caso de machismo e racismo; excluindo o segundo, estávamos perante um caso de atentado aos direitos LGBTI. Após fascinantes e exaltadas discussões, e sem que jamais o jornal ou outrem nos tivesse mostrado qualquer coisa da obra de ambos os candidatos, ganhou o segundo. Mas, como se vê, neste pequeno mundo fechado nunca se perde de vez.
Agora, porque têm de meter o Fernão de Magalhães ao barulho, mais de 500 anos sobre a sua morte, é o que me ultrapassa. Confesso que já não me resta paciência alguma para este masoquismo diletante com que nos comprazemos a denegrir uma História de que qualquer outro povo se orgulharia todos os dias. Sim, eu conheço a saga da escravatura e do colonialismo sem freio, e tudo o mais, e tenho sobre isso o mesmo juízo implacável que qualquer pessoa informada tem de ter. Mas também conheço a história dos outros povos à época — colonizadores e colonizados, brancos, negros, amarelos e índios, dos que chegavam e dos que viam chegar — e das barbaridades que todos cometiam. Nada disso me impede de pasmar de admiração quando vejo os sinais no mundo da passagem desse pequeno povo, de escassa gente e desmedida coragem, que, tendo apenas o mar pela frente, foi por ele adentro — para fazer muitas coisas boas e más, mas também para saber o que havia para além do conhecido, descobrindo ilhas e estreitos, navegando oceanos virgens e inventando os Brasis que hoje conhecemos.
Será talvez um argumento infantil, mas quando vejo esta gente confundir alhos com bugalhos e querer julgar a História pelos olhos de hoje, vendo apenas o mal e não também o fantástico, dá-me vontade de lhes perguntar porque não experimentam embarcar numa coisa parecida com aquilo a que então chamavam naus e tentarem chegar vivos às Berlengas.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
Vim eu de férias…. Li as notícias sobre África… Falavam de uma intervenção militar no Níger… Uma intervenção rápida da ECCOWAS (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental) … Dizem que para repor a “normalidade constitucional”! Esperei encontrar uma cidade e vida urbana transformadas! Uma consciência antiguerra e anti “intervenções” militares, como nunca antes tinha sucedido!
Pensei eu: chegarei à cidade e verei as ruas de Lisboa carregadas de outdoors da Câmara de Lisboa, dizendo “Força Níger”, ou “estamos com o Níger”; anúncios dos hipermercados, das cadeias de fast food e detergentes, passam a ter em fundo as cores laranja, branca e verde, da bandeira do país; de Pedro Proença a António Costa, passando por Montenegro, Ventura e até o Cardeal patriarca, todos a exprimirem o seu apoio inequívoco ao Níger; o Conselho de Estado, ontem reunido, adicionando parágrafos à sua resolução para apoiar o Níger.
Pensei em ruas transformadas e conscientes… Pela primeira vez na história, alertadas para a importância da paz, para o fim do neocolonialismo e do imperialismo. Imaginava que, ao entrar na cidade de carro veria, nas ruas, muitos transeuntes, principalmente aqueles de “classe média” (seja lá o que isso for), mais alta ou baixa, e muitos ricos, estrangeiros do norte da Europa e até alguns taxistas, todos carregados de bandeirinhas na lapela, com as cores do Níger.
Imaginava eu, já a correr pelas notícias na internet, no zapping das TVs: Nos jornais, nos telejornais, as Anas Gomes, os Rogeiros e os Milhazes, todos em coro anunciando, tão efusiva como mordazmente: “estamos com o Níger”! Estava certo de que, com tanta ou mais efusividade que a usada para com o regime de Kiev, também aqui a alma “solidária”, “fraterna”, “humanista” e “democrata”, não deixaria que um país pobre, o que tem menos qualidade de vida do mundo (último lugar do IDH da ONU em 2020), seja ameaçado pelas potências africanas ocidentais, para mais, quando estas estão a ser impulsionadas pela colonialista, chauvinista França, pelos imperialistas hegemónicos EUA e pelo seu apêndice geográfico, a UE.
Desta vez não falha! Pensei. A “guerra” da Ucrânia abriu os olhos do povo para a necessidade de se pararem as agressões a países que não as tenham provocado, COMO SE PASSA COM O NÍGER!
O choque com a realidade não se fez esperar. Afinal, do Conselho de Estado só veio apoio ao regime corrupto, cleptocrata e tirânico de Kiev. Nem os problemas do país – gravíssimos -, nem os problemas do Níger, nem os de África, Palestina, Síria, mereceram qualquer menção.
“Portugal é um país livre”, dizem-nos… “Portugal não é um país racista”, repetem. “Portugal está sempre ao lado da liberdade”, afirmam. “Portugal não apoia invasões e guerras de agressão”, transmitem, ininterruptamente a respeito do… Não! Do regime de Kiev.
O Níger, um país riquíssimo em minerais, um dos principais fornecedores de urânio para as centrais nucleares francesas, apesar disto tudo, é o país menos desenvolvido do mundo. Este país, este povo, farto da exploração e consciente de que o terrorismo que o acossa é fomentado pelas mesmas potências que o exploram, decidiu apoiar, de forma massiva, um golpe de estado, que retirou dos cargos os anteriores órgãos de soberania. Acto contínuo, à embaixada francesa decidiram, também, exigir a retirada das tropas aí estacionadas em bases militares.
A França, um país que continua a usar do poder económico e militar que possui, para controlar de forma neocolonial uma cadeia de países da África Central, designada por Sahel, suga toda a riqueza, apodera-se do valor acrescentado, através da manutenção de uma elite governamental corrupta, submissão aos poderes e interesses ocidentais, sujeitando o seu povo à mais inominável miséria. É esta potência europeia que, apoiada pelos EUA e todo o Ocidente, oprime com mão de ferro um país como o Níger, tudo fazendo para impedir a sua libertação.
Se, no Ocidente, servidores, serviçais e lacaios, cúmplices e ingénuos, desde a primeira hora, se colocaram ao lado do regime de Kiev, nascido de um golpe de estado em 2014, considerando legítimo esse acto usurpador… Já no caso do Níger, depressa calam, desconhecem ou condenam um golpe de estado o qual, ao contrário daquele que instituiu o regime neofascista de Kiev, não visou tomar o poder por parte de uma facção ou etnia, contra outra.
No caso da “intervenção” Russa, tal exército ruminante e serviçal, depressa e veementemente condenou o Kremlin pela sua actuação, num acto inaudito, nunca presenciado, impensável e hipócrita de condenação de uma intervenção militar… Tal como no caso do Iraque, Afeganistão, Jugoslávia, Sérvia, Palestina, Síria ou Iémen, também quanto ao Níger, este exército de zombies cerebrais, passou a ignorar, calar ou desconhecer as ameaças que as potências ocidentais estão a levar a cabo para obrigar a ECCOWAS a encetar uma “intervenção militar” em seu nome. Uma vez mais, a “opinião pública” ocidental convive bem como as maquinações que o Ocidente colectivo desenvolve, no sentido de colocar africanos contra africanos, exigindo a potências regionais, como a Nigéria, que façam o trabalho sujo, que o bloco imperialista e hegemónico não quer fazer.
Mas não acaba aqui a hipocrisia, o cinismo e o criminoso sacudimento da “água do capote” de cada um. Se tal “opinião pública” apoiou, aceitou ou se conformou com as sanções unilaterais à Rússia, “porque era um estado agressor”, disseram… Desta feita, os mesmos que as apoiaram contra a Rússia “porque era agressor”, agora apoiam-nas contra o Níger, que é a vítima da planeada agressão.
Daí que eu pergunte: que cor precisam de ter as pessoas para que a “opinião pública” seja com elas solidária? Que língua precisam de falar? De que região ou de que país precisam de ser? O quão ricos têm de ser? Por quem é que têm de se sentir agredidos? E quem é que decide quem é o agressor e quem é a vítima?
Assim, sem descortinar qualquer contradição, esta “opinião pública”, cuja consciência crítica há-de ser uma coisa pavorosa, admite que Joseph Borrel, espanhol de origem e quadro da União Europeia (da Europa, certo?), ordene a uma organização africana que aplique sanções e intervenha militarmente contra outra! Todas as teorias de um Kremlin “imperialista”, “colonialista” e “militarista” que os afligem, logo vão por água abaixo quando o agressor, o imperialista e o colonialista passa a ser, precisamente uma potência ocidental.
O mesmo ódio que sentem por Putin, quando vêem o presidente russo exigir à Ucrânia que se renda, logo se transforma em silêncio, aceitação e complacência, quando quem exige são os EUA, ou quando Macron surge que nem um louco nas TV’s a exigir que seja reposta uma “normalidade constitucional” que apenas à França interessa e que apenas a ela enriquece. E esta “opinião pública” vê fazer isto relativamente a um país que não é o seu, de um continente que não é o seu. E nunca estranham quando, as mesmas TV’s que o transmitem, são as mesmas que nos dizem que a África é livre, que o colonialismo é russo e o chinês, que nós não somos racistas e respeitamos os direitos humanos.
Tudo se torna ainda mais hediondo e contraditório quando, mais recentemente, o Gabão sofreu também um golpe de estado militar e… Surpresa das Surpresas… Não existem ameaças de Macron, exigências de Borrel, sanções, “intervenções”, nada!
Mas, que raio! No caso do Níger…. É a ferro e fogo! No caso do Gabão… Silêncio!
A explicação é tão simples e previsível que até chateia. No caso do Níger, as forças golpistas são de esquerda, de raiz popular, simpatizantes da URSS e agora estão com a Rússia. No caso do Gabão, as forças são de direita, com pouco respaldo popular e manipuladas pela CIA. O facto é que, vendo a CIA que os africanos estão com a França pelos cabelos, sendo mais tolerantes aos EUA, logo se apressou a tomar o movimento subversivo nas suas mãos, antes que fossem as forças populares, anti-imperialistas e anticoloniais a fazê-lo, passando o Gabão a figurar entre os países da África central (a seguir ao Mali, Burkina Faso e República Centro Africana) que o bloco imperialista ocidental já não controla. Trata-se, assim, de uma tentativa de estancar um movimento de libertação imparável.
Se esta dualidade comportamental tudo revela sobre a natureza absolutamente vergonhosa, desumana e imoral do poder ocidental, para a tal “opinião pública” nada se passa. Afinal, ninguém a mandou colocar a bandeirinha na lapela.
Enquanto África se liberta desta desumana indiferença, uma vez mais, pergunto: para essa “opinião pública”, que cor precisam de ter os povos para que sejam dignos da sua fraternidade?
Dia 30 de Agosto de 2023, o presidente da república portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, falou mais de duas horas na “Universidade” de Verão do PSD, em Castelo de Vide.
A Ucrânia ‒ país onde Marcelo Rebelo de Sousa tinha estado uma semana antes e onde discursou ‒ foi o tema único sobre o qual quis falar em Castelo de Vide e o tema que, acrescentou, justificava a sua presença naquele fórum partidário.
«Numa longa intervenção inicial, [Marcelo Rebelo de Sousa] procurou fazer uma «pré-história da guerra», passando pela anexação da Crimeia e pelas responsabilidades do ex-presidente Donald Trump no aumento da influência da Federação Russa, e deixou elogios à capacidade de resistência do povo ucraniano e de liderança do Presidente Zelensky» («Marcelo quer ser lembrado como “presidente de proximidade,” apesar dos riscos». Sapo24/Lusa, 31 Agosto 2023).
Se lermos este resumo à luz do discurso que Marcelo Rebelo de Sousa fez na Cimeira da Plataforma da Crimeia que teve lugar em Kiev em 23 de Agosto [1],podemos imaginar facilmente os maus-tratos que a verdade histórica e a realidade geográfica atinente às guerras na Ucrânia terá sofrido na sua intervenção em Castelo de Vide [2].
Seja como for, há dois factos recentes sobre a Ucrânia que ‒ aposto um café com quem quiser ‒ Marcelo Rebelo de Sousa não mencionou, não mostrou, nem comentou aos alunos dessa “universidade”.
1.º Que Zelensky não aceitou a condecoração que ele, Marcelo Rebelo de Sousa, lhe atribuiu em 15 de Fevereiro de 2023 e que ele tencionava entregar-lhe pessoalmente durante a sua visita a Kiev, de 22 a 25 de Agosto. Refiro-me ao Grande-Colar da “Ordem da Liberdade”.
2.º Que Zelensky publicou no Zelensky/Official, o seu canal Telegram, um vídeo de uma sua recente visita à linha de frente, onde o vemos, com um ar circunspecto, a informar-se, junto de Andriy Biletsky, sobre o andamento da grande contraofensiva ucraniana.
Examinemos então, pela mesma ordem, o interesse político destes dois factos.
1. A Ordem da Liberdade para um liberticida patenteado
No sítio oficial de informação da Presidência da República Portuguesa, no separador “ordens honoríficas portuguesas”, subseparador “ordens nacionais”, encontra-se a seguinte informação sobre a Ordem da Liberdade: A Ordem da Liberdade assinalou a Revolução dos Cravos e está associada às causas da luta pela Liberdade e à Defesa dos Direitos Humanos. A Ordem da Liberdade destina-se a distinguir serviços relevantes prestados em defesa dos valores da Civilização, em prol da dignificação da Pessoa Humana e à causa da Liberdade.
O Grande-Colar da Ordem da Liberdade é o mais alto grau da Ordem e é concedido pelo Presidente da República a Chefes de Estado estrangeiros. O Grande-Colar pode ainda ser concedido pelo Presidente da República a antigos Chefes de Estado e a pessoas cujos feitos, de natureza extraordinária e especial relevância para Portugal, os tornem merecedores dessa distinção.
Num artigo publicado em 9 de Fevereiro de 2023 no blogue Tertúlia Orwelliana [“Volodymyr Zelensky é “a figura do ano 2022” (para o Financial Times, a Time, etc.), ver aqui. É, de facto, mas pelas piores razões»] [3] ‒ seis dias antes, portanto, de Marcelo Rebelo de Sousa lhe ter atribuído o Grande-Colar da Ordem da Liberdade ‒ demonstrei, com base num grande acervo de factos disponíveis em fontes abertas, que o presidente Zelensky é um LIBERTICIDA consumado e inveterado (cf. secção 4 e 5 do referido artigo), além de um corrupto e nepotista patenteado (cf. secção 2 do mesmo artigo).
Respigo aqui desse artigo, a título de exemplo, apenas dois feitos do extenso currículo de liberticida do presidente Zelensky. Um deles diz respeito ao ataque que Zelensky moveu contra a liberdade de constituição e acção de partidos políticos de oposição ao poder estabelecido. O outro diz respeito à perseguição que Zelensky tem movido aos padres, monges e crentes da Igreja Ortodoxa Ucraniana, pelo simples facto de esta igreja estar ligada há muitas centenas de anos à Igreja Ortodoxa Russa.
Em 21 de Março de 2022, Zelensky invocou a lei marcial para suspender de uma assentada onze (11) partidos de oposição, acusados de serem pró-russos. Em 3 de Maio uma lei do parlamento ucraniano, elaborada pelos deputados do partido do presidente, Servente do Povo, confirmou essa decisão, transformando a suspensão em proibição — lei essa que Zelensky, por sua vez, promulgou em 14 de Maio. Em seguida, em Junho de 2022, os tribunais administrativos de primeira instância ‒ e, nos casos em que houve recurso, os tribunais administrativos de segunda instância e até, pelo menos num caso (o do partido Plataforma da Oposição — pela vida) ‒ o supremo tribunal da Ucrânia, em sessões à porta fechada, onde não foram admitidos sequer jornalistas, determinaram o confisco dos bens destes partidos (sedes, viaturas, etc.) em favor do Estado ucraniano!
Os partidos proscritos abrangem um largo espectro da oposição ucraniana, da direita à esquerda, incluindo a esquerda social-democrata (Partido Socialista da Ucrânia) e também, pela segunda vez, o Partido Comunista da Ucrânia — que agora se apresenta sob a bandeira da coligação Oposição de Esquerda, depois de ter sido banido em 2015. Este partido foi proibido desde essa altura, juntamente com dois outros partidos comunistas, de utilizar a palavra “comunista” e a insígnia da foice e do martelo para se identificar, em virtude das chamadas leis de “descomunização” de 2015, incluindo a lei 317-VII.
Ainda que com manifesta relutância, a Comissão de Veneza do Conselho da Europa, na sua sessão plenária de 18-19 de Dezembro de 2015, não pôde deixar de condenar a lei 317-VII como sendo incompatível com um Estado respeitador das liberdades de expressão, associação, reunião e de realização de eleições, todas elas consagradas na Convenção Europeia dos Direitos Humanos e noutros instrumentos internacionais e regionais da mesma índole.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…Quem acredita que a Comissão de Veneza do Conselho da Europa fosse capaz, actualmente, de condenar Zelensky por violar onze vezes mais a Convenção Europeia dos Direitos Humanos do que o seu antecessor Poroshenko?
A lista dos 11 partidos proscritos é a seguinte: Plataforma de Oposição — pela Vida (o maior partido de oposição, que dispunha de 43 dos 451 deputados do parlamento ucraniano), Bloco da Oposição (o segundo maior partido dos 11 proscritos, que dispunha de 6 deputados no parlamento), Nashi [= “Nosso”], Oposição de Esquerda, Derzhava [= “país”, “nação”], Partido Socialista Progressista da Ucrânia, Partido Socialista da Ucrânia, União das Forças de Esquerda, Os Socialistas, Partido de Shariy, Bloco Volodymyr Saldo. O partido Solidariedade Europeia do ex-presidente Poroshenko e cinco outros pequenos partidos parlamentares não foram abrangidos por esta proibição porque Zelensky entende, do alto da sua omnisciência, que «dizem a verdade sobre a guerra». Os partidos neonazis, como o Svoboda, Corpo Nacional, Sector de Direita, foram também deixados intocados por esta proibição porque, também eles, no omnisciente entendimento de Zelensky, «dizem a verdade sobre a guerra».
Não é só a liberdade política que foi banida na Ucrânia. Foi também a liberdade religiosa. Em 2 de Dezembro de 2022, Zelensky anunciou que tinha pedido aos deputados do seu partido, Servente do Povo, uma lei destinada a proibir todas as religiões com laços à Rússia, alegando que a medida era necessária para «garantir a independência espiritual da Ucrânia» (!!).
A partir dessa data, a perseguição aos padres, monges e crentes da Igreja Ortodoxa Ucraniana (IOU) tem-se intensificado — tentativas constantes de intimidação dos crentes e do clero da IOU à porta de locais de culto (igrejas e mosteiros) abertos ao público, através de acções de verificação de identidade efectuadas por agentes do SBU [o Serviço de Segurança da Ucrânia]; rusgas constantes nos locais de culto da IOU, com a alegação de que poderiam albergar sabotadores russos; centenas de detenções para interrogatório de clérigos e crentes da IOU; encarceramento de dezenas de clérigos da IOU acusados de serem agentes russos; repetidas acções de despejo contra os clérigos que habitam no complexo religioso Kiev-Pechersk Lavra, também conhecido como Mosteiro das Grutas de Kiev, que é o santuário histórico da Igreja Ortodoxa Ucraniana desde o século XI, museu nacional e também a residência oficial do seu chefe máximo, Onufrius, Metropolita de Kiev e Toda a Ucrânia.
Perante todos estes ataques, mesmo o New York Times ‒ cujas simpatias por Zelensky, pelo seu governo e pela sua maioria parlamentar são públicas e notórias ‒ teve de reconhecer o que não pode ser negado:
«As igrejas ortodoxas de ambos os países [Rússia e Ucrânia] compartilham os mesmos rituais religiosos, seguem o mesmo credo e rastreiam as suas origens até ao mesmo evento em 988, no Rus de Kiev, o Estado eslavo oriental que tanto a Rússia como a Ucrânia consideram a raiz dos seus países modernos. Nesse ano, o Grande Príncipe Volodymyr ‒ Vladimir para os russos ‒ de Kiev, um pagão, converteu-se ao cristianismo ortodoxo».
Assim sendo,
«Se a Ucrânia [entender, “se Zelensky”] ilegalizar um grupo religioso [entender, “a Igreja Ortodoxa Ucraniana”], ficaria entre dezenas de países que já o fizeram, mas a maioria deles são Estados autoritários que estão muito longe do tipo de democracia liberal que a Ucrânia diz ser» (Marc Santora, “Zelensky Proposes Barring Orthodox Church That Answers to Moscow Ukraine’s president.” New York Times, 2, Dezembro 2022).
Em resumo, Zelensky é um liberticida patenteado. Mas foi este homem que Marcelo Rebelo de Sousa condecorou com o Grande-Colar da Ordem da Liberdade!
Ora, acontece que Zelensky entende que nada fez para merecer condecorações, seja de quem for — afirmação através da qual mostrou ter, por uma vez na vida, toda a razão. Por esse motivo, recusou a Ordem da Liberdade com que Marcelo Rebelo de Sousa decidira agraciá-lo.
O caso poderia ter ficado por aqui, se Marcelo Rebelo de Sousa tivesse compreendido que a sorte o tinha bafejado ao oferecer-lhe uma saída airosa: regressar a penates com o dito Grande-Colar da Ordem da Liberdade imaculado, a aguardar no seu estojo a ocasião de ser entregue a um candidato merecedor de o receber. Em vez disso, segundo noticiou o jornal Observador no dia 25 de Agosto de 2023,
«Marcelo Rebelo de Sousa omitiu a informação de que o colar não foi entregue, bem como a informação de que, formalmente, Zelensky não é detentor da ordem honorífica porque não a aceitou. Aliás, o nome de Zelensky nem sequer consta do site oficial da Presidência da República onde são listados os detentores do colar. A condecoração também não foi publicada em decreto no Diário da República».
Marcelo Rebelo de Sousa (o senhor de gravata azul) e Vladimir Zelensky. Foto de João Porfírio (em Kiev, na Ucrânia). Observador, 25 de Agosto de 2023.
O sítio de informação Sapo24 (Madremedia) deu-nos, porém, uma versão do acontecido ainda mais rocambolesca, ao noticiar, nesse mesmo dia, que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa mentiu quando afirmou ter entregado a condecoração a Zelensky numa cerimónia privada.
«Recorde-se que esta quinta-feira, quando o presidente foi questionado pelos jornalistas, em Kiev, sobre se Zelensky recebeu a condecoração disse: “Recebeu, obviamente, mas recebeu em cerimónia não pública. De forma discreta, que o caracteriza nesse particular”. De acordo com o jornal [Observador], o objeto chegou apenas aos serviços e não às mãos de Zelensky».
2. Zelensky conferencia com Biletsky
Em 14 de Agosto de 2023, Zelensky publicou no seu canal Telegram um vídeo de uma sua recente visita à linha de frente para se informar in loco sobre o andamento da contra-ofensiva das tropas ucranianas. Zelensky acompanhou o vídeo de um rasgado elogio aos militares ucranianos com quem conferenciou. Ver aqui.
Quem é o comandante que vemos no vídeo, com um ponteiro na mão e um mapa estendido sobre uma mesa, a dar explicações a Zelensky, qual grande estratega militar? Pois, nada mais nada menos do que Andriy Biletsky.
Biletsky, para quem não saiba, é o fundador e chefe do Batalhão Azov uma formação paramilitar neonazi criada em Maio de 2014, a partir do seu bando armado Patriotas da Ucrânia. Os Patriotas da Ucrânia desempenharam um papel importante no golpe de Estado de Maidan, em 22 de Fevereiro de 2014, que derrubou inconstitucionalmente e pela força o presidente da república livremente eleito, Viktor Yanukóvitch. Uma das medidas tomadas pelo governo saído do golpe de Estado de 22 de Fevereiro de 2014 foi a libertação de Biletsky, que estava encarcerado desde 2011 acusado de assassinato. No seguimento dos Acordos de Minsk (2014 e 2015) que proibiam a existência de formações paramilitares autónomas, o Batalhão Azov foi, primeiro, incorporado na Guarda Nacional Ucraniana e, mais tarde, nas Forças Armadas Ucranianas com o estatuto de regimento.
O Batalhão/Regimento Azov foi uma das armas mais mortíferas que os governos de Poroshenko e de Zelensky empregaram para (i) violar diariamente os Acordos de Minsk (2014-2015) durante a primeira guerra na Ucrânia (Maio de 2014-Fevereiro de 2022), (ii) tentarem destruir as Repúblicas Populares de Luhansk e Donetsk pela força das armas e, se tivessem êxito (o que não aconteceu), (iii) conseguirem submeter as populações russófonas e russófilas desses territórios à férula da mais desenfreada russofobia.
Biletsky, o seu comandante, é também o dirigente máximo do partido político Corpo Nacional que ele fundou em 2016. O credo de Biletsky e do Corpo Nacional é idêntico ao de Stepan Bandera (1909-1959) — (i) dirigente máximo da facção mais fanática da Organização dos Nacionalistas Ucranianos e do seu braço armado, o Exército Insurrecto Ucraniano; (ii) colaborador de Hitler no Holocausto, (iii) promovido a herói nacional da Ucrânia independente, a título póstumo, pelo presidente Yushchenko em 2010; (iv) banido desse panteão pelo presidente Yanukóvytch e (v) reabilitado de novo como herói nacional pelos presidentes Poroshenko e Zelensky no regime saído do golpe de Estado de Maidan.
Em 2014, Biletsky reafirmou o seu credo:
«A missão histórica da nossa nação neste momento crítico é o conduzir as raças brancas numa cruzada final pela sua sobrevivência /…/, uma cruzada contra os sub-homens conduzidos pelos semitas» (The Telegraph, 11 de Agosto de 2014).
Podemos vê-lo na foto seguinte, em 14 de Fevereiro de 2020, à frente de um grupo de militantes do seu partido a manifestar-se diante da residência oficial da presidência da república ucraniana, em Kiev, para protestar contra a atitude considerada conciliatória de Volodymyr Zelensky relativamente a Vladimir Putin. Onde isso já vai…! Ontem adversários políticos, Biletsky e Zelensky são hoje aliados.
14 de Fevereiro de 2020. Biletsky e os seus apaniguados do Corpo Nacional em manifestação de protesto em frente à residência oficial da presidência da república ucraniana. Repare-se nos cartazes que seguram nas mãos. Retratam Zelensky como um bebé amoroso do seu papá Putin. Foto de Sergei Supinsky.
Marcelo Rebelo de Sousa disse em Castelo de Vide que nunca alimentou a «russofobia» e que aquilo a que se assistiu [na Ucrânia e no chamado “Ocidente alargado”] neste particular foi um «disparate total».
«Eu nunca alimentei a russofobia. Independentemente daquilo que se pense sobre a guerra é um disparate total aquilo que se assistiu. Que é não se toca mais compositores russos, não se passa mais filmes russos. Toda a história russa é esquecida, toda a cultura russa é omitida. Isso não existe. Isso é uma coisa sem senso. E quem pensa assim, e reage assim, perde boa parte da sua razão quando defende a causa que quer defender. É uma forma estúpida de defender uma causa» («Universidade de Verão do PSD. Marcelo desafia sucessores a serem melhores que ele em Belém». RTP Notícias, 31 Agosto 2023).
Considero ser de elementar justiça que englobemos como objecto desta apreciação de Marcelo Rebelo de Sousa sobre a russofobia os propósitos da visita que ele fez à Ucrânia e as declarações oficiais que lá produziu na sua qualidade de Presidente da República.
Notas
[1] O discurso de Marcelo Rebelo de Sousa na “Cimeira da Ucrânia” foi publicado na íntegra pela Rádio Renascença («Discurso de Marcelo na íntegra em Kiev. “A fronteira portuguesa é a fronteira da Ucrânia”». 23 Agosto, 2023 ‒ 14:52, José Pedro Frazão, enviado da Renascença à Ucrânia).
[2] Dois exemplos. No seu discurso na cimeira “Plataforma da Crimeia”, em Kiev, «o Presidente da República voltou a “reafirmar” a posição portuguesa sobre a península da Crimeia, garantindo que Portugal defende que aquele território faz parte da Ucrânia, não devendo ser uma questão separada da restante invasão, até porque os ucranianos entendem que essa invasão começou em 2014, precisamente quando aquele território foi anexado pela Rússia» (António Guimarães. «“Havia mísseis a caminho” mas Marcelo, que estava com Zelensky, não teve “medo” — teve foi vontade de anunciar um convite especial ao presidente da Ucrânia». CNN Portugal. 23 Agosto 2023).
É falso (i) que a Crimeia faça parte, ou tenha feito parte, da Ucrânia independente e (ii) que a Crimeia tenha sido anexada pela Rússia em 2014. Desmontei essas duas falsidades na secção 3 [“A colossal patranha da anexação de Crimeia pela Rússia”] do meu livro “Dissipando a Névoa Artificial da Guerra: um roteiro para o fim das guerras na Ucrânia, a paz na Europa e o desarmamento nuclear universal” (Editora Primeiro Capítulo. Agosto 2023) e, mais pormenorizadamente, no artigo “Quem anexou a Crimeia: foi a Rússia ou a Ucrânia?”, no blogue Tertúlia Orwelliana. Ver aqui.
Marcelo Rebelo de Sousa afirmou também, no seu discurso, que «embora esteja longe no Ocidente, a nossa fronteira, a fronteira portuguesa, é a fronteira da Ucrânia. E isso deve estar muito, muito claro». O que fica muito, muito claro é que Marcelo Rebelo de Sousa não tem pejo em dizer enormidades que, na boca de um aluno de História e Geografia de Portugal do 5.º e 6.º anos de escolaridade obrigatória do Ensino Básico, atestariam a sua ignorância crassa.