Mortes e pilhagens – sempre em nome dos “nossos valores”

(Thomas de Toledo, in Facebook, 17/01/2026)


Na prática, os Estados Unidos são uma ditadura. Não é o povo que decide os rumos do país. Quem escolhe, financia, molda e controla o poder são os grandes complexos da indústria armamentista, do petróleo, dos bancos e das big techs.


Já estou acostumado. Sempre que um país vai ser atacado pelos Estados Unidos, repito a mesma posição: defesa incondicional da soberania e da autodeterminação dos povos. A reação é previsível, uma avalanche de gente com a cabeça formatada pelo discurso imperialista, repetindo propaganda de guerra como se fossem verdades universais.

O roteiro nunca muda. Antes das bombas, vem a narrativa. Primeiro, rotulam o governo de “ditadura”. Depois, fabricam a ideia de um massacre generalizado e, por fim, vendem a invasão como missão humanitária. A opinião pública é preparada como terreno antes do ataque militar.

Já foi assim no Iraque, com a farsa das armas de destruição em massa. No Afeganistão, sob o pretexto de libertar mulheres, deixaram um país em ruínas e o Talibã mais forte. Na Síria e na Líbia, destruíram Estados inteiros e abriram espaço para o caos, milícias e tráfico humano. Na Venezuela, tentaram estrangular a economia para provocar colapso interno. Agora, o alvo é o Irã, seguindo exatamente a mesma cartilha.

Não adianta esclarecer que não há simpatia pelo regime local. Esse detalhe é irrelevante para quem confunde crítica política com autorização para invasão estrangeira. A lógica é binária: se o governo não se alinha a Washington, precisa cair, custe o que custar, inclusive milhões de vidas.

O discurso moral serve apenas como fachada. Nenhuma das invasões promovidas pelos Estados Unidos levou democracia, liberdade ou direitos humanos a lugar algum. O saldo real sempre foi destruição, fragmentação social e dependência econômica. A história recente está aí para quem quiser olhar sem filtros ideológicos.

As motivações reais são materiais e geopolíticas. Roubo de petróleo, controle de rotas estratégicas, sanções como arma de guerra e reafirmação de hegemonia global explicam muito mais do que qualquer fala sobre valores universais. Direitos humanos viram moeda retórica, usada ou descartada conforme a conveniência.

Defender a soberania de um país não significa endossar seu governo. Significa recusar a ideia de que uma potência estrangeira tenha o direito de decidir, à força, o destino de povos inteiros. Essa distinção básica parece impossível para quem já naturalizou o imperialismo como algo “necessário”.

A repetição desse ciclo revela menos sobre os países atacados e mais sobre quem aplaude as invasões. A cada novo conflito, fica claro que o problema central não é a existência de regimes autoritários, mas a recusa em aceitar um mundo que não obedeça a um único centro de poder.

Na prática, os Estados Unidos são uma ditadura. Não é o povo que decide os rumos do país. Quem escolhe, financia, molda e controla o poder são os grandes complexos da indústria armamentista, do petróleo, dos bancos e das big techs. As eleições existem, mas os limites do jogo já vêm definidos muito antes do voto.

Nesse sistema, presidentes são gestores de interesses económicos, não representantes populares. George W. Bush, Barack Obama, Donald Trump, Joe Biden e Bill Clinton acumulam, juntos, milhões de mortes nas suas fichas políticas.

Somados, comandaram ou deram continuidade a invasões, bombardeios, golpes e intervenções diretas ou indiretas em um número enorme de países. Iraque, Afeganistão, Iugoslávia, Líbia, Síria, Somália, Paquistão, Iêmen, Haiti, Panamá, Venezuela, entre outros. O resultado concreto não foi democracia, nem liberdade, nem direitos humanos. Foi destruição de Estados, milhões de mortos, deslocamentos em massa e regiões inteiras jogadas no caos.

Quando interessa, apoiam ditaduras explícitas. Quando não interessa, demonizam governos eleitos. Direitos humanos entram apenas como ferramenta retórica, descartável assim que o objetivo econômico é alcançado.

Chamar isso de democracia é uma farsa conveniente. O que existe é uma máquina imperialista que se recicla, troca de rostos, muda slogans, mas mantém intacta a lógica de pilhagem global. As imagens escancaram aquilo que o discurso oficial tenta esconder: não são salvadores do mundo, são gestores da guerra, do saque e da morte em escala industrial.

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A grande descoberta de Merz

(António Gil, in Substack.com, 16/01/2026)

Imagem: ‘Caminhante acima do mar de nevoeiro’, óleo sobre tela por Caspar David Friedrich

(Isto é ironia, claro).


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Aventureiros de todo o Mundo, alegrem-se, ainda há algo para desvendar na geografia do nosso planeta. Merz, o chanceler alemão acaba de fazer uma descoberta espantosa: a Rússia é um país europeu.

Provavelmente Hitler julgou estar a invadir a África sub-sahariana quando da Operação Barbarossa em busca de um vasto Lebensraum ou espaço vital. Ou então ele já sabia coisas que o pau de virar tripas entretanto esqueceu.

Claro que o conceito de Europa é mais cultural que territorial e também por isso os iluministas dos séculos XVII e XVIII não se lembrariam de questionar a Rússia enquanto membro de pleno direito da ‘grande família europeia’. Ninguém estranhava então que cazrina russa (de origem alemã) Catarina II , dita a Grande), trocasse correspondência regular com Diderot, Voltaire e Montesquieu.

E por falar nisso, as famílias reais europeias casavam seus príncipes e princesas com suas congéneres russas. Isso incluíu a Rainha (imperatriz, na verdade) Vitória. Será que o fariam com nobres da Ásia ou África? Ou dar-se-ia o caso de estarem equivocadas nessa convicção da Rússia ser uma nação europeia?

Também no capítulo cultural, a Europa desde há séculos consagrava escritores, músicos, bailarinos e pintores nascidos no vasto Império russo. Nem vou citar todos esses nomes porque correria o risco de me esquecer de alguns de suma importâncias porque, como dizia o nosso (português) Fernando Pessoa, enumerar é esquecer.

Na verdade muitos deles tinham mais leitores e público na Europa que no seu país natal. Então de onde veio essa súbita amnésia – agora corrigida por Merz, como se ele tivesse acabado de descobrir a pólvora – da Rússia como nação europeia?

Nós sabemos quem durante estes últimos anos, mais de uma década, baniu escritores russos, renomeou o Lago dos Cisnes como ballet ucraniano e retitulou pinturas russas de modo a sugerir outras origens de seus autores e temas. E também sabemos por quê.

Infelizmente essas manobras de pura manipulação encontraram muita compreensão em praticamente todos os países da Europa, sobretudo por parte de jornalistas francamente ignorantes. E outros que sendo melhor informados, recearam por seus empregos.

Mas bom, pode ser que a loucura tenha começado a reverter e esperemos que não seja tarde demais para que as evidências sejam restabelecidas. Desejavelmente teríamos então uma Europa de Lisboa a Vladivostock, como Putin chegou a propor.

Os anões políticos da Europa devem ter ficado estarrecidos com essa vastidão porque nada assusta mais a gente limitada do que saber que há mundo para lá do que sua obstruída visão abarca. Porque, como também Fernando Pessoa escreveu: ‘somos do tamanho de tudo aquilo que vemos’ e curiosamente, neste caso, ele considera que os citadinos são mais limitados do que os aldeãos. É uma boa forma de terminar esta peça, citar esse seu poema:

Eu Sou do Tamanho do que Vejo

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo…

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não, do tamanho da minha altura…

Nas cidades a vida é mais pequena

Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,

Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,

Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,

E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.


Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos – Poema VII”. Heterónimo de Fernando Pessoa.

Fonte aqui

Ironizando – ou talvez não

(Carlos Esperança, in Facebook, 16/01/2026)


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A atribuição do Prémio Nobel da Paz a uma personalidade que pediu a invasão do País para destituir o PR, ainda que fosse, como muitos outros no mundo, um reles ditador, é a degradação do referido Prémio, «da Paz». E não faltavam figuras de primeiro plano a merecê-lo, personalidades que sacrificam a vida em defesa da Paz! Ou instituições.

Que o Comité Nobel tenha cometido a bizarria de uma decisão indefensável e ridícula é uma leviandade bem mais grave do que a decisão de Marcelo de condecorar Cavaco Silva com o Grande Colar da Ordem da Liberdade, porque a primeira é uma vergonha mundial e a segunda uma infâmia local. A semelhança está nisto, Korina Machado está para a Paz como Cavaco para a Liberdade e o ato de que nasceu a venera, o 25 de Abril. A decisão do Comité Nobel é uma ofensa a quem defende a Paz e se sacrifica por ela e a de Marcelo uma injúria aos que foram vítimas ou arriscaram a vida para derrubar a mais longa ditadura europeia, para conquistar a Liberdade.

Para juntar à iniquidade o ridículo, a galardoada foi à Sala Oval, pela porta de serviço, oferecer a medalha atribuída em agradecimento pela invasão do seu País, com sequestro e rapto do PR, ignorando mesmo o desprezo a que o destinatário a vota.

Já lá vai o tempo em que o ridículo matava, hoje está normalizado e, se alguém pensava que o ridículo teria limite, deixou de poder imaginar o limite da fasquia: Trump aceitou a medalha e declarou-se merecedor!!! Foi um gesto maravilhoso! – rosnou.

Não surpreende agora, com a tradição de subserviência lusitana que comece o cortejo de oferendas dos vassalos autóctones. Durão Barroso, o mais americano dos europeus, há de oferecer-lhe a presidência das reuniões do Clube Bilderberg; Marcelo, a 42 dias de sair de Belém, dar-lhe-á as chaves do Palácio; até Montenegro lhe oferecerá o lugar de CEO honorário da Spinumviva e o bispo de Lisboa o título de Patriarca.

Qualquer dia os amigos começam a oferecer aos que mais estimam os seus títulos académicos, castrenses, eclesiásticos e, como se vê, as veneras, mas o ato não faz do destinatário catedrático, general ou cardeal. Faz dele apenas um idiota planetário.

A imagem que percorre o mundo não é uma cena ridícula do anedotário americano, é a mais absurda e estúpida demonstração de insanidade pessoal a nível global.