(Hugo Dionísio, 14/12/2023)

Os EUA quando decidiram “isolar” a Rússia criaram um problema para si mesmos. Desde há muito que Washington se esforça para que muito poucos tenham acesso à energia nuclear. Afinal, uma das salvações dos países mais empobrecidos (por causa da pilhagem ocidental) reside, precisamente, na soberania energética, através da energia nuclear. É barata, é limpa, segura, sustentável…
Uma vez obtida a independência energética, nunca mais os EUA e Europa poderão impor a sua chantagem por dominarem (hoje muito menos) as principais fontes energéticas, como o petróleo e o gás.
Outra frente de combate ao desenvolvimento, independência, soberania e liberdade dos países empobrecidos reside na ideologia verde. Não que não tenhamos de defender o planeta dos danos que a ganância do capitalismo ocidental provoca no mundo, ou que não tenhamos de controlar a poluição…
Mas, a verdade é que os principais países a propagarem a ideologia verde, são, precisamente, os que maiores níveis de poluição per capita apresentam.
Como não querem perder os seus privilégios e ciclos de acumulação, oprimem os países empobrecidos levando-os (e obrigando também) a adoptar agendas verdes que lhes são muito danosas para a elevação da sua base material. O Brasil é um exemplo e Lula, com todas as suas qualidades, vive nessa contradição.
A Rússia, aproveitando o isolamento, e agindo à chinesa, aproveitou a crise como uma oportunidade para não ter de cumprir as exigências ocidentais, impostas através da agência internacional de energia atómica.
Então, o isolamento da Rússia é bom para o mundo, porque democratiza o acesso à energia (Wellington fala da Rosatom, a empresa líder mundial e dominante em matéria de energia atómica), permitindo o desenvolvimento dos países antes oprimidos. Mas o “isolamento” da Rússia de Putin, demonstra outra coisa: o preço de fazer negócios com o Ocidente é muitíssimo elevado e impossível de sustentar.
A Rússia, para negociar com o Ocidente, mesmo em posição de dependência e desvantagem (era um fornecedor barato de matérias- primas, energia e produtos derivados e intermédios de baixo valor acrescentado), prescindia da sua própria liberdade e com ela, da sua Soberania. Com os danos que tal tinha para o seu povo e para os povos que poderiam beneficiar da liberdade russa. Se a URSS libertou muitos povos do colonialismo, a Rússia, tal como a China, agora pode libertá-los da pobreza.
Um, fornecendo energia e matérias-primas, o outro tecnologia e infraestruturas. A Rússia é então um exemplo para o Brasil de Lula. Enquanto o Brasil não se libertar do jugo imperial, nem que seja pela força (como fez a Rússia, mesmo não o querendo), não lhe será possível cumprir o seu papel no mundo, nem para si, nem para os outros países. Porque viver na dependência do imperialismo é isso mesmo: é prescindir da sua liberdade , independência e soberania.
Não existe papel para os vassalos que não seja o da dependência. Está mais do que estudado, desde que Engels o escreveu há mais de 100 anos.
Daí que Lula tenha de fazer essa difícil escolha: sair de cima de um muro (entre ocidente e maioria global) cuja posição é insustentável; abraçar com coragem o caminho em direcção à sustentabilidade, suportando-se apenas e tão só na maioria global composta por 85% da população mundial.
Não sou, contudo, ingénuo ao ponto de não saber que Lula tem muitas barreiras pelo caminho. Uma elite submissa aos EUA que detém, no Brasil, a propriedade dos principais factores de produção e a maioria do capital acumulado; um povo inculto e despolitizado que segue a propaganda ocidental, como se se tratasse de uma bíblia; um país fracturado e dividido em que a influência da CIA e suas ONG’s, seja através da ideologia woke, seja através da ideologia neoliberal, conservadora), leva a iguais resultados: revolução colorida.
Considero, contudo, que se existe alguém no Brasil que tem a capacidade, o carisma e a força popular para encetar essa verdadeira revolução é Lula. Assim o escolha fazer. Não existem caminhos fáceis para a liberdade, e a Rússia, sem querer (a Rússia mesmo assim tentou manter os negócios com o Ocidente até não mais poder), está a demonstrá-lo e todos ganhamos com isso.
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