A gente da guerra

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 22/12/2023)

(Porque publico amiúde os textos do Miguel Sousa Tavares, ainda que discorde de muitas das suas posições? Pela coragem e a frontalidade com que defende essas mesmas posições. Este texto, sobre a guerra na Ucrânia e sobre o genocídio em curso em Gaza, é disso exemplo. Nenhum comentador, nenhum escriba frequente na comunicação social portuguesa – que eu tenha lido e leio quase tudo -, subscreveu, até à data, um libelo tão contundente contra a gestão que o Ocidente está a fazer dos conflitos naqueles dois palcos, ainda mais publicado no Expresso, esse bem pensante “jornal de referência”.

A esta hora, já haverá uivos dos belicistas a apelidarem-no de “propagandista russo”, como me acabam de apelidar a mim em dois comentários no blog e, em jeito de ameaça, dizendo que a polícia já me anda a investigar! (Ver aqui e aqui). Sim, a censura começa a ameaçar as vozes livres. Eu não quero acreditar que a liberdade de expressão já esteja em causa, ao ponto de ser já “caso de polícia” mas, se calhar, estou a ser ingénuo. A polícia que venha e me diga qual a lei que estou a desrespeitar, quando publico as opiniões de quem desalinha do coro das ovelhinhas.

Estátua de Sal, 22/12/2023)


Dizem-nos que, se Putin vencer, entrará Europa adentro; se perder, usará a arma nuclear. Admitindo que ambas as fábulas são verdadeiras, o que devemos nós preferir: a vitória ou a derrota da Rússia? Talvez a paz, não?


Se o resultado final não fosse trágico e medido em milhares de vidas destruídas, seria risível ler na nossa imprensa o discurso a favor da guerra dos advogados oficiosos da NATO — e agora também de Is­rael — para a continuação das guerras “justas” e “indispensáveis”. É facto que, no essencial, reproduzem as teses dos seus intelectuais de estimação — os Timothy Garton Ash, Francis Fukuyama ou o intelectual pop Bernard-Henri Lévy, entre outras distintas vulgaridades — que regularmente trazem a Lisboa, pagos a peso de ouro, para dizerem monotonamente o mesmo. Mas os nossos, talvez porque sejam mais mal pagos ou menos vistosos, fazem voluntariamente o papel de tradutores simultâneos da única versão da História aceite nas chancelarias e nos areópagos internacionais do Ocidente, onde os nossos destinos se decidem — sem direito a contraditório nem sequer a dúvidas.

Porque a versão deles é simples, como convém ao convencimento de incautos. A luta da Ucrânia e a de Israel é a mesma, é a do Ocidente e dos seus valores contra a barbárie. Mesmo quando a luta de Israel contra a barbárie é, em si mesma, uma demonstração de barbaridade como nunca vista neste século XXI — “terrorismo”, disse-o com todas as letras o Papa Francisco. Ou mesmo quando Inglaterra, farol dos valores ocidentais e pátria da Magna Carta, se prepara para renunciar à Declaração Universal dos Direitos do Homem e sair da jurisdição do Tribunal Internacional dos Direitos Humanos para poder deportar para o Ruanda, sem distinguir, emigrantes económicos e requerentes de asilo político, de onde poderão ser reexportados para o seu país de origem e para a morte. A Hungria, esse “papagaio de Moscovo”, dizem eles, opôs-se à entrada da Ucrânia na UE não porque a Ucrânia esteja em guerra, não porque seja um dos países mais corruptos do Ocidente, não porque (tal como na Hungria) lá não exista Estado de Direito ou porque a sua entrada vai sugar todos os fundos de solidariedade europeus — tudo factos incontestáveis e incómodos —, mas porque, dizem, Putin não quer ver a Ucrânia na UE, quando a verdade é que isso é o lado para que ele deve dormir mais confortado.

Na guerra da Ucrânia, o momento, para os advogados da NATO, é de declarado desconforto, quase desespero. As coisas não correm bem no campo de batalha, onde houve, desde o início, dois erros de análise sucessivos: primeiro, foi Putin que imaginou uma caminhada fácil, desconhecendo que há muito que a NATO estava a prever a invasão e a treinar e a preparar as Forças Armadas da Ucrânia para ela; depois, foi a própria NATO que convenceu Zelensky de que podia ganhar a guerra com o armamento que lhe iria fornecer na quantidade e “durante todo o tempo que fosse necessário”, menosprezando as lições da História sobre a capacidade de resistência russa. Agora, após o “impasse” da ofensiva ucraniana e quando a Rússia joga a sua superioridade humana, os entusiastas da continuação da guerra até à “derrota total da Rússia” estão subitamente dependentes de mais um apoio à Ucrânia de 50 mil milhões de euros da Europa e de 61 mil milhões de dólares dos Estados Unidos. “Mas para quê?” é a pergunta que fazem os republicanos no Congresso americano e crescentemente as opiniões públicas no Ocidente. E com que resultado e por quanto tempo mais e a que custo? A estas perguntas, os entusiastas da guerra não sabem responder ou respondem contraditoriamente. Por um lado, dizem que, se a Ucrânia não ganhar a guerra, a Rússia não se contentará com Kiev e avançará Europa adentro: uma tese ad terrorem sem qualquer sustentação factual ou lógica. Por outro lado, dizem que, se a Rússia for derrotada na Ucrânia, Putin já ameaçou recorrer à arma nuclear — coisa que nunca fez e de que não encontrarão qualquer declaração que a sustente. Mas, admitindo que ambas as fábulas são verdadeiras, o que devemos nós preferir: a vitória ou a derrota da Rússia? Talvez a paz, não?

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

As condições de Putin para nego­ciações de paz, tanto quanto segui, não foram alteradas desde antes da guerra: o reconhecimento da anexação da Crimeia, a autonomia dos territórios russófonos do Donbas e a não extensão da NATO à Ucrânia e à Geórgia — o que consta dos Acordos de Minsk II, negociados entre Rússia, Ucrânia, França e Alemanha. A guerra podia ter sido evitada com base na reafirmação dessa base de trabalho, podia ter sido contida a partir dela logo no início e pode ser acabada agora. Anteontem, pela terceira vez num mês, Putin declarou-se pronto para negociar, mas, mais uma vez, agora Zelensky fingiu não ter ouvido e declarou que “Putin continua a não querer negociar”. E assim, quase dois anos depois de tanta morte e destruição, as imagens do povo ucraniano nas aldeias e cidades devastadas pela guerra — que nenhum notável ocidental, nem o próprio Zelensky, vai ver de perto —, prestes a enfrentar mais um Inverno de guerra e sofrimento, não são suficientes para que a paz surja como alternativa a uma guerra sem fim à vista. Pelo contrário, o Estado-Maior ucrania­no reclama a entrada na guerra de mais meio milhão de recrutas. Carne para canhão, enquanto os intelectuais do Ocidente, sentados no conforto das suas secretárias, continuam a sua apologia da guerra até à derrota total da Rússia, tema das suas pregações e fonte de rendimentos. E todos eles esperam — em vão, mas com razão — que, milagrosamente, a Rússia seja varrida da Ucrânia antes de um ano, para que na Casa Branca não esteja reinstalado um ainda mais louco e vingativo admirador de Putin, chamado Donald Trump. Justamente, seria a altura de negociar.

Sim, a Rússia teria de se retirar de todos os territórios que conquistou entretanto, teria de pagar pela destruição causada e teria de garantir a inviolabilidade da soberania e segurança da Ucrânia. E, do outro lado, a NATO teria de renunciar ao projecto de fechar o cerco à Rússia pelos Balcãs. E talvez seja isso que torna tudo mais complicado, porque esta é, sempre foi, uma guerra entre a NATO e a Rússia por interposta Ucrânia. Chego a pensar se os mesmos espíritos maquiavélicos que apostaram que a guerra na Ucrânia seria uma oportunidade única para enfraquecer a Rússia até à impotência — como preconizou o secretário da Defesa americano, Lloyd Austin — e de expandir as fronteiras da NATO até ao inimaginável não estarão agora a pensar que a alternativa — uma vitória russa —, apesar de tudo, pode acolher um benefício: a reedição da célebre “teoria da vacina”, defendida por Sonnenfeldt, o subsecretário de Kissinger, para ser ensaiada em Portugal nos idos de 75, quando Cunhal e outros nos queriam colocar sob a órbita do “Sol da Terra”. Agora, perdida a Ucrânia para Moscovo, o medo seria facilmente disseminado e a NATO aproveitaria para se expandir… Ásia adentro.

E temos Israel, cuja barbaridade em Gaza e na Cisjordânia causa um embaraço inultrapassável aos defensores da superioridade moral infalível do Ocidente e dos seus métodos de warfare. Num mês daquilo a que chamam guerra contra um bando de terroristas escondidos debaixo de terra, Israel, um dos mais bem armados e equipados exércitos do mundo, já causou o dobro de vítimas civis do que quase dois anos de guerra na Ucrânia, travada entre dois inimigos igualmente armados com o mais mortífero arsenal de artilharia e meios aéreos. Se a Rússia causou um escândalo planetário quando um míssil seu atingiu parte de um hospital ucrania­no, Israel, com o seu “armamento de precisão”, fez bem melhor: destruiu 29 dos 30 hospitais de Gaza, sem, contudo, ter encontrado, sob os seus escombros, um só túnel do Hamas, que jurava todos abrigarem. Em vez disso, invadiram hospitais e blocos operatórios, mataram lá dentro, deixaram crianças a morrer nas incubadoras e depois exibiram cá fora, nus e ajoelhados, os que proclamaram ser terroristas do Hamas — mas de que metade foi identificada como civis, médicos dos hospitais, um jornalista e vários funcionários das agências humanitárias da ONU, fora da lista dos mais de 100 que já assassinaram. Em Gaza, o outrora lendário Exército de Israel destruiu prédios inteiros à bomba, quarteirões, aldeias, acampamentos de refugiados, mesquitas e igrejas, num cenário de barbaridade como não víamos desde o século passado. O povo do Holocausto! Fica assim demonstrado que a bestialidade humana não depende das ideias, da raça, da genética ou da nacionalidade: depende da oportunidade. E Gaza ficará na História de Israel e do povo judeu como o momento mais negro.

Como se não bastasse, tudo em vão: nenhum dos três objectivos do massacre planeado pelo Governo de terroristas de Netanyahu está a ser ou será cumprido. Quanto ao primeiro, ninguém sabe quantos militantes do Hamas é que eles já terão liquidado na sua operação triunfal: o que sabemos é que já liquidaram perto de 20 mil pessoas, entre as quais 8000 crianças — glória às forças de defesa de Israel! Quanto ao terceiro objectivo — garantir que o Hamas nunca mais voltará a ser uma ameaça —, só um Governo de fanáticos é que pode imaginar que por cada criança morta, por cada uma que viu morrer os pais ou os irmãos à sua frente, não nascerão outras tantas para pegar em armas. E, quanto ao segundo objectivo — a libertação dos reféns —, que nunca, verdadeiramente, foi prioritário, a poderosa ofensiva da IDF não conseguiu libertar um só e foi a diplomacia que o fez, quando o Governo de Telavive, penosamente, aceitou suspender por cinco dias a “legítima defesa”. Pior ainda: não libertaram nenhum dos seus reféns, mas conseguiram matar três deles, e as circunstâncias em que o fizeram revelaram a natureza criminosa de toda a operação. Os três tinham-se evadido de um túnel do Hamas, avisaram por mensagem quem eram e ao que iam, tiveram o cuidado de se apresentar em tronco nu e com uma bandeira branca improvisada, mas, mesmo assim, foram logo liquidados por soldados israelitas aos gritos de “terroristas!”. Porque seguramente foi isso que lhes ensinaram: “Disparem a matar sobre todos os que virem, porque ali são todos terroristas.” Agora, o Governo israelita já quer negociar nova trégua em troca da entrega de todos os reféns. Após o que se propõe continuar o massacre até ao último palestiniano vivo, que não tenha morrido de fome, de sede, de doença ou debaixo das bombas, ou que não tenha fugido para o deserto do Sinai. A solução final.

Mas resta-nos uma fraca consolação moral. Anteontem, no Conselho de Segurança, o embaixador americano finalmente reconheceu que, “antes do 7 de Outubro”, o ano de 2023 estava a ser o pior de sempre na repressão aos palestinianos — não só em Gaza mas ainda na Cisjordânia, onde os roubos de terras e os assassínios cometidos pelos colonos judeus, sob protecção do Exército, tornavam inviável a hipótese de um Estado Palestiniano independente, a única fórmula viável para uma paz duradoura. Então, afinal, e ao contrário do que alguns seus conterrâneos aqui disseram ou escreveram sem vergonha, António Guterres teve razão: o 7 de Outubro não aconteceu no vazio. Até já os americanos o reconhecem.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

As atrocidades em Gaza são “valores ocidentais”

(Caitlin Johnstone, in Resistir, 21/12/2023)

Quando o presidente israelense Isaac Herzog descreveu o ataque a Gaza como uma guerra “para salvar a civilização ocidental, para salvar os valores da civilização ocidental”, não estava a mentir. Estava a dizer a verdade – mas talvez não exatamente do modo como queria dizer.

A demolição de Gaza está, de facto, a ser levada a cabo em defesa dos valores ocidentais e é, ela própria, uma perfeita personificação dos valores ocidentais. Não os valores ocidentais que nos ensinam na escola, mas os valores ocultos que não querem que vejamos. Não a embalagem atractiva com os slogans publicitários no rótulo, mas o produto que está realmente dentro da caixa.

Durante séculos, a civilização ocidental dependeu fortemente da guerra, do genocídio, do roubo, do colonialismo e do imperialismo, que justificou através de narrativas baseadas na religião, no racismo e na supremacia étnica – tudo isto a que estamos a assistir hoje na incineração de Gaza.

O que estamos a ver em Gaza é uma representação muito melhor daquilo que é realmente a civilização ocidental do que todas as tretas sobre liberdade e democracia que aprendemos na escola.

Uma representação muito melhor da civilização ocidental do que toda a arte e literatura pelas quais nos temos orgulhosamente felicitado ao longo dos séculos.

Uma representação muito melhor da civilização ocidental do que o amor e a compaixão que gostamos de fingir que são os nossos valores judaico-cristãos.

Tem sido surreal ver a direita ocidental a balbuciar sobre o quão selvagem e bárbara é a cultura muçulmana no meio da ressurreição zombie de 2023 da islamofobia da era Bush, mesmo quando a dita civilização ocidental acumula uma montanha de 10 mil cadáveres de crianças.

Essa montanha de cadáveres de crianças é uma representação muito melhor da cultura ocidental do que qualquer coisa que Mozart, da Vinci ou Shakespeare tenham produzido.

Esta é a civilização ocidental. É assim que ela se parece.

A civilização ocidental, onde Julian Assange aguarda o seu último recurso, em fevereiro, contra a extradição para os EUA pelo jornalismo que expôs crimes de guerra dos EUA.

Onde somos alimentados por um dilúvio ininterrupto de propaganda dos media para fabricar o nosso consentimento para guerras e agressões que mataram milhões e deslocaram dezenas de milhões só no século XXI.

Onde somos distraídos por entretenimento insípido e guerras culturais artificiais para não pensarmos demasiado no que é esta civilização e em quem está a matar e mutilar, a passar fome e a explorar.

Onde os ciclos de notícias são dominados mais pelos mexericos das celebridades e pelos últimos peidos da boca de Donald Trump do que pelas atrocidades em massa que estão a ser ativamente facilitadas pelos governos ocidentais.

Onde os liberais se felicitam por terem pontos de vista progressistas sobre raça e género, enquanto os funcionários que elegem ajudam a despedaçar os corpos de crianças com explosivos militares.

Onde os judeus sionistas se centram em si próprios e nas suas emoções porque a oposição a um genocídio ativo os faz sentir que estão a ser perseguidos, e onde os apoiantes de Israel que não são judeus continuam a sentir que também estão a ser perseguidos.

Onde um império gigantesco que se estende por todo o globo, alimentado pelo militarismo, imperialismo, capitalismo e autoritarismo, devora a carne humana com um apetite insaciável, enquanto nos felicitamos por sermos muito melhores do que nações como o Irão ou a China.

Estes são os valores ocidentais. Esta é a civilização ocidental.

Peça a alguém que lhe diga quais são os seus valores e essa pessoa dir-lhe-á um monte de palavras agradáveis sobre família, amor, carinho ou o que quer que seja. Observe as suas acções para ver quais são os seus valores reais e obterá frequentemente uma história muito diferente.

Isso somos nós. Essa é a civilização ocidental. Dizemos que valorizamos a liberdade, a justiça, a verdade, a paz e a liberdade de expressão, mas as nossas acções pintam um quadro muito diferente. Os verdadeiros valores ocidentais, o produto real dentro da caixa por baixo do rótulo atrativo, são os que se vêem hoje em Gaza.

[*] Jornalista. O trabalho de Caitlin Johnstone é inteiramente apoiado pelos leitores, por isso, se gostou deste artigo, considere partilhá-lo, ou deite algum dinheiro na sua jarra de gorjetas no Patreon ou Paypal. Se quiser ler mais, pode comprar os livros dela. A melhor forma de ter a certeza de que vê o que ela publica é subscrever a lista de correio no seu sítio Web, que lhe dará uma notificação por correio eletrónico de tudo o que ela publica. Para mais informações sobre quem ela é, qual a sua posição e o que está a tentar fazer com a sua plataforma, clique aqui. Todos os trabalhos são escritos em coautoria com o seu marido americano Tim Foley.

O original encontra-se em consortiumnews.com/2023/12/21/caitlin-johnstone-gaza-atrocities-are-western-values/

Fonte aqui.


Houthis abrem a caixa de Pandora e põem em xeque o imperialismo e o sionismo

(Eduardo Vasco, in MonitordoOriente.com, 20/12/2023)

Combatentes houthis, do Iêmen, apreendem navio de carga Galaxy Leader, copropriedade de uma companhia israelense, no Mar Vermelho, em 20 de novembro de 2023

(Nota: Este artigo segue as normas do português do Brasil)


Os houthis conseguiram fazer o que Israel e Estados Unidos tentaram evitar a todo o custo até agora: transformar o genocídio em Gaza numa crise mundial. Atingiram o calcanhar de Aquiles do inimigo: a economia, ao bloquear o trânsito pelo Mar Vermelho de qualquer embarcação israelense ou com destino a Israel.

Pelo lado de Israel, os prejuízos à sua economia já contam bilhões de dólares. O jornalista libanês Khalil Harb destacou, em artigo no The Cradle, que Israel importa e exporta “quase 99% das mercadorias por via fluvial e marítima” e que mais de ⅓ do seu PIB depende do comércio de mercadorias, segundo o Banco Mundial. Esse é um duro golpe e compromete diretamente a continuidade da matança desenvolvida pelas forças sionistas em Gaza, que já custaram a vida de 20 mil pessoas.

Mas a ação houthi não é espetacular somente porque atinge a coluna vertebral da máquina genocida de Israel, e sim, sobretudo, porque está paralisando a economia mundial – isto é, o próprio funcionamento do regime capitalista, que está na raiz do problema da guerra de agressão no Oriente Médio. E quem admite isso é nada menos que o principal órgão de imprensa dos banqueiros internacionais, The Economist: “uma nova crise de Suez ameaça a economia mundial.”

Um artigo em tom preocupante destaca que o bloqueio naval imposto pelos houthis têm o potencial tanto de escalar a guerra e expandi-la para o restante da região como também prejudicar radicalmente o comércio global. A principal alternativa para Israel e Estados Unidos seria atacar militarmente o território do Iêmen que é governado pelos houthis, mas estes poderiam retaliar não apenas com ataques a Israel, como também aos aliados árabes de Washington, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Jordânia, principalmente contra campos petrolíferos, o que elevaria brutalmente a crise econômica com uma nova crise do petróleo (que já se iniciou).

Por isso mesmo, enquanto os Emirados Árabes Unidos pedem uma ação contundente contra os houthis, os sauditas estão receosos. Mas isso não impede que Riad participe, junto com o Egito, de ações marítimas lideradas por Washington para tentar conter os ataques houthis, contra quem a Casa de Saud tem guerreado há quase dez anos, devastando o Iêmen e tornando o país, que já era o mais pobre do Oriente Médio, numa terra onde ocorre a maior catástrofe humanitária dos últimos cem anos, segundo os próprios organismos das Nações Unidas.

Para se ter uma ideia do estrago que os houthis estão fazendo, basta observar alguns dados. Cerca de 12% do comércio mundial anual depende da rota que passa pelo Canal de Suez e o Estreito de Bab al-Mandab. É por ali que chegam à Europa e à América as embarcações que vêm da Ásia, e vice-versa. A rota Cingapura-Roterdã tem duas alternativas: a passagem pelo Canal do Panamá ou pelo Cabo da Boa Esperança, na África do Sul. Mas elas são 40% mais longas (pelo menos 10 dias a mais de viagem), o que eleva dramaticamente os custos das viagens, acarretando o aumento das tarifas e dos preços dos materiais transportados, que são transferidos para os consumidores do mundo todo. Além disso, o Canal do Panamá está secando, o que obrigou a reduzir quase pela metade o número de navios que passam por ali a cada dia. Assim, os preços de todas as mercadorias que passariam pelo Mar Vermelho e agora deverão passar pelo Cabo da Boa Esperança aumentarão significativamente, atingindo todos os países do mundo. Existe uma terceira alternativa: o Mar do Norte, cuja rota entre Ásia e Europa é mais curta que pelo Suez. A grande ironia é que o país com maior controle sobre essa rota é a… Rússia. Os neocons devem infartar!

Pelo Mar Arábico (entre a Índia e a Península Arábica) passa ⅓ do suprimento de petróleo marítimo e o bloqueio do Mar Vermelho, mesmo que os houthis tenham garantido que só vale para navios relacionados com Israel, na verdade faz com que todas as empresas temam ser atingidas, causando o aumento do preço do petróleo devido ao desvio de rota – a British Petroleum já anunciou que não passa mais por ali. Mais de 60% das linhas de navegação internacionais já suspenderam o transporte para Israel pelo Mar Vermelho e as empresas que decidiram mudar de caminho (como Maersk, MSC, CMA CGM e Hapag-Lloyd) representam mais da metade do transporte global de contêineres.

A hora da verdade para os regimes árabes

A ação houthi representa um divisor de águas não apenas para a guerra de agressão israelense contra os palestinos, mas também para a correlação de forças no Oriente Médio. Mohammed Abdul-Salam, porta-voz do movimento Ansar Allah (o nome oficial da organização houthi), indicou qual é o caráter da operação: “A causa palestina não está aberta para negociação e nós não podemos aceitar o que está acontecendo com o povo de Gaza.” Trata-se de uma ação inteiramente solidária e internacionalista, motivada pelos mais nobres sentimentos de irmandade com os palestinos. Os houthis, neste momento, são a expressão máxima do sentimento de todos os muçulmanos do mundo inteiro – e de milhões de não-muçulmanos humanistas, progressistas, democráticos e socialistas. Sendo assim, têm um respaldo moral inabalável e inatingível.

Todas as palavras que os demais países de maioria muçulmana têm emitido demagogicamente nos últimos dois meses estão sendo confrontadas pela ação concreta e extremamente corajosa dos houthis, que sequer controlam todo o território do pequeno e miserável Iêmen. E, embora os houthis tenham a vantagem de não dever justificativas a nenhum outro governo, exatamente pelo seu caráter excepcional de ser um governo paralelo que já está em guerra, portanto não têm nenhum rabo preso, isso não significa que não haja consequências para suas ações. A primeira delas já está valendo e passou despercebida: no início do mês, o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas anunciou a suspensão do fornecimento de ajuda alimentar para as zonas controladas pelos houthis, o que significa uma sentença de morte pela fome para mais de 13 milhões de iemenitas que dependem dessa ajuda. Foi uma clara retaliação dos EUA e de Israel ao bloqueio naval no Mar Vermelho, com a marca do imperialismo, ou seja, a vingança contra os civis e os mais vulneráveis.

Agora os Estados Unidos vão patrulhar o Mar Vermelho para tentar impedir as apreensões de navios e os ataques vindos dos houthis. O secretário da Defesa americano, Lloyd Austin, anunciou, após chegar a Tel Aviv, que a operação “Guardião da Prosperidade” vai contar com a participação do Reino Unido, França, Canadá, Itália, Holanda, Espanha, Noruega, Bahrein e Seychelles. O porta-aviões nuclear Dwight D. Eisenhower já está no Golfo de Aden.

Muhammed al-Bajiti, membro do Conselho Político Supremo do governo houthi, chamou a coalizão de a “aliança mais suja da história”, que será combatida na “batalha mais honrosa da história”. O movimento palestino de Jihad Islâmica, por sua vez, destacou: “As declarações de Austin são uma descarada bênção estadunidense ao inimigo sionista, permitindo a continuidade de seus crimes bárbaros e nazistas contra nosso povo palestino. A incitação de Austin contra o irmão Iêmen é uma tradução descarada da arrogância estadunidense. É uma vergonha para os regimes árabes e os povos de nossa nação que não tomem medidas para responder à agressão estadunidense e sua inclinação a continuar essa guerra de extermínio.”

A participação do Bahrein revela que os regimes subservientes ao imperialismo no mundo árabe não apenas não tomam medidas contra Estados Unidos e Israel, mas que são seus cúmplices ativos no genocídio do povo palestino e na opressão contra todos os povos árabes. Bahrein, Jordânia, Emirados Árabes Unidos e Egito (o quinto maior fornecedor de petróleo a Israel) são grandes parceiros comerciais do regime ocupante.

Diante do bloqueio do Mar Vermelho, Arábia Saudita, Emirados, Bahrein e Jordânia já começaram a operar em conjunto para transportar mercadorias por caminhão, do Mar Arábico a Israel, através de seu território. Participam, na prática, da coalizão imperialista anti-houthis, mas pela via terrestre. Afinal de contas, a demagogia pró-Palestina desses regimes é só perfumaria para encobrir o fétido apoio ao massacre; um apoio obrigatório, pois, não sendo assim, tais regimes desapareceriam, afinal são quase absolutamente sustentados pelos Estados Unidos e seus aliados europeus. O fechamento do Canal de Suez vai acabar com a já combalida economia egípcia e Abdel Fatah al-Sisi, para se manter na posição de poder que lhe foi entregue pelo imperialismo, tem de se mexer para romper o bloqueio, unindo-se abertamente a Israel, que já controla o regime egípcio há 50 anos. O mesmo vale para os estados artificiais do Golfo Pérsico.

Muhammed al-Bajiti levantou o grande x da questão aos países árabes: “Como serão vistos os países que correram para formar uma coalizão internacional contra o Iêmen para proteger os perpetradores do genocídio israelense? E como será visto o Iêmen, que atuou com vontade oficial e popular para deter o genocídio israelense contra o povo palestino?

Os houthis já tinham apoio popular majoritário no no Iêmen, fator determinante para manterem uma guerra de resistência à agressão saudita (com todo o imperialismo mundial por trás) durante dez anos. Seu posicionamento firme, como representante de um dos povos que mais têm realizado manifestações multitudinárias em defesa da Palestina, os coloca definitivamente no Eixo da Resistência ao imperialismo no Oriente Médio, com um destaque monstruoso. Assim como o Hamas, o movimento houthi demonstra aos milhões de árabes e ao bilhão e meio de muçulmanos (mais de 20% da população mundial) que somente um posicionamento radical e o levantamento armado das massas podem fazer frente à esmagadora opressão que sofrem das potências imperialistas.

O governo fantoche que controla a outra parte do Iêmen, apoiado pelos sauditas e americanos, se recusou publicamente a tomar parte da coalizão marítima contra os houthis, com medo de precipitar a sua queda pela rebelião popular no território onde ainda governa.

De fato, muitos iemenitas têm se voluntariado para combater ao lado da resistência palestina em Gaza. Se Israel e Estados Unidos temiam que a guerra se expandisse, isso parece ser inevitável. Confrontos com o Hezbollah são diários na frente norte, enquanto as bases militares ilegais do Pentágono na Síria e no Iraque já sofreram dezenas de ataques nos últimos dois meses. Há ainda a já mencionada possibilidade de ataque dos houthis contra a Arábia Saudita, a Jordânia e os Emirados Árabes Unidos.

Já o Irã, que tem atuado como um enxadrista na atual situação, indiretamente apoiando o Hamas, o Hezbollah e o Ansar Allah, também pode ser compelido a se envolver diretamente no conflito: um agente do Mossad foi preso e executado por se infiltrar no país e, na semana passada, Teerã sofreu ataques hackers a partir de Israel. A “guerra fria” entre a nação persa e o estado colonial sionista pode se transformar em uma guerra aberta com a coalizão imperialista ameaçando a segurança nacional do Irã e escalando a guerra Israel-Gaza/Oriente Médio/comercial.

A abertura de uma crise revolucionária

“As Forças Armadas do Iêmen vão tornar o Mar Vermelho um cemitério para a coalizão dos Estados Unidos, se a aliança decidir tomar qualquer ação contra nosso país”, reiterou o ministro da Defesa do Ansar Allah, major-general Mohammad al-Atifi. Segundo a revista Newsweek, os houthis detêm grande estoque de mísseis antiblindagem e podem atacar mais barcos do que a Armada americana pode defender. Se as forças imperialistas fracassarem em liberar o Mar Vermelho, isso será uma derrota monumental e evidenciará a sua fragilidade, fortalecendo ainda mais o Eixo da Resistência e elevando o nível da crise não apenas no Oriente Médio, mas mundial.

A situação econômica da Europa se tornou extremamente difícil após o início das operações russas na Ucrânia, com as grandes massas europeias sofrendo inflação, desabastecimento, encarecimento das tarifas de energia e saindo às ruas em enormes manifestações nas principais capitais. Ninguém mais aguenta a guerra fomentada pelos Estados Unidos e a União Europeia contra a Rússia e esse sentimento, que no fundo é um sentimento anti-imperialista, se aprofundou diante das imagens de crianças sendo mortas como baratas pelas tropas israelenses em Gaza. As manifestações foram retomadas, em solidariedade aos palestinos e contra o apoio dos governos europeus ao genocídio. Agora as reivindicações econômicas serão amplificadas, devido à crise do comércio global derivada do bloqueio ao Mar Vermelho.

Não é mais segredo para toda essa massa populacional que a culpa pela crise no Oriente Médio, que se tornou uma crise mundial, é de Israel e, sobretudo, de seu patrão americano.  De acordo com uma análise realizada pela empresa Mig AI, 83% das publicações na internet sobre a situação na Palestina são contrárias a Israel, sendo também negativos para o regime sionista 28% dos mais de 370 mil artigos publicados em sites com mais de um milhão de visitas mensais. Ainda que os grandes conglomerados monopolísticos da imprensa internacional mantenham uma linha editorial pró-Israel, a realidade se impôs às manipulações. A pressão da opinião pública é um dos dois fatores que obrigaram os governos imperialistas a buscar uma solução para a carnificina executada por Israel, ao criticá-la após tanto lhe ajudar – o outro é justamente o bloqueio do Mar Vermelho.

A França entrou em um conflito diplomático com Israel após um funcionário de seu Ministério das Relações Exteriores ter sido morto por um ataque israelense em Rafah e a Itália e o Vaticano também entraram em contradição com Tel Aviv por um ataque mortal a uma igreja católica em Gaza. Washington e Londres manifestaram preocupação com o morticínio desenfreado de civis e outros países europeus decidiram sancionar colonos ilegais israelenses. A China possivelmente será obrigada a tomar uma posição mais ativa na busca pelo fim do genocídio, porque é um dos países mais afetados pelo bloqueio naval. Enquanto isso, dentro de Israel, a execução de três reféns pelas mãos das próprias “Forças de Defesa de Israel” gerou um clima insustentável para Benjamin Netanyahu. Soma-se a resistência imposta pelo Hamas e as demais forças em Gaza, que tornou o pequeno território costeiro em um atoleiro para os soldados israelenses.

Israel havia sinalizado que não haveria mais um cessar-fogo com o Hamas. Agora, declarações oficiais já indicam que essa posição mudou e Israel possivelmente vai implorar um cessar-fogo ao Hamas. Essa seria mais uma vitória monumental e estratégica da resistência. Mais do que tudo, no entanto, seria uma afirmação de que os imperialistas e sionistas foram jogados para as cordas. Ou aceitam a derrota em sua investida contra Gaza, com um cessar-fogo que pode resultar no fim da incursão atual, para liberar o Mar Vermelho, ou mantêm o genocídio arcando com as catastróficas consequências econômicas. De qualquer forma, sairia perdendo e essa demonstração de fraqueza pode ser vista como a oportunidade da vida de todo o Eixo da Resistência para pôr um fim em mais de 70 anos de ocupação israelense da Palestina.

As contradições políticas afetarão sobretudo os países do Oriente Médio, onde os governos terão de romper ao menos parcialmente com seus amos imperialistas para garantir sua manutenção ou cairão pela indignação das massas contra a traição à causa palestina. Já na Europa e nos Estados Unidos, o principal fator de desestabilização são as contradições econômicas, com a acentuação da queda brutal na qualidade de vida da maioria da população pelas consequências da insistência de seus governos em manter as guerras de agressão imperialistas.

Com um simples bloqueio marítimo, uma organização de rebeldes esfarrapados e esfomeados conseguiu sacudir os pilares de todo o sistema capitalista mundial, expondo claramente a sua extrema fragilidade. O grande barril de pólvora mundial – o Oriente Médio – está começando a explodir e a demolir todo o sistema em sua volta.

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