(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 22/12/2023)

(Porque publico amiúde os textos do Miguel Sousa Tavares, ainda que discorde de muitas das suas posições? Pela coragem e a frontalidade com que defende essas mesmas posições. Este texto, sobre a guerra na Ucrânia e sobre o genocídio em curso em Gaza, é disso exemplo. Nenhum comentador, nenhum escriba frequente na comunicação social portuguesa – que eu tenha lido e leio quase tudo -, subscreveu, até à data, um libelo tão contundente contra a gestão que o Ocidente está a fazer dos conflitos naqueles dois palcos, ainda mais publicado no Expresso, esse bem pensante “jornal de referência”.
A esta hora, já haverá uivos dos belicistas a apelidarem-no de “propagandista russo”, como me acabam de apelidar a mim em dois comentários no blog e, em jeito de ameaça, dizendo que a polícia já me anda a investigar! (Ver aqui e aqui). Sim, a censura começa a ameaçar as vozes livres. Eu não quero acreditar que a liberdade de expressão já esteja em causa, ao ponto de ser já “caso de polícia” mas, se calhar, estou a ser ingénuo. A polícia que venha e me diga qual a lei que estou a desrespeitar, quando publico as opiniões de quem desalinha do coro das ovelhinhas.
Estátua de Sal, 22/12/2023)
Dizem-nos que, se Putin vencer, entrará Europa adentro; se perder, usará a arma nuclear. Admitindo que ambas as fábulas são verdadeiras, o que devemos nós preferir: a vitória ou a derrota da Rússia? Talvez a paz, não?
Se o resultado final não fosse trágico e medido em milhares de vidas destruídas, seria risível ler na nossa imprensa o discurso a favor da guerra dos advogados oficiosos da NATO — e agora também de Israel — para a continuação das guerras “justas” e “indispensáveis”. É facto que, no essencial, reproduzem as teses dos seus intelectuais de estimação — os Timothy Garton Ash, Francis Fukuyama ou o intelectual pop Bernard-Henri Lévy, entre outras distintas vulgaridades — que regularmente trazem a Lisboa, pagos a peso de ouro, para dizerem monotonamente o mesmo. Mas os nossos, talvez porque sejam mais mal pagos ou menos vistosos, fazem voluntariamente o papel de tradutores simultâneos da única versão da História aceite nas chancelarias e nos areópagos internacionais do Ocidente, onde os nossos destinos se decidem — sem direito a contraditório nem sequer a dúvidas.
Porque a versão deles é simples, como convém ao convencimento de incautos. A luta da Ucrânia e a de Israel é a mesma, é a do Ocidente e dos seus valores contra a barbárie. Mesmo quando a luta de Israel contra a barbárie é, em si mesma, uma demonstração de barbaridade como nunca vista neste século XXI — “terrorismo”, disse-o com todas as letras o Papa Francisco. Ou mesmo quando Inglaterra, farol dos valores ocidentais e pátria da Magna Carta, se prepara para renunciar à Declaração Universal dos Direitos do Homem e sair da jurisdição do Tribunal Internacional dos Direitos Humanos para poder deportar para o Ruanda, sem distinguir, emigrantes económicos e requerentes de asilo político, de onde poderão ser reexportados para o seu país de origem e para a morte. A Hungria, esse “papagaio de Moscovo”, dizem eles, opôs-se à entrada da Ucrânia na UE não porque a Ucrânia esteja em guerra, não porque seja um dos países mais corruptos do Ocidente, não porque (tal como na Hungria) lá não exista Estado de Direito ou porque a sua entrada vai sugar todos os fundos de solidariedade europeus — tudo factos incontestáveis e incómodos —, mas porque, dizem, Putin não quer ver a Ucrânia na UE, quando a verdade é que isso é o lado para que ele deve dormir mais confortado.
Na guerra da Ucrânia, o momento, para os advogados da NATO, é de declarado desconforto, quase desespero. As coisas não correm bem no campo de batalha, onde houve, desde o início, dois erros de análise sucessivos: primeiro, foi Putin que imaginou uma caminhada fácil, desconhecendo que há muito que a NATO estava a prever a invasão e a treinar e a preparar as Forças Armadas da Ucrânia para ela; depois, foi a própria NATO que convenceu Zelensky de que podia ganhar a guerra com o armamento que lhe iria fornecer na quantidade e “durante todo o tempo que fosse necessário”, menosprezando as lições da História sobre a capacidade de resistência russa. Agora, após o “impasse” da ofensiva ucraniana e quando a Rússia joga a sua superioridade humana, os entusiastas da continuação da guerra até à “derrota total da Rússia” estão subitamente dependentes de mais um apoio à Ucrânia de 50 mil milhões de euros da Europa e de 61 mil milhões de dólares dos Estados Unidos. “Mas para quê?” é a pergunta que fazem os republicanos no Congresso americano e crescentemente as opiniões públicas no Ocidente. E com que resultado e por quanto tempo mais e a que custo? A estas perguntas, os entusiastas da guerra não sabem responder ou respondem contraditoriamente. Por um lado, dizem que, se a Ucrânia não ganhar a guerra, a Rússia não se contentará com Kiev e avançará Europa adentro: uma tese ad terrorem sem qualquer sustentação factual ou lógica. Por outro lado, dizem que, se a Rússia for derrotada na Ucrânia, Putin já ameaçou recorrer à arma nuclear — coisa que nunca fez e de que não encontrarão qualquer declaração que a sustente. Mas, admitindo que ambas as fábulas são verdadeiras, o que devemos nós preferir: a vitória ou a derrota da Rússia? Talvez a paz, não?
As condições de Putin para negociações de paz, tanto quanto segui, não foram alteradas desde antes da guerra: o reconhecimento da anexação da Crimeia, a autonomia dos territórios russófonos do Donbas e a não extensão da NATO à Ucrânia e à Geórgia — o que consta dos Acordos de Minsk II, negociados entre Rússia, Ucrânia, França e Alemanha. A guerra podia ter sido evitada com base na reafirmação dessa base de trabalho, podia ter sido contida a partir dela logo no início e pode ser acabada agora. Anteontem, pela terceira vez num mês, Putin declarou-se pronto para negociar, mas, mais uma vez, agora Zelensky fingiu não ter ouvido e declarou que “Putin continua a não querer negociar”. E assim, quase dois anos depois de tanta morte e destruição, as imagens do povo ucraniano nas aldeias e cidades devastadas pela guerra — que nenhum notável ocidental, nem o próprio Zelensky, vai ver de perto —, prestes a enfrentar mais um Inverno de guerra e sofrimento, não são suficientes para que a paz surja como alternativa a uma guerra sem fim à vista. Pelo contrário, o Estado-Maior ucraniano reclama a entrada na guerra de mais meio milhão de recrutas. Carne para canhão, enquanto os intelectuais do Ocidente, sentados no conforto das suas secretárias, continuam a sua apologia da guerra até à derrota total da Rússia, tema das suas pregações e fonte de rendimentos. E todos eles esperam — em vão, mas com razão — que, milagrosamente, a Rússia seja varrida da Ucrânia antes de um ano, para que na Casa Branca não esteja reinstalado um ainda mais louco e vingativo admirador de Putin, chamado Donald Trump. Justamente, seria a altura de negociar.
Sim, a Rússia teria de se retirar de todos os territórios que conquistou entretanto, teria de pagar pela destruição causada e teria de garantir a inviolabilidade da soberania e segurança da Ucrânia. E, do outro lado, a NATO teria de renunciar ao projecto de fechar o cerco à Rússia pelos Balcãs. E talvez seja isso que torna tudo mais complicado, porque esta é, sempre foi, uma guerra entre a NATO e a Rússia por interposta Ucrânia. Chego a pensar se os mesmos espíritos maquiavélicos que apostaram que a guerra na Ucrânia seria uma oportunidade única para enfraquecer a Rússia até à impotência — como preconizou o secretário da Defesa americano, Lloyd Austin — e de expandir as fronteiras da NATO até ao inimaginável não estarão agora a pensar que a alternativa — uma vitória russa —, apesar de tudo, pode acolher um benefício: a reedição da célebre “teoria da vacina”, defendida por Sonnenfeldt, o subsecretário de Kissinger, para ser ensaiada em Portugal nos idos de 75, quando Cunhal e outros nos queriam colocar sob a órbita do “Sol da Terra”. Agora, perdida a Ucrânia para Moscovo, o medo seria facilmente disseminado e a NATO aproveitaria para se expandir… Ásia adentro.
E temos Israel, cuja barbaridade em Gaza e na Cisjordânia causa um embaraço inultrapassável aos defensores da superioridade moral infalível do Ocidente e dos seus métodos de warfare. Num mês daquilo a que chamam guerra contra um bando de terroristas escondidos debaixo de terra, Israel, um dos mais bem armados e equipados exércitos do mundo, já causou o dobro de vítimas civis do que quase dois anos de guerra na Ucrânia, travada entre dois inimigos igualmente armados com o mais mortífero arsenal de artilharia e meios aéreos. Se a Rússia causou um escândalo planetário quando um míssil seu atingiu parte de um hospital ucraniano, Israel, com o seu “armamento de precisão”, fez bem melhor: destruiu 29 dos 30 hospitais de Gaza, sem, contudo, ter encontrado, sob os seus escombros, um só túnel do Hamas, que jurava todos abrigarem. Em vez disso, invadiram hospitais e blocos operatórios, mataram lá dentro, deixaram crianças a morrer nas incubadoras e depois exibiram cá fora, nus e ajoelhados, os que proclamaram ser terroristas do Hamas — mas de que metade foi identificada como civis, médicos dos hospitais, um jornalista e vários funcionários das agências humanitárias da ONU, fora da lista dos mais de 100 que já assassinaram. Em Gaza, o outrora lendário Exército de Israel destruiu prédios inteiros à bomba, quarteirões, aldeias, acampamentos de refugiados, mesquitas e igrejas, num cenário de barbaridade como não víamos desde o século passado. O povo do Holocausto! Fica assim demonstrado que a bestialidade humana não depende das ideias, da raça, da genética ou da nacionalidade: depende da oportunidade. E Gaza ficará na História de Israel e do povo judeu como o momento mais negro.
Como se não bastasse, tudo em vão: nenhum dos três objectivos do massacre planeado pelo Governo de terroristas de Netanyahu está a ser ou será cumprido. Quanto ao primeiro, ninguém sabe quantos militantes do Hamas é que eles já terão liquidado na sua operação triunfal: o que sabemos é que já liquidaram perto de 20 mil pessoas, entre as quais 8000 crianças — glória às forças de defesa de Israel! Quanto ao terceiro objectivo — garantir que o Hamas nunca mais voltará a ser uma ameaça —, só um Governo de fanáticos é que pode imaginar que por cada criança morta, por cada uma que viu morrer os pais ou os irmãos à sua frente, não nascerão outras tantas para pegar em armas. E, quanto ao segundo objectivo — a libertação dos reféns —, que nunca, verdadeiramente, foi prioritário, a poderosa ofensiva da IDF não conseguiu libertar um só e foi a diplomacia que o fez, quando o Governo de Telavive, penosamente, aceitou suspender por cinco dias a “legítima defesa”. Pior ainda: não libertaram nenhum dos seus reféns, mas conseguiram matar três deles, e as circunstâncias em que o fizeram revelaram a natureza criminosa de toda a operação. Os três tinham-se evadido de um túnel do Hamas, avisaram por mensagem quem eram e ao que iam, tiveram o cuidado de se apresentar em tronco nu e com uma bandeira branca improvisada, mas, mesmo assim, foram logo liquidados por soldados israelitas aos gritos de “terroristas!”. Porque seguramente foi isso que lhes ensinaram: “Disparem a matar sobre todos os que virem, porque ali são todos terroristas.” Agora, o Governo israelita já quer negociar nova trégua em troca da entrega de todos os reféns. Após o que se propõe continuar o massacre até ao último palestiniano vivo, que não tenha morrido de fome, de sede, de doença ou debaixo das bombas, ou que não tenha fugido para o deserto do Sinai. A solução final.
Mas resta-nos uma fraca consolação moral. Anteontem, no Conselho de Segurança, o embaixador americano finalmente reconheceu que, “antes do 7 de Outubro”, o ano de 2023 estava a ser o pior de sempre na repressão aos palestinianos — não só em Gaza mas ainda na Cisjordânia, onde os roubos de terras e os assassínios cometidos pelos colonos judeus, sob protecção do Exército, tornavam inviável a hipótese de um Estado Palestiniano independente, a única fórmula viável para uma paz duradoura. Então, afinal, e ao contrário do que alguns seus conterrâneos aqui disseram ou escreveram sem vergonha, António Guterres teve razão: o 7 de Outubro não aconteceu no vazio. Até já os americanos o reconhecem.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


