Global Media: o cemitério está cheio de má e promíscua imprensa (e ainda bem!)

(Pedro Almeida Vieira, in Página Um, 07/01/2024)


Sendo eu de ‘esquerda’, aquilo que mais me irrita e faz sair do sério é quando alguém, supostamente de ‘esquerda’, se mete a culpar a ‘direita’ de algo que nada tem a ver com ideologias. Percebe-se a estratégia – criar uma clivagem, identificar um suposto inimigo ideológico, para que haja uma decisão política favorável –, mas isso é passar um atestado de indigência e sobretudo retirar a responsabilidade aos verdadeiros culpados. E não permitir uma reflexão e discussão sérias.

Hoje, a jornalista e antiga directora-adjunta do Público Ana Sá Lopes veio defender a nacionalização da Global Media. Veio tratar de fazer a ‘cama’ para deitar os desejos de políticos – e.g., Marcelo Rebelo de Sousa, Rui Moreira, Carlos Moedas e Pedro Adão e Silva – em se meter dinheiro dos contribuintes (porque não há ouvintes e leitores suficientes) para assim simplesmente se salvarem empregos de jornalistas que, durante anos, contribuíram para a degradação do seu ‘produto jornalístico’ a ponto de hoje ser já um ‘produto comercial’ sem interesse nem préstimo.

Ao contrário daquilo que defende Ana Sá Lopes – que funciona aqui como ’porta-voz’, porque sei que o seu ponto de vista é comungado pela generalidade da corporativa classe jornalística –, não vivemos “um momento totalmente crítico na imprensa”. De facto, vivemos sim um momento de clarificação.

Por exemplo, um jornal como o Diário de Notícias – por mais que simpatizemos com a sua vetusta idade (foi fundado em 1864) – não pode sobreviver se atrai apenas 1.500 pessoas para comprarem a sua edição diária contando com uma equipa de três dezenas de jornalistas e sucessivas direcções editoriais (e conselhos de redacção) permeáveis a interesses políticos e mercantis.

Veja-se, aliás, que na Global Media chegámos a ter directores editoriais do Diário de Notícias (Rosália Amorim), Jornal de Notícias (Inês Cardoso) e TSF (Domingos de Andrade) no Conselho de Administração nos tempos de Marco Galinha. A promiscuidade e cumplicidade começa aqui, quando jornalistas passam de ‘geradores de notícias’ credíveis – para que, trazendo público haja interesse externo em anunciar – para gestores comerciais a vender banha da cobra, ainda por cima usando estratégias capciosas para fazer com que marketing seja perceptível como notícias baseadas em interesse editorial.

Aliás, a hipocrisia de supostas virgens inocentes do jornalismo, que se comportaram como autênticas megeras nos anos mais recentes, ficou bem patente na audição desta semana de Domingos de Andrade na Assembleia da República. 

Com a carteira profissional de jornalista activa, Domingos de Andrade assumiu durantes várias anos funções de responsável editorial de diversos órgão de comunicação social da Global Media (DN, JN e TSF), ao mesmo tempo que era administrador da holding – sendo o braço direito executivo de Marco Galinha até ao ano passado –, e era também, de acordo com o Portal da Transparência dos Media, gerente da TSF – Rádio Jornal Lisboa, da TSF – Cooperativa Rádio Jornal do Algarve, da Difusão de Ideias – Sociedade de Radiodifusão, da Pense Positivo – Radiodifusão e ainda vogal do conselho de administração executivo da Rádio Notícias – Produções e Publicidade.

Domingos de Andrade foi um jornalista meigamente multado pela Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ) em Janeiro do ano passado por ter andado a assinar contratos comerciais com empresas que financiavam os periódicos da Global Media, e agora vem dizer que “não estamos apenas a assistir ao fim de marcas, estamos a assistir à destruição reputacional de marcas e redacções”? Está a fazer auto-crítica ou está a fazer lavagem de imagem?

Que eu saiba, “a destruição reputacional de marcas e redacções” sucede quando se fica a saber, através de um despacho do Ministério Público, que “Eduardo Vítor Rodrigues, na qualidade de autarca, solicitou a Domingos Portela de Andrade, vogal do Conselho de Administração do Grupo Global Media, que os meios de comunicação pertencentes a tal Grupo, nomeadamente o Jornal de Notícias e TSF, elaborassem notícias e cobrissem conferências promovendo a atuação da Câmara de Vila Nova de Gaia e do seu presidente”. É o jornalismo de Domingos de Andrade que queremos que o Estado financie? É a credibiliade de Domingos de Andrade que deve ser atendida quando falamos do fracasso da Global Media? 

Quando vejo, por exemplo, pessoas como Rosália Amorim, ex-directora do Diário de Notícias, manifestar “tristeza” pela situação da Global Media, sabendo como funcionavam as parcerias comerciais naquele diário, estamos não apenas perante hipocrisia; há uma desfaçatez terrível. Como pode uma “marca” ter alguma reputação se o próprio Conselho de Redacção da TSF se opôs à nomeação de Rosália Amorim – levantando “legítimas dúvidas quanto à sua real capacidade de manutenção de uma política editorial independente” – e ela mesmo assim aceitou o cargo?

De facto, vivemos um momento de clarificação.

Jornalismo mercantilista, sem qualidade, com personagens munidos de carteira profissional de jornalistas mas de ética mais do que questionável, permeáveis ao poder político e ao poder económico, que enganam os leitores e ouvintes através de contratos de prestação de serviços que resultam em supostas notícias, entrevistas e eventos independentes – esse jornalismo não pode sobreviver.

As empresas que o praticam, não podem sobreviver. Não podem ser ajudadas pelo Estado. Além de tudo, é imoral.

A ‘morte’ de projectos jornalísticos baseados na falta de ética é mesmo bem-vinda – é mesmo essencial, não apenas para que o crime não compense, não apenas para evitar o uso imoral de impostos dos contribuintes para insuflar e alimentar procedimentos errados e nefastos para uma sociedade, mas sobretudo por ser necessário dar espaço a projectos credíveis e sem vícios, que provem que os leitores, perante a credibilidade, valorizam economicamente o jornalismo.

Mais do que nunca, a pluralidade e diversidade da comunicação social, essencial como alicerce da defesa da democracia – que em Portugal está podre, em parte pelas promiscuidades sustentadas por jornalistas (sobretudo directores editoriais, os tais que vão defender no próximo Congresso dos Jornalistas formas de financiamento) com o poder político e económico – baseia-se na credibilidade de projectos, e não na sua história.

Quando o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias nasceram, nos idos do século XIX, existiam largas dezenas de periódicos, alguns com largos anos, como o Açoriano Oriental, que ainda hoje se mantém a caminhar para os 200 anos. Todos viram nascer outros, muitos, quase todos foram ‘morrendo’, e sendo substituídos por outros, alguns tiveram várias vidas até sucumbirem, independentemente de terem sido, em tempos, instituições de prestígio, como os casos de O Século, o Comércio do Porto, a Capital, o Diário Popular ou o Diário de Lisboa.

Os ‘cemitérios da imprensa’ estão cheios de jornais que nasceram cheios de esperança, alguns se mostraram pujantes, mas por ‘causas naturais’, que incluíram sempre inadaptação ao mercado ou a erros próprios, claudicaram. Mas a sua ‘morte’ nunca significou a morte do jornalismo. Pelo contrário: na imprensa, a morte de um jornal permite o nascimento de outros (ainda) sem vícios.

Os jornais (ou as rádios, ou as televisões) morrem, mas o jornalismo não morre se extirparmos a tempo o mau jornalismo. Se se persiste na manutenção de um mau produto, artificializando a sua sobrevivência, ainda mais com dinheiros público, salvam-se a prazo (a curto prazo) empregos, mas traça-se uma ameaça para a credibilidade de todo o jornalismo, nega-se a possibilidade de nascerem outros projectos mais sérios, mais credíveis… e mais economicamente viáveis.

Por isso, para mim – e sem prejuízo de ser apoiante de um modelo de apoio social pelo Estado aos desempregados de empresas falidas, incluindo as do sector dos media –, nada mais saudável e natural do que a morte de (maus) órgãos de comunicação social, até porque, ao fim e ao cabo, são apenas títulos – que, aliás, anos mais tarde podem ser recuperados para novos projectos editoriais sérios.

[o próprio PÁGINA UM foi um título inicialmente fundado em 1976 por Isabel do Carmo e Carlos Antunes, de ideologia de extrema-esquerda de apoio a Otelo Saraiva de Carvalho; tornou-se mais tarde, entre 1995 e 1997, um boletim informativo da Associação Académica da Universidade do Minho, e antes de se tornar este jornal digital independente, tomou o nome de um programa da católica Rádio Renascença… ou seja, nomes leva-os o tempo, e simplesmente, no caso do PÁGINA UM, o aproveitámos por estar disponível]

Quando Fernando Alves, um histórico jornalista de rádio e fundador da TSF, afirma hoje no Público que “o departamento comercial comeu a cabeça de todas as redacções que conheço”, não se refere apenas àquela rádio da Global Media nem a outros órgãos de comunicação social deste grupo. Falará, mesmo que não queira englobar, de praticamente todos os grupos de media que, à conta de uma crise (que é muito de credibilidade), querem fazer-nos crer que os problemas são de hoje e que se salvam com a prostituição do jornalismo (através de parcerias comerciais) ou com dinheiros públicos.

O problema da Global Media – e também da Trust in News, que lhe vai seguir, em breve, as pisadas – não é de hoje. Uma empesa que desde 2017 soma prejuízos consecutivos, que já ultrapassavam os 42 milhões de euros em 2022, que tinha uma dívida ao Estado de 10 milhões no final desse ano (sem que o regulador soubesse), e que via os seus activos imobiliários serem ‘chupados’ pelos accionistas, não pode vir agora carpir pela salvação com dinheiros públicos como se lhe tivesse sucedido um terramoto imprevisível. E o mesmo se diz em relação aois actuais e antigos responsáveis editoriais e jornalistas.

E também não se mostra admissível que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social tenha uma atitude de irresponsável passividade a ponto de defender, como fez há cerca de dois meses em resposta a perguntas do PÁGINA UM, que não tem capacidade para sequer pedir e analisar os relatórios e contas da Global Media. 

O fraco papel do regulador, mais a sua plataforma de Transparência dos Media, para evitar entrada de empresas e pessoas com interesses suspeitos, seria anedótico se não fosse grave. Foi o PÁGINA UM – e não o regulador – que detectou no ano passado falsas declarações de diversas empresas de media, incluindo ocultação de dívidas ao Estado (Global Media e Trust in News), de falência técnica (empresa do Tal & Qual) e de dependência financeira (empresa do Polígrafo).

Na verdade, tem sido o PÁGINA UM que, com as suas denúncias e já com uma seccção própria (pela relevância num sistema democrático), mais tem revelado as promiscuidades entre jornalismo e empresas (públicas e privadas, e até Goveno, o que, aliás, tem merecido a devida reacção corporativista dos visados, razão pela qual a generalidade dos órgãos de comunicação social mainstream ignora as nossas investigações, e os ‘órgãos reguladores’ (ERC, CCPJ e Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas) se mostram tão favoráveis a atender os nossos críticos.

Por tudo isto, e regressando ao início, se vamos para “pactos de regime”, como defende Ana Sá Lopes, para salvar empregos de más empresas jornalistas, fazendo com que passem a ser controladas pelo Estado, não vejo como isso pode ser bom para a democracia – diria antes: será péssimo para o jornalismo e para a democracia. Nacionalizar empresas de media, ou entregá-las a empresas do regime, é o ‘sonho húmido’ de quem está no poder. Não nos bastou as tentativas de Sócrates de controlar a TVI e como foram nomeados alguns directores da Lusa e da Global Media nos tempos do seu Governo?

Por tudo isto, são uma ofensa as palavras de Ana Sá Lopes – que é apenas um peão com o objectivo de colocar uma clivagem ideológica num problema meramente empresarial e de ética jornalística – a defender que quem contestar uma salvífica entrada de capitais públicos (dinheiro dos contribuintes) especificamente na Global Media é alguém de ‘direita’ a qualificar o Estado como um “diabo”, que é “mau, horrível, [que] come criancinhas ao lanche e por aí fora”, como escreve no seu artigo de opinião no Público de hoje.

Estou saturado deste tipo de paleio, sobretudo por jornalistas, sobre um assunto que exige debate sério, e sem estar contaminado por pessoas que compactuam ou compactuaram com um ‘modelo de negócio’ da imprensa que descredibilizou o jornalismo português nos últimos anos.

Melhor regulação – não necessariamente mais (acho que a ERC dedicou mais horas de trabalho a analisar queixas contra o PÁGINA UM do que a analisar a crescente e evidente degradação da Global Media) –; maior participação e independência dos jornalistas nas redacções; outra seriedade na anedótica Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (que deixa impune claríssimas incompatibilidades e promiscuidades); e um debate sério sobre a definição de critérios apolíticos (sem intervenção conjuntural dos Governos ou da Assembleia da República) para o financiamento público dos media (por constituírem um bem público, na concepção económica do termo), são temas fundamentais para definir o futuro da imprensa escrita (em papel e online), radiofónica, televisiva e multimédia.

Mas esse debate deve ser feito à margem do que está a suceder com a Global Media, que antecipa o caso similar da Trust in News, dona da Visão. Aliás, por mim, seria saudável e até útil que se discutisse o futuro da imprensa em Portugal depois da concretização da queda destes dois grupos à força das leis do mercado, da oferta e da procura e da boa gestão da res publica (dinheiros públicos), porquanto assim a análise da sua ‘morte’ constituiria ensinamentos para não se cometerem os mesmos erros e nos vermos livres de pessoas que conspurcam a nobre profissão de jornalista.

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Porque o duplo padrão dos EUA em relação a Israel e à Rússia é um jogo perigoso

(Por Patrick Wintour, in The Guardian, 26/12/2023, Trad. Estátua de Sal)


A postura equívoca do Ocidente, em relação a Gaza, está a gerar um motim contra o domínio do discurso internacional pela ordem global.

Richard Haass, o ilustre analista global, escreveu uma vez: “A coerência na política externa é um luxo a que os decisores políticos nem sempre se podem dar”.
Mas, da mesma forma, a hipocrisia nacional flagrante pode ter um preço elevado, em termos de perda de credibilidade, prestígio global prejudicado e diminuição do respeito próprio.
Por isso, a decisão de Joe Biden de defender os métodos de Israel em Gaza tão pouco tempo depois de, num contexto diferente, ter condenado os da Rússia na Ucrânia, não é apenas uma ocasião para os liberais e os seus defensores se lamentarem.
Já está a ter um impacto real nas relações entre o Norte e o Sul, o Oeste e o Leste do mundo, tendo consequências que podem perdurar durante décadas.
A administração Biden, relutante em mudar de rumo, pode dizer que os paralelos entre Gaza e a Ucrânia estão longe de ser exactos, mas também parece saber que está a perder gradualmente o apoio diplomático.

Quando os EUA e Israel são acompanhados na assembleia geral da ONU por apenas oito outras nações, incluindo a Micronésia e Nauru, como aconteceu quando rejeitaram uma resolução de cessar-fogo para Gaza em dezembro passado, é mais difícil argumentar que a América continua a ser a nação indispensável – uma frase da ex-secretária de Estado Madeleine Albright frequentemente referida por Biden.

Em contrapartida, Vladimir Putin, após um período de isolamento global, “sente realmente que, nesta altura, tudo tende a virar-se em seu favor”, segundo Fiona Hill, antiga funcionária do Departamento de Estado dos EUA especializada na Rússia.

Num contexto em que muitas nações em ascensão encararam, de qualquer forma, a “ordem internacional baseada em regras” com ceticismo, o guião para Sergei Lavrov, o veterano Ministro dos Negócios Estrangeiros russo, escreve-se a si próprio. Falando no Fórum de Doha, em dezembro, Lavrov queixou-se: “As regras nunca foram publicadas, nunca foram sequer anunciadas por ninguém a ninguém, e estão a ser aplicadas dependendo do que exatamente o Ocidente precisa num determinado momento da história moderna”.

Para Hill, o discurso de Biden, em outubro, ligando a Ucrânia e Israel no seu esforço para persuadir o Congresso a libertar fundos para a primeira “pode ter sido uma boa decisão política no Congresso, mas talvez não tenha sido a boa decisão política a nível global”. A vítima de tudo isto, receia ele, será o presidente da Ucrânia, Volodymr Zelenskiy. Ele “vai ter muita dificuldade em lidar com isto”.

Mas a seletividade dos Estados Unidos, tal como é percebida em grande parte do Sul Global, é suscetível de provocar um ajuste de contas mais amplo. Muitas vezes, no passado, a Palestina foi tratada como um caso histórico especial na política global e como uma reserva aceite dos EUA.
Mas agora, de acordo com o especialista israelita Daniel Levy, a questão foi atirada “para o coração daquilo a que algumas pessoas chamaram a crise política”.

Levy afirma: “Um exercício monopolista dos EUA [relativamente ao destino de Gaza] não está em sintonia com o mundo em que vivemos atualmente e com a geopolítica contemporânea. Nesse sentido, aconteceu uma coisa importante e interessante, e talvez até uma fonte de alguma esperança, que é o facto de termos visto que, em grande parte do chamado Sul Global e em muitas cidades do Ocidente, a Palestina ocupa agora um tipo de espaço simbólico. É uma espécie de avatar de uma rebelião contra a hipocrisia ocidental, contra esta ordem global inaceitável e contra a ordem pós-colonial”.
Numa altura em que as instituições multilaterais lutam contra aquilo a que António Guterres, secretário-geral da ONU, chama “as forças da fragmentação”, a forma como os EUA lidam com Gaza é importante, não apenas para Gaza, mas para o multilateralismo.

Se a defesa de Israel por parte dos EUA continuar a correr mal, há um ou dois resultados prováveis. A tendência para a mudança de alianças transaccionais e não ideológicas irá aumentar. A compra de fóruns por parte dos países ou a cobertura estratégica, que exige uma gestão ativa da carteira, tal como a cobertura financeira, tornar-se-á ainda mais a norma. Em alternativa, a América poderá ver-se confrontada com blocos alternativos maiores e mais assertivos, quer se trate de um BRICS alargado, liderado este ano por Putin, ou de outras alianças lideradas pela China.

Há apenas seis meses, a situação parecia muito diferente. Depois de um período de inércia – eufemismo para referir a divisão e o mal-estar alimentados pela presidência Trump – o Ocidente em 2022 redescobriu-se e orgulhou-se de ter respondido à invasão da Ucrânia por Putin com uma solidariedade sem precedentes. Sem medo da guerra, ou de perder as fontes de energia russas.
O exército russo não só tinha sido repelido às portas de Kiev, como também tinha sido exposto como uma força moralmente falida, culpada de actos hediondos de barbárie em Bucha e noutros locais. A Ucrânia tinha-se tornado o coração pulsante dos valores europeus actuais, como afirmou Ursula von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia.

A ordem liberal, esmagada pelo Iraque e derrotada no Afeganistão, tinha-se reanimado. Na Assembleia Geral da ONU, 140 nações condenaram a invasão russa. Os aliados de Moscovo ficaram em silêncio.
Biden organizou cimeiras sobre a democracia e lançou projectos de infraestruturas para os pobres do mundo que rivalizam com os da China. Dizia-se que Biden estava a fazer uma apresentação ao Sul Global como parte de uma tradição democrática distinta que remontava ao anti-imperialismo de Franklin D. Roosevelt, à defesa da Carta das Nações Unidas por Truman (assinada em 1945) e aos esforços de Kennedy para forjar laços mais estreitos com governos não alinhados.

No entanto, mesmo nessa altura, a par desta auto-congratulação, havia uma questão incómoda, a de saber por que razão muitos dos parceiros naturais do Ocidente viam a Ucrânia de forma diferente. Por exemplo, na Assembleia Geral das Nações Unidas, quando lhes foi pedido que fizessem algo de prático para apoiar a Ucrânia, como impor sanções, o número de países que apoiavam Kiev desceu para perto de 90.

Alguns líderes limitaram-se a encolher os ombros com indiferença. Paul Kagame, o presidente do Ruanda, disse: “No meu caso, é possível que não tenha de tomar partido por nenhum dos lados, uma vez que não tenho nenhuma contribuição a dar a este debate. O assunto está nas mãos de outros países, não me diz respeito”.

Evidentemente, grande parte do mundo não via a Ucrânia como uma luta anti-imperialista global, mas sim como um conflito regional dentro da Europa, que apenas lhes trazia preços mais altos para os alimentos.

“Acreditámos que a invasão de um território soberano e as violações extremamente graves das leis internacionais cometidas pelo exército russo colocariam automaticamente os países do nosso lado. Subestimámos a força da influência russa no continente africano”, disse Alexander Khara, especialista em relações internacionais do Centro de Estratégias de Defesa, um thinktank sediado em Kiev.

De facto, como Hill explicou na conferência Lennart Meri, realizada em Tallinn, na Estónia, em maio deste ano, Putin aproveitou habilmente um poço pré-existente de ressentimento com uma Pax Americana moribunda. “Trata-se de um motim contra aquilo que consideram ser o Ocidente coletivo a dominar o discurso internacional e a impingir os seus problemas a todos os outros, ao mesmo tempo que põem de lado as suas prioridades em matéria de compensação das alterações climáticas, desenvolvimento económico e alívio da dívida. Os restantes sentem-se constantemente marginalizados nos assuntos mundiais”.

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Índia, S. Jaishankar, foi sucinto: “Algures, a Europa tem de deixar de pensar que os problemas da Europa são os problemas do mundo e que os problemas do mundo não são os problemas da Europa”.

Agora, com Gaza, o clima anti-americano latente foi reforçado. O facto de existir qualquer paralelo legal ou moral entre o comportamento russo e israelita é, obviamente, rejeitado pela administração Biden, que, em vez disso, afirma que o verdadeiro paralelo reside nos crimes de guerra do Hamas e do exército russo.
A invasão e destruição de cidades ucranianas por Putin não foi um ato de autodefesa. Não foi uma resposta a um ultraje específico em que as forças ucranianas atravessaram a Rússia e massacraram jovens russos em festa. Tratou-se de uma afirmação russa do império e da sua esfera de influência. Mas quando os edifícios bombardeados de Gaza são comparados nas redes sociais com os de Mariupol, a situação torna-se mais complexa. A questão da proporcionalidade entra em jogo. A resposta israelita parece mais um acto de vingança, como o praticado pelos EUA após o 11 de setembro, vingança que Biden desaconselhou especificamente o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, a praticar.

No entanto, de um modo geral, o Ocidente, com algumas excepções, manteve-se em silêncio sobre Gaza quando o ataque de Israel começou. Josep Borrell, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da UE, foi um dos que rompeu as fileiras, dizendo: “Penso que privar uma população civil dos serviços básicos – água, alimentos, medicamentos, tudo – é algo que parece ser contra o direito internacional”. Em contrapartida, os representantes do Reino Unido na ONU, em nada menos do que 11 debates no Conselho de Segurança, instaram Israel a cumprir o direito humanitário, mas nunca disseram que o país não o tinha feito.

Pressionados durante semanas para dizer se a perda de 18.000 vidas, maioritariamente civis, poderia constituir uma violação do direito internacional, os líderes ocidentais falaram apenas no tempo condicional, acrescentando que não podiam fazer juízos de valor, uma vez que se tratava de uma questão para os tribunais. “Não seremos arrastados para um papel de juiz e júri no meio de tudo isto”, disse recentemente Jake Sullivan, o conselheiro de segurança nacional dos EUA. Grande contraste com as palavras de John Kerry, secretário de Estado dos EUA, em 2016, sobre o papel da Rússia na destruição de Alepo. Ele disse: “É inapropriado estar a bombardear da forma como o estão a fazer. É completamente contra as leis da guerra, é contra a decência, é contra qualquer moralidade comum, e está a custar muito caro”. Ou Biden, na Polónia, no primeiro aniversário da invasão russa da Ucrânia. “Eles cometeram depravação, crimes contra a humanidade, sem vergonha ou compunção. Atacaram civis com morte e destruição. Utilizaram a violação como arma de guerra. Roubaram crianças ucranianas numa tentativa de roubar o futuro da Ucrânia. Bombardearam estações de comboios, maternidades, hospitais, escolas e orfanatos”.

Não se tratou apenas de retórica presidencial. Em março de 2022, o Departamento de Estado declarou formalmente que, com base nas informações então disponíveis, o governo dos EUA considerava que membros das forças russas tinham cometido crimes de guerra na Ucrânia. “A nossa avaliação baseia-se numa análise cuidadosa das informações disponíveis de fontes públicas e de serviços secretos”, afirmou o Departamento de Estado. Num discurso proferido na Conferência de Segurança de Munique, em fevereiro de 2023, Kamala Harris, a vice-presidente dos EUA, reiterou que os EUA tinham determinado formalmente que a Rússia tinha cometido crimes contra a humanidade. “Procuraremos justiça para os crimes de guerra e os crimes contra a humanidade que continuam a ser cometidos pelos russos”, afirmou. Não há muitos equívocos ou deferência para com a autoridade judicial superior. Além disso, a Ucrânia quebrou um impasse no Senado dos EUA relativamente aos crimes de guerra e à sua ambivalência em relação ao Tribunal Penal Internacional, do qual os EUA não são parte. No espaço de semanas, o Senado, sob o impulso do republicano Lindsey Graham, aprovou por unanimidade uma resolução que exigia medidas de responsabilização, tanto a nível internacional, através do TPI, como a nível bilateral.
A resolução que afirmava que “os EUA eram um farol para os valores da liberdade, da democracia e dos direitos humanos” deu origem à Lei da Justiça para as Vítimas de Crimes de Guerra (EUA), que acabou por ser patrocinada por uma coligação bipartidária. A lei alargou drasticamente o âmbito das pessoas que podem ser processadas ao abrigo da Lei dos Crimes de Guerra. Anteriormente, o Departamento de Justiça podia processar crimes de guerra onde quer que ocorressem, mas apenas se o perpetrador ou a vítima do crime de guerra fosse um cidadão dos EUA, um residente permanente legal dos EUA ou um membro das forças armadas dos EUA. A lei alterada permite a acusação de qualquer pessoa presente nos EUA, independentemente da nacionalidade do perpetrador ou da vítima. Simultaneamente, os EUA, na qualidade de membro do Grupo Consultivo para os Crimes Atrozes na Ucrânia, começaram a fornecer ao TPI as suas provas de crimes de guerra, enviando uma equipa de investigadores e procuradores para ajudar o procurador ucraniano, o general Andriy Kostin, “a documentar, preservar e preparar casos de crimes de guerra”. É difícil imaginar uma inversão mais abrangente das atitudes do Congresso.

Em contrapartida, depois de dois meses de destruição em Gaza, o Departamento de Estado dos EUA disse que não vê necessidade de iniciar qualquer exame interno formal sobre se Israel cometeu crimes de guerra, apesar de as armas que tem estado a utilizar terem sido fornecidas pelos EUA e de, segundo algumas contas, terem sido mortos mais civis em Gaza em dois meses do que na Ucrânia em mais de dois anos.

Nem mesmo a notícia de que bombas cegas, não guiadas, foram usadas em quase metade dos ataques israelitas, ou que o próprio presidente disse temer que os bombardeamentos fossem indiscriminados, levou o Departamento de Estado a dizer que sentia a necessidade de conduzir uma investigação formal sobre violações do direito humanitário.

Uma viagem rápida à volta do mundo revela o impacto que isto teve. Os Estados Unidos, quer queiram quer não, correm o risco de se tornarem sinónimo de dois pesos e duas medidas. Udo Jude Ilo, o diretor executivo da Civilians in Conflict, nascido na Nigéria, é apenas uma das inúmeras figuras africanas a lançar um aviso. Disse ele: “Estamos agora numa situação em que a identidade do agressor ou a identidade da vítima determina a forma como o mundo responde, e não é possível manter um quadro internacional de proteção se esta estiver disponível à la carte”. O resultado é o esvaziamento do respeito pelo direito internacional humanitário. Mandla Mandela, neto de Nelson Mandela, disse: Os responsáveis norte-americanos são questionados sobre o uso desproporcionado da força pelo exército israelita em Gaza e a resposta é: “Não vamos falar sobre ataques específicos”. Mas não se trata de uma questão de princípio, tendo em conta as últimas semanas e as últimas guerras em Gaza?”.

A um nível oficial mais sólido, o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Egipto, Sameh Shoukry, disse: “O Sul Global está a olhar com muita atenção para a evolução deste conflito e está a fazer comparações. E creio que está a perder a confiança na viabilidade dos valores que foram projectados pelo Norte Global. Essa é uma situação muito perigosa, porque pode causar o rompimento da ordem mundial.” Luis Inácio Lula da Silva, Presidente do Brasil e Presidente do G20 este ano, disse numa cimeira da Voz do Sul Global, em novembro deste ano, que era necessário “restaurar a primazia do direito internacional, incluindo o direito humanitário, que se aplica igualmente a todos, sem dois pesos e duas medidas unilaterais”. O primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim, também ele um ex-preso político, tem denunciado repetidamente a invasão de Putin. “Foi-nos pedido que condenássemos a agressão na Ucrânia, mas alguns permanecem mudos perante as atrocidades infligidas aos palestinianos. Não lhes diz respeito o seu sentido de justiça e compaixão”, queixou-se na reunião de líderes da Ásia-Pacífico organizada por Biden em São Francisco, em novembro.

A administração Biden, com a sua relação única com Israel e a sua cultura política insular, tem por vezes parecido surda. “Diga-me uma outra nação, qualquer nação, que esteja a fazer tanto quanto os Estados Unidos para aliviar a dor e o sofrimento do povo de Gaza”, disse John Kirby, coordenador do NSC para comunicações estratégicas. “Não se pode. Simplesmente não se pode. Os Estados Unidos, através de [Biden], estão a liderar os esforços para fazer chegar camiões, alimentos, água, medicamentos e combustível à população de Gaza (…) e indique outra nação que esteja a fazer mais para exortar os seus homólogos israelitas, os nossos homólogos israelitas, a serem tão cautelosos e deliberados quanto possível na condução das operações militares. Não podeis”.

Ou o embaixador adjunto na ONU, Robert Wood, a percorrer casualmente o seu iPhone enquanto o embaixador palestiniano fazia um apelo apaixonado pela sobrevivência da Palestina. Ou Biden, que num minuto defende Israel e no outro admite subitamente que estão a ser feitos bombardeamentos indiscriminados. São erros não forçados que, em segundos, se propagam por todo o mundo e pelos canais árabes por satélite.

Julien Barnes-Dacey, do Conselho Europeu de Relações Externas, argumenta que os danos causados à posição americana podem, em última análise, ser mais sentidos não no Sul Global, mas no próprio Ocidente. Disse ele: “Esse golpe pode ser sentido mais pelos europeus do que pelo Sul Global. A reação do Ocidente ao que está a acontecer em Gaza e a nossa incapacidade de chamar a atenção para Israel não despertou subitamente o Sul Global para a duplicidade de critérios, mas reconfirmou-lhes o que eles pensam que é o Ocidente. “Se é cidadão do Médio Oriente ou de África, já há algum tempo que sente a duplicidade de critérios, seja através de acordos europeus sobre migração ou de pactos com governos autoritários. Mas este conflito está a forçar um grau de auto-reconhecimento sem precedentes na Europa, o que está a criar um profundo desconforto entre muitos aqui”.

O mesmo acontece na política de esquerda dos EUA, onde, segundo o Pew Centre, 45% dos democratas pensam que Israel está a ir longe demais, em termos militares, enquanto apenas 18% pensam que está a adotar a abordagem correcta. Matthew Duss, ex-conselheiro de política externa do senador Bernie Sanders, disse “Se dissermos simplesmente que essas regras podem ser ignoradas por países de que gostamos ou com os quais temos uma relação especial, não estamos a criar uma ordem baseada em regras. Estamos a criar uma ordem em que o poder faz o direito”.

O que é que se segue?

Putin acha que já sabe. Disse recentemente a um grupo de novos diplomatas: “O mundo está a passar por uma transformação fundamental. A mudança subjacente é que o antigo sistema mundial unipolar está a ser substituído por uma nova ordem mundial, mais justa e multipolar. Creio que este facto já se tornou óbvio para todos. Naturalmente, um processo tão fundamental não será fácil, mas é objetivo e – como quero sublinhar – irreversível”.

Ao tentar dominar a diplomacia em torno de Israel e excluir outros países, Biden mostrou que não entendia o mundo que estava a ser forjado, argumentou. Putin espera que tudo o que tem a fazer é encorajar algumas sanções e esperar pelo dia 5 de novembro de 2024 – dia das eleições nos EUA – quando Donald Trump poderá ser reeleito. A promessa de Trump de “acabar com a guerra em 24 horas” é amplamente vista como exigindo uma perda significativa de território ucraniano para a Rússia.

Para provar que Putin está errado e para se proteger, Biden parece ocasionalmente perceber que precisa que a guerra de Gaza termine e que isso exige o fim do seu apoio incondicional a Netanyahu. Os Estados árabes, por muito que não gostem do Hamas e do Islão político, querem o fim do conflito, tal como grande parte da sociedade civil ucraniana, para quem Gaza foi uma tripla tragédia – desviou a atenção do mundo, desacreditou o conceito de ordem baseada em regras e dividiu o Ocidente, enfraquecendo Biden e a UE.

É compreensível que Zelenskiy tenha assumido a posição inequivocamente pró-israelita que assumiu, mas Timothy Kaldas, diretor-adjunto do Instituto Tahrir para a Política do Médio Oriente, afirmou: “Se defendemos uma ordem internacional baseada em regras, se queremos impedir que os países tomem território com o uso da força, então a Ucrânia não deveria ver-se alinhada com os israelitas”.

Para outros, como Borrell, a preocupação é que as tendências pré-existentes para um mundo mais multipolar, mas menos multilateral, se acelerem. Só as memórias revelarão o quanto as figuras de topo da administração Biden temiam, em tempo real, a escalada dos danos cumulativos na reputação que estavam a ser infligidos não só a Biden, mas também ao prestígio americano.

De momento, dão a impressão de que a administração está a aperceber-se lentamente dos limites da sua capacidade para dirigir não só o resultado desta guerra, mas também a ordem global que se seguirá.

Este artigo foi alterado em 27 de dezembro de 2023. Uma versão anterior referia-se a acontecimentos que “levaram o Departamento de Estado a dizer que sentia a necessidade de conduzir uma investigação formal sobre violações do direito humanitário”. Esta versão foi corrigida para dizer que esses eventos “não levaram o Departamento de Estado …”.

Fonte aqui.


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Genocídio em Gaza

(Por John J. Mearsheimer, in mearsheimer.substack.com/, 04/01/2024, Trad. Estátua de Sal)

John J. Mearsheimer

Escrevo para assinalar um documento verdadeiramente importante que deveria ser amplamente divulgado e lido com atenção por qualquer pessoa interessada na atual Guerra de Gaza.

Refiro-me especificamente ao “requerimento” de 84 páginas que a África do Sul apresentou ao Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) em 29 de dezembro de 2023, acusando Israel de cometer genocídio contra os palestinianos em Gaza. (1) O documento sustenta que as acções de Israel desde o início da guerra, em 7 de outubro de 2023, “se destinam a provocar a destruição de uma parte substancial do grupo nacional, racial e étnico palestiniano … na Faixa de Gaza”. Esta acusação enquadra-se claramente na definição de genocídio da Convenção de Genebra, da qual Israel é signatário. (2)

A petição é uma excelente descrição do que Israel está a fazer em Gaza. É exaustiva, bem escrita, bem argumentada e minuciosamente documentada. O pedido tem três componentes principais.

Em primeiro lugar, descreve em pormenor os horrores que as FDI infligiram aos palestinianos desde 7 de outubro de 2023 e explica por que razão lhes está reservada muito mais morte e destruição.

Em segundo lugar, a petição apresenta um conjunto substancial de provas que demonstram que os dirigentes israelitas têm intenções genocidas contra os palestinianos. (59-69) De facto, os comentários dos dirigentes israelitas – todos escrupulosamente documentados – são chocantes. Faz-nos lembrar a forma como os nazis falavam de lidar com os judeus quando lemos a forma como israelitas em “posições da mais alta responsabilidade” falam de lidar com os palestinianos. (59) Essencialmente, o documento argumenta que as acções de Israel em Gaza, combinadas com as declarações de intenção dos seus líderes, tornam claro que a política israelita é “calculada para provocar a destruição física dos palestinianos em Gaza.” (39)

Em terceiro lugar, o documento faz um esforço considerável para colocar a guerra de Gaza num contexto histórico mais amplo, deixando claro que Israel tem tratado os palestinianos em Gaza como animais enjaulados há muitos anos. Cita numerosos relatórios da ONU que descrevem em pormenor o tratamento cruel de Israel para com os palestinianos. Em suma, a petição deixa claro que o que os israelitas têm feito em Gaza desde 7 de outubro é uma versão mais extrema do que já faziam muito antes de 7 de outubro.

Não há dúvida de que muitos dos factos descritos no documento sul-africano foram anteriormente relatados nos meios de comunicação social. No entanto, o que torna a petição tão importante é o facto de reunir todos esses factos num único local e fornecer uma descrição abrangente e completamente apoiada do genocídio israelita. Por outras palavras, fornece o quadro geral sem descurar os pormenores.

Sem surpresa, o governo israelita classificou as acusações de “calúnia de sangue” que “não tem qualquer base factual e judicial”. Além disso, Israel afirma que “a África do Sul está a colaborar com um grupo terrorista que apela à destruição do Estado de Israel. ” (3). Uma leitura atenta do documento, no entanto, torna claro que não há base para estas afirmações. De facto, é difícil ver como Israel se poderá defender de uma forma racional e legal quando o processo começar. Afinal de contas, os factos nus e crus são difíceis de contestar.

Permitam-me que faça algumas observações adicionais relativamente às acusações sul-africanas.

Em primeiro lugar, o documento sublinha que o genocídio é distinto de outros crimes de guerra e crimes contra a humanidade, embora “exista frequentemente uma ligação estreita entre todos esses actos”. (1) Por exemplo, visar uma população civil para ajudar a ganhar uma guerra – como aconteceu quando a Grã-Bretanha e os Estados Unidos bombardearam cidades alemãs e japonesas na Segunda Guerra Mundial – é um crime de guerra, mas não um genocídio. A Grã-Bretanha e os Estados Unidos não estavam a tentar destruir “uma parte substancial” ou toda a população dos Estados visados. A limpeza étnica sustentada pela violência selectiva é também um crime de guerra, embora também não seja genocídio, uma ação que Omer Bartov, o perito israelita no Holocausto, chama “o crime de todos os crimes”. (4).

Para que conste, eu acreditava que Israel era culpado de crimes de guerra graves – mas não de genocídio – durante os primeiros dois meses da guerra, apesar de existirem provas crescentes daquilo a que Bartov chamou “intenção genocida” por parte dos líderes israelitas. (5). Mas tornou-se claro para mim, após o fim das tréguas de 24-30 de novembro de 2023 e o regresso de Israel à ofensiva, que os líderes israelitas estavam de facto a tentar destruir fisicamente uma parte substancial da população palestiniana de Gaza.

Em segundo lugar, embora a petição sul-africana se centre em Israel, tem enormes implicações para os Estados Unidos, especialmente para o Presidente Biden e os seus principais lugares-tenentes. Porquê? Porque há poucas dúvidas de que a administração Biden é cúmplice do genocídio de Israel, que também é um ato punível de acordo com a Convenção do Genocídio. Apesar de admitir que Israel está envolvido em “bombardeamentos indiscriminados”, o Presidente Biden também declarou que “não vamos fazer nada para os parar, além de proteger Israel. Nem uma única coisa. ” (6). Ele tem sido fiel à sua palavra, chegando ao ponto de contornar o Congresso duas vezes para conseguir rapidamente armamento adicional para Israel. Deixando de lado as implicações legais do seu comportamento, o nome de Biden – e o nome dos Estados Unidos – ficará para sempre associado ao que provavelmente se tornará um dos casos exemplares de tentativa de genocídio.

Em terceiro lugar, nunca imaginei que veria o dia em que Israel, um país repleto de sobreviventes do Holocausto e seus descendentes, enfrentaria uma séria acusação de genocídio.

Independentemente da forma como este caso se desenrolar no TIJ – e aqui estou plenamente consciente das manobras que os Estados Unidos e Israel empregarão para evitar um julgamento justo -, no futuro Israel será amplamente considerado como o principal responsável por um dos casos canónicos de genocídio.

Em quarto lugar, o documento sul-africano sublinha que não há razão para pensar que este genocídio vai acabar em breve, a menos que o TIJ intervenha com êxito. Cita por duas vezes as palavras do Primeiro-Ministro israelita Benjamin Netanyahu, em 25 de dezembro de 2023, para enfatizar este ponto: “Não estamos a parar, continuamos a lutar, e estamos a aprofundar a luta nos próximos dias, e esta será uma longa batalha e não está perto de terminar”. (8, 82) Esperemos que a África do Sul e a CIJ ponham termo aos combates, mas, em última análise, o poder dos tribunais internacionais para coagir países como Israel e os Estados Unidos é extremamente limitado.

Por último, os Estados Unidos são uma democracia liberal repleta de intelectuais, editores de jornais, decisores políticos, especialistas e académicos que proclamam regularmente o seu profundo empenho na proteção dos direitos humanos em todo o mundo. Tendem a ser muito vocais quando os países cometem crimes de guerra, especialmente se os Estados Unidos ou qualquer dos seus aliados estiverem envolvidos. No entanto, no caso do genocídio de Israel, a maior parte dos especialistas em direitos humanos da corrente dominante liberal pouco disseram sobre as acções selvagens de Israel em Gaza ou sobre a retórica genocida dos seus líderes. Esperemos que, em algum momento, expliquem o seu silêncio perturbador. Seja como for, a história não será gentil com eles, pois não disseram uma única palavra enquanto o seu país era cúmplice de um crime horrível, perpetrado à vista de todos.

Fonte aqui.


1 https://www.icj-cij.org/sites/default/files/case-related/192/192-20231228-app-01-00-en.pdf

2 https://www.un.org/en/genocideprevention/documents/atrocity-crimes/Doc.1_Convention%20on%20the%20Prevention%20and%20Punishment%20of%20the%20Crime%20of%20Genocide.pdf

3 https://www.timesofisrael.com/blood-libel-israel-slams-south-africa-for-filing-icj-genocide-motion-over-gaza-war/

4 https://www.nytimes.com/2023/11/10/opinion/israel-gaza-genocide-war.html

5 https://mearsheimer.substack.com/p/death-and-destruction-in-gaza

6 https://www.motherjones.com/politics/2023/12/how-joe-biden-became-americas-top-israel-hawk/


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