Com papas e bolos…

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 04/03/2024)

Após a morte de Navalny, lamentavelmente, ninguém no ‘mainstream’ parou uns segundos para pensar, para questionar, não enganar e não ser enganado.


Após a morte de Navalny, lamentavelmente, ninguém no ‘mainstream’ parou uns segundos para pensar, para questionar, não enganar e não ser enganado.

O caso Navalny trouxe-me à memória muitos outros casos, em que as opiniões públicas, resultado da ação da designada Comunicação Estratégica são levadas a acreditar em versões enviesadas dos acontecimentos. Para se atingirem determinados objetivos políticos, versões deturpadas dos factos são apresentadas de modo a serem percebidas como verdades indiscutíveis. Falamos de manipulação das perceções.

A minha atenção para este fenómeno foi despertada por um acontecimento que relatei num livro publicado em 2016. Quando um jornalista perguntou ao responsável de uma empresa de Relações Públicas (RP), contratada por croatas e muçulmanos bósnios, para promover as suas causas, ou, se quisermos, as suas imagens públicas, qual era o feito de que mais se orgulhava, a resposta saiu pronta e sem hesitação: “Colocar a opinião pública judaica do nosso lado”, leia-se, contra os sérvios bósnios acusando-os de nazis.

Esta “tese” punha em causa toda a história da Segunda Guerra Mundial, nos Balcãs. Quem, na verdade, combateu as forças de Hitler foram os sérvios, tanto os que alinharam com os partisans como os monárquicos. Os croatas e os muçulmanos estiveram do lado errado da história, engrossando as fileiras da Wehrmacht e das SS com unidades próprias. Milhares de judeus morreram às mãos dos croatas em campos de concentração na Croácia.

Ambos os presidentes Tuđman (croata) e Izetbegović (muçulmano bósnio) tinham escrito livros onde expressavam ideias muito inconvenientes e inapropriadas. O primeiro defendia, com grande convicção, ideias antissemitas e racistas, enquanto o segundo defendia, como objetivo último da sua ação política, a criação de um Estado islâmico fundamentalista. As questões ideológicas não foram impedimento para o Ocidente se colocar do lado dos croatas e dos muçulmanos na guerra que dilacerou o país, entre 1992 e 1995.

Perante cartões de visita tão inapresentáveis, como dizia o responsável da empresa de RP, havia todas as razões para que intelectuais e organizações judaicas fossem hostis, tanto a croatas como a muçulmanos. “O nosso desafio [da empresa de RP] era reverter esta atitude. E nós fizemos isso magistralmente. Foi um tremendo golpe”. E foi mesmo. Conseguiram colocar as opiniões públicas ocidentais contra os supostos sérvios nazis. É para isto que servem as empresas de Relações Públicas. Limpar imagens, alterar perceções. Foi dinheiro bem empregue!

Apesar do Tribunal de Haia ter, em 2016, ilibado Milosevic da responsabilidade pelos crimes de que foi acusado, ficou para a história como o “carniceiro dos Balcãs”. O mal já estava feito, pouco ou nada serviu a “retificação.” A verdade histórica apurada a posteriori não produz efeitos retroativos. Não faz breaking news.

Na altura, a internet não tinha ainda a utilização generalizada que tem nos dias de hoje, nem existiam redes sociais. Como dizia o referido membro da empresa de RP, a diferença fazia-se através de uma boa base de dados, um computador e um fax. A base de dados devia conter algumas centenas de nomes de jornalistas, políticos, académicos e representantes de organizações humanitárias. Eles encarregar-se-iam de propalar e difundir as “notícias”.

Com a morte de Navalny aconteceu algo semelhante ao que acabo de contar. O Kremlin foi acusado de imediato e sem hesitações da sua morte, em várias versões. Não tenho informação para me pronunciar sobre as causas de tão trágico acontecimento. Mas a débil verosimilhança do que se conta não resiste a um apuramento dos factos, mesmo ligeiro e rápido que seja. Lamentavelmente, ninguém no mainstream parou uns segundos para pensar, para questionar, não enganar e não ser enganado.

Foi dilacerante ver como ideias estúpidas conseguiram ganhar tração e prevalecer. Os difusores da “verdade” podiam ter-se interrogado, por exemplo, qual seria o interesse do Kremlin em aniquilar um opositor irrelevante – considerado no Ocidente o grande opositor de Putin, vá lá saber-se porquê –, quem fez essa avaliação e com que métrica, quando estavam em curso negociações para ser trocado por um agente russo. Por outro lado, só um ignorante pode acreditar na morte de Navalny causada por envenenamento com Novichok.

Para tornar a situação ainda mais absurda, o insuspeito general Budanov, chefe dos serviços de intelligence ucranianos, veio confirmar a tese russa, afirmando que Navalny teria morrido de morte natural. Dispensaremos da análise muitos outros temas igualmente merecedores de atenção, mas que poderão ser considerados menos ponderosos para o caso (consumo frequente de narcóticos, a visita do advogado na véspera da morte, a coincidência da morte com a inauguração da Conferência de Segurança de Munique, a defesa da ocupação da Crimeia e, simultaneamente, a oposição à operação militar russa na Ucrânia, xenofobia, ligação comprovada a organizações neonazis, etc.).

É muito preocupante que um acontecimento desta natureza, com as implicações políticas conhecidas, não tenha sido objeto de maior escrutínio, ou, se quisermos, de escrutínio tout court. Se é compreensível que as massas não o tivessem feito, o mesmo não se poderá dizer de outros segmentos da sociedade, enquadráveis naquilo que poderemos designar por elites (académicos, fazedores de opinião, intelectuais, etc.). Terá sido desleixo? Não parece credível.

A ausência de interrogações sobre o assunto leva-me a introduzir dois temas na discussão, transportando-a para um outro patamar: o conceito de socialização e poder hegemónico, desenvolvido por John Ikenberry e Charles Kupchan, dois académicos liberais norte-americanos; e o conceito de Comunicação Estratégica.

Ikenberry e Kupchan publicaram, em 1990, na International Organization, um artigo fabuloso, onde explicam como as potências hegemónicas se devem comportar para afirmarem o seu controlo sobre os outros Estados, entenda-se os Estados subordinados. As suas propostas têm como referência aquilo que os EUA devem fazer para o conseguir.

Segundo eles, a cooperação dos Estados secundários com a potência hegemónica exige a adesão a crenças substantivas. A aquiescência advém da socialização dos líderes dos estados secundários; das suas elites aceitarem e interiorizarem as normas articuladas pelo poder hegemónico e, portanto, seguirem políticas consistentes com a sua noção de ordem internacional.

Este processo exige que os líderes e elites dos Estados secundários interiorizem as orientações, e aceitem a normatividade dos valores propostos pela potência hegemónica. Para o processo de socialização resultar, é essencial a recetividade daqueles dois segmentos da sociedade às normas articuladas “superiormente.”

A Comunicação Estratégica desempenha um papel crucial no processo de socialização dos líderes e das elites das nações secundárias. Trata-se de um conceito aglutinador de conceitos, como sejam, as relações públicas, a diplomacia pública, as operações de informações e as operações psicológicas. É o veículo utilizado para moldar atitudes e comportamentos dos diferentes segmentos da sociedade.

Sem entrarmos em grandes considerações conceptuais, diremos que abre as portas ao exercício de operações psicológicas sobre as populações amigas, coisa que o conceito isolado de operações psicológicas proíbe, criando uma barreira conceptual muito ténue entre o permitido e o não permitido. Com a criação do conceito de Comunicação Estratégica as fronteiras esbateram-se. O que não se podia efetuar sobre as populações amigas, acaba por se fazer sob a capa da Comunicação Estratégica. Abrem-se as portas à desinformação sob um manto límpido e assético.

A socialização ajudou a produzir elites que aceitam sem reticências e discussão as crenças básicas propostas pela potência hegemónica, e que agem e pensam em conformidade e de modo normalizado; a Comunicação Estratégica amplifica e difunde essas crenças, através de uma seleção criteriosa de temas e mensagens. A “não normatividade” é penalizada com a ostracização (e não só). É para aí que caminhamos.

Se fosse vivo, George Orwell teria nas democracias liberais de hoje muita matéria para fazer uma revisão alargada do seu “1984”.


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O nazi Navalny

(Joana Amaral Dias, in Sol, 01/03/2024)

(Apesar de já termos publicado dois longos textos sobre a campanha de intoxicação “Navalny” no Ocidente, não resisti a revisitar o tema. Por vezes, há contributos de qualidade que vêm de onde não se espera que viessem, seja quanto à autoria, seja quanto ao local da sua publicação. É o que sucede com este texto. Por acaso, a Estátua estava atenta… 🙂

Estátua de Sal, 04/03/2024)


É insuportável ver o Governo e tanta nata bem-pensante a darem o nazi-Navalny como democrata.


O branqueamento e a idealização que têm sido conduzidos sobre Navalny seriam patéticos se não fossem tão perigosos. Um herói?! Alexei debutou na política como organizador de marchas neonazis na Rússia e, de resto, manteve até ao final da sua vida que os imigrantes são baratas que devem ser eliminadas a tiro. Foi expulso do primeiro partido onde militou por ideias ultra nacionalistas e espalhou ódio que desembocou em assassinatos xenófobos. Esses grupelhos foram ilegalizados na Rússia só que o santo do ocidente manteve sempre a sua sanha e, por exemplo, numa entrevista ao Guardian em 2017, dizia não se arrepender do seu racismo primário. 

Também não se trata de um modelo de combate à corrupção. Em 2013, foi condenado a cinco anos de pena suspensa por peculato e desvio de fundos. Em 2014, foi dado como culpado, juntamente com o irmão, de outro peculato. Ou seja, inicialmente não foi detido por motivos políticos mas por crimes como, de resto, também foi na altura reconhecido pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos e pela própria Amnistia Internacional. De facto, pelo meio lançou a ‘Fundação Anticorrupção’ largamente financiada pelos EUA e pelo RU. De resto, as suas ligações ao Ocidente e até aos seus serviços secretos sempre foram mais fortes do que as suas ligações à própria Rússia, onde não goza nem de um décimo da popularidade que granjeia por aqui. Aliás, nem nunca sequer foi ‘o maior opositor de Putin’ como bale a carneirada. O maior opositor é o partido Comunista. Aliás, o seu braço direito nessa Fundação foi filmado a tentar sacar milhões a um membro da embaixada do Reino Unido em Moscovo. Já Navalny esteve em 2010 na prestigiada Yale a fazer um curso de liderança que tem preparado vários protagonistas para revoluções nos seus países. Contudo, convém não esquecer que apoiou a operação na Crimeia em 2014 e as intervenções militares na Abecásia e na Ossétia do Sul. Jogou em vários tabuleiros e estava pejado de contradições.

Sobretudo, Navalny lembra aquela velha tática estado-unidense popularizada pelo secretário norte-americano Cordell Hull. Esse diplomata diria sobre o ditador Rafael Trujillo da República Dominicana (que deixou um rasto de de milhares de mortes): «Ele é um filho da p», mas é o nosso filho da ‘p*’. O que confrange nesta história não é apenas a hipócrita deificação de Navalny mas o facto dos EUA, frustrados com o sucesso de Putin em manter a federação russa, não terem conseguido recrutar um ‘fdp’ mais eficiente. De resto, que ganharia o presidente russo com a morte de Navalny? Até o timing parece deslocado e contra producente. 

Por fim, talvez o Ocidente pudesse carpir e lutar por Assange ou por Gonzalo Lira. Pelo menos não ficaria acusado de dois pesos e duas medidas. E se os EUA têm tantas dificuldades em explicar mortes como as de Jeffrey Epstein, talvez pudessem prestar atenção ao que está a ser difundido pelo Chefe de espionagem da Ucrânia-Kyrylo Budanov diz que Navalny morreu de coágulo sanguíneo, indo de encontro ao que chegou a ser divulgado pela própria equipa de Alexei.

Enfim, é insuportável ver o Governo português e tanta nata bem-pensante a darem o nazi-Navalny como um democrata, ecoando a narrativa da União Europeia. Essa mesmo que elegeu como prioridade o combate às fake news.


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Transcrição de uma conversa entre oficiais de alta patente da Bundeswehr, datada de 19/02/2024

(José Catarino Soares, 04/03/2024)

Em videoconferência vazada pela Rússia, altos oficiais alemães debatiam impacto de mísseis Taurus nos combates e fornecimento de dados sobre alvos para ucranianos. Moscovo acusa Ocidente de “guerra híbrida” e exige explicações.

Nota introdutória

A transcrição publicada mais abaixo foi traduzida para Português a partir do Inglês, [fonte aqui], com o tradutor automático Google e ligeiramente editada. Tem, por isso, seguramente, muitas imperfeições. O documento original foi traduzido e publicado em Russo por Margarita Simonian, jornalista da RT, (ver aqui), em 1 de Março de 2024

A conversa a que a transcrição diz respeito ocorreu em 19 de Fevereiro de 2024, entre o chefe do departamento de operações e exercícios do Comando da Força Aérea da Bundeswehr, o brigadeiro-general Frank Graefe; o inspector da Força Aérea da Bundeswehr, tenente-general Ingo Gerhartz, e dois técnicos do Centro de Comando Espacial das Operações Aéreas da Bundeswehr, os senhores Fenske e Frostedte. A Bundeswehr  (Port. Defesa Federal) está dividida numa parte militar (forças armadas ou Streitkräfte) e numa parte civil.

Entre outros assuntos, estes quatro homens da parte militar da Bundeswehr discutiram, como se verá, sobre o modo de destruir clandestinamente a ponte de Kerch, na Crimeia, com mísseis Taurus (de fabrico alemão) e sobre o modo de encobrir as suas acções clandestinas. Convém lembrar que o Parlamento alemão rejeitou, em 22 de Fevereiro último, uma moção da oposição (CDU [União da Democracia Cristã]) para entregar mísseis de cruzeiro Taurus à Ucrânia, depois de o chanceler Olaf Scholz ter recusado esta transferência, alegando recear o uso que poderia ter contra o território russo. Os mísseis Taurus podem atingir alvos a 500km de distância com grande precisão. 

O Ministério da Defesa Alemão confirmou a autenticidade da gravação desta conversa em 2 de Março de 2024 e informou que o MAD (Serviço Secreto de Informações Militares e Contra-espionagem da Alemanha) encetou uma investigação sobre o assunto, para averiguar a origem da fuga de informação e tomar as medidas necessárias para que outras fugas semelhantes não venham a correr.

Embora muitos comentadores tenham, compreensivelmente, atribuído esta fuga de informação ao GRU [o Serviço Secreto de Informações Militares e Contra-espionagem da Rússia], esta não é única interpretação possível do facto.

Como aventaram alguns analistas, parece igualmente plausível ‒ se não mesmo mais plausível ‒ que esta fuga de informação tenha sido obra de lançadores de alerta alemães, a fim de frustrar os planos dos sectores belicistas que, nos Estados-membros da OTAN e no próprio “Estado paralelo” alemão, parecem estar claramente empenhados em iniciar uma confrontação directa com a Rússia, a qual, a ocorrer, nos mergulharia na Terceira (e derradeira) Guerra Mundial. “Derradeira” porque, com o emprego generalizado de milhares de armas nucleares, ninguém sobreviveria para contar como acabou.

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Gerhartz: Olá a todos! Graefe, você está agora em Singapura?

Graefe: Sim.

Gerhartz : OK. Precisamos verificar as informações. Como já ouviram, o Ministro da Defesa Pistorius tenciona considerar cuidadosamente a questão do fornecimento de mísseis Taurus à Ucrânia. Temos uma reunião marcada com ele. Tudo tem de ser discutido para que possamos começar a trabalhar nesta questão. Até agora, não vejo que a data de início dessas entregas tenha sido indicada. Não foi como o chanceler lhe disse: “Quero obter informações agora, e amanhã de manhã tomaremos uma decisão”. Eu não ouvi nada assim. Pelo contrário, Pistorius avalia toda esta discussão em curso. Ninguém sabe por que razão o chanceler federal está a bloquear estes fornecimentos. Claro, surgem os rumores mais incríveis. Permitam-me que vos dê um exemplo: ontem telefonou-me um jornalista muito próximo do chanceler. Ouviu algures em Munique que os mísseis Taurus não funcionariam. Perguntei quem lhe disse isso. Ela respondeu que alguém com uniforme militar lhe disse isso. Claro que esta é uma fonte de informação de baixo nível, mas o jornalista agarrou-se a estas palavras e quer fazer um grande negócio com a manchete: “Agora sabemos a razão pela qual a chanceler se recusa a enviar mísseis Taurus ― eles não vão funcionar.” Tudo isto é estúpido. Tais tópicos estão disponíveis apenas para um círculo limitado de pessoas. No entanto, vemos que tipo de disparate está entretanto, a espalhar-se, estão a dizer completos disparates. Quero pôr-me de acordo convosco sobre esta questão, para que não avancemos na direção errada. Em primeiro lugar, tenho agora perguntas para Frostedt e Fenske. Alguém já falou com você sobre esse tema? Freuding entrou em contacto com você?

Frostedte: Não. Eu só contactei com Graefe.

Fenske: A mesma coisa, eu só contactei com Graefe.

Gerhartz: Talvez ele entre em contacto convosco novamente. Provavelmente, terei de participar em audições na comissão do orçamento, porque surgiram problemas relacionados com o aumento dos preços da conversão da infraestrutura para o F-35 em Büchel. Já transmiti as minhas recomendações através do Frank para que tenhamos slides para visualizar o material. Mostramos-lhe uma apresentação de teste onde mísseis Taurus foram instalados num avião Tornado ou em outro avião porta-mísseis exigido pela missão. No entanto, tenho dificuldade em imaginar isso. É necessário lembrar que esta é uma reunião de meia hora, então vocês não devem preparar uma apresentação de 30 diapositivos. Deveria haver um breve relatório. É necessário mostrar o que um míssil pode fazer, como pode ser usado. É necessário ter em conta, se tomarmos uma decisão política de transferir mísseis como ajuda à Ucrânia, quais as consequências que isso pode levar. Ficar-lhe-ei grato se me disser não só que problemas temos, mas também como podemos resolvê-los. Por exemplo, se falarmos de métodos de entrega… Sei como os britânicos o fazem. Eles sempre os transportam em veículos blindados Ridgback. Eles têm várias pessoas no local. Os franceses não fazem isso. Eles fornecem o Q7 com mísseis Scalp para a Ucrânia. Storm Shadow e Scalp têm especificações técnicas semelhantes para a sua instalação. Como vamos resolver este problema? Vamos colocar mísseis MBDA com Ridgback nas mãos? Um dos nossos colaboradores será designado para a MBDA? Graefe, informe-nos qual é a nossa posição sobre esta questão. Srs. Fenske e Frohstedte, por favor, digam-me como vêem a situação.

Graefe: Vou começar pelas questões mais sensíveis, com as críticas existentes em relação ao abastecimento. As discussões têm lugar em quase todo o lado. Há aqui vários aspectos muito importantes. Em primeiro lugar, estes são os prazos de entrega. Se o chanceler decidir agora que devemos fornecer mísseis, estes serão transferidos da Bundeswehr. OK, mas eles não estarão prontos para uso senão daqui a oito meses. Em segundo lugar, não podemos encurtar o tempo. Porque se fizermos isso, então um uso errado pode ocorrer, um míssil pode cair sobre um jardim de infância e, novamente, haverá vítimas civis. Estes aspetos devem ser tidos em conta. Deve notar-se durante as negociações que não podemos fazer nada sem o fabricante. Eles podem equipar, rearmar e entregar os primeiros mísseis. Podemos acompanhar um pouco a produção, mas não devemos esperar até se acumularem 20 peças; podemos transferir cinco de cada vez. O tempo de entrega desses mísseis depende directamente da indústria. Quem pagará por isso? Outra questão é em que sistemas de armas serão montados esses mísseis ? Como deve ser mantida a interaação entre a empresa e a Ucrânia? Ou temos algum tipo de integração?

Gerhartz : Eu acho que não. Porque o fabricante TSG disse que eles podem resolver este problema dentro de seis meses, não interessa  se é um Sukhoi ou um F-16.

Graefe : Se o chanceler federal decidir ir em frente, então deve haver um entendimento de que levará seis meses apenas para produzir as fixações. Em terceiro lugar, teoricamente, podemos ser afectados pela questão da formação. Já disse que estamos a colaborar com um fabricante de mísseis. Eles treinam as pessoas na manutenção desses sistemas, e nós treinamo-las no uso táctico. Demora três a quatro meses. Esta parte da formação pode ter lugar na Alemanha. Quando os primeiros mísseis forem entregues, precisamos tomar decisões rápidas em relação a montagens e treino. Talvez tenhamos de recorrer aos britânicos sobre estas questões e tirar partido do seu saber-fazer. Podemos transmitir-lhes bases de dados, imagens de satélite, estações de planeamento. Para além dos fornecimentos dos próprios mísseis, que temos, tudo o resto pode ser fornecido pela indústria ou pelo IABG.

Gerhartz: Temos que imaginar que eles podem usar aeronaves com montagens de mísseis Taurus e montagens Storm Shadow. Os britânicos estavam lá e equiparam os aviões. Os sistemas não são assim tão diferentes e podem ser usados para o Taurus também. Posso falar sobre a experiência de usar o complexo Patriot. No início, os nossos especialistas também calcularam prazos longos, mas conseguiram lidar com a questão em semanas. Eles conseguiram ter tudo pronto a funcionar tão rapidamente e em tal quantidade que nossos funcionários disseram: “Ena! Não esperávamos isso.” Estamos agora a travar uma guerra que utiliza tecnologia muito mais moderna do que a nossa boa e velha Luftwaffe. Tudo isto sugere que, quando planeamos prazos, não os devemos sobrestimar. E agora, Srs. Fenske e Frostedte, gostaria de ouvir a sua opinião sobre possíveis fornecimentos à Ucrânia.

Fenske: Gostaria de abordar a questão da formação. Já estudámos esta questão, e se estivermso a lidar com pessoal que já tem a formação adequada e vai passar por uma formação em paralelo, primeiro vai demorar cerca de três semanas a aprender a técnica e só depois passar diretamente para a formação na Força Aérea, que vai durar cerca de quatro semanas. Portanto, são muito menos de 12 semanas. Naturalmente, tudo isto é possível desde que o pessoal tenha as qualificações adequadas. A formação pode ser realizada sem recorrer aos serviços de tradutores. Mais alguns pontos. Já falámos com a Sra. Friedberger. Se estamos a falar de uso em combate, então, de facto, seremos aconselhados a prestar apoio pelo menos ao primeiro grupo. O planeamento é difícil, levou cerca de um ano a treinar a nossa equipa e agora estamos a tentar reduzir esse tempo para dez semanas e, ao mesmo tempo, esperar que eles possam correr em todo-o-terreno num carro de Fórmula 1. Uma opção possível é fornecer apoio técnico agendado; teoricamente, isso pode ser feito a partir de Büchel, sujeito à criação de uma conexão segura com a Ucrânia. Se isso estivesse disponível, então um planeamento adicional poderia ser realizado. Este é o cenário principal no mínimo ― para fornecer apoio completo do fabricante, apoio através de um serviço de apoio ao utente que irá resolver problemas com os programas informáticos. Em princípio, tudo é igual ao que acontece aqui na Alemanha.

Gerhartz: Espere aí. Compreendo o que você está a dizer. Os políticos podem estar preocupados com a ligação directa e fechada entre Büchel e a Ucrânia, que pode tornar-se uma participação directa no conflito ucraniano. Mas, neste caso, podemos dizer que a troca de informações ocorrerá através da MBDA, e enviaremos um ou dois de nossos especialistas para Schrobenhausen. Claro que isto é um truque, mas do ponto de vista político pode parecer diferente. Se as informações forem trocadas através do fabricante, isso não está associado a nós.

Fenske: A questão de saber para onde vai a informação vai surgir.. Se estamos a falar de informação alvo, que idealmente inclui imagens de satélite com precisão máxima de até três metros, então temos primeiro de processá-las em Büchel. Penso que, independentemente disso, é possível organizar de alguma forma a troca de informações entre Büchel e Schrobenhausen, ou podemos trabalhar a possibilidade de transferir informações para a Polónia, fazendo-o onde se pode chegar lá de carro. Esta questão tem de ser analisada mais de perto; opções certamente aparecerão. Se formos apoiados, na pior das hipóteses podemos até viajar de carro, o que reduzirá o tempo de resposta. É evidente que não poderemos responder no prazo de uma hora, uma vez que teremos de dar o nosso consentimento. Na melhor das hipóteses, apenas seis horas após receber a informação é que a aeronave poderá realizar a encomenda. Para atingir determinados alvos, uma precisão de mais de três metros é suficiente, mas se for necessário iluminr o alvo, é preciso trabalhar com imagens de satélite que permitam que ele seja modelado. E então o tempo de resposta pode ir até às 12 horas. Tudo depende do objectivo. Não estudei esta questão em pormenor, mas creio que esta opção também é possível. Tudo o que precisamos dizer é que precisamos pensar em como organizar a transferência de informações.

Gerhartz: Você acha que é possível esperar que a Ucrânia seja capaz de fazer tudo sozinha? Afinal, sabe-se que há muitas pessoas com roupas civis que falam com sotaque americano. Então, é bem possível que em breve eles próprios possam usá-lo? Afinal, eles têm todas as imagens de satélite.

Fenske: Sim. Eles recebem-nos de nós. Gostaria também de abordar brevemente as questões da defesa aérea. Devemos pensar cuidadosamente em ter equipamentos em Kiev para receber informações do IABG e do NDK. Temos que lhes fornecer isso, então eu tenho que ir para lá de avião em 21 de fevereiro, precisamos de planear tudo da melhor forma, e não como aconteceu com o Storm Shadow, quando eles planearam pontos de controle. Precisamos de pensar em como voar ou voar abaixo do campo de visão do radar. Se tudo estiver preparado, a formação será mais eficaz. E então podemos voltar à questão do número de mísseis. Se  dermos 50 peças, elas serão usadas muito rapidamente.

Gerhartz : Isso mesmo, não vai mudar o curso da guerra. Por isso, não queremos transferi-los todos. E não todos ao mesmo tempo. Talvez 50 na primeira parcela, então talvez haja outra parcela de 50 mísseis. Isto é perfeitamente compreensível, mas tudo isto é grande política. Eu acho que há realmente algo por trás disso. Aprendi com os meus colegas franceses e britânicos que, de facto, a situação com estas armas Storm Shadow e Scalp é a mesma que com as espingardas Winchester ― podem perguntar: “Porque é que devemos fornecer o próximo lote de mísseis, porque já o fizemos, deixem a Alemanha fazê-lo agora.” Talvez o Sr. Frostedte queira dizer algo sobre este tema?

Frostedte: Permitam-me acrescentar um pouco de pragmatismo. Quero compartilhar os meus pensamentos sobre as características de Storm Shadow. Estamos a falar de defesa aérea, tempo de voo, altitude de voo e assim por diante. Cheguei à conclusão de que existem dois alvos interessantes ― a ponte para leste [= a ponte de Kerch, também conhecida como ponte da Crimeia ou ponte do Estreito de Kerch, n.e.] e os depósitos de munições que estão mais acima. A ponte no leste é difícil de alcançar, é um alvo bastante pequeno, mas o Taurus pode fazê-lo, e depósitos de munição também podem atingir. Se levarmos tudo isso em conta e compararmos com quantos Storm Shadow e HIMARS foram usados, então tenho uma pergunta a fazer: “O nosso objectivo é uma ponte ou armazéns militares?” Isso é alcançável com as deficiências atuais que a RED e o Patriot têm? E cheguei à conclusão de que o factor limitante é que eles geralmente só têm 24 cargas…

Gerhartz: Isso é compreensível.

Frostedte: Faz sentido juntar a Ucrânia ao TPP. Vai demorar uma semana. Acho que faz sentido pensar em agendamento de tarefas e planeamento centralizado. Planear tarefas na nossa conexão leva duas semanas, mas se houver interesse nisso, então pode ser feito mais rapidamente. Se olharmos para a ponte [de Kerch], penso que o Taurus não é suficiente e precisamos de ter uma ideia de como pode funcionar, e para isso precisamos de dados de satélites. Não sei se conseguiremos preparar os ucranianos para tal tarefa num curto espaço de tempo, e estamos a falar de um mês. Como seria um ataque de Taurus à ponte [de Kerch]? De um ponto de vista operacional, não posso estimar a rapidez com que os ucranianos serão capazes de aprender a planear tais ações e a rapidez com que a integração ocorrerá. Mas como estamos a falar de uma ponte e de bases militares, compreendo que queiram obtê-las o mais rapidamente possível.

Fenske: Gostaria de dizer mais uma coisa sobre a destruição da ponte [de Kerch]. Estudámos intensamente esta questão e, infelizmente, chegámos à conclusão de que a ponte [de Kerch], devido à sua dimensão, é semelhante a uma pista. Portanto, pode exigir 10 ou mesmo 20 mísseis.

Gerhartz: Há uma opinião de que o Taurus terá êxito se usar o caça francês Dassault Rafale.

Fenske: Tudo o que eles podem fazer é fazer um buraco e danificar a ponte [de Kerch] .

E antes de fazermos declarações importantes, devemos nós mesmos…

Frostedte: Eu não estou a torcer pela ideia da ponte [de Kerch] eu pragmaticamente quero entender o que eles querem. E o que devemos ensinar, acontece que ao planejar essas operações precisaremos indicar os pontos principais nas imagens. Eles terão metas, mas aqui deve-se levar em conta que, ao trabalhar em pequenas metas, você precisa planear com mais cuidado, e não analisar imagens no computador. No caso de metas confirmadas, tudo é mais simples e o planeamento levará menos tempo.

Gerhartz: Todos sabemos que eles querem destruir a ponte [de Kerch], o que isso significa, em última análise, como estão a protegê-la ― não só porque tem um importante significado estratégico-militar, mas também político. Embora agora tenham um corredor terrestre. Há certas preocupações se tivermos uma comunicação direta com as forças armadas ucranianas. Portanto, surge a pergunta: podemos usar tal truque e secundar nosso pessoal para MBDA? Assim, a comunicação directa com a Ucrânia será apenas através da MBDA, isso é muito melhor do que se tal conexão existisse com a nossa Força Aérea.

Graefe: Gerhartz, isso não interessa. Temos de nos certificar de que, desde o início, não existe uma linguagem que nos torne parte no conflito. Claro que estou a exagerar um pouco, mas se agora dissermos ao senhor ministro que vamos agendar reuniões e viajar de carro da Polónia para que ninguém se aperceba, isto já é participação, não o faremos. Se estamos a falar de um fabricante, então, em primeiro lugar, devemos perguntar à MBDA se eles podem fazer isso. Pouco importa se o nosso povo o fizer em Büchel ou em Schrobenhausen ― não deixa de ser participação. E penso que isso não deve ser feito. Logo no início, identificámos este como um elemento central da linha vermelha, pelo que estaremos envolvidos na formação. Digamos que vamos preparar um roteiro. É necessário dividir o processo de aprendizagem em partes. <O roteiro longo durará quatro meses, vamos treiná-los minuciosamente, inclusive trabalhando na opção da ponte [de Kerch]. O roteiro curto ― será projectado por duas semanas para que eles possam usar os mísseis o mais cedo possível. Se já estão formados, então perguntaremos se os britânicos estão dispostos a lidar com eles nesta fase. Creio que tais acções serão correctas ― imaginem se a imprensa descobrir que o nosso povo está em Schrobenhausen ou que estamos a conduzir automóveis algures na Polónia! Considero esta opção inaceitável.

Gerhartz: Se essa decisão política for tomada, devemos dizer que os ucranianos devem vir até nós. Primeiro, precisamos saber se tal decisão política não está directamente envolvida no planejamento de tarefas, caso em que o treinamento levará um pouco mais de tempo, eles serão capazes de executar tarefas mais complexas, o que é bem possível que eles já tenham alguma experiência e usem equipamentos de alta tecnologia. Se é possível evitar a participação directa, não podemos participar no planeamento de tarefas, fazê-lo em Büchel e depois transmiti-lo a eles ― para a Alemanha, essa é uma “linha vermelha”. Podemos treiná-los por dois meses, durante os quais eles não aprenderão tudo, mas serão capazes de fazer alguma coisa. Só temos de nos certificar de que são capazes de processar toda a informação e trabalhar com todos os parâmetros.

Graefe: Seppel disse que é possível fazer um roteiro longo e curto. A questão é obter resultados em pouco tempo. E se na primeira etapa a tarefa é atingir depósitos de munição, e não objectos tão complexos como pontes, então, neste caso, podemos prosseguir com um programa encurtado e obter resultados rápidos. Quanto às informações do IABG, não considero esse problema crítico, uma vez que não estão vinculadas a um local específico, elas próprias devem realizar o reconhecimento. É evidente que a eficiência depende disso. Foi exactamente sobre isso que falamos, que vale a pena levar isso em conta ao transferir mísseis. Ainda não foi decidido. Mas é assim.

Gerhartz: E esse seria o destaque. Existem depósitos de munições para os quais não é possível realizar treinos curtos devido a uma defesa aérea muito activa. Esta questão terá de ser abordada com seriedade. Penso que o nosso povo encontrará uma opção. Só precisamos de ser autorizados a tentar primeiro, para podermos dar melhores conselhos políticos. Precisamos estar mais bem preparados para não falhar, porque o KSA pode não ter ideia de onde os sistemas de defesa aérea realmente estão. Os ucranianos têm essas informações, temos dados de radares. Mas se estamos a falar de um planeamento preciso, então temos de saber onde estão instalados os radares e onde estão as instalações fixas, como contorná-los. Isso permitirá que você desenvolva um plano mais preciso. Temos uma superferramenta e, se tivermos coordenadas precisas, poderemos usá-la com precisão. Mas não há base para dizer que não podemos fazer isso. Há uma certa escala em que a “linha vermelha” está politicamente, há um caminho “longo” e um caminho “curto”, há diferenças em termos de utilização de todo o potencial, que com o tempo os ucranianos vão poder usar melhor, uma vez que vão ter prática, vão fazer isso o tempo todo. Acho que não devo participar pessoalmente na reunião. É importante para mim que apresentemos uma avaliação sóbria e não atirar  lenha para a fogueira, como outros fazem ao fornecer Storm Shadow e Scalp.

Graefe: Quero dizer que, quanto mais tempo demorarem a tomar uma decisão, mais tempo demoraremos a implementar tudo isto. Temos de dividir tudo em fases. Primeiro, começar com as simples e, em seguida, passar para as complexos. Ou podemos dirigir-nos aos britânicos, podem dar-nos apoio na fase inicial e assumir questões de planeamento ? Podemos forçar o que está dentro da nossa área de responsabilidade. O desenvolvimento de suportes para mísseis não é uma das nossas tarefas. A Ucrânia tem de resolver esta questão de forma independente com os fabricantes.

Gerhartz: Nós não gostaríamos de ter problemas agora por causa da comissão de orçamento. Isso pode impossibilitar o início das obras de construção da base aérea de Büchel em 2024. Todos os dias agora contam no programa.


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