Mulheres e Revolução

(Por Maria Velho da Costa, in Cravo, Dezembro de 1976)

(Este texto é de 1976 mas, em grande medida – e apesar de muitos avanços ocorridos -, a realidade que ele retrata continua a ser a realidade de hoje, no que toca à situação das mulheres.

Texto que transforma um realismo de matizes fortes num belíssimo grito de libertação.

É, pois, o contributo da Estátua, para este Dia Internacional da Mulher. O texto pode ser ouvido no vídeo abaixo, numa leitura conjunta do saudoso Mário Viegas e de Lia Gama.

Estátua de Sal, 08/03/2024)


1. RECONSTITUIÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que hão-de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos a que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em agulhas de pau com as lãs que hão-de manter no corpo o calor da comida que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a pé e à chuva porque naquele bairro os macacos são caros. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com um garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama. Elas abrem-se para um homem cansado. Elas também dormem.

2. REPRODUÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. Elas passam fitilhos de seda no melhor babeiro. Elas andam descalças que os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas untam o mamilo gretado com um dedal de manteiga. Elas cantam baixinho a meio da noite a niná -lo para que o homem não acorde. Elas raspam as fezes das fraldas com uma colher romba. Elas lavam. Elas carregam ao colo. Elas tiram o peito para fora debaixo de um sobreiro. Elas apuram o ouvido no escuro para ver se a gaiata na cama ao lado com os irmãos não dá por aquilo. Elas assoam. Elas lavam joelhos com água morna. Elas cortam calções e bibes de riscado. Elas mordem os beiços e torcem as mãos, a jorna perdida se o febrão não desce. Elas lavam os lençois com urina. Elas abrem a risca do cabelo, elas entrançam. Elas compram a lousa e o lápis e a pasta de cartão. Elas limpam rabos. Elas guardam uma madeixita entre dois trapos de gaze. Elas talham um vestido de fioco para uma boneca de papelão escondida debaixo da cama. Elas lavam as cuecas borradas do primeiro sémen, do primeiro salário, da recruta. Elas pedem fiado popeline da melhor para a camisa que hão-de levar para a França, para Lisboa. Elas vão à estação chorosas. Elas vêm trazer uin borrego à primeira barraca e ao primeiro neto. Elas poupam no eléctrico para um carrinho de corda.

3. PRODUÇÃO

Elas sobem para cima de um caixote, que ainda são pequenas para chegar à bancada de descarnar o peixe. Elas mondam, os dedos tolhidos de frieira e urtiga. Elas fazem descer a lâmina de cortar o coiro. Elas sopram nos dedos a aquecê-los, esfregam os olhos, voltam a pôr as mãos por detrás da lente a acertar os fios da matriz do transistor. Elas espremem as tetas da vaca para o balde apertado entre as pernas. Elas fecham num dia as pregas de papel de mil pacotes de bolacha. Elas acertam em duzentos casacos a postura da manga onde cravar o botão. Elas limpam o suor da testa com a manga e a foice rebrilha ao sol por cima da cabeça e da seara. Elas ouvem a matraca de dez teares enquanto a peça cresce diante, o fio amandado de braço a braço aberto. Elas cortam os dedos nas primeiras vinte cinco latas até calejar bem. Elas fazem a agulha passar para cá e lá em cruz na tela do tapete. Elas vigiam a última fieira de garrafas, caladas, à espera da sirene. Elas carregam o cesto de azeitona à cabeça já sem cantar, até que o sol se ponha.

4. SERVIÇOS

Elas carregam no botão da caixa e fazem quinhentos trocos miúdos. Elas metem a cavilha, dizem outro número e passam a vigésima chamada. Elas mexem panelões que lhes chegam à cinta. Elas descem doze caixotes de lixo já noite fechada. Elas fazem todas as camas e despejos de uma família alheia. Elas picam bilhetes metidas numa caixa de vidro. Elas batem à máquina palavras que não entendem. Elas arquivam por ordem alfabética duas mil fichas e vinte e cinco ofícios. Elas vão outra vez buscar a gaveta das luvas para o balcão a ver se há aquele verde. Elas aspiram do pó antes das nove doze assoalhadas, e cento e dez degraus de alcatifa. Elas entram na praça manhã cedo, já vindas do lota ajoujadas com o peixe para as bancadas. Elas acertam as bainhas de joelhos, a boca cheia de alfinetes. Elas põem trinta e duas arrastadeiras e tiram sessenta temperaturas. Elas pintam unhas de homem. Elas guardam sanitas e fazem renda em pequenos cubículos sem janela.

5. TRANSMISSÃO DE IDEOLOGIA

Coisas que elas dizem:
— Se mexes aí, corto-ta.
— Isso não são coisas de menina.
— O meu homem não quer.
— Estuda, que se tiveres um empregozinho sempre é uma ajuda.
— A mulher quer-se é em casa.
— Isto já vai do destino de cada um.
— Deus não quiz.
— Mas o senhor padre disse-me que assim não.
— Dá um beijinho à senhora que é tão boazinha para a gente.
— Você sabe que eu não sou dessas.
— Estás a dar cabo do teu futuro com uns e com outros.
— Deixa-te disso, o que é preciso é sossego e paz de espírito.
— Comprei uns jeans bestiais, pá.
— Sempre dá para uma televisão daquelas novas.
— Cada um no seu lugar.
— Julgas que ele depois casa contigo?
— Sempre há-de haver pobres e ricos.
— Se tu gostasses de mim não andavas com aquela cabra a gastar o nosso. — Põe o comer ao teu irmão que está a fazer os trabalhos.
— Sempre é homem.

6. PRODUÇÃO DE DESEJO

Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo cravejadas de pedrinhas, um anel com pérola. Elam limpam com algodão húmido as dobras da vagina da menina pensando, coitadinha. Elas escondem os panos sujos de sangue carregadas de uma grande tristeza sem razão. Elas sonham três noites a fio com um homem que só viram de relance à porta do café. Elas trazem no saco das compras uma pequena caixa de plástico que serve para pintar a borda dos olhos de azul. Elas inventam histórias de comadres como quem aventura. Elas compram às escondidas cadernos de romances em fotografias. Elas namoram muito. Elas namoram pouco. Elas não dormem a pensar em pequenas cortinas com folhos. Elas arrancam os primeiros cabelos brancos com uma pinça comprada na drogaria. Elas gritam a despropósito e agarram-se aos filhos acabados de sovar. Elas andam na vida sem a mãe saber, por mais três vestidos e um par de botas. Elas pagam a letra da moto ao que lhes bate. Elas não falam dessas coisas. Elas chamam de noite nomes que não vêm. Elas ficam absortas com a mola da roupa entre os dentes a olhar o gato sentado no telhado entre as sardinheiras. Elas queriam outra coisa.

7. REVOLUÇÃO

Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Eles foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram faltar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro urna cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrebaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.




As palavras e os factos após dois anos de guerra

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 07/03/2024)

Convém questionarmo-nos se a solução que vier a ser encontrada para o conflito será melhor para Kiev do que aquela possível de obter em 2022. Seguramente que não.


Convém questionarmo-nos se a solução que vier a ser encontrada para o conflito será melhor para Kiev do que aquela possível de obter em 2022. Seguramente que não.

Passados dois anos de guerra começa a ser tempo de comparar aquilo que tem sido dito com o que na realidade aconteceu e está a acontecer. Urge confrontar as palavras com os factos e tirar conclusões. Os factos vieram dar-nos razão, confirmando na generalidade os nossos comentários e previsões, que refletiam uma posição surpreendentemente minoritária. Ilustraremos o que pretendemos demonstrar com alguns exemplos.

Contrariando a maioria, que via nos recuos táticos dos militares russos em Kherson e Karkhiv, no verão e outono de 2022, o caminho para a vitória ucraniana, previmos com bastante precisão o desenlace da ofensiva ucraniana no verão de 2023, e explicámos com bastante rigor os motivos desse desaire militar e a incapacidade ucraniana para fazer recuar as forças russas até às fronteiras de 1991, e, em particular, expulsá-las da península da Crimeia.

O mesmo se pode dizer quando apontámos a perigosa ingerência de potências estrangeiras no conflito que opõe a Rússia à Ucrânia, com o recurso a soldados e agências nacionais a operar não oficialmente em território ucraniano. Vieram recentemente a público notícias que confirmaram o que afirmámos. Foi o próprio chanceler alemão Olaf Scholtz que referiu o envolvimento dos britânicos no conflito. Essa ingerência britânica foi também confirmada pelos altos comandos da Força Aérea alemã, numa conversa telefónica intercetada.

Os britânicos são fundamentais para a operação dos mísseis Storm Shadow, utilizados pelos ucranianos. Existem fortes suspeitas de terem operado os mísseis Patriot que abateram o avião civil russo que transportava prisioneiros de guerra ucranianos. Mas a interferência britânica foi particularmente útil e eficaz no que respeita à destruição de navios de guerra russos da esquadra do Mar Negro. Esse empenhamento terá mesmo levado o Chefe do Estado-Maior de Defesa britânico Almirante Sir Tony Radakin a protelar a sua passagem à reserva.

Num registo semelhante, veio também à liça o Presidente francês Emmanuel Macron, quando reconheceu a permanência informal de soldados franceses ao lado das forças ucranianas, confirmando aquilo que tínhamos vindo a alertar. O que até aí era feito dissimuladamente passou a ser assumido oficialmente. Afinal, as potências ocidentais estão envolvidas no conflito, estão em guerra com a Rússia, mas a meio gás. Dispenso de comentar a gravidade de que se reveste este tipo de atuação.

Também afirmámos que a Ucrânia tinha sido impedida de fazer a paz, em março de 2022. Essas afirmações não foram igualmente bem aceites. Mas declarações posteriores de vários responsáveis vieram confirmar, na íntegra, a justeza daquilo que tínhamos afirmado. Perdeu-se uma oportunidade de terminar a guerra em condições não desfavoráveis à Ucrânia.

Davyd Arakhamia, membro da delegação ucraniana às negociações em Istambul, e Naftali Bennett, antigo primeiro-ministro israelita, que liderou uma iniciativa de mediação de Israel, confirmaram aquilo que afirmámos. Recentemente, o “The Wall Street Journal” apresentou uma versão do acordo prestes a ser aprovada, não tivesse existido a intervenção de Boris Johnson junto de Kiev.

O que antes foi considerado uma suposição herética, afinal, é mesmo um facto. Entretanto, o antigo chairman do comité militar da NATO, o general alemão Harald Kujat veio confirmar tudo o que afirmámos: “houve negociações em Istambul com um excelente resultado para a Ucrânia”. “Todos os ucranianos mortos, assim como todos os russos mortos ou feridos depois de 9 de abril [de 2022], devem-se ao facto de a Ucrânia não ter sido autorizada a assinar este tratado de paz”.

Sempre dissemos ser uma falácia a convicção de que os fornecimentos de armas ocidentais fossem alterar a situação estratégica na frente de batalha a favor de Kiev. Pelo contrário, iriam prolongar os combates e exaurir ainda mais os ucranianos, mas não derrotar o Kremlin. Somos agora acompanhados neste raciocínio por Harald Kujat, que vem dizer exatamente o mesmo. Afinal, como sempre dissemos não há armas maravilha, “game changers” como foi afirmado tantas vezes por muitos especialistas espontâneos.

Convém questionarmo-nos se a solução que vier a ser encontrada para o conflito será melhor para Kiev do que aquela possível de obter em 2022. Seguramente que não. Após três anos de guerra na Bósnia, cerca de 100 mil mortes e um país destruído, o acordo assinado pelas partes em Dayton representou uma solução política consideravelmente pior daquela que teria sido obtida se o plano Cutileiro acordado em Lisboa, três anos antes, tivesse sido implementado. À semelhança do que aconteceu na Bósnia, o futuro da Ucrânia não se afigura diferente.

Contra a maioria, sempre negámos que a Rússia estava à beira de um colapso logístico e dissemos que essas afirmações eram falsas e não passavam de propaganda. Passados dois anos, o mainstream ocidental veio a descobrir, de um dia para o outro, que a Rússia já não combatia com enxadas e pás, nem roubava máquinas de lavar para lhes retirar os chips, e passou a estar em condições de invadir a Europa e de colocar armas nucleares no espaço. Este double thinking deve merecer uma reflexão muito cuidada dos leitores sobre a qualidade daquilo que lhes tem vindo a ser dito.

Antevimos, com um mês de antecedência, a demissão do general Zaluzhznyi das funções de Chefe do Estado-maior das Forças Armadas ucranianas. Também essa avaliação foi desvalorizada e considerada campanha desestabilizadora anti Ucrânia. Os factos mais uma vez falaram por si.

Sempre dissemos, ao contrário do que prevalecia no mainstream, que a guerra não tinha começado em 2022. Recordemos as palavras do Presidente Biden, em 24 de fevereiro de 2022, ao afirmar: “Os militares russos lançaram um ataque brutal contra o povo da Ucrânia sem provocação, sem justificação, sem necessidade”. Também neste tema mudou a narrativa. Num discurso no Parlamento Europeu, o secretário-geral da NATO Jens Stoltenberg contradisse a narrativa oficial: “a guerra não começou em fevereiro do ano passado [2022]. Começou em 2014”.

Do ponto de vista tático, fomos duramente criticados quando chamámos à atenção para a necessidade da Ucrânia estabelecer uma postura defensiva, a qual passava pela construção de uma linha fortificada, à semelhança da linha Surovikin, construída seis meses antes da ofensiva ucraniana do verão de 2023.

A sua construção teria permitido às forças ucranianas economizar meios e prepararem-se para um futuro embate com as forças russas em melhores condições. O que se está a verificar após a queda de Avdeevka comprova na plenitude o que afirmámos. As forças ucranianas encontram-se desprovidas de uma capacidade defensiva apropriada para fazer face aos desafios com que vão ter de se defrontar no curto prazo.

Também previmos a possibilidade de os ucranianos poderem vir a deparar-se com a situação difícil em que se encontram, devido à escassez do apoio ocidental. A situação ainda não se encontra no ponto que previmos, mas para lá caminha. Seria bom para Kiev que a nossa previsão não se concretizasse.

As baixas ucranianas têm sido um dos assuntos mais escamoteados na campanha mediática que acompanha a guerra. Depois dos 100 mil mortos ucranianos anunciados pela Presidente da Comissão Europeia, passados uns meses o “New York Times” (NYT), baseado em fontes ucranianas anónimas, indicou 70 mil, e, mais recentemente, o presidente ucraniano Zelensky indicou 31 mil baixas. As rigorosas fontes pró-ucranianas conseguem o milagre das rosas. As baixas ucranianas reduzem com o prolongamento da guerra.

A insanidade demagógica da Comunicação Estratégica que tem imperado no Ocidente impede os cidadãos de perceberem o quão dramática é a situação de Kiev neste capítulo. Procura a todo o transe esconder que as baixas ucranianas rondarão um número entre os 450 e os 600 mil mortos e feridos. Quem acompanha a situação conhece as dificuldades das autoridades militares em recompletarem as unidades que combatem na linha da frente. Um descuido, aparentemente involuntário, de uma parlamentar ucraniana do Partido “Servos do Povo”, referiu cerca de 25-30 mil baixas mensais.

Esta situação é o resultado da guerra de atrição levada a cabo pelas forças russas, tantas vezes negada. Infelizmente, a escolha de quilómetros quadrados conquistados como a métrica de excelência para avaliar o progresso e a situação de uma força militar, esquecendo todas as outras dimensões, nomeadamente as intangíveis, tem recolhido a preferência dos comentadores mais desinformados, e, como tal, mais suscetíveis de serem influenciados pelas fações.

Ataque preemptivo?

Uma das questões que tem suscitado debates bastante acessos prende-se com a natureza preemptiva do ataque russo, em 24 de fevereiro de 2022. Isto é, terá sido uma ação militar em antecipação contra um alvo que estava prestes a iniciar um ataque militar? Será absolutamente correto que “os militares russos lançaram um ataque brutal contra o povo da Ucrânia sem provocação, sem justificação, sem necessidade”, como afirmou nesse mesmo dia o presidente dos EUA, Joe Biden?

A profundidade do tema justifica uma análise que não faremos neste texto. Contudo, algumas notícias que vieram recentemente a público permitem reavaliar os motivos da ação russa. É sempre importante relembrar os relatórios da missão da OSCE na Ucrânia, localizada na linha de separação entre as forças ucranianas pró-governo e pró-russas, convenientemente esquecidos, que assinalavam nos dias que antecederam a invasão russa o dramático aumento de fogos indiretos da parte ucraniana. Eram, na prática, fogos de preparação do assalto ao Donbass pelos cerca de 100 mil militares ucranianos ali estacionados.

Muito interessante e clarificadora foi a intervenção de Evgeniy Muraev, ex-candidato presidencial e presidente do, entretanto, proibido partido “Nashi”, em 14 janeiro 2022, dias antes da invasão, e que só agora chegou ao nosso conhecimento. A marinha britânica estava a preparar a construção de bases na região de Odessa, em território ucraniano. Dizia ainda Muraev, “se nós tivermos no nosso território algum tipo de armamento que eles [os russos] considerem perigosos, então nós estaremos na zona de impacto. A federação russa atuará em conformidade, porque isso será uma ameaça à sua segurança nacional.”

Por sua vez, o NYT veio dizer aquilo que já se sabia, mas que não podia ser dito sem se ser acusado de difundir desinformação russa. Afinal a CIA estava presente na Ucrânia há mais de uma década, mesmo antes do Euromaidan. Segundo o NYT, a CIA admitiu ter ajudado a construir, equipar e operar 12 bases subterrâneas secretas ao longo da fronteira com a Rússia, para espiar e lançar ataques contra o território russo.

Para além disso, a CIA patrocinou e construiu a agência de informação militar ucraniana, tendo-a utilizado durante mais de uma década como arma de espionagem, assassinatos e outras provocações dirigidas contra a Rússia. Ainda segundo o NYT, a agência, durante esse período, formou, treinou e armou forças paramilitares ucranianas que participaram em assassínios e outras provocações contra as forças russas na Crimeia e na Rússia.

A longa ingerência de potências estrangeiras na Ucrânia tinha-se tornado inaceitável para a Rússia. A sua grande preocupação relativamente à Ucrânia era, e continua a ser, acima de tudo, de natureza securitária, procurando que não sejam colocadas bases militares e armamento no seu território. Mas isso não foi respeitado. Podemos antever sem grande margem de erro qual seria a reação dos EUA ou do Reino Unido perante uma situação similar nos seus territórios.

Antevendo um desfecho deste conflito bastante desfavorável para a Ucrânia, defendemos desde o seu início uma solução política mediada, em que a Ucrânia perdesse o menos possível. Esta abordagem foi violentamente criticada, como se estivéssemos a beneficiar o infrator e a fazer a apologia do agressor. Na “onda do que está a dar,” alguns dos que defendiam com profunda determinação a continuação da guerra até à derrota da Rússia, têm vindo convenientemente a reformular o seu discurso.

Primeiro, defendendo a continuação dos combates até que a Ucrânia se encontre numa situação negociável forte; mas como essa situação é cada vez menos plausível, reformularam uma vez mais o discurso. Alguns tiveram o descaramento de vir dizer que “sempre se soube que o conflito acabaria com cedências de parte a parte”, demorando dois anos a aproximarem-se daquilo que sempre defendemos, e que os factos aconselham que aconteça quanto mais depressa melhor.

Esquecendo a história – as tentativas das grandes potências derrotarem a Rússia no seu território tiveram sempre o mesmo fim. Suecos, polacos, franceses e alemães sabem do que falo – e os frequentes erros de cálculo norte-americano (Vietname, Afeganistão, Iraque e Líbia, entre outros), os europeus embarcaram em mais um erro de cálculo da grande potência, que se está a transformar numa aventura dolorosa para a maioria.

Por isso, faz cada vez mais sentido a mobilização das opiniões públicas contra a fação insana dos promotores da narrativa belicista que procura envolver a Europa numa guerra mundial cujos resultados não são difíceis de antecipar.


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Tanta verdade junta mereceu publicação…

(Estátua de Sal, 08/03/2024)

Não resisti a não publicar o vídeo do programa de Miguel Sousa Tavares, a 5ª Coluna, exibido em 07/03/2024. Nem sempre concordo com o MST mas, desta vez, todos os assuntos tratados são de uma atualidade candente e foram abordados contra a corrente das ladaínhas dos jornaleiros serventes das narrativas do poder dominante.

O primeiro assunto é do âmbito da política nacional e tem a ver a queda do governo de António Costa. Em véspera das eleições de dia 10, ainda o Ministério Público não informou os portugueses sobre o que de errado fez o ex-primeiro ministro, de que é acusado, que indícios existem contra ele, etc. Aliás, a revista Visão publicou, também nessa data, um artigo em que revela que o próprio Ministério Público não tem indicios de crime, nos dois casos que levaram às buscas que deram origem ao comunicado que fez cair o Governo:

“Ao fim de quatro anos de investigação e milhares de escutas telefónicas, o Ministério Público (MP) admitiu não ter a certeza de que foram praticados crimes nos casos do lítio e do hidrogénio, assim como noutras situações que envolvem antigos ministros, como João Galamba e João Matos Fernandes. Quando separaram as investigações por processos autónomos, os procuradores do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) assumiram estar ainda por “comprovar a existência de indícios da própria ocorrência de crime” naquelas duas situações, o que carecerá de análise necessariamente mais demorada”, acrescentaram”. (Visão, 07/03/2024).

MST pergunta, e eu também pergunto: como pode a justiça fazer cair um governo sem ter nada de sólido e concreto para acusar o chefe e outros membros do governo?! Um golpe de estado para levar o Chega e companhia ao poder? Quem sabe?

O segundo assunto é o horror dos crimes que Israel está a cometer na faixa de Gaza, nomeadamente contra crianças. MST compara, sem pejo, os crimes de Israel aos crimes dos nazis contra os judeus nos campos de concentração e no gueto de Varsóvia.

O terceiro assunto é sobre a guerra na Ucrânia e sobre as loucas decisões belicistas dos líderes europeus, com Macron à frente, que querem aumentar as despesas com armamento à custa do definhamento do estado social, e que ainda sonham com a possibilidade de derrotar a Rússia e sacarem-lhe os seus vastos recursos. Ora, qualquer mentecapto sabe que atacar a Rússia equivale a desencadear a III Guerra Mundial, mas é para esse cenário de morte e destruição do planeta que os líderes europeus nos estão a conduzir.

Por tudo isto, vejam o vídeo. MST é das poucas vozes que ainda vai tendo espaço, na comunicação social de larga audiência, para introduzir, de quando em quando, algum ruído nas narrativas dominantes que nos servem diariamente, em catadupa, por vezes quase até ao vómito.

Podem ver o vídeo aqui.

Estátua de Sal, 08/03/2024


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