Ser “aliado” dos EUA é assistir calado à sua própria destruição

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 07/05/2024)

Nos termos em que é definida a “segurança nacional” dos EUA, a sua protecção cresce ao ritmo da destruição da soberania, economia e liberdade dos seus “aliados”.


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O ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, disse uma vez que a fórmula usada pela União Europeia, para gerir as suas relações com a China, é “impraticável”, “é como conduzir um automóvel para um cruzamento e olhar para o semáforo e ver as luzes amarela, verde e vermelha acesas ao mesmo tempo”. Eu diria mais… Para além da confusão com as indicações fornecidas pelo semáforo, o condutor – apenas para os chineses – ainda tem de ter atenção aos pregos, óleo e buracos na estrada, que podem originar o despiste ou danos na viatura.

E quem provocaria tais perigos no percurso? Face ao desespero dos actores envolvidos e o caracter unidireccional das acções… Consequentemente, o tom exasperado e catastrofista que encontramos na imprensa ocidental, por oposição a um tom mais triunfalista que vigorava ainda há seis meses (nem tanto), diz-nos tudo o que necessitamos de saber. É incrível como as emoções ocidentais andam num alvoroço, passando de um extremo ao outro, em períodos muito curtos. Da vitória certa na Ucrânia contra a Rússia, passa-se para o pânico generalizado, em que Sullivan, Biden, Borrel ou Macron, que ainda em Setembro já se viam banhar-se nas boas águas da Crimeia, agora passaram à certeza de que as tropas russas não pararão no Dniepr e talvez nem no Danúbio, Reno ou Elba.

Durante 2023 todos assistimos à imparável sucessão de previsões de queda da economia chinesa – a russa já estava “em pedações”, lembremos -, para agora surgir o pânico com a inundação de produtos de grande qualidade e a baixos custos, com os quais o ocidente preguiçoso não consegue sequer sonhar competir. Está a acontecer nos automóveis, como nos semicondutores, máquinas agrícolas, descobrindo-se, aos poucos, pelo tom histérico de Janet Yellen e Blinken, que se algo está a cair, esse algo é a hegemonia americana, cujas estratégias de contenção, até agora, apenas resultaram em adversários ainda mais fortes e capazes. Afinal, é o trabalho duro que molda o carácter. A elite capitalista rentista do ocidente está demasiado habituada ao dinheiro fácil dos royalties, para conseguir competir com aqueles que nunca abandonaram a indústria, a agricultura e as actividades realmente produtivas.

O facto é que, no Washington Post, David Ignatius, investigador ligado ao maior Think Thank do Estados Unidos, partindo de um trabalho da própria Rand Corporation, diz que os analistas referem que os os EUA estão a entrar num declive do qual poucas potências recuperaram; é também a RAND que nos fornece um artigo intitulado “a rivalidade EUA e China numa nova idade média”, apontando para a necessidade de que os decisores têm de desenvolver uma mentalidade neomedieval, nomeadamente, tendo de fazer a guerra sabendo que o “público” não a quer; Borrel diz que os EUA já não são hegemónicos e que a China já se tornou uma superpotência, algo que Brezinsky prometera que nunca mais aconteceria; ou, ainda, os dados estatísticos da economia norte americana, dizem que cresceu apenas 1.6%, no primeiro trimestre de 2024, o que mostra um abrandamento em relação ao previsto. Um grande abrandamento, considerando os 2.7% que são previstos pelas cadeias de transmissão dos EUA, como o FMI.

Curiosamente é da própria RAND que vêm os conselhos mais avisados. No seu estudo “The Fates of Nations” (os destinos das nações), sugerem-se duas reflexões que, considerando o teor e a actualidade, não têm outro destino que não o poder político sedeado em Washington: 1. Quando as nações estão entre uma vitória na guerra ou o colapso nacional (entre a espada e a parede, digo eu), a imposição punitiva e coerciva das condições não constitui um caminho adequado para o sucesso nas rivalidades; 2. A excessiva ambição e abrangência estratégica sobredimensionada contribui para muitos tipos de falhanços.

Estas reflexões são o retrato actual dos EUA: querendo estender-se a todo o lado, começam a abrir fendas no centro, pois quanto maior a extensão da superfície, menor a espessura da cobertura; tomar posições de força em todas as situações – ameaçando todos os contendores com sanções – provoca a fuga e a aversão dos envolvidos e dos que possam vir a estar no alvo dessas acções. Se a isto somarmos o facto de, segundo diversas fontes, a equipa de assessores de Trump lhe ter proposto a aplicação de penalizações aos países que quiserem reduzir a dependência do dólar, já se vê que 2024 vai ser um ano terrível para a maior moeda de reserva mundial. Para já, o ouro nunca esteve tão alto e quase 1/3 do petróleo transaccionado em 2023 foi em outras moedas que não o dólar. Se eu fosse presidente de um qualquer país, tudo faria para reduzir a dependência até à tomada de posse de Trump, considerando que as perspectivas de reeleição de Biden não são as mais entusiásticas.

Perante esta realidade, o que faz Washington? Não conseguindo situar-se neste mundo multipolar em construção e não conseguindo adoptar uma abordagem cooperativa e respeitadora dos outros estados, preferindo focar-se “numa competição de grandes superpotências”, em sentido contrário ao que propõe, por exemplo, a Carnegie Endowment for Internacional Peace, no seu relatório “The United States Policy Challenge”, a administração chefiada por Biden opera como se ainda tivesse todo o poder do seu lado e, faltando-lhe a força com que normalmente contava, adopta a postura da sabotagem, da disrupção e da provocação de instabilidade no “ambiente de negócios” dos seus próprios “aliados”, nomeadamente quando estes se encontram entre a China e as necessidades de “segurança nacional” dos EUA.

Se, no México, terão sido veiculadas ameaças – ninguém as confirmou – contra o governo de López Obrador, caso este persista na intenção de permitir a instalação de fábricas da BYD, para que estas possam utilizar a isenção de taxas aduaneiras aplicável ao acordo de livre comércio USMCA. São os próprios EUA a desdizer, unilateralmente, que as regras acordadas entre três países, afinal deixam de valer para o México, sem que este, supostamente parte no acordo, tenha uma palavra a dizer. Se esta situação não é demonstrativa de quem manda, realmente, quando algum país assina um “acordo” com os EUA…

Este processo de disrupção, que visa tornar impossível a instalação de empresas chinesas, é levado tão a sério, que até um país como Portugal pode ser apanhado na rede e ver a sua economia profundamente afectada com a intervenção e ingerência norte-americanas.

Vejamos o caso da petrolífera GALP, empresa privatizada e com 51% do capital detido por “investidores institucionais” estado-unidenses. Primeiro, assistimos às notícias de que o 8.º maior poço de petróleo do mundo, situado na áfrica oriental, mais concretamente na costa da Namíbia, tinha sido concessionado “a Portugal”. Concretamente, o poço de petróleo havia sido concessionado, não “a Portugal”, mas à GALP, teria sido “a Portugal”, se a empresa ainda fosse pública (apenas 8% o são). A empresa é gerida por uma família oligarca portuguesa, cuja Holding “Amorim Energia”, que detém 35,8 % do capital, está sedeada nos Países Baixos.

Convém dizer que mais correcto seria dizer que, 80% da exploração, do 8.º maior poço de petróleo do mundo, foi concessionada, não “a Portugal”, mas “aos Países Baixos”. E, embora a família Amorim tenha a gestão da empresa, o capital é detido por uma esmagadora maioria de capital Norte-Americano, Inglês e Canadiano (75,2% ao todo). Já se viu quem realmente manda.

Esta mesma GALP, cujo programa de transição para as energias e sectores sustentáveis, previa um afastamento progressivo dos combustíveis fósseis, veio agora comunicar que abandonou a proposta de instalação de uma refinaria de lítio, no sul de Portugal. A GALP, uma empresa privada que prossegue o lucro, prescinde de um negócio de refinação e lítio, em grande parte financiado por fundos europeus e portugueses e com mercado garantido?

Não esqueçamos que o objectivo final seria, com dinheiro dos contribuintes, garantir à GALP a entrada em um sector estratégico do ponto de vista das indústrias “sustentáveis”, e com rentabilidade garantida, pois o lítio seria explorado também em Portugal, refinado em Portugal e instalado em baterias, em Portugal. Negócio extremamente lucrativo garantido e com desenvolvimento de importante know-how. Explica-se, assim, porque razão a GALP acedeu ao 8.º maior poço do mundo e porque razão veio agora dizer que, afinal, os objectivos de descarbonização vão ter de ser adiados. O que esta gente se preocupa com “as alterações climáticas”!

Para Portugal, este projecto era fundamental, pois fecharia o ciclo de produção e veículos eléctricos dentro de fronteiras. Da mineração do lítio à produção e carros eléctricos, tudo se faria em Portugal. Contudo, havia um senão, neste projecto ambicioso. Este projecto que se constitui como um dos mais importantes a financiar no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência da União Europeia para o país, assentava a produção de baterias através da instalação de uma fábrica da chinesa CALB, a qual já está aprovada pelo anterior governo, o qual sofreu, curiosamente, um golpe judicial de “lawfare”, após o qual foi eleito um outro governo, supostamente com ideias diferentes, nesta matéria. O futuro nos dirá se diferem, ou se o dinheiro acabará por falar mais alto.

Uma vez mais, teremos de voltar a ouvir o que disse o embaixador dos EUA, em Portugal, a respeito dos negócios relativamente aos quais, Washington, não veria com bons olhos a entrada da China. Não ver com bons olhos é um eufemismo, como se sabe. Lítio, dados pessoais, portos e 5G.

Foi assim que um pequeno país, como Portugal, foi apanhado no meio de uma tectónica disputa entre superpotências, em que a, ainda, potência hegemónica, desenvolve um processo de destruição do “ambiente de negócios” aplicável à concorrente. Como sabemos, a história não reza grande coisa sobre aqueles que estão sempre à defesa, e assim se foram fechando cada vez mais. Mas isso são outras contas.

Este exemplo integra em si toda a complexidade, falácia e agressividade da estratégia do “decoupling”, a qual quando traduzida por Ursula von der Leyen para a “língua da EU”, passou para “derisking”. Também demonstra como, na EU, quem manda são os EUA e como estar, hoje, ancorado à União Europeia, e a tudo o que ela representa, constitui, de facto, um grave travão ao desenvolvimento. Portugal, tal como o México, tal como a Alemanha, Espanha, França e toda a Europa, vêem encerrados, boicotados e destruídos projectos de investimento, que poderiam manter a Europa industrializada. Só porque são projectados com companhias chinesas.

Talvez, nem assim a chinesa CALB desista da sua fábrica em Portugal. Contudo, esta previsível ingerência estrangeira, não deixará de diminuir as expectativas de rentabilidade futura da empresa e, sobretudo, de criar um travão à sua competitividade por melhores preços. Sintomaticamente, esta continuada sabotagem da economia europeia e dos “países aliados”, assenta sobretudo em tecnologias que os EUA pretendem dominar. Neste quadro, saber que a Wolkswagen fez um acordo com a chinesa Xpeng, e que em Portugal também se situa uma fábrica da marca alemã. Não deixamos de sentir aqui um cheirinho à já tradicional perseguição, pelos EUA, à economia alemã, a qual sofreu um duro revés com a destruição e encerramento do Nord Stream e do que dele restou. Tudo se volta a interligar.

O que este caso comprova é que, hoje, no ocidente e em especial em territórios de alguma forma controlados pelos tentáculos do poder monopolista estado-unidense (o caso português comprova a importância do caracter público de empresas como a GALP), estão limitados aos negócios que estes não consigam ou não queira sabotar ou destruir.

Se são os próprios Think Thank e institutos de investigação a sugerirem à elite política norte-americana que a melhor abordagem seria a da cooperação, respeito pelas soberanias alheias e, sobretudo, não tentar chegar a todo o lado, não é por falta de conhecimento fundamentado que estas elites se comportam de forma selvática. O seu objectivo muito claro e que consiste em criar um ambiente de tal forma inseguro, imprevisível e errático para as empresas chinesas, que sejam estas a abandonar a pretensão de se instalarem e de comerciarem com a europa e américa latina, sem que possa dizer-se que foram os próprios EUA a sabotarem o desenvolvimento económico de países que dizem ser aliados.

Os meios usados vão desde a alteração unilateral de regras, das suas próprias regras, à promoção de agendas como o “decoupling” ou o “derisking”, ou, ainda, se necessário for, e como comprova o Nord Stream, proceder à destruição directa das infraestruturas de apoio, subversão das democracias através da organização de golpes judiciais e revoluções coloridas, ameaça com sanções e outras penalizações. Em último caso, até uma guerra se promove, comos e faz na Ucrânia e se tenta agora em Taiwan.

E é assim se desdiz tudo o que antes se havia dito, sobre os mercados abertos que se fecham quando em desvantagem ou se abrem quando existe a garantia de que apenas o poder hegemónico os ganha; as agendas climáticas que são prioritárias mas que são logo abandonadas quando os ciclos de acumulação definidos estão em causa; o respeito pelas soberanias dos outros países que são protegidas quando está em causa a aproximação aos rivais e são desprotegidas quando se trata de defender o domínio dos EUA.

Nos termos em que é definida a “segurança nacional” dos EUA, a sua protecção cresce ao ritmo da destruição da soberania, economia e liberdade dos seus “aliados”.

Ser “aliado” dos EUA não garante imunidade contra a ingerência, subversão e sabotagem económicas, muito pelo contrário. Garante que esta ingerência é feita mais facilmente, pois as defesas tradicionais que resultam da soberania nacional não existem. Ser amigo dos EUA é, hoje, assistir à sua própria destruição e ficar calado. Com amigos destes… Quem precisa de inimigos?

Fonte aqui.


Se for sem a NATO, então não há problema: como preparamos os europeus para a guerra contra a Rússia

(Por Piotr Akopov in Reseau International, 07/05/2024, Trad. Estátua de Sal)

Um excelente artigo sobre a natureza da escalada a que as populações europeias estão habituadas. Basta ouvir a televisão e medir o consenso que estamos a tentar alcançar em torno de uma “resposta europeia” e da qual Macron se tornou porta-voz para medir até que ponto este comentador russo, próximo de Putin, descreve uma situação muito real, em que cada proposição contradiz a anterior, para obter a aceitação da substância, nomeadamente a guerra que certamente perderemos. Mas não importa:  quando necessário, assustamos a Rússia e, quando nos convém, chamamos-lhe bluff.

Danielle Bleitrach


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A mensagem principal que domina a propaganda americana dirigida à Europa é que a luta contra a Rússia pela Ucrânia é de vital importância para todo o Ocidente – e que os Estados Unidos, juntamente com a Europa no formato NATO, devem fazer tudo para derrotar Kiev, para deter Putin, caso contrário ele atacará a Europa depois da Ucrânia.

Esta ideia é repetida em Washington por políticos e oficiais militares, e quando a Europa se preocupa com uma possível mudança na estratégia americana se Donald Trump regressar à Casa Branca, está assegurado que, mesmo assim, nenhuma catástrofe ocorrerá: a inércia da política externa americana é demasiado grande e ninguém permitirá que o novo presidente mude subitamente de rumo.

A Europa não acredita realmente nisso, mas permanece fiel à linha de solidariedade atlântica – e o que alguns analistas americanos já começam a sugerir é ainda mais interessante:

“Demasiados políticos e colunistas nos Estados Unidos e na Europa estão a repetir os argumentos de Putin, alertando que qualquer intervenção externa na Ucrânia levaria à Terceira Guerra Mundial. Na realidade, o envio de tropas europeias seria uma resposta normal a um conflito desta natureza”.

“O conflito russo perturbou o equilíbrio de poder regional e a Europa tem um interesse vital em ver este desequilíbrio corrigido. A maneira óbvia de fazer isso é fornecer uma tábua de salvação ao exército ucraniano, que poderia mais uma vez ser abandonado à sua sorte pelos Estados Unidos, e a melhor tábua de salvação seriam os soldados europeus”.

“Os líderes europeus não precisam de seguir os ditames cada vez mais pouco fiáveis ​​dos EUA sobre como lutar na Ucrânia; eles podem e devem decidir por si próprios a melhor forma de garantir a liberdade e a segurança do continente”.

Esta citação faz parte do enorme artigo “A Europa, mas não a NATO, deveria enviar tropas para a Ucrânia”, publicado esta semana no The Foreign Affairs. Três dos seus autores não são altos funcionários dos EUA, mas têm peso na comunidade de especialistas, tendo trabalhado em vários think tanks que tratam de questões estratégicas: o coronel aposentado Alex Crowther, o atual tenente-coronel da Força Aérea dos EUA Jahara Matisek e Phillips O’Brien de a Universidade de St Andrews. O que propõem nada mais é do que uma provocação direta: tentam convencer a Europa de que deve participar nos combates na Ucrânia sem se preocupar com os Estados Unidos.

Sim, esqueçam a NATO e os Estados Unidos (“Os líderes europeus não podem deixar que a disfunção política americana dite a segurança europeia”), ajam por si próprios, enviem tropas para a Ucrânia o mais rapidamente possível e não temam nada – Putin está a fazer bluff!

As tropas europeias poderiam participar em missões de combate e não-combate para aliviar a pressão sobre a Ucrânia. Uma missão sem combate seria a opção mais fácil de vender na maioria das capitais europeias. As tropas europeias poderiam socorrer os ucranianos desempenhando funções logísticas, como manutenção e reparação de veículos de combate”.

Mas a “missão não-combatente” é apenas o começo, algo que é de facto “mais fácil de vender” aos europeus (embora isto seja mentira: ainda hoje, as sondagens mostram atitudes negativas em relação a isto na maioria dos países da UE) – pois será seguida pelo envolvimento total na guerra:

“Uma destas missões poderia ser o reforço das capacidades de defesa aérea da Ucrânia na região, através da mobilização de pessoal, do fornecimento de equipamento ou mesmo da tomada de comando e controlo do sistema de defesa aérea da Ucrânia.

O envio de tropas europeias seria uma resposta normal a um conflito desta natureza. Outra função de combate, que tal como a missão de defesa aérea não deverá envolver contacto com forças russas, é patrulhar partes da fronteira ucraniana onde as tropas russas não estão estacionadas, como a costa do Mar Negro, e as fronteiras com a Bielorrússia e a Transnístria.

Um dos alvos potenciais da Rússia é Odessa, o principal porto da Ucrânia por onde passa a maior parte das exportações do país. Se as tropas russas se aproximassem da cidade, as forças europeias próximas teriam o direito de se defenderem disparando contra os soldados que avançavam”.

É claro que, para justificar tal coisa, é preciso assustar os europeus tanto quanto possível – e muitas afirmações sobre a ameaça russa à Europa estão espalhadas por todo o artigo:

Não há razão para esperar que Putin pare na Ucrânia; ele já declarou que todas as ex-repúblicas soviéticas deveriam ser devolvidas à Rússia. Os estados bálticos poderiam ser os próximos, seguidos pela Finlândia e pela Polónia, que eram principados dentro do império russo pré-soviético”.

Escusado será dizer que tudo isto é uma mentira descarada, mas The Foreign Affairs não é um tablóide, mas uma das publicações americanas mais influentes; os seus autores ensinam em universidades militares americanas e aconselham as autoridades em Washington. É certo que, no presente caso, o seu objetivo é convencer os líderes europeus da necessidade de uma participação europeia direta na guerra contra a Rússia, mas não há dúvida de que eles próprios acreditam no que dizem, isto é, estamos a lidar com uma perceção completamente inadequada da realidade. A parte globalista e atlantista da elite americana acredita que a Rússia e Putin conquistarão parte da Europa, para a tirar da América, e à medida que os próprios Estados Unidos entram num período de turbulência política interna, apelam à Europa para que assuma a responsabilidade e lute contra Putin no território da Ucrânia. Porque “a Ucrânia é a Europa”.

A Rússia baseia todas as suas esperanças de vitória no facto de a Europa considerar a Ucrânia separada do resto do continente. Até agora, suas esperanças estão a tornar-se realidade. Os líderes europeus toleram um conflito na Ucrânia, que suscitaria uma resposta europeia unificada se ocorresse em qualquer país da NATO ou da UE. Esta atitude permitiu à Rússia lançar um conflito militar na Ucrânia porque está convencida de que o resto da Europa se manterá à distância.

A chegada de tropas europeias à Ucrânia mudará este cálculo. Moscovo terá de aceitar que a escalada europeia poderá tornar-se num confronto militar invencível para a Rússia”.

Então a Europa deveria entrar num conflito militar direto com a Rússia para controlar a Ucrânia, ignorando ao mesmo tempo a ameaça de a guerra se transformar numa guerra nuclear? Claro! E o que dizer do facto desta tese contradizer a anterior, nomeadamente os planos da Rússia de tomar parte da Europa? Sem problemas. Quando é necessário, assustamos a Rússia e, quando nos convém, dizemos que ela está a fazer bluff:

A verdadeira questão é se a Rússia irá realmente utilizar armas nucleares se as tropas europeias entrarem na Ucrânia. Talvez este já seja um ponto discutível, dado que as forças de operações especiais ocidentais estão atualmente a operar na Ucrânia”.

Moscovo envolve-se regularmente numa retórica agressiva contra os membros da NATO, mas até agora apenas latiu e não mordeu, evitando contacto com as forças da NATO e concentrando-se nos países vizinhos fora da Aliança, como a Geórgia e a Ucrânia, que pode atacar com segurança”.

Putin ameaçou atacar a Polónia, a Roménia e os Estados Bálticos já em 2014 e, nos anos seguintes, ameaçou invadir a Finlândia e a Suécia por aderirem à NATO, a Noruega por acolher tropas adicionais dos EUA, a Polónia e a Roménia por acolherem instalações de defesa antimísseis, e “qualquer país europeu” que autorize a implantação de mísseis dos EUA no seu território”.

Nos últimos quinze anos, o Kremlin ameaçou ou conduziu jogos de guerra simulando o uso de armas nucleares contra a Dinamarca, a Polónia, a Suécia, a Ucrânia, o Reino Unido, os Estados Bálticos, a União Europeia como um todo e, claro, a NATO. e os Estados Unidos”.

Assim, a cada momento os líderes europeus devem ignorar as batidas de queixo de Putin, que nada mais são do que propaganda baseada na ideia infundada de que a NATO quer atacar ou invadir a Rússia”.

O conselho é, portanto, simples: a Europa deve ignorar os avisos de Putin, que há muito que ameaça atacar os países da NATO (independentemente das invenções), mas nunca ousou fazê-lo. Então vão em frente, enviem tropas para a Ucrânia (que não é da Rússia, mas da Europa, lembre-se) – e não haverá guerra nuclear!

Toda esta loucura analítica também é embelezada por uma tese tão deliciosa:

Além disso, uma resposta liderada pela Europa minaria a propaganda russa de que a intervenção dos países da NATO na Ucrânia é apenas uma manobra dos EUA para enfraquecer a Rússia”.

“A alegação de que a NATO é o agressor é popular em muitas partes do mundo. E porque as forças europeias operariam fora da NATO e do território da NATO, quaisquer perdas não desencadeariam uma resposta ao abrigo do Artigo 5º e não envolveriam os Estados Unidos. “O adversário da Rússia não será a NATO, mas uma coligação de países europeus que procuram contrabalançar o imperialismo russo”.

É claro que, se a guerra envolve oficialmente não a NATO, mas sim países da Aliança do Atlântico Norte, esta não é uma guerra da Rússia contra a NATO, mas uma guerra contra países individuais da União Europeia! Não há necessidade de comentar isto, exceto para recordar que, noutra realidade ficcional, os europeus temem que a NATO entre em colapso se não responder ao desafio de Moscovo na Ucrânia (afinal, não esqueçamos que Moscovo atacará os Bálticos a seguir!).

Todas estas subtilezas de uma mente excitada seriam ridículas se não brincassem com o fogo real e a guerra real que está acontecendo no território do mundo russo e com a vida dos habitantes da Ucrânia. No entanto, os líderes europeus, depois de lerem o parecer do The Foreign Affairs, não verão nele um guia de ação, mas uma confirmação dos seus piores receios: os atlantistas ultramarinos encontraram-se num impasse e querem sair dele usando as cabeças dos seus parceiros europeus de segundo nível como aríete.

Fonte aqui.


Austeridade na UE: não há medida europeia que não sirva na forma americana

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 26/04/2024)

Quando mais a Europa precisava de investimento, mais se garante que não o faz, demonstrando que não há medida europeia que não caiba na forma americana.


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Uma vez mais, a burocracia europeia dá razão ao ditado popular que diz “o que torto nasce, tarde ou nunca se endireita”. É o caso da União Europeia, construída como resposta política em reacção a uma realidade que já não se verifica – a existência do bloco socialista – e que, quando confrontada com a inexistência da sua força vital, enveredou num errático processo de alargamento, que visou sobretudo provocar a Rússia, criar condições para a expansão da OTAN e dar resposta à necessidade crescente que os monopólios têm de novos mercados e de novas fontes de mão de obra qualificada e barata, como sucede no leste europeu.

Neste quadro e dando resposta às necessidades destes últimos, a EU volta a reeditar uma receita já amplamente conhecida pelos povos do sul. Se é amplo o reconhecimento, e a constatação, de que os critérios orçamentais, constantes do Pacto de Estabilidade e Crescimento, constituem um garrote ao investimento público e são responsáveis pela visão de curto prazo que deixou os estados membros reféns do autoritarismo financeiro de Bruxelas; num período em que o bloco europeu perde cada vez mais espaço para as economias com que tem de competir, o poder supranacional não eleito da EU vem novamente propor, desta vez a todos os europeus, algo para o que nenhum desses povos algum dia votaria: austeridade para os próximos 4 anos (pelo menos).

O que surge no horizonte, sem uma discussão nacional profunda, depois de aprovado do Conselho e no Parlamento Europeu, é um pacote de austeridade global, à escala europeia, aplicável à quase totalidade dos países da União, a que se deu o nome pomposo de “Novo Enquadramento para a governação Económica” e que se baseia em instrumentos como a “Análise da Sustentabilidade da Dívida” e “Planos Fiscais Específicos” por estado membro, que serão desenvolvidos no quadro de um período de ajustamento de 4 anos, que pode ser estendido até 7. Se o Pacto de Estabilidade deixava a maioria dos países de fora do garrote da austeridade, a EU tinha de conseguir colocá-los dentro e tentar apagar, no futuro, qualquer memória de que um dia existiu um modelo de estado social a funcionar com sucesso.

É razão para dizermos que “vem mesmo a calhar”! Numa altura em que se deveria investir de forma absolutamente decisiva na industrialização, inovação e conquista de um lugar no topo das tecnologias do futuro, como faz a China, Rússia e para o que se endividam, de forma brutal, os EUA, o que decidem os contabilistas de Bruxelas fazer? Adiar a corrida, colocando em causa as metas que eles próprios definiram para 2030 e 2050.

Uma vez mais se reedita a história dos países bem-comportados e poupadinhos, contra os que não se sabem governar. Mas, desta feita, com excepção de 5 países (Chipre, Suécia, Estónia, Dinamarca e Irlanda), todos os outros terão de apertar o cinto e já no primeiro ano de ajustamento devem cortar 100 mil milhões nos orçamentos públicos. Nem de propósito, 100 mil milhões será, mais ou menos, o que até hoje a EU ofereceu ao regime de Kiev (em Janeiro de 2024 era 85 mil milhões de Euros de acordo com o Kiel Institute). E nenhum dos ilustres premiados é importante para o financiamento do orçamento plurianual europeu. Cirúrgico!

Partindo do princípio de que esta destruição económica em massa é a continuação de um processo começado com o subprime, a partir do qual as economias europeias tiveram de pagar pelos prejuízos dos bancos americanos, continuando com o conflito NATO/Rússia em terras da Ucrânia, que não apenas privou os países europeus de importantes factores de produção, a preço baixo e qualidade e quantidade garantidas… Como deveria a União Europeia agir, principalmente sabendo que, nos EUA de Biden, segue a bom ritmo a execução da legislação de redução da inflação, que aposta num vasto programa de investimento em áreas tecnológicas fundamentais como os veículos eléctricos, baterias de lítio, painéis fotovoltaicos e semicondutores?

Como deveriam agir os dirigentes políticos europeus se olham para a China e vêem investimento massivo em industrias chave, principalmente reconvertendo a economia de industrias de baixo valor, para as de alto valor acrescentado; se olham para os EUA e constatam o mesmo tipo de investimento, com total desprezo pelos níveis de endividamento público, que já passaram os 133% do PIB; se olham para a Rússia, India e constatam um esforço desesperado por recuperar terreno perdido e passarem também a entrar nas economias desenvolvidas… O que era expectável que fizessem, se estivessem preocupados, como dizem, quando andam na caça ao voto, com a saúde, educação, habitação, transição digital e descarbonização? Apostariam em mais austeridade económica?

É incrível como as decisões tomadas ao nível dos órgãos da EU, seja pela burocrática comissão europeia, pelo Conselho Europeu ou pelo Parlamento Europeu, se alinham profundamente com as necessidades dos EUA, num caminho de crescente apropriação de mercados, que parece não ter fim. Se os EUA poderiam ter tudo a ganhar com o conflito Ucraniano, a Europa tinha tudo a perder, e o que fez a autocracia europeia? Atirou-se de cabeça e hipotecou o nosso futuro todo!

Se este conflito, para os EUA, significou mais armas vendidas, terras e propriedades ucranianas apropriadas pelos monopólios, a viabilização da indústria de gás de xisto e “bons empregos para os trabalhadores americanos”, como diz Blinken, para a Europa só resultou prejuízo, bem repercutido no afundamento do motor económico alemão, cujas empresas fogem agora para os EUA e China. Tudo sob uma capa de segurança contra o maléfico governo russo ou sob uma capa de “sustentabilidade e crescimento” como agora com o pacote de austeridade aprovado. Na EU, o nível de propaganda é absolutamente proporcional aos danos causados pelas suas políticas.

Depois disto tudo, o que necessitariam agora, os EUA, uma vez que já controlam totalmente o acesso ao mercado europeu e conseguiram atrair a maioria dos acéfalos dirigentes nacionais para o “derisking” da China e para o “decoupling” da Rússia? O que interessaria mais aos EUA não seria nada mais do que a EU prescindir de apoiar a economia com fundos públicos, desistir dos objectivos de descarbonização e com isso, prescindir do desenvolvimento das tecnologias digitais e ecológicas, que pudessem competir com as norte americanas, nos mercados europeus e internacionais. Se aos EUA tanto chateia a competição férrea da China, nada mais útil que afastar outro competidor, ainda por cima sentindo-se ele contente por fazê-lo.

É importante dizer que talvez nem os próprios EUA esperassem tanto.  De uma assentada é a própria EU que desarma os estados membros da arma do investimento público, o que já estava em causa com o Pacto de Estabilidade e Crescimento (que apenas fez emagrecer os estados europeus) e agora foi incrementado com o novo enquadramento para a governação económica da EU. Mas não se ficaram por aqui. Como muito bem-comportada que é, a tecnocracia europeia aprovou fórmulas de cálculo que, sobretudo, desarmam os países que constituem o motor económico “construção europeia”. Assim, de acordo com as regras estabelecidas neste novo plano de ajustamento fiscal, a França, Itália, Alemanha, Bélgica e Países Baixos têm de realizar os maiores cortes orçamentais, de entre 6 a 26 mil milhões de euros anuais. Ou seja, os países que mais contribuem para o PIB e orçamento plurianual da EU, são, precisamente, os que mais vão cortar.  Melhor era impossível.

Quem tem puxado mais por isto é o inevitável Ministro das Finanças alemão, Christian Linder, liberal, como não poderia deixar de ser. Há quem diga que se trata daquele trauma alemão da inflação da primeira grande guerra, mas não se deixem enganar. A Alemanha é um país totalmente ocupado e é hoje uma nação desconstruída, sem vontade própria e totalmente alinhada com as estratégias de Washington. Basta dizer que o seu chanceler assiste à destruição da fonte de alimentação a sua indústria – o Nord Stream – e fica calado. Ou o que dizer da sua tarefa de moço de recados aquando da viagem à China? Dizer que, no aeroporto, nem recebido foi por uma alta figura do estado Chinês, bem reflecte a sua falta de importância e o que os chineses pensam hoje da classe política da – ainda – maior potência europeia.

A verdade é que, com o novo quadro de governação económica, a maioria dos estados-membros serão obrigados a implementar cortes orçamentais massivos. As dívidas terão de ser reduzidas anualmente em 1% do PIB para os países com dívida elevada (acima de 90 por cento da dívida/PIB) e 0,5% para os países com dívida média (60-90 por cento). O limite de 3% do défice previsto nos tratados é complementado pela salvaguarda de resiliência ao défice defendida pela Alemanha, ou seja, por Christian Linder, o que significa que os países terão de continuar a reduzir os seus défices estruturais até que estes fiquem abaixo de 1,5 por cento do PIB. Já não bastava o garrote dos 3%, agora aperta-se ainda mais. Tudo porque o Sr. Linder, que é formado em Ciência Política, mas arvorado em economista, diz que “o dinheiro emprestado não pode gerar crescimento a longo prazo”, o que é tecnicamente incorrecto.

Se o Sr. Linder tivesse razão, nenhuma empresa, família ou organização se endividava para investir. Aliás, esse é o segredo da banca capitalista. Receber os depósitos de quem poupa, para emprestar a quem precisa para investir.

Mas existe uma última prova de que estas políticas, financeiramente autoritárias, não funcionam, nem economicamente sequer.  As regras orçamentais europeias que até aqui vigoraram e presidiram à crise do euro, foram incapazes de reduzir a dívida dos Estados-membros, apenas contribuindo para diminuir os gastos do governo e, em resultado, fazer a procura interna cair, a produção económica diminuir e, como se vê, aumentar a dívida pública. Aquela que agora se quer reduzir, outra vez, da mesma forma, usando o mesmo método.

Em resultado desta política e dos problemas sociais criados e não resolvidos, voltámos a conviver novamente com a extrema direita e o fascismo nos nossos parlamentos, na comunicação social dominante, nas fake-news, nas redes sociais. O discurso anticientífico voltou, mas mascarado de pseudociência, como agora vemos explanado neste novo ajuste fiscal promovido pela EU, a ser aplicado no pior dos momentos possíveis.

Veja-se então como funcionam estas cabeças pensadoras: se o garrote dos 3% não funcionou, destruiu valor, contraiu a economia europeia e criou problemas sociais, a partir dos quais trepou o reaccionarismo e o fascismo, o que fazem eles? Aplicam o garrote ainda com mais força! Alguém compreende uma coisa destas? Se na primeira ronda o doente ficou moribundo, nesta deve morrer de vez. É uma espécie de versão “Big Brother” à escala europeia do livro – excelente – de Michael Hudson “Killing The Host – how financial parasites and debt bondage destroy the global economy” (Matando o hóspede – como os parasitas financeiros e a sua violência da dívida destroem a economia global).

São, assim, vários os ensinamentos que podemos retirar desta loucura toda:

  • O que está a acontecer à Argentina com Milei (o que aconteceu ao Chile de Pinochet), que aumentou a pobreza acima dos 50%, mantém a inflação altíssima e apenas deu a ganhar aos mais ricos, tem mais admiradores na Europa do que o que alguns querem admitir;
  • Hoje, os partidos do arco do poder europeísta, são os partidos da submissão e, no essencial, não divergem uns dos outros (tirando os deputados do grupo “A Esquerda” e os “Verdes”, todos os restantes principais grupos votaram a favor deste desastre);
  • A política económica europeia é actualmente uma extensão da política económica norte americana, mas não numa perspectiva construtiva, e sim numa perspectiva destrutiva, para deixar espaço a ser preenchido pelos primeiros;
  • Os resultados sociais, ambientais, políticos destas políticas financeiras autoritárias impedem os estados membros de desenvolverem as suas condições de vida e de trabalho, ameaçando de forma crescente o estado social e o modo de vida que ainda resta;
  • Face aos resultados conhecidos destas políticas, insistir no seu aprofundamento, implica estar de acordo com o resultado que têm, independentemente do discurso que se possa depois assumir;
  • Uma vez mais a União Europeia surge como refém dos conglomerados financeiros globalistas e norte americanos, que fazem da agiotagem dos estados uma das suas estratégias preferenciais de acumulação, demonstrando que não é a dimensão europeia que nos salva deste sequestro, mas a vontade política que não existe;
  • Prova-se também que a União Europeia é mais uma âncora que hoje obstaculiza o desenvolvimento dos estados, do que um impulsionador do seu desenvolvimento.

Esta receita profundamente danosa, experimentada casuisticamente durante a crise do sub-prime, passa agora da sua fase casuística, pontual, onde foi experimentada e aperfeiçoada, para a sua fase de aplicação global, passando a política oficial da EU. Se na primeira fase eram os próprios estados membros e os respectivos governos que ficaram com a culpa, enquanto maus gestores e gastadores, o que representou um efeito nefasto na qualidade das democracias ocidentais, desta feita, a culpa será atirada para as “regras europeias” o que agravará a sensação de impotência dos povos e com ela a frustração. Desta frustração tenderá a alimentar-se, em primeiro lugar, a demagogia neofascista.

Este efeito é inegável e é resultado dos vários choques que a EU recebeu e dos efeitos que tais choques tiveram na degradação das condições de vida dos povos. O facto é que quando olhamos para as previsões de crescimento do próprio FMI, de todo o ocidente, a EU é a que menos cresce (com previsões de 0,8% para 2024 e 1,2% para 2025). Rússia, EUA e especialmente China e India, crescem mais, muito mais.

Se a história nos diz que o “estado mínimo”, a contracção, a austeridade, impedem o crescimento, o desenvolvimento, tendo apenas como único efeito a aceleração da concentração a riqueza no topo, não existe nenhum argumento que possa ser jogado a favor deste plano de austeridade. Gerir em função das possibilidades apenas, leva-nos ao encolhimento, à cobardia, à pequenez. A gestão em função das necessidades faz-nos crescer, arriscar e ir mais longe. Essa coragem, essa visão, não existe hoje na política dos estados membros e, muito menos, ao nível europeu.

É fácil cortar e deixar cair, o que é difícil é fazer crescer, quando tudo levaria a crer que apenas se poderia cortar. Hoje, na EU, corta-se a direito. Quando mais a Europa precisava de investimento, mais se garante que não o faz, demonstrando que não há medida europeia que não caiba na forma americana.

Fonte aqui.