(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 10/05/2024)
Bastaram 30 dias apenas da nova ordem para já percebermos o que se adivinha: um país ingovernável, dure o Governo três, seis ou nove meses de penosa e ruinosa agonia.
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Bastaram 30 dias apenas da nova ordem para já percebermos o que se adivinha e o que se adivinhava, desde que, em 7 de Novembro passado, Marcelo Rebelo de Sousa, dando sequência ao plano “maquiavélico” de Lucília Gago (ele o disse) e aos devaneios presidenciais de alta política, deitou fora uma maioria absoluta e convocou todos os demagogos disponíveis para tomarem conta do país. O resultado está à vista: é um país ingovernável, dure o Governo três, seis ou nove meses de penosa e ruinosa agonia.
Em 30 dias, o Governo Montenegro não resolveu nem começou a resolver nada do que era urgente: a localização do novo aeroporto de Lisboa, a privatização da TAP, o início das obras da alta velocidade ferroviária, a apresentação de uma ideia que faça sentido para o SNS, um efectivo desagravamento fiscal, a paz nos tribunais, nas escolas, nas ruas, nas polícias, nas Forças Armadas. Em lugar disso, empenhou-se em tentar convencer os 70% de portugueses que não votaram nele que tudo estava mal na governação anterior e que todas as boas notícias tidas como verdadeiras eram falsas. Investiu contra os organismos e quadros superiores da Função Pública, ameaçando, intimidando, exigindo relatórios e reestruturações em prazos impossíveis, para depois se ver paralisado, sem alternativa imediata, chegando a exigir de quem havia demitido que se mantivesse ao serviço até conseguir perceber o que fazer. Até agora, ouvimos queixarem-se da herança recebida os ministros e ministras da Justiça, da Agricultura, das Finanças, do Trabalho, da Administração Interna e da Saúde, enquanto o ministro da Defesa se desdobra em disparates em vez de ir ler os dossiês essenciais do cargo, sem perceber que já não está em campanha eleitoral, e o dos Negócios Estrangeiros ensaia uma difícil transição entre um papel e o outro. E é difícil perceber como é que sobre tudo isto, como que voando sobre um ninho de cucos, Luís Montenegro declara que é tudo “natural” e que está a gostar de governar. Claro que é cedo demais para declarar o seu sonho falhado ou passar uma certidão de óbito ao mérito do seu Governo — ao mérito, não ao destino dele, porque esse parece-me traçado. Mas, francamente, ele anda satisfeito com quê? Com a nossa satisfação não é certamente.
2 E depois temos o principal partido da oposição, o PS. Ah, o PS! Há uns dois anos talvez, escrevi aqui que se um dia o PS caísse na tentação de se entregar nas mãos de Pedro Nuno Santos estaria a caminho do suicídio político. Pois bem, entregou-se. Ou, melhor, entregou-o Marcelo e Lucília Gago, mas ele aproveitou sofregamente a oportunidade por que há muito esperava e para a qual de há muito se vinha preparando. A forma como para tal se livrou do contencioso incómodo de António Costa, sem uma palavra para, antes das eleições, o defender do infame processo Influencer —- da mesma forma como se pôs convenientemente ao largo do seu ex-secretário de Estado João Galamba, injustamente acossado por todos, mas não abandonado por Costa —, diz muito, diz provavelmente tudo, sobre aquilo de que é capaz para chegar ao poder. E marca uma diferença, que é mais, bem mais, do que de simples atitude. De Edmundo Pedro a José Sócrates, Mário Soares nunca abandonou os seus camaradas, por mais inconveniente que tal fosse: não deixar feridos para trás no campo de batalha é a marca dos verdadeiros líderes. Não me admira nada, por isso, que naquele seu insípido discurso, no seu habitual tom de socialista/seminarista, para celebrar os 50 anos do 25 de Abril, não tenha ocorrido a P.N.S. evocar o nome do homem que mais marcou este meio século de liberdade, sujeitando-se e ao PS ao enxovalho de ter de ver alguém do PSD, Aguiar-Branco, resgatar o nome de Mário Soares perante a Assembleia da República e o país.
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Este é o homem que o PS tem agora no seu comando e que espera ver ao leme do país dentro de seis meses ou pouco mais. E aos olhos do grande estratego P.N.S. o caminho para lá chegar é simples: ou impedir a AD de governar ou ajudá-la a desgovernar. Não, não é verdade, diz ele, que, apesar das aparências, o PS esteja disponível para coligações negativas envolvendo a extrema-esquerda e a extrema-direita do horrendo Chega: não se pode é exigir que o PS abdique das suas propostas e do seu programa eleitoral (que, por acaso, não ganhou as eleições) só porque os “racistas, xenófobos e populistas” do Chega pontualmente também votam a favor das suas propostas. Não, não é verdade, e a prova é que o PS está disponível para votar ao lado do PSD tudo o que seja aumentos na Função Pública e até um orçamento rectificativo para os cobrir. Ou, melhor dito: o PS estará sempre disponível para aumentar a despesa pública, aderindo alegremente à onda de fartar, vilanagem, que mais uma vez irá dividir os portugueses entre quem vive do Estado e quem vive para o Estado. Se a AD concordar, votam juntos e os socialistas recolhem os louros e os futuros votos, dizendo que foi graças a pressões suas; se a AD não concordar, o PS vota com o Chega e dividirá os louros com o partido de Ventura. Depois, quando o país estiver à beira da falência outra vez, o PS dirá que a culpa foi do Governo da AD, porque os socialistas tinham deixado as contas certas. E com isso P.N.S. espera ter via aberta para, enfim, chegar ao almejado poder — onde todos podemos esperar um desempenho tão brilhante como o que ele teve a governar a TAP, a CP, a Habitação, as Obras Públicas ou as Comunicações.
3 Nunca alinhei no bota-abaixo generalizado dos políticos e da classe política, muito embora o lugar de jornalista seja propício a tal. Mas não alinhei nem alinho, primeiro, porque a democracia não existe sem partidos que a sirvam e políticos que os sirvam e sirvam a democracia. É uma profissão como qualquer outra, mas pior tratada do que qualquer outra, e essa é a segunda razão. Entre nós, os políticos são mal pagos (são os únicos servidores públicos que ainda têm os vencimentos congelados desde o último Governo Sócrates, antes mesmo da troika), ao mesmo tempo que se lhes exige permanente disponibilidade e exclusividade, vivendo-se ainda na crença, há muito terminada, das reformas vitalícias ao fim de oito anos de trabalho político. A par disso, todos os políticos, sem excepção, são por natureza tidos como corruptos, unicamente preocupados com o seu benefício pessoal e movidos por interesses ocultos. Mas depois espera-se desta gente, mal paga e malvista, que sejam os melhores entre os melhores. Mas porque haveriam de sê-lo? — “You pay peanuts, you get monkeys.”
Quando me acontece passar em revista os nomes daqueles que nestes 50 anos passaram pela Assembleia da República ou pelos Governos, fico impressionado com a abissal diferença de qualidade que se foi perdendo ao longo do tempo. Mas isso não acontece só aqui: em toda a Europa não existe hoje um só líder político a que possamos chamar um estadista e as consequências disso estão à vista. Fruto da ignorância, do populismo e da demagogia que reinam livremente nas redes sociais, no jornalismo tablóide e na arrogância de massas, os políticos abrem hoje caminho e sobrevivem jogando com essas mesmas armas e no mesmo terreno. Por isso mesmo, quando me deparo com uma excepção, é como se renascesse a esperança de que, começando por essa excepção, o caminho se possa ir invertendo. E, por isso mesmo, quando esse alguém afinal se rende também, a desilusão é ainda mais difícil de aceitar. Muito a contragosto, porque se trata de alguém que me habituei a admirar, chamo à colação o nome de Francisco Assis, do PS. Contra a corrente, ele tinha passado os últimos tempos a defender uma variante da mal-afamada “terceira via” entre os socialistas e até mesmo, abertamente e com coragem, um acordo de bloco central entre PS e PSD. Fê-lo com um discurso pensado, fundamentado e a justificar internamente um debate sério em nome do país. Mas eis que António Costa cai e Pedro Nuno Santos se candidata ao partido e, em vez de um debate, lhe propõe um almoço. E desse almoço sai um homem novo, transfigurado no mais improvável apoiante de P.N.S. e admirador dos seus dotes de “acção” (mas qual acção, caramba?). Seguiram-se várias penosas e, obviamente, infrutíferas tentativas de explicações sobre tão radical cambalhota ideológica. Depois, o lugar de cabeça de lista pelo Porto e o prometido lugar de presidente da Assembleia dentro de dois anos. Mas ainda não chegava, dois anos é muito tempo: faltava ainda trair os eleitores do Porto, trocando-os por um mais lucrativo lugar no Parlamento Europeu, em Bruxelas. Irá, suponho, “fazer o mesmo, só que num lugar diferente”, como disse a sua camarada Marta Temido, outra que seguiu o mesmo percurso. O mais extraordinário é imaginar que, se perguntarmos o que pensarão eles que nós ficamos a pensar deles, a resposta mais provável é que isso não os preocupa nada. E se tudo correr muito mal, se tudo correr o pior possível, a culpa será sempre e só do Chega.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
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