A crescente obsolescência do “centro” político ocidental!

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 09/07/2024)

As últimas semanas constituem um capítulo profundamente esclarecedor, quanto às razões explicativas da crise da apelidada “democracia liberal” e dos problemas profundos que afectam o Ocidente e a União Europeia, em particular.


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As últimas semanas constituem um capítulo profundamente esclarecedor, quanto às razões explicativas da crise da apelidada “democracia liberal” e dos problemas profundos que afectam o Ocidente e a União Europeia, em particular. Seja o debate Trump/Biden que nos diz que quem está ao leme não dá a cara, e quem dá a cara, não está ao leme; sejam as eleições na UE, que demonstram a contradição entre um “centro” político monolítico e as necessidades das suas populações; nos dois casos, constatamos a crescente obsolescência do sistema político para fazer face aos desafios anunciados, bem como o esgotamento real das “soluções” que preconiza.

Em consequência profunda desse esgotamento, verifica-se a ausência de uma estratégia de futuro que não passe por um conturbado navegar à vista e uma total falta de base material que justifique as decisões políticas que se vão tomando, todas resultando em fracasso após fracasso. É absolutamente incrível que se consiga falhar tanto e tantas vezes. As medidas aplicadas pelos EUA, e mimetizadas pela UE contra os seus adversários, não apenas falham, como têm, reiteradamente, os efeitos inversos aos enunciados. Não obstante, elas permanecem imutáveis.

Para confirmar esta verdade, recentemente, a União Europeia decidiu aplicar tarifas aos cereais da Rússia e Bielorrússia. Para além do disparate tremendo que é, num contexto de crise, caracterizado pela necessidade de controlo da inflação e preço elevado dos fatores de produção, a UE decide repetir a receita aplicada ao gás e contribuir para o encarecimento da alimentação. O objectivo de redução das importações de cereais, provindos destes países, está relacionado, segundo a burocracia europeia, com o objectivo de negar à Rússia rendimentos económicos. Tomando como exemplo o que tem sucedido com as sanções, resta-me perguntar se, para derrotar a Rússia, não teremos de morrer todos à fome primeiro.

Exemplo do que é que o monolitismo e inamovibilidade deste “centro” político, construído a partir e à imagem de Washington, através do recurso às ONG’s, à academia, Think Thank e dos organismos internacionais, é a própria designação de Úrsula Von Der Leyen e António Costa. Alguém explique, por favor, com base em que escrutínio é que esta senhora voltou a ser escolhida para Presidente da Comissão! Qual foi a dimensão democrática em que a senhora foi bem-sucedida, a não ser na replicação cega, para a União Europeia, da política externa de Washington? E por que razão, a família política dos S&D, aprovou a sua designação? Trocaram pelo o apoio do PPE a António Costa!

Também no caso de António Costa é consagrado o poder deste “centro” político. Depois do seu adversário político e actual Primeiro Ministro português, ter andado, em Portugal, a acusá-lo de incompetência e de ter chefiado um dos piores governos da história democrática portuguesa, porque razão veio, depois, quando se tratou de o designar para o Conselho Europeu, dizer que Costa cumpria todos os requisitos? O facto é que a vida política no Ocidente colectivo faz-se, cada vez mais, em circuito fechado, em que a propaganda, ao contrário de antes, já não visa convencer os de fora, a entrar; visa, sim, convencer os dentro, a ficar!

Esta situação demonstra a complexidade do problema e, ao contrário do que muitos querem fazer crer, não basta à União Europeia, ou aos EUA, substituir a classe política comprometida com esta decadência. Pode parecer atractivo pensar que “a culpa é dos políticos”, e que basta mudar os de má qualidade, por outros melhores, e tudo se resolverá. Políticos melhores dependem da subida do nível de consciência das populações e estas ainda estão demasiado recuadas para os poderem produzir, em quantidade e qualidade. Os poucos que existem são rejeitados pelo “centro” político todo poderoso, por não se alinharem com as suas pretensões.

Por isso, lamento desiludir os que vêem uma mudança profunda nos últimos resultados eleitorais. Os resultados eleitorais, caracterizados pela “ameaça” da “extrema” direita, representam, sobretudo, que uma parte crescente da população se sente muito mal. Mas correspondem ainda, a meu ver, a um estado primário de consciência. O discurso político do centro dominante, focado no mal dos outros (“a economia russa está em pedaços”; “A economia chinesa vai cair”, uma e outra vez), já não pode esconder o estado grave em que nos encontramos. As populações começam a perceber que estão doentes, sim, mas ainda não conhecem as causas da doença, quanto mais o caminho da cura.

Para já, e até numa lógica de resistência a qualquer tipo de mudança substancial, as escolhas incidem, sobretudo, em agendas partidárias que apenas abordam questões superficiais (não quer dizer que não tenham importância) sem nunca tocarem no fundamental. Sem nunca colocarem em causa o modelo de exploração económica. Reconheçamos que é mais fácil assumir que a culpa é dos outros, que o mal vem de fora, do que assumir que ele está cá dentro e é profundo!

Seja como for, o movimento eleitoral dirige-se, crescentemente, no sentido do voto nas forças que melhor exprimem este mal sentir, mas que raramente apresentam soluções de fundo para o resolver. Daí que, depois de um apelo de décadas à “moderação centrista”, as populações se sintam impelidas ao “politicamente incorrecto”, confundindo acusações de culpa a terceiros (aos imigrantes, aos ciganos, aos corruptos) e a gritaria com a necessária “mudança”. E é este “politicamente incorrecto” que é exprimido pela dita “extrema direita”. E, em muitos casos, é isso que a distingue, no fundamental, do “centro” político em crise.

Se existe estagnação e inamovibilidade no “centro” político ocidental, tal sucede como resultado da histórica capitulação da social-democracia e da sua captura pelos interesses da classe dominante. Tal conduziu a uma concentração, sem precedentes, do poder político (também resultante da concentração da riqueza nos estratos sociais mais ricos), passando, este “centro” político, a funcionar como um cartel ideológico em que as diferenças superficiais não colocam em causa o que os une. Este centro político é “woke” (pensavam que o “wokismo” era esquerda?), partilhando a agenda de Soros; é neoliberal, partilhando a agenda do consenso de Washington; é globalista, partilhando a agenda do Grande Reset do Fórum Económico Mundial.

As diferenças superficiais que constatamos entre um centro-esquerda mais “woke” e um centro-direita mais neoliberal, não podem ser confundidas entre “direita e esquerda” e ainda menos entre esquerda progressista e direita reaccionária. Elas refletem apenas a abrangência do centro político. Ao invés, essas diferenças perdem expressão perante a ideia de “civilização ocidental neoliberal”, chefiada pelos EUA, e a sua expansão neocolonial, para o resto do mundo, a qual representa o pilar ideológico fundamental que une as famílias políticas mais poderosas. Vejamos o caso do Reino Unido, em que se circula, ficando parado, entre um partido conservador dominado por multimilionários e um partido trabalhista dominado por empregados de multimilionários. Mas a política de fundo nunca muda.

Para evitar o desgaste, os interesses dominantes recorrem à alternância eleitoralista, criando a aparência de rotatividade, escrutínio e responsabilização democráticas. Contudo, uma vez que o poder está cartelizado entre oligarquias políticas, a alternância tem sido, como se previa, incapaz de traduzir, a rotação alternante, em mudanças políticas concretas.

O sistema tornou-se prisioneiro de um mero movimento aparente. Qualquer que seja o sistema político, mais ou menos sufragista, existe algo que decreta a sua morte a prazo: a insusceptibilidade de mudar; o monolitismo ideológico, principalmente perante as dificuldades das populações.

A suposta “moderação” deste centro de poder sempre foi medida através do índice de insusceptibilidade de contestação às directrizes económicas e de política externa, europeias e ocidentais, em especial emanadas de Washington. A grande preocupação dos governos nacionais, pertencentes ao centro político dominante, passou a ser o de, burocraticamente, “cumprir as directrizes europeias”. Já a UE vive obcecada com o alinhamento atlantista. A margem de governação para resolver os problemas dos povos europeus passou a ser mínima. Neste sentido, este “centro” político representa uma forma de extremismo militante atlantista.

Dado o monolitismo deste “centro” político, a sua arrogância e sectarismo, em que não aceitar uma das regras que preconiza significa ficar de fora, a direita que rejeita a guerra é afastada para as margens. E é a partir daqui que se sustenta parte da ideia de “extrema” direita e do seu perigo, não se distinguindo entre “extrema” direita que o é porque rejeita a política externa globalista e de confronto (onde até já vi alinharem Vucic e Fico!!!), e a extrema direita de facto, xenófoba, fascista e atrasada.

Neste sentido, o “centro” político pode ser tão extremista e perigoso como a “extrema direita” de facto, uma vez que é este mesmo “centro moderado” que abraçou o militarismo e pretende a continuação e alargamento da frente de guerra (existe algo pior e mais extremo que a guerra?).

E é aqui que se estabelece a diferença fundamental dos nossos dias entre o “centro moderado”, alguma “extrema” direita e alguma “extrema” esquerda. A oposição à guerra e o apoio ao diálogo com a Rússia. Aspectos que, adicionados ao caso de Orban, que também defende as relações com a China, ameaçam fazer ruir, a estratégia hegemónica Norte Americana, apropriada de forma tão militante pela Comissão europeia de Úrsula Von Der Leyen e pelo seu “centro” político. Para fora da discussão política são chutadas todas as forças de “extrema esquerda” que preconizem a mudança do modelo económico de exploração.

Daí que possamos tirar várias conclusões a partir do histórico dos últimos tempos. Uma, é que este centro político explora, propagandisticamente, uma falsa ideia de “moderação” assumida como o modo de governação característico que, supostamente, reúne e representa as virtudes de todo o espectro político-ideológico. Nada mais falso. Hoje, a questão da guerra contra a Rússia, o apoio ao regime de Kiev e a atitude face à China constituem um autêntico divisor de águas que promete baralhar o espaço político. Mesmo forças políticas abertamente capitalistas defendem o aprofundamento das relações com ambas, na medida em que representam facções que pretendem “surfar” o crescimento destas potências.

A este respeito, é o “centro moderado” que surge como a área política mais extremada e mais incapaz de se conciliar e dialogar com a Federação Russa (totalmente) e com a República Popular da China (crescentemente). Este “centro moderado” assume uma postura totalmente arrogante (nós é que estamos certos, o outro lado está errado); sectária (ou estás connosco ou contra nós) e fracturante (não há diálogo possível). Ao invés, são alguns dos que o “centro” designa como “extremos” que surgem como verdadeiramente moderados.

Outra conclusão decisiva é a de que, face à concorrência sistémica internacional, traduzida no conceito de “Sul Global” (a que devemos chamar de “maioria global”), composto por organizações internacionais como a Organização de Cooperação de Xangai, a União Económica Euroasiática, a ASEAN, os BRICS, União Africana e outras, o Ocidente Colectivo cristalizado, cada vez mais proteccionista, surge em frontal contradição com o movimento de abertura, expansão e desenvolvimento a que se assiste no mundo não ocidental. O “Sul Global”, em movimento de libertação do neocolonialismo dos últimos 100 anos, surge como mais integrador da diversidade do que o Ocidente Colectivo.

O Ocidente Colectivo apenas admite um modelo de governação, na sua versão de exportação, a que todos devem aderir, mais tarde ou mais cedo, se com ele se quiserem relacionar. A não adesão ao modelo cristalizado ocidental implica uma enorme insegurança nas relações, sujeitando o parceiro aderente à possibilidade constante de sanções, revoluções coloridas e demais movimentos de ingerência externa nos seus afazeres. Ao contrário, as organizações do Sul Global partem de uma premissa mais tolerante e pluralista, admitindo, no seu seio, diferentes visões do mundo e da política, sem que uns queiram, pela menos até ver, impor o seu modelo aos demais.

Não é difícil identificar qual será o modelo mais apto a vingar, evoluir e resultar num encontro inovador de premissas ideológicas que respondam aos problemas da humanidade. Um modelo fechado, impositivo, imposto de cima para baixo, conformador e autoritário, na medida em que não admite outra atitude que não seja a sua aplicação, impondo a destruição das soberanias como condição para uma “libertação” e que sujeita as nações ao poder do seu “centro” político; ou, por outra via, um modelo diverso, em que diferentes sistemas contactam e cooperam entre si, mutuamente aprendendo e retirando dos demais as melhores e mais bem sucedidas aprendizagens, num caldo plural e despretensioso, por isso mesmo, mais propício à inovação e ao progresso, assumidos pelas nações, de forma voluntária e soberana? Ente estas duas visões, afinal, qual é que nos surge como mais moderado, dialogante e equilibrado?

Ao monolitismo extremista do sistema ocidental liberal contrapõe-se, paulatinamente, um novo mundo. Um mundo multipolar e por isso mesmo, mais plural, diverso e inclusivo, logo mais apto a inovar, e inovando, mais apto a desenvolver-se, sobreviver e vencer!

Ao cristalizar-se num centro monolítico, cada vez mais obsoleto, a “democracia” liberal anuncia a sua morte! Quando o “centro” ocupa todo o espectro, deixa de ser “centro” para passar a ser “extremo”.

Fonte aqui.


Aquilo era o retrato do inferno

(José Goulão, AbrilAbril, 11/07/2024)

Estivemos perante a inquietante prestação dos dois putativos chefes do império norte-americano, ou seja, do globalismo, do «mundo civilizado», os patrões dos nossos políticos «vocacionados» para o poder, os donos das nossas vidas.


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As palavras que encimam este texto são do já saudoso Fausto Bordalo Dias no épico monólogo de Fernão Mendes Pinto em «o barco vai de saída»; tiveram evocação recente não apenas pela partida triste de tão emblemático e inconfundível cantor e autor mas também pelo dramático, igualmente arrepiante e nada épico debate entre os dois candidatos à presidência dos Estados Unidos da América, Joseph Biden, pelo Partido Democrático, e Donald Trump, pelo Partido Republicano; isto é, segundo a praga dos comentadores que infesta os nossos dias, entre «a esquerda» e «a direita».

Aquilo era o retrato do inferno, não só porque entre os debatentes venha o diabo e escolha, mas também porque estivemos perante a inquietante prestação dos dois putativos chefes do império norte-americano, ou seja, do globalismo, do «mundo civilizado», os patrões dos nossos políticos «vocacionados» para o poder, os donos das nossas vidas.

Achei prudente aguardar algum tempo antes de abordar o tema, não pela complexidade e a profundidade do conteúdo ideológico, intelectual, político e programático dos dois ogres; esperei até ter uma ideia feita sobre as abordagens dominantes assumidas pela comunidade dos comentadores, analistas, especialistas, politólogos e cartomantes que transtornam os cérebros das populações submetidas ao «nosso modo de vida», pelo menos dos cidadãos que ainda têm pachorra ou estômago para se deixarem torturar por eles.

E estiveram uns para os outros, candidatos e analistas, domésticos ou da estranja «civilizada». A indigência pega-se, pelo menos foi o que demonstrou o tenebroso efeito em cadeia. Não apenas porque a corporação do «comentariado» – parece que é assim que se autodenominam – conseguiu encontrar matéria relevante no vácuo das ideias expressadas pelos contendores, espremeu-se até para encontrar um vencedor e um vencido, teorizou sobre as capacidades cognitivas de cada um, como se a demência política pudesse ser aferida por uma qualquer escala científica. O drama que tornou assustadoramente exponenciais as consequências da contenda entre dois indivíduos sem carácter, esclerosados, irresponsáveis, ignorantes, avatares de seres humanos degenerados, foi a maneira como este universo da opinião única ignorou ou omitiu deliberadamente o que esteve e está verdadeiramente e quase exclusivamente em causa nos episódios que envolvem os candidatos e as próprias eleições presidenciais nos Estados Unidos da América.

Eles são os nossos chefes

Aquilo, o debate, era sem qualquer dúvida o retrato do Inferno. O Inferno em que vivemos sem que muitos, talvez a maioria, se dêem conta do risco de podermos transformar-nos em poeiras radioactivas de um momento para o outro; o Inferno da vida que os poderes representados por aqueles dois psicopatas nos impõem e garantem continuar se as relações de forças internacionais e, sobretudo, a impaciência activa dos povos do mundo não fizer desmoronar o império. Existem muitos indícios de que ele já mal se aguenta de pé, mas não tenciona suicidar-se. Ainda possui muitos recursos, explora sem reservas o ódio pelos seres humanos, põe e dispõe das nossas vidas através dos métodos mais violentos e também mais insidiosos, sem que se vislumbrem quaisquer limites para a sua sanha capazes de o travar antes de chegar ao extremo de eliminar a vida no planeta. 

Ainda há quem entenda estas considerações como coisa de lunáticos, mas não percamos a noção de que o simples facto de observarmos a colocação de marionetas transtornadas à cabeça das coisas político-militares dominantes no mundo revela o grau supremo de liberdade usufruído pelos monstros que, movendo-se silenciosamente em mundos subterrâneos, conduzem a economia e as finanças globais. Esse poder real, absoluto e incontestado serve-se da política e do militarismo como braços visíveis, como centros de imposição comportamental, de manipulação e engenharia social para transformar metodicamente os seres humanos em meros instrumentos ao serviço de interesses que não são os seus, tornando-se até inimigos involuntários de si próprios. 

Joseph Biden e Donald Trump são os nossos chefes visíveis. Para todos os efeitos, pensando apenas em termos da ponta do iceberg dos poderes mundiais, são eles que mandam na NATO, na ONU, na União Europeia, em cada um dos nossos países que em tempos foram soberanos; que mexem os cordelinhos do terrorismo transnacional «moderado», como a al-Qaida, o Isis e tantos outros heterónimos, que fazem a guerra e decidem sobre a paz, que definem o que é a democracia e como deve ser praticada, que funcionam como o alfa e o ómega do grande aparelho transnacional de controlo mental, que impõem o mercado como a ditadura das nossas existências, que espiam e se apropriam da nossa privacidade com métodos e meios cada vez mais desumanos e sofisticados; que agem como arbitrários «legisladores» e gestores da «ordem internacional baseada em regras», sistema comportamental compulsório que subverte e impede o regular funcionamento do direito internacional. São eles, em suma, o paradigma actual da nossa democracia liberal, o «farol» da liberdade, dos «valores ocidentais», do respeito pelos «direitos humanos», da «responsabilidade de proteger», através da guerra, em cada recanto do mundo. A imagem que esses trastes alienados transmitem aos olhos da população mundial espelha fielmente o estado em que se encontram a política ocidental e a «nossa» democracia liberal – um retrato do Inferno.

Veja as diferenças

Há quem pretenda estabelecer distinções entre Joseph Biden e Donald Trump, como fariam em relação a qualquer outra dupla em competição, suponhamos Hillary Clinton e a vice-presidente de turno Kamala Harris. É uma atitude que não passa de um esforço irresponsável para dar credibilidade a um sistema caduco, subvertido desde as proclamações iniciais, já lá vão quase 250 anos, malévolo, desumano em nome da humanidade, agressor em nome da paz e da democracia, expansionista e salteador dos bens e das riquezas alheias, cobrindo e fundindo agora, sob as suas asas, o velho e o novo colonialismo como práticas inerentes ao sistema imperial.

Diferentes e iguais, Biden e Trump representam, apesar da pungente exibição de um grau irreversível de decadência humana, duas faces da mesma moeda, um autêntico partido único imperial gerindo simultaneamente os seus tentáculos que se movem através do Ocidente colectivo como instrumentos indispensáveis da democracia liberal, a autêntica, exclusiva e à qual temos de obedecer em rebanho e sem balir. 

Nos Estados Unidos, os aparelhos encarregados de fazer política designam-se Partido Democrático e Partido Republicano; na Europa e no resto do Ocidente podem chamar-se, entre outras coisas, «centro político», «bloco central», «convergência» entre socialistas, conservadores e liberais, sistema que prevalece na composição e funcionamento do aparelho autoritário baptizado como União Europeia.

Mecanismos de poder todos diferentes e todos iguais, a exemplo do que sucede na cúpula do poder imperial – quando é necessário que a política exerça o papel que lhe está reservado para fazer cumprir as ordens do neoliberalismo e do seu deus inquestionável, o mercado.

Analistas de «esquerda», muito úteis para compor o ramalhete «pluralista» do comentariado doméstico, chegam a qualificar Biden como um candidato «sério» perante um «mitómano» e outras coisas do mesmo jaez que Donald Trump efectivamente é, além de mentiroso contumaz, corrupto, ladrão de petróleo e outras riquezas alheias. Actividades que, mantendo a memória em funcionamento, também não são estranhas ao presidente e incumbente democrata.

Pela «seriedade» de Joseph Biden falam a sua carreira política medíocre, mas, principalmente, corrupta, manipuladora, belicista, cleptómana e sangrenta ao longo de mais de 50 anos. E sempre afecta ao poder, fosse democrata ou republicano, como no caso do apoio activo às invasões do Iraque cometidas por Bush pai e filho.

Biden foi fervoroso adepto dos golpes terroristas na América Latina, África e Oriente, distinguiu-se nas frentes de apoio ao sanguinário desmantelamento da Jugoslávia, à colonização neoliberal e saqueadora da Rússia, às invasões do Iraque, do Afeganistão e da Somália. Meteu e mete directamente as mãos nas permanentes carnificinas sionistas contra o povo palestiniano – dizendo-se «sionista cristão» – e nas invasões da Síria, através de «procuradores» terroristas, e da Líbia, patrocinando a destruição e matança gerais, a começar pelo bárbaro assassínio de Muammar Gaddafi. «Chegámos, vimos e ele morreu», proclamou, num arroubo imperial, a então secretária de Estado Hillary Clinton, da administração Obama, na qual Biden foi vice-presidente. Cargo onde desempenhou funções primordiais no golpe nazi da Praça Maidan, na capital da Ucrânia, abrindo as portas ao massacre de aproximadamente 14 mil pessoas no Donbass, entre 2014 e 2022, e à perda de pelo menos 500 mil vidas no confronto militar directo entre a Ucrânia e a Rússia que se lhe seguiu. Um currículo invejável para um político «sério».

A elite de «referência» do garboso exército do comentariado acha que no confronto entre os Partidos Democrático e Republicano tem o dever de assumir uma polida e até snob inclinaçãozinha pela ala democrata, de comportamento muito mais «europeu», eivada de boas maneiras, capaz de fazer das guerras acontecimentos humanitários e até ecológicos, – como se diz a propósito das manobras militares da NATO. Exprime até sonoras condescendências e bem calibradas manifestações de afecto pelas minorias LGBT, negras, de salvadores do planeta e tantas outras causas ditas «fracturantes» como as questões do aborto e dos direitos da mulher. Ao contrário do brutamontes Trump, que solta pela boca fora o que lhe passa pela cabeça, carecendo da moderação, do cinismo e do oportunismo de discurso que Biden foi praticando ao longo de meio século, movendo-se pelos corredores e gabinetes de Washington.

Não esqueçamos, além disso, que o Partido Democrático tutela até a Internacional Socialista, um ponto a seu favor para a penetração mais profunda da Europa, com o mérito acrescido de ter contribuído, como nenhuma instituição, para a evolução do anacrónico «socialismo democrático» – uma aberração em tempos de extinção das ideologias – em direcção ao «socialismo» com as cores neoliberais, que devem ser obrigatoriamente ostentadas por todos os partidos «com vocação de poder».

Joseph Biden, um demente político ao nível do seu rival Trump mas com um património de poder que deixa o adversário nas divisões distritais, encaixa às mil maravilhas na encenação cultivada pelo Partido Democrático. Fala bem (às vezes titubeia um pouco, é certo, e quando mente é em defesa da democracia e dos direitos humanos), veste melhor, exibe um esgar de sorriso bastante diplomático, caminha como se estivesse numa passerelle (os esporádicos tropeções devem-se a sujidade nos Ray-Ban de sol, imagem de marca dos expoentes securitários), cuida do corte de cabelo e mantém o branco natural; usa boné apenas quando lhe é emprestado ou oferecido por um craque da primeira liga de beisebol; até a sua evidente demência cognitiva não passa de um sintoma de jet leg e de cansaço inerente à complexa e aturada actividade no desempenho do cargo.

Donald Trump traduz melhor que ninguém a actualidade do Partido Republicano. Fala como um trauliteiro, mente por vício e não é para defender a democracia e os direitos humanos, veste como um bimbo, ri-se de maneira alarve e boçal, caminha como um arruaceiro e provavelmente até escarra no chão, tem o cabelo oxigenado e um penteado que não lembra a ninguém, engana a Melânia, usa óculos escuros comprados nos escaparates à porta dos armazéns Valmart numa vilória perdida do Kentucky, prefere bonés nacionalistas e bacocos copiados dos gangs do Metro de Nova York; e a sua demência cognitiva é de nascença, nada tem a ver com a provecta idade.

Biden e Trump são como a água e o azeite também quando chega o momento de produzir os cartazes e os videoclipes de campanha, quando são chamados à televisão para debater ideias que não têm, preocupações que não sentem, para usar e abusar dos truques ensinados pelos assessores de imagem – e para reduzirem o confronto a ataques e insultos pessoais, ainda que com ademanes díspares e opostos de elegância. 

Porém, são gémeos na política, igualmente eficazes quando se trata de servir como agentes administrativos e «democráticos» do neoliberalismo; isto é, cumprem a tarefa para a qual são indigitados pelo omnipresente e submerso «Estado profundo» e posteriormente «escolhidos pelo povo» através de mecanismos eleitorais distorcidos, antecedidos de peditórios milionários junto da gente que conta, concebidos em delicadas degustações e capitosas soirées dançantes; e recorrendo também a feiras de comércio político montadas em cenários de Hollywood, seguindo guiões da série mais rasca onde se estipulam discursos ricos em piadas idiotas recebidas com coros de gargalhadas a pedido, abrilhantadas por claques de cheerladies equipadas à Barbie.

É assim a política que orienta a prática da democracia liberal, a «nossa democracia», uma sucessão de rituais cumpridos enquanto os verdadeiros donos disto tudo, de nós todos, senhores dos impérios económicos e financeiros planetários decidem quanto há para decidir nos cenáculos do mercado, deus da modernidade política, militar, social e cultural. De vez em quando juntam-se nos conclaves conspirativos e decisórios de Bilderberg, da Trilateral, do Fórum Económico Mundial e outros, para os quais arrolam alguns plebeus prometedores para fazer deles os magarefes que mantêm a política e os universos do comentariado nos eixos.

E a guerra, as guerras que estamos vivendo e sofrendo, com as catástrofes humanitárias e as incertezas inerentes, mais não são do que os veículos a que recorre o império em desespero, tentando evitar que a evidente e irreversível decadência se torne real mais dia menos dia, dando eventualmente lugar a uma ordem internacional assente no direito internacional existente e na cooperação entre países soberanos e iguais. Caso isto não aconteça, a loucura dos políticos «com vocação de poder» instalados no areópago dos areópagos ocidentais, mergulhados no seu autismo demente ao mesmo tempo que são manipulados pelos insaciáveis senhores do dinheiro, deixar-nos-á sem apelo à mercê desses degenerados. Num cenário assim consumado os insaciáveis monstros do mercado, que não admitem limites ao respeito pelas suas exigências e são imunes a qualquer vínculo emotivo com os seres humanos, usarão e abusarão do poder absoluto facultado pelo fascismo neoliberal e, se acharem necessário, não hesitarão em condenar-nos ao terror supremo capaz de limpar o planeta do excedente de gentalha que os incomoda.

O debate patético, incongruente, surreal na verdadeira acepção do conceito entre os dois homúnculos que lutam pela gestão formal e a rogo de um império agónico revelou que a «nossa civilização», o orgulhoso e arrogante «mundo ocidental» atingiu o grau zero e mais rasteiro da política. Os políticos a quem o mercado entrega o poder por via «eleitoral» e «liberal» não passam hoje de burocratas serviçais que, a bem dizer, já quase nem tentam convencer-nos de que representam os nossos interesses e a nossa vontade manifestada em papelinhos inúteis depositados num caixotinho sem fundo. Eles são, afinal, juntamente com os acólitos da propaganda e os salteadores do jornalismo, da academia e da cultura, os autênticos idiotas úteis de um sistema infernal e incontrolável de poder do qual só nos apercebemos (e já não é pouco) por via dos afloramentos que infernizam a vida de cada um.

Aquele debate entre a fina-flor demente dos idiotas deste «Ocidente» – e que terá pelo menos uma sequela, segundo se diz – foi um retrato do inferno.

Desejamos, e para isso temos uma tarefa tão urgente como gigantesca nas nossas mãos, que tal retrato não se transforme num facto da vida – ou talvez aqui deva escrever-se morte – real.


A Cimeira da Guerra e Duas Mulheres

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 10/07/2024)


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Hoje, que se tocam os tambores de guerra na sede do império, e onde uma mulher, Ursula Von Der Leyen, presidente da Comissão da União Europeia, da Europa, está em lugar de destaque, trago à memória Rosa Luxemburgo. Um figura incómoda, feminista, pacifista, socialista, judia sem religião, revolucionária. E também o conjunto de mistificações que serviram para os dirigentes justificarem a guerra aos seus povos.

A causa imediata para a Primeira Guerra foi o assassinato do arquiduque Francisco, herdeiro do trono austríaco, e da sua mulher a 28 de junho de 1914. O assassino foi um estudante nacionalista sérvio, recrutado para o efeito. A Áustria apresentou um ultimato à Sérvia e exigiu uma resposta dentro de 48 horas. Os termos desse ultimato eram tão humilhantes que era impossível a Sérvia aceitá-los. A Áustria, que era aliada da Alemanha, declarou guerra à Sérvia, que era aliada da Rússia, essa, por sua vez, era aliada da França e da Inglaterra. Na verdade, o assassinato do arquiduque serviu de pretexto para que cada estado procurasse obter vantagens na divisão das riquezas em África. A principal razão para a rivalidade entre os países europeus era a disputa pelo controlo de territórios na África e na Ásia após a Conferência de Berlim.

Desde 1871, as potências europeias estavam em paz umas com as outras, mas todas estavam envolvidas numa corrida armamentista, isto é, todas estavam a investir grandes somas em despesas militares, cada uma procurando superar as outras em armamento à espera de uma oportunidade para a guerra. Nada do que é apresentado hoje aos europeus como razão para a guerra é diferente. Antes da guerra existia o que ficou conhecido como a “paz armada” — Tal como hoje, coma “guerra fria”. Até ver.

Foi num quadro de oposição a uma guerra com estas motivações que Rosa Luxemburgo agiu politicamente. Ursula Von Der Leyen procura acendalhas para desencadear uma guerra! Em 1914, ano do início da Grande Guerra, Rosa Luxemburgo foi julgada e condenada a um ano de prisão pelo Segundo Tribunal Criminal de Frankfurt, por incitamento à desobediência civil, num discurso feito em setembro de 1913. A defesa que ela fez na ocasião para contestar a condenação por ela condenar a guerra e do imperialismo foi publicada sob o título de “Militarismo, guerra e classe trabalhadora”.

Os três “ingredientes” estão hoje a ser cozinhados em Washington de modo a serem apresentados como “aumento de despesas de defesa” para os povos se defenderem do que não tem defesa: a utilização de armas nucleares e do espaço como campo de batalha por parte das oligarquias que governam as superpotências; guerra, como a continuação dos grandes negócios criados pelas oportunidades de conflito; e classe trabalhadora: a carne para os canhões, seja ela fardada ou à civil.

Em 4 de agosto dde 1914, no dia em que a França e a Inglaterra declararam guerra à Alemanha, a bancada social-democrata do Reichstag votou a favor dos créditos de guerra, o que deixou Rosa Luxemburgo profundamente abalada. Ursula Von Der Leyen declarar-se-ia empolgada! A social democracia e a democracia cristã têm sido desde o início do século XX fiéis caucionadores das guerras do capitalismo e do colonialismo.

Em dezembro de 1914, o deputado Karl Liebknecht, marido de Rosa Luxemburgo, votou sozinho contra nova concessão de créditos de guerra. Fundaram o grupo Internationale, que se passaria a designar-se Liga Espartaquista. O grupo defendia que os soldados alemães abandonassem a guerra para iniciar uma revolução no país. Em 1915, Luxemburgo passou um ano na prisão por agitação antimilitarista. Em 8 de novembro de 1918, o governo alemão, relutantemente, libertou Luxemburgo da prisão pressionado pelas manifestações dos espartaquistas nas ruas de Berlim. No dia 9 de janeiro de 1919, Berlim encontrava-se em estado de sítio. Luxemburgo e Liebknecht, perseguidos, sabiam que já não tinham para onde fugir. Foram presos a 15 de janeiro pelos militares e levados para interrogatório no Hotel Eden, em Berlim. Foram retirados do hotel por grupos paramilitares, os Freikorps, sendo espancados até ficarem inconscientes. Luxemburgo e Liebknecht foram levados — cada um no seu carro. Junto à ponte Corneliusbrücke, Rosa Luxemburgo foi baleada e atirada agonizante para as água geladas do rio. Karl Liebknecht, seguiu no outro carro até ao parque Tiergarten. Aí foi obrigado a caminhar e baleado pelas costas. O corpo seria entregue como o de um indigente numa esquadra de polícia. Os seus assassinos jamais foram condenados. Somente em 1999, uma investigação do governo alemão concluiu que os paramilitares do Freikorps haviam recebido ordens e dinheiro dos governantes social-democratas para matar Luxemburgo e Liebknecht.

Qual foi a origem da morte de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht? O serem, ou terem sido sempre contra a guerra, sempre com a revolução. Qual a origem do sucesso de Ursula Von Der Leyen? Ser sempre pela guerra e sempre contra a revolução, mesmo contra a revolução mínima da defesa da dignidade da liberdade. Rosa Luxemburgo era contra a guerra — no caso da Grande Guerra — porque ela fazia parte da natureza do capitalismo e este alimenta-se de uma “constante pulsão expansionista e uma tendência inerente para o militarismo e a guerra”. No momento em que o SPD decidiu apoiar a guerra da Alemanha contra as potências da Entente (Reino Unido, França e Rússia) Rosa Luxemburgo convocou uma reunião dos militantes social-democratas que esperava fossem críticos dessa decisão. Só conseguiu reunir um punhado deles. Esteve sempre em minoria. Ursula Von Der Leyen gaba-se de estar em maioria. Também a maioria dos passageiros do Titanic estava de acordo em não alterar a rota e enfrentar os icebergs.

Contudo, quando o desgaste causado pela carnificina da Grande Guerra começou a fazer-se sentir, Liebknecht tornou-se a grande figura pública do movimento antimilitarista e Luxemburgo a sua líder mais influente. Ambos foram brutalmente neutralizados pelos poderes instalados: foi retirada a imunidade parlamentar a Karl Liebnecht, enviado para a guerra e, depois, preso; Luxemburgo foi condenada a duas penas de prisão. No cumprimento dessas penas viria a passar na cadeia três dos quatro anos da guerra. Só seria libertada com a revolução de 9 de Novembro de 1918 (fuga do imperador Guilherme II e proclamação da República Alemã) para ser depois assassinada

Na cadeia, Rosa Luxemburgo escreveu A crise da social-democracia, criticando sem contemplações o SPD por ter aderido à política de guerra. O livro proclamava a alternativa “socialismo ou barbárie”, que rompia com a ideia determinista, de um socialismo considerado como desfecho inevitável da História da humanidade. Hoje o fim da história é o neoliberalismo, mas do que estamos a abeirar-nos é da barbárie.

A reunião da NATO em Washington está a tratar da melhor via para a barbárie. A alternativa é a vitória da Rússia? Não, a alternativa é os povos não se deixarem embalar nos sermões dos pastores que lhes dizem que apenas devem deixar-se guiar e limitar-se a desejar o que lhes é dito ser o possível, de acordo com os princípios do oportunismo, sem se preocuparem com os seus próprios princípios, e a deixar-se levar pelos estadistas, porque se o fizerem os povos encontrar-se-ão na mesma situação “do caçador que não só falhou em matar o veado, mas também perdeu a arma no processo.”

A alternativa à vitória militar da Rússia, seja essa vitória o quer que seja e ninguém na NATO nem no Ocidente Global ainda definiu o que entende por “vitória da Rússia” ou “derrota da Rússia”, não é, em termos de princípios, admitir o nazismo ucraniano como sendo da família das democracias europeias, nem, em termos militares, que a Ucrânia seja um porta-aviões nuclear americano estacionado na fronteira da Rússia. Normalizar o neonazismo como uma igreja do neoliberalismo e fazer da Ucrânia um estado de Israel na Euroásia é o programa que está há anos em pano de fundo de todas as reuniões da NATO.

O que está em discussão hoje, cem anos após o assassinato de Rosa Luxemburgo é a glorificação das novas milícias dos Freikorps — os Corpos da Liberdade — de que Úrsula Von der Leyen é uma das aves canoras.

De repente, nessa atmosfera espectral,

à beira da minha janela, ergueu-se o canto

do rouxinol. No meio desta chuva, destes

relâmpagos, do trovão, dir-se-ia o carrilhão

de um sino argentino. O rouxinol cantava com

paixão, como se quisesse abafar o barulho do

trovão e iluminar o crepúsculo. Nunca ouvi

nada mais belo. No céu, alternadamente plúmbeo

e púrpura, o seu canto fazia lembrar uma

cintilação de prata. Tudo era tão misterioso e de

uma beleza tão inacreditável que repeti

involuntariamente o último verso do poema de Goethe:

“Ah, e não estás tu ao pé de mim”…

(Carta a Sónia Liebknecht, enviada à prisão, fins de maio de 1917).

Rosa Luxemburgo era uma mulher sensível à vida e à natureza: Por isso ela escreveu: “Pertenço mais aos canários do que aos meus camaradas”. Ursula Von Der Leyen é mais de pertencer aos abutres.

A cimeira da NATO é um acontecimento infelizmente já visto: a conjugação de interesses de grupos sociais para desencadear uma guerra. Foi assim com a Primeira Grande Guerra, foi assim com a Segunda Guerra Mundial. Os que expõem a guerra como resultado de interesses de grupos, de estratégias de poder, como a utilização da carne humana para produzir canhões serão abatidos, como foram Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Hoje seriam acusados de putinistas. Em 1907, a sete anos do início da Grande Guerra, Rosa Luxemburgo já deixara de ter ilusões sobre o que fora o seu partido e passara a proclamar que “a social-democracia se tornou um cadáver fedorento”.

Entender que os partidos dos grandes industriais e patrões apoiassem a grande guerra — que se travará para disputar os recursos naturais de África — devia motivar uma reflexão sobre o que terá levado todos os partidos da Segunda Internacional a capitular perante as políticas belicistas dos respetivos governos.

A crise da social democracia — que deixou de ser um projeto de esperança para se transformar numa empresa prestadora de serviço a troco de um voto, de ser hoje, como há mais de cem anos, apenas um dos figurantes da frente comum de interesses — contribuiu para a resignação interiorizada com a máxima: Não Há Alternativa (TINA, em inglês) e gerará reações violentas a mais ou menos curto prazo. A cimeira da NATO está a tratar de desencadear uma guerra e controlar o repúdio popular.

No misturador de interesses, no triturador de diferenças que é hoje o grande partido da guerra e da submissão europeia encontram-se os que matariam de novo Rosa Luxemburgo e venerariam Úrsula Von Der Leyen. Daí concluir, como Rosa Luxemburgo, ser necessário construir novos partidos, ou novas formações políticas para dar corpo a uma nova forma de nos relacionarmos no mundo.