A tentativa de assassinato

(Paul Craig Roberts, in PaulCraigRoberts.org, 17/07/2024, Trad. Estátua de Sal)


Há quem diga que é demasiado cedo para saber o que explica o quase assassinato de Trump. No entanto, é possível argumentar que já sabemos tudo o que alguma vez saberemos. A passagem do tempo simplesmente permite a construção de narrativas oficiais, que são usadas para turvar as águas.

Apoio os apelos a uma investigação oficial, mas as investigações governamentais são sempre encobertas. Pensemos no relatório da Comissão Warren, no relatório da Comissão do 11 de setembro, no relatório NISH. Se houver uma investigação, não vai dar em nada e, se por acaso der, os jornalistas não a vão noticiar.

Dispomos de toda a informação necessária para formar uma opinião. Há pouco escrevi que temos três hipóteses de explicação para as quais existem provas. Mas duas das explicações fundem-se numa só. A retenção, pelo diretor do Departamento de Segurança Interna, de recursos adequados dos Serviços Secretos à campanha de Trump pode ser integrada na explicação da incompetência. Portanto, temos duas opções, ambas apoiadas por provas ou provas circunstanciais: incompetência dos Serviços Secretos e uma pose de incompetência para encobrir um assassínio organizado.

O facto mais certo que temos é que, apesar da presença protetora dos Serviços Secretos e da polícia local, Donald Trump quase foi morto, uma pessoa foi morta e duas ficaram gravemente feridas. Nenhum dos disparos foi evitado pelos Serviços Secretos e pela polícia local, que só entraram em ação depois de Trump estar caído e presumivelmente morto.

Portanto, o que temos é o fracasso total dos Serviços Secretos. O que é que pode explicar esse fracasso total? Há quem diga que é o sacrifício da competência profissional à diversidade e à inclusão. E há provas disso. O regime de Biden ainda não fez uma única nomeação com base no mérito e na capacidade. Todas as nomeações foram feitas com base na raça, no género e na preferência sexual. Os profissionais dos Serviços Secretos têm-se queixado destas nomeações não profissionais e salientado que a competência da agência tem sido comprometida pela “diversidade, equidade e inclusão”.

Independentemente da razão, seja incompetência ou cumplicidade, é evidente que a diretora dos Serviços Secretos falhou. Não conseguiu proteger Trump e, se se tratou de um assassinato oficial, não conseguiu eliminar o alvo. Então, vai demitir-se? Claro que não. Será promovida a um cargo mais elevado, exatamente como aconteceu com todos os que não conseguiram impedir o ataque de 11 de setembro nos EUA.

Vejamos alguns dos indícios de que a incompetência é um disfarce para uma conspiração para assassinar Trump. A primeira coisa que me chamou a atenção foi o facto de os telhados dos edifícios estarem desprotegidos. Na minha qualidade de antigo Secretário Adjunto do Tesouro, nos tempos em que os Serviços Secretos reportavam aos Secretários Adjuntos do Tesouro, isto pareceu-me inconcebível.

Também achei inconcebível que uma pessoa com uma espingarda pudesse aparecer numa zona protegida e subir a um edifício, onde ficava com uma visão clara de uma pessoa alegadamente protegida, e não ser abordada.

Inicialmente, foi-nos dito que os edifícios tinham, de alguma forma, escapado à zona protegida. Mas, mais tarde, ficámos a saber, o que vale o que vale, que o edifício com o assassino no topo estava ocupado por forças policiais ou dos Serviços Secretos. Como é que é possível que o assassino não tenha sido visto e detido?

Sabemos que os Serviços Secretos foram cúmplices do assassínio do Presidente John F. Kennedy e de Robert F. Kennedy, privando assim a América de uma liderança instruída e consciente. (Ver sobre esse assunto o texto aqui.

Sabemos, com base no processo civil que a família de Martin Luther King ganhou, que a versão oficial do assassínio de Martin Luther King é um encobrimento do que parece ter sido uma operação do FBI.

Tantos livros foram escritos por insiders que documentam o assassinato pela CIA de líderes estrangeiros que adotaram uma linha diferente da linha que Washington insistia em impor, que temos provas concretas de que Washington usa a força bruta para impor a sua agenda.

Com os Estados Desunidos – os azuis e os vermelhos – mais divididos do que a divisão causada pela determinação do Norte em impor um regime tarifário à custa do Sul, a noção de Trump de que pode alcançar a unidade é uma fantasia.

Não há possibilidade de unidade. O bem e o mal não podem ser unificados.

A responsabilidade de Trump, partindo do princípio de que uma segunda e uma terceira tentativa de assassínio não serão bem-sucedidas, é erradicar o mal que está nas mãos dos democratas, nas mãos da esquerda liberal, nas mãos dos intelectuais, que transformaram os Estados Unidos da América numa Torre de Babel de Sodoma e Gomorra.

Trump não pode levantar o punho e dizer “lutar, lutar, lutar” e depois comprometer-se com os seus e os nossos inimigos para unir os americanos com o mal.

A única coisa que me impede de estar convencido de que a tentativa de assassinato foi uma conspiração do Deep State para se livrar de Trump é a ausência de uma narrativa pré-preparada para ser repetida incessantemente pelos presstitutos. No entanto, a narrativa oficial pode ter sido preparada para cobrir um assassinato bem-sucedido, não um assassinato falhado. Nesse caso, não existe uma narrativa pronta. Será interessante ver que narrativa as elites governantes irão construir.

Fonte aqui.


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O Escudo Europeu da Democracia protege quem?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 17/07/2024)

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Na campanha de recandidatura à Comissão Europeia, Ursula von der Leyen prometeu criar o Escudo Europeu da Democracia para “lutar contra a desinformação e a influência estrangeira”. Ela adiantou que este escudo funcionará como uma vacina, que procurará “inocular” nos europeus uma defesa contra o “vírus” das notícias falsas.

Suponho que quando Ursula fala de desinformação se esteja a referir a notícias que ela própria classifica como falsas e perigosas, já que não conheço nenhuma instituição com legitimidade democrática e com critérios coerentes que possa classificar, consensualmente, em todo o espaço da União Europeia, o que é ou não é “desinformação” – acho mesmo impossível criar algo como isso.

Suponho que quando Ursula fala de influência estrangeira nefasta esteja a pensar em conteúdos favoráveis à Rússia, à China ou desagradáveis para Israel. Suponho que a influência senhorial e dominadora dos Estados Unidos ou da NATO nas políticas europeias esteja fora das preocupações da senhora… E a Hungria? Como será?

Suponho que Ursula pensa ser correto mandar um dos seus comissários dizer às grandes companhias da internet (Google, Meta, X/Twitter, TikTok, etc.) que, se contratarem secretamente umas centenas de funcionários para apagarem todas as publicações inconvenientes, a Comissão, também secretamente, ignorará as suas próprias diretivas e não aplicará as multas (que podem ir até 6% das receitas anuais de cada uma destas companhias) previstas para violações da Diretiva dos Serviços Digitais. Elon Musk, o dono do X/Twitter, denunciou isto na sexta-feira passada, disse que as outras companhias aceitaram essa proposta e, até agora, não foi desmentido.

Suponho que quando Ursula se oferece para nos inocular uma vacina contra “o caos” provocado pelas deep fakes se esteja a referir à generalização das experiências que, desde há um ano e meio, a UE, a Google e a Jigsaw estão a fazer com o que chamam de prebunking, que mais não é do que lançar conteúdos multimédia na internet que parecem iguaizinhos às fake news. A ideia é dizer às pessoas que uma informação falsa como aquela pode vir a aparecer. “Ainda não aconteceu, mas pode vir a acontecer” é o lema deste prebunking, a tal “vacina das ideias”, uma das ideias de propaganda e de manipulação da opinião pública pelo Estado mais ridículas e perigosas que já vi.

Eu posso supor tudo o que Ursula pensa, mas isso não interessa para nada, pois ela faz o que quer com a sua fúria controladora e ainda recebe o beija-mão de dois terços da classe política europeia – sem que as populações sejam tidas ou achadas no assunto.

O “Escudo Europeu da Democracia”, que Von der Leyen anunciou, não protege os europeus dos ataques contra a democracia, protege quem manda na União Europeia do ricochete dos tiros que eles próprios dão à democracia. Alguém tem dúvidas?

O que podem os europeus esperar da nova administração Trump?

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 16/07/2024)


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Analisar uma situação tem algumas regras, a primeira é conhecer as intenções dos chefes, os seus interesses e o seu modo de conduzir as suas forças na ação. A política é a guerra por outros meios e a guerra é a política por outros meios.

O que sabemos de Trump: ele representa a oligarquia cujos interesses se situam no mercado interno. Essa oligarquia defende a reindustrialização da América, a produção de riqueza no CONUS (Continent US) — os produtos a serem produzidos nos EU estão em competição com os da China, e não com a Rússia. Logo, o competidor-inimigo é a China que produz a baixo custo os produtos que a América produz mais caro com a mesma ou menor qualidade, caso de automóveis, eletrónica de consumo, têxteis, metalurgia, entre outros.

Trump vai atrair — já está a fazê-lo — as mais rentáveis industrias europeias para os Estados Unidos, o que será feito à custa da Alemanha (o motor industrial da Europa) e exportá-los para a Europa: vamos ter Mercedes e VW americanos na Europa. Os associados europeus destas e de outras marcas — Portugal, Espanha, Polónia — vão entrar em crise.

Que acabará por atingir os operários alemães. A Alemanha é o principal financiador da Política Agrícola Comum, de que a França é o principal beneficiário, vai sofrer um corte a sério. Com os efeitos sociais e políticos imagináveis.

A Ucrânia, feitos que estão os grandes negócios das empresas do complexo militar industrial, com a transferência dos colossais pacotes de “ajuda” fornecida pela Europa para os Estados Unidos, via compras de material americano, de que o programa de troca de F16 obsoletos a serem enviados para a Ucrânia e a compra dos caríssimos F35 é um exemplo, será um problema europeu. Como o maior fornecedor de bens essenciais para a guerra na Ucrânia é o americano Elon Musk que através da sua empresa Starlink fornece o serviço vital de comunicações, de espionagem, de geolocalização e guiamento de misseis, a Europa vai ter de o pagar, dado não dispor de uma rede de satélites. Por outro lado, Elon Musk é o dono da Tesla que produz os Tesla na China e os vende na Europa, pelo que vai querer ser ressarcido dos prejuízos da guerra económica que Trump vai desencadear contra a China — a Europa vai pagar a preço de mercado os satélites de Musk e os Teslas que ele não vender na China. Trump está de fora destas despesas. A Ucrânia é um desastre cujas consequências serão pagas pelos Europeus, que pagarão também os custos dos migrantes que vão continuar a chegar do Médio Oriente e de África.

Para Trump a Europa e a NATO são pedras que ele vai tirar do caminho. Ele terá sobre a União Europeia a mesma frase de Vitoria Nuland, a antiga dirigente da CIA e estratega da crise ucraniana para provocar a Rússia: Fuck the EU.

Perante este cenário que podem os europeus esperar da nova tripulação da União Europeia, as warmonger Von der Leyen e Kallas? Como vão elas sacar dinheiro da política agrícola comum europeia, dos programas de coesão, que implicam conflitos com a França e com os países mais pobres da União? Como vai a U E e Kallas pagar as colossais exigências da Polónia pelo facto de estar na primeira linha do conflito, de fornecer as bases operacionais e logísticas da Ucrânia e de receber as retaliações da Rússia? E como vai o novo cabo da guarda holandês escalado para o posto de secretário geral da NATO sacar fundos aos europeus para pagar as forças armadas da Ucrânia? E com quem vai esta nova equipa técnica da União Europeia negociar na França e na Alemanha após as derrotas já confirmadas de Macron e prevista de Sholz? E, no caso de manutenção da politica de alinhamento da União pela política americana, como se desenrolarão as relações com a China, que destino terá o porto de Roterdão, a maior porta de entrada de produtos chineses na Europa? E, por arrastamento, o porto de Sines? E para que servirá um mega aeroporto em Alcochete, a menos de mil quilómetros (uma hora de voo) do mega aeroporto de Barajas, num ambiente de recessão e decadência da Europa?

Um exemplo nacional: o negócio da substituição dos F16 por F35 imposto pelos Estados Unidos. Em declarações de 24 de Maio de 2024, o chefe de estado maior da Força Aérea apresentou os seguintes número para o “programa português de soberania do espaço aérea”, a necessidade de 27 aviões F35, com um custo estimado de 50 mil milhões de Euros a distribuir por 20 anos. O que perfaz um custo anual de 2,5 mil milhões de Euros apenas para este programa. O orçamento anual da Força Aérea para 2023 foi de 397 milhões de euros com um reforço de 103 milhões de euros o que perfaz 500 milhões. Isto é, um décimo do que apenas a frota de F35 gastará num ano! O orçamento total do ministério da Defesa para 2023 foi de 2.585 euros, isto é cerca de metade do que será necessário apenas para a nova esquadra de F35!

É esta embrulhada que nós, portugueses estamos envolvidos, e conosco muitos outros estados da União Europeia. Era indispensável que os ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, o das Finanças e o Primeiro-ministro explicassem o que pensam do assunto. E era imprescindível que as senhoras da guerra da União, e mais o secretário da NATO e o chefe do Eurogrupo explicassem como é que isto se resolve, é que os americanos imprimem moeda emitem moeda sem valor de referência, mas não aceitam as notas falsas dos outros. É para manter o dólar como a única moeda falsa de aceitação obrigatória e universal que desencadeiam guerras.

Uma última questão que a eleição de Trump levanta é a resposta da Europa ao eventual lançamento de uma arma nuclear tática na Ucrânia. É evidente que existem planos da NATO. Mas convém que os europeus saibam que a União Europeia não tem capacidade de resposta: não dispõe de redes autónomas de satélites de alerta e guiamento nem de armas de resposta — a force de frappe francesa é uma fantasia que satisfaz, iludindo, o ego dos franceses, nada mais. As armas nucleares dos ingleses estão sob as ordens de Washington, como todas as suas forças armadas desde a Segunda Guerra. Há notícias de que os mais ricos dos ricos alemães confiam tanto na capacidade de resposta da Europa que estão a construir bunkers, em vez de fábricas.

Entretanto, por cá, os e as missionárias da guerra apresentam aos seus crentes videojogos de guerra.