Este aquecer as costas a um assassino como Netanyahu não deve espantar ninguém

(Whale project, in Estátua de Sal, 22/07/2024, revisão da Estátua)


(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos, de Carlos Matos Gomes, sobre a subserviência da Europa aos EUA, (ver aqui). Pela sua atualidade e assertividade de pontos de vista, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 22/07/2024)


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Este aquecer as costas a um assassino genocida como Netanyahu não deve espantar ninguém.

Afinal de contas, foi nisso que os Estados Unidos sempre foram brilhantes. Quando sabem quem, num determinado país, é o maior sacana sem préstimo, capaz de vender a própria mãe a uma tribo de canibais, apostam todas as suas fichas nele.

E o apoio não se fica só pelo fornecimento de armas.

Na Indonésia, a CIA forneceu metodicamente listas de morte com os nomes de todos os membros do Partido Comunista do país.

Foi com base nestas listas que mais de um milhão de pessoas foram assassinadas e as ruas de Jacarta se encheram de montes de mortos.

Por todas as ilhas do grande país insular o cenário foi o mesmo. Morte em massa com a bênção do e o apoio técnico do “mundo livre”.

“Jacarta” era o nome que surgia pintado por fascistas, apoiados pelos Estados Unidos, nas ruas da cidade de Santiago do Chile.

Poucos sabiam onde ficava essa cidade distante nem o que lá tinha acontecido.

Mas, com o golpe de Pinochet, viram o rio Mapocho, uma espécie de Rio Tejo de Santiago do Chile, a transportar os seus mortos.

Num e noutro caso, para além da morte em massa, seguiu-se o inferno do neoliberalismo.

No Chile, até os cemitérios foram privatizados, tornando-se insustentável até enterrar os mortos. Mas quem protestasse tinha o problema resolvido: sepultura numa vala comum, depois de levar um tiro nos cornos.

Mais uma vez, as listas de morte da CIA funcionaram e, até foi dado aval ao assassinato de, pelo menos, um jornalista norte-americano.

Na Indonésia, havia fábricas onde os trabalhadores estavam alojados em cubatas ao redor da fábrica, recebendo em troca do seu trabalho apenas alimentação e assistência médica elementares. Lembro-me de uma reportagem indecente, que dizia que essa situação poderia parecer escravatura aos olhos ocidentais, mas era preciso ver que, para os padrões da Indonésia, tais condições eram boas. E quem criou esses padrões na Indonésia?

Mas, é sempre assim que se desculpa o nosso apoio a trastes. São “realidades diferentes”. Os orientais são, por natureza, selvagens e cruéis e, de qualquer forma, podem viver com uma tigela de arroz.

Na América Latina ninguém quer trabalhar e, se os deixarmos à solta, tornam-se comunistas para roubarem o que os grandes empresários empreendedores têm.

Os pretos da neve estão prontos a dominar o mundo, se não os derrotarmos na Ucrânia. E isso dá-nos motivo para apoiar um traste como Herr Zelensky.

Os palestinianos são todos uns terroristas que batem nas mulheres, e querem é fazer explodir coisas. Isto dá-nos um motivo para apoiar um genocida que escarra ódio desde os anos 80 do século passado e cumpre agora o seu sonho molhado de destruição.

Foi sempre este racismo, este desumanizar o outro, que justifica que esta gente apoie o maior filho de uma égua parida que esta terra já deu, e ainda assim durma em sossego.

Quanto à Europa, sempre foi vassala e sempre será.

Mas este aquecer as costas, a um patife como Netanyahu, não deve surpreender ninguém, tendo em conta a nossa longa história de apoio a trastes sanguinários.


Os eunucos europeus

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 21/07/2024)


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El manuscrito carmesí. Há muitos anos li este romance impressionante de Antonio Gala, que ficciona o fim do império muçulmano na península Ibérica e a derrota de Boabdil, o último sultão de Granada, que se exilou no Norte de África, onde terá relatado o fim do seu reinado em papéis de cor carmesi, exclusivo da corte. Uma das cenas mais dolorosas e marcantes foi o tratamento dado aos eunucos que serviam nos palácios de Granada. Milhares, produzidos numa fábrica de eunucos em Almeria. Os eunucos de Boabdil foram deixados para trás, como coisas. Eles tinham servido como soldados, como navegadores, como artistas, como médicos, como funcionários. Mas foram abandonados. A União Europeia é hoje o corpo de eunucos do império que tem a sede em Washington.

Na política os atores comunicam por atos. Acting, em inglês, que é a língua do império. A visita do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, a Washington na próxima semana, depois da campanha de genocídio em Gaza, depois da sua condenação como criminoso de guerra e depois da condenação a semana passada da ocupação dos territórios palestinianos, feita pelo Tribunal Internacional de Justiça das Nações Unidas, tem leituras e revela evidências:

A primeira é a de expor que Israel é um agente dos Estados Unidos e todas as ações que executa na Palestina e no Médio Oriente são feitas em nome e em defesa dos interesses dos Estados Unidos. A segunda é que os Estados Unidos se colocam de fora das instituições que de algum modo resultaram do compromisso do pós-segunda guerra de estabelecer uma regulação mínima dos conflitos. O desprezo pelas instituições internacionais significa que a ordem internacional resultante da Segunda Guerra já não existe. Invocá-la é pura hipocrisia. A terceira conclusão é a de que, para o resto do mundo, dada a política de submissão da Europa aos interesses dos Estados Unidos, a Europa é entendida como uma parte destes e não como uma entidade com autonomia. Logo, um ator irrelevante.

O final da ordem resultante da Segunda Guerra criou uma nova situação de ocorrência de um “transiente”, na definição do cientista português do MIT Pedro Ferraz de Abreu, um estado de crise de um sistema à beira da rutura, que abre o caminho para um novo estado do sistema — como ocorreu na queda dos impérios, antes das grandes convulsões, desde as cruzadas às guerras mundiais.

Vivemos um transiente em que o grande império se desfaz diante dos nossos olhos em ambiente de jogo de luta livre americana, tendo por protagonistas dois lutadores senis, oligarquias em disputa, um império que não merece confiança, agressivo, sem lealdades nem princípios.

Em que a alternativa para as pequenas e médias potências é uma nova entidade fiável e estável ao longo da História, a China.

Para o resto do mundo, a visita de Netanyahu aos Estados Unidos a um presidente que acabou de atirar a toalha ao chão e que aproveitará a viagem para apresentar os seus préstimos ao próximo, tem o mesmo significado da prevista e inevitável visita do trio da União Europeia, as duas warmongers e António Costa de chevalier servant, e do novo mordomo inglês: são o mesmo mundo de uma época de domínio do Ocidente que durou cerca de 500 anos e que terminou.

Alguém quer saber dos eunucos dos impérios vencidos?

Uma presidência Trump será mais vantajosa que uma Biden? Qual é o cálculo geopolítico?

(Raphael Machado in Twitter 21/07/2024)

Por que alguns multipolaristas consideram uma presidência Trump mais vantajosa em comparação com Biden? Qual é o cálculo geopolítico?


Com as eleições estadunidenses se aproximando frequentemente vemos análises sobre o que seria mais vantajoso, uma vitória de Trump ou uma vitória de Biden. A resposta, naturalmente, pode muito bem depender do contexto do analista, já que os candidatos podem ter diferentes projetos em relação a cada país, sendo difícil dar uma resposta universal.

Alguns setores iranianos (mas não todos) naturalmente preferirão o Biden por considerar que seria mais fácil um novo acordo nuclear iraniano com os democratas, além de muitos não esquecerem que Trump autorizou o assassinato de Qassem Soleimani. Alguns países ibero-americanos talvez também prefiram Biden a Trump, mas nessas eleições há mais pessoas que rechaçam ambos do que nas anteriores.

Todos sabem, por sua vez, que muitos russos preferem Trump, por causa das promessas irrealizáveis de “acabar logo com a guerra na Ucrânia”; Trump, aliás, que tem seus fãs até mesmo…na Coreia do Norte, onde ele conseguiu estabelecer uma relação construtiva com Kim Jong-Un.

Existem, de fato, bons argumentos “oportunistas” para preferir Biden, se adotarmos o ângulo de que o governo Biden tem sido bem pouco competente no gerenciamento de crises externas e internas, o que nos permitiria dizer que Biden acelera a decadência dos EUA. É a lógica de preferir que o inimigo tenha um líder mais fraco e menos lúcido.

Mas há, realmente, alguns multipolaristas que consideram mais vantajosa uma vitória eleitoral de Trump. Não é por acharem Trump “isolacionista”, “pacifista”, ou por qualquer besteira do tipo, tampouco por se crer realmente que ele vai dar fim ao conflito ucraniano (até porque, recordemos, ainda não é bem do interesse russo um fim para esse conflito). São dois os pontos fundamentais que tornam esse cálculo possível.

Em primeiro lugar, a distinção entre imperialismo e globalismo. Uma das chaves de leitura das eleições estadunidenses em termos de “conflito entre elites”, é o que contrapõe elites imperialistas a elites globalistas. Essa não é uma contraposição entre opostos, mas entre posições em graus diferentes de um mesmo eixo.

Trump é, categoricamente, um imperialista. E enquanto imperialista ele é o representante de certos interesses extrativistas de uma parte do empresariado estadunidense. Trump é defensor do “interesse nacional” (entendido como interesse econômico de certas elites ligadas principalmente à indústria e à energia), mesmo que às custas de outros países.

Biden, por sua vez, é um globalista. Enquanto globalista ele é o representante político da superclasse cosmopolita e desterritorializada que pertence ao circuito dos negócios transnacionais, especialmente das finanças, tecnologia, ONGs e outros setores de tendência mais cosmopolita e menos enraizados.

A diferença é de estágio no desenvolvimento dos processos liberal-capitalistas, sendo possível definir o globalismo como a “desterritorialização” ou a “cosmopolitização” do imperialismo. É o capitalismo pós-burguês e transnacional. Nesse sentido, rigorosamente, se Biden encarna melhor os setores mais de vanguarda do capital, se Biden representa as forças que almejam o estabelecimento de um Estado-Mercado mundial, então ele é a força mais nefasta.

Veja, não é uma análise moral. Não tem a ver com quantidade de corpos, com bombas lançadas ou guerras iniciadas. É a visão fria das coisas como elas são à luz da lógica do desenvolvimento histórico do liberalismo.

Em segundo lugar, há uma outra consideração que se vincula à anterior.

As elites globalistas, como vanguarda da superclasse cosmopolita, estão imbuídas de um pathos cruzadista e milenarista. É a mentalidade de ansiar pelo “fim da História” e tentar “provocá-lo”, gerando situações de “choque” que podem permitir uma reestruturação rápida do planeta em conformidade com as ideias mundialistas.

É a mesma mentalidade dos arautos do Grande Reset os quais, na sua maioria, conscientemente, se vinculam a Biden.

O problema é que esse tipo de mentalidade milenarista parece dessensibilizar em relação à possibilidade de uma guerra nuclear entre grandes potências, com o risco de holocausto nuclear. Uma guerra nuclear, afinal, talvez não seja tanto um risco, mas uma “oportunidade” de reorganizar toda a existência planetária com pouquíssima oposição. É a ideia de um “Grande Reset” nuclear.

É isso que explicaria o porquê o Ocidente estar tão despreocupado com a escalada de agressividade em relação à Rússia, com provocações inconsequentes.

Uma presidência Biden, por essa leitura, representaria um risco maior de holocausto nuclear do que Trump. E isso porque a mentalidade imperialista é, por natureza, oportunista e mais preocupada com ganhos materiais mais imediatos e com extrair vantagens dos parceiros do que com construir um “admirável mundo novo”.

O fator que complica tudo é, porém, o messianismo sionista, tão presente na base de apoio de Trump quanto na base de apoio de Biden; de modo que, se a probabilidade de uma guerra nuclear em larga escala com Trump é menor que com Biden, ela certamente não é nula, especialmente devido ao fator sionista.

Também é necessário apontar que, na medida em que Trump escolhe a China como alvo principal, apesar do mais provável ser uma guerra comercial, não deixa de ser possível uma escalada militar no Pacífico, o que também pode levar a uma guerra nuclear.

Mas na prática, a sinofobia é uma orientação geral do Deep State estadunidense, e aparece como prioridade na maioria das análises de prioridade estratégica de longo prazo para os EUA, de modo que, mesmo sob Biden, a posição anti China está bem representada.

Naturalmente, vistos a partir da América Ibérica, ambos acabam aparecendo como menos diferentes do que a partir da perspetiva de outras regiões do mundo, excetuando, de fato, essa maior tendência cosmopolita e maior propensão a um holocausto nuclear sob Biden.


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