Do 11 de setembro ao 7 de outubro: A falsa “Guerra ao Terror” desmorona

(Por Pepe Escobar, in C r a d l e, 13/09/2024, Trad. Estátua de Sal)

Durante anos, os EUA executaram um programa de desestabilização regional, via Israel, usando terroristas fantasmas como justificação para a “Guerra ao Terror”. Mas o 7 de outubro de 2023 acabou com o projeto de guerra sem fim de Washington – com um toque no interruptor, os adversários dos EUA ativaram a “Longa Guerra” contra Israel.


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A colonização… é o melhor negócio em que a capital de um país antigo e rico se pode envolver… as mesmas regras de moralidade internacional não se aplicam… entre nações civilizadas e bárbaras.

– John Stuart Mill, citado por Eileen Sullivan em “Liberalismo e Imperialismo: a Defesa do Império Britânico por JS Mill”,  Journal of the History of Ideas , vol. 44, 1983


Os eventos de 11 de setembro de 2001 pretendiam impor e consagrar um novo paradigma excepcionalista no jovem século XXI. A história, porém, decidiu o contrário.

Lançado como um ataque à Pátria dos EUA, o 11 de setembro de 2001 imediatamente gerou a Guerra Global contra o Terror (GWOT), lançada às 23h do mesmo dia. Inicialmente batizada como “A Longa Guerra” pelo Pentágono, o termo foi posteriormente branqueado pela administração de Barack Obama como “Operações de Contingência no Exterior” (OCO).

A Guerra ao Terror fabricada pelos EUA gastou oito triliões de dólares, notoriamente indetetáveis ​​para derrotar um inimigo fantasma, matou  mais de meio milhão de pessoas  — a maioria muçulmana — e ramificou-se em guerras ilegais contra sete estados de maioria muçulmana. Tudo isso foi implacavelmente justificado por “motivos humanitários” e supostamente apoiado pela “comunidade internacional” — antes que esse termo também fosse renomeado como “ordem internacional baseada em regras”.

Cui Bono? (quem tem a ganhar) continua sendo a questão primordial relacionada a todos os assuntos relacionados com o 11 de setembro de 2001.  Uma rede fechada de neocons fervorosamente pró Israel, estrategicamente posicionados em todos os departamentos de defesa e segurança nacional pelo vice-presidente Dick Cheney — que serviu como secretário de defesa na administração do pai de George W. Bush — entrou em ação para impor a agenda há muito planeada do Projeto para o Novo Século Americano (PNAC). Essa agenda de longo alcance esperou nos bastidores pelo momento certo — um “novo Pearl Harbor” — para justificar uma série de operações de mudança de regime e guerras em grande parte da Ásia Ocidental e outros estados muçulmanos, remodelando a geopolítica global em benefício de Israel.

A notória revelação do general americano Wesley Clark de uma conspiração secreta do regime de Cheney  para destruir sete grandes países islâmicos ao longo de cinco anos, do Iraque, Síria e Líbia até o Irão, mostrou-nos que o planeamento já havia sido feito com antecedência. Essas nações-alvo tinham uma coisa em comum: eram inimigas resolutas do estado de ocupação e firmes apoiantes dos direitos dos palestinianos.

O melhor negócio, na perspetiva de Telavive, era que a Guerra ao Terror – com os EUA e os seus aliados ocidentais lutando nessas guerras em série em nome da “civilização” e contra os “bárbaros”  – seria lucrativa para Israel. Os israelitas não poderiam estar mais felizes ou satisfeitos com o rumo que as coisas estavam a tomar.

Não é de se espantar que, o 7 de outubro de 2023 seja uma imagem espelhada de 11 de setembro de 2001. O próprio estado ocupante anunciou-o como sendo o “11 de setembro” de Israel. Os paralelos abundam em mais de um ponto, mas certamente não no ponto que os defensores de Israel em primeiro lugar e a conspiração de extremistas que lideram Telavive esperavam.

Síria: o ponto de viragem

O Hegemon ocidental é exímio na construção de narrativas e está atualmente a chafurdar nos pântanos da Russofobia, da Iranofobia e da Sinofobia que ele próprio criou. Desacreditar as narrativas oficiais e imutáveis, como a do 11 de setembro, continua a ser o último tabu.

Mas uma construção narrativa falsa não pode durar para sempre. Há três anos atrás, no 20º aniversário do colapso das Torres Gémeas e do início da Guerra ao Terror, testemunhámos uma grande revelação na intersecção da Ásia Central e do Sul: os Talibãs estavam de volta ao poder, celebrando a sua vitória sobre o Hegemon, numa Guerra Eterna desorganizada.

Naquela época, a obsessão dos “sete países em cinco anos” – visando forjar um “Novo Médio Oriente” – estava a descarrilar em toda a linha. A Síria foi o ponto de viragem, embora alguns argumentem que os dados já estavam lançados quando a resistência libanesa derrotou Israel em 2000, e novamente em 2006.

Mas destruir a Síria independente teria pavimentado o caminho para o Santo Graal do Hegemon — e de Israel: a mudança de regime no Irão.

As forças de ocupação dos EUA entraram na Síria no final de 2014 sob o pretexto de combater o “terror”. Esse foi o OCO de Obama em ação. Na realidade, porém, Washington estava a usar dois grupos terroristas importantes – o Daesh, também conhecido como ISIL, também conhecido como ISIS, e a Al Qaeda, também conhecida como Jabhat al-Nusra, também conhecida como Hayat Tahrir al-Sham –, para tentar destruir Damasco.

Tal foi provado de forma conclusiva por um documento desclassificado da Agência de Inteligência de Defesa dos EUA (DIA) de 2012, posteriormente confirmado pelo General Michael Flynn, chefe da DIA quando a avaliação foi escrita: “Acho que foi uma decisão deliberada [do governo Obama]” pois tratou-se de ajudar, e não combater, o terror.

O ISIS foi concebido para lutar contra o exército iraquiano e sírio. O grupo terrorista era descendente da Al-Qaeda no Iraque (AQI), então renomeada como Estado Islâmico no Iraque (ISI), então renomeada como ISIL e, finalmente, ISIS, após cruzar a fronteira síria em 2012.

O ponto crucial é que tanto o ISIS quanto a Frente Nusra (mais tarde Hayat Tahrir al-Sham) eram ramificações radicais da Al-Qaeda salafista-jihadista.

A Rússia entrando no teatro sírio a convite de Damasco em setembro de 2015 foi o verdadeiro divisor das águas. O presidente russo Vladimir Putin decidiu realmente envolver-se numa guerra real contra o terror em território sírio, antes que o terror atingisse as fronteiras da Federação Russa. Isso foi bem patente na formulação padrão de Moscou na época: a distância de Aleppo a Grozny é de apenas 900 quilómetros.

Afinal, os russos já haviam sido submetidos ao mesmo tipo e modus operandi de terror na Chechénia na década de 1990. Depois, muitos jihadistas chechenos escaparam, apenas para acabar por se juntarem a grupos duvidosos na Síria financiados, pelos sauditas.

O falecido e grande analista libanês Anis Naqqash confirmou mais tarde que foi o lendário comandante iraniano da Força Quds, Qassem Soleimani, que convenceu Putin, pessoalmente, a entrar no teatro de guerra sírio e a ajudar a derrotar o terrorismo. Esse plano estratégico, ao que parece, era para debilitar fatalmente os EUA na Ásia Ocidental.

O establishment de segurança dos EUA, é claro, nunca perdoaria a Putin, e especialmente a Soleimani, por derrotarem os seus úteis soldados jihadistas. Sob as ordens do presidente Donald Trump, o general iraniano anti ISIS foi assassinado em Bagdad em janeiro de 2020, juntamente com Abu Mahdi al-Mohandes, vice-líder das Unidades de Mobilização Popular (PMUs) do Iraque, um amplo conjunto de combatentes iraquianos que se uniram para derrotar o ISIS no Iraque.

Enterrando o legado do 11 de setembro

O tour de force estratégico de Soleimani de montar e coordenar o Eixo da Resistência contra Israel e os EUA levou anos a ser feito. No Iraque, por exemplo, as PMUs foram impulsionadas para a vanguarda da resistência porque os militares iraquianos – treinados e controlados pelos EUA – simplesmente não conseguiam lutar contra o ISIS.

As PMUs foram criadas após uma fatwa do Grande Aiatola Sistani em junho de 2014 – quando o ISIS começou a sua fúria no Iraque – implorando a “todos os cidadãos iraquianos” que “defendam o país, o seu povo, a sua honra de seus cidadãos e os seus locais sagrados”.

Várias PMUs foram apoiadas pela Força Quds de Soleimani – que, ironicamente, pelo resto da década seria invariavelmente rotulada por Washington como um mestre “terrorista”. Paralelamente, e crucialmente, o governo iraquiano sediou um centro de inteligência anti ISIS em Bagdad, liderado pela Rússia.

O crédito por derrotar o ISIS no Iraque foi principalmente para as PMUs, complementado pela sua ajuda a Damasco por meio da integração de unidades das PMUs no Exército Árabe Sírio. Era disso que se tratava uma verdadeira guerra contra o terror, não aquela construção americana equivocada chamada de “Guerra contra o Terror”.

Melhor ainda, a resposta autóctone da Ásia Ocidental ao terror foi e continua a ser não-sectária. Teerão apoia a Síria secular e pluralista e a Palestina sunita; o Líbano apresenta uma aliança entre o Hezbollah e os cristãos; as PMU do Iraque apresentam uma aliança entre sunitas, xiitas e cristãos. Dividir para reinar simplesmente não se aplica a uma estratégia antiterrorista interna.

Então, o que aconteceu em 7 de outubro de 2023 impulsionou o ethos das forças de resistência regionais a um nível totalmente novo.

De uma só vez, destruiu o mito da invencibilidade militar israelita e a sua muito elogiada primazia em matéria de vigilância e informação. Enquanto o horrível genocídio na Faixa de Gaza prossegue sem parar (com possivelmente 200.000 mortes de civis, de acordo com The Lancet), a economia israelita está a ser corroída por dentro.

O bloqueio estratégico do Iémen ao Bab al-Mandeb e ao Mar Vermelho a qualquer navio ligado ou destinado a Israel é um golpe de mestre de eficiência e simplicidade. Não só já levou à falência o estratégico porto israelita de Eilat, mas também, como bónus, proporcionou uma espetacular humilhação do Hegemon talassocrático, com os iemenitas a derrotarem de facto a marinha americana.

Em menos de um ano, as estratégias concertadas do Eixo da Resistência enterraram basicamente meia ação da falsa Guerra contra o Terror e o seu comboio de dinheiro de vários biliões de dólares.

Por mais que Israel tenha lucrado com os eventos após o 11 de setembro, as ações de Telavive após o 7 de outubro aceleraram rapidamente a sua desintegração. Atualmente, no meio da condenação maciça do genocídio de Israel em Gaza pela Maioria Global, o Estado ocupante permanece como um pária – manchando os seus aliados e expondo a hipocrisia do Hegemon a cada dia que passa.

Para o Hegemon, a situação torna-se ainda mais alarmante. Recorde-se o aviso de 1997 do Dr. Zbigniew “Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski: “É imperativo que não surja nenhum desafiador euro-asiático capaz de dominar a Eurásia e, portanto, de desafiar também a América”.

No final, todo o som e fúria combinados do 11 de setembro, da Guerra contra o Terror, da Longa Guerra, da Operação Isto e Aquilo ao longo de duas décadas, transformaram-se exatamente naquilo que “Zbig” temia. Não surgiu apenas um mero “desafiador”, mas uma parceria estratégica Rússia-China de pleno direito que está a dar um novo tom à Eurásia.

De repente, Washington esqueceu-se do terrorismo. Essa parceria é o verdadeiro “inimigo” – e Rússia e China são agora considerados como as duas principais “ameaças estratégicas” dos EUA. Não é a Al-Qaeda e as suas muitas encarnações, uma frágil invenção da imaginação da CIA, reabilitada e branqueada na década anterior como os míticos “rebeldes moderados” na Síria.

O que é ainda mais assustador é que a Guerra ao Terror, concetualmente absurda, forjada pelos neoconservadores imediatamente após o 11 de setembro, está agora a transformar-se numa guerra de terror (itálico meu), encarnando a desesperada passagem da Ave-Maria pela CIA e pelo MI6 para “enfrentar a agressão russa” na Ucrânia.

E isso está destinado a ser transformado em metástase no pântano da sinofobia, porque essas mesmas agências de inteligência ocidentais consideram a ascensão da China como “o maior desafio geopolítico e de inteligência” do século XXI.

A Guerra ao Terror foi desmascarada; está agora morta. Mas preparem-se para guerras de terror em série por parte de um Hegemon não habituado a não ser dono da narrativa, dos mares e da terra.

Fonte aqui.


À beira de uma confrontação nuclear

(Alfredo Barroso, in Facebook, 13/09/2024, Revisão da Estátua)

(O meu comentário ao espanto do autor quanto à “dissolução da social-democracia, do trabalhismo e do socialismo democrático” (sic no texto), é o seguinte:

Venderam-se ao Império e nem a um prato de lentilhas tiveram direito: “Roma traditoribus non premiae”, ou seja, Roma não paga a traidores!

Estátua de Sal, 14/09/2024


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Desgraçadamente, o PM trabalhista Keir Starmer é igual a Tony Blair! Mas os seus mísseis de longo alcance, nas mãos do “clown” Zelensky apontam para uma guerra nuclear! – teme Alfredo Barroso, que já não consegue identificar com a esquerda socialista democrática, os partidos europeus da Internacional Socialista.

O que mais impressiona, nesta dissolução da social-democracia, do trabalhismo e do socialismo democrático, é o belicismo tonitruante contra a Rússia e o servilismo rastejante perante os Estados Unidos da América, e os seus comandos militares com sede no Pentágono (em Washington) e da NATO (em Bruxelas).

Além de uma incompreensão total sobre o que está verdadeiramente em causa, que é uma autêntica cavalgada do Império Estado-Unidense na sua tentativa de subjugar, dominar e destruir os poderes da Rússia e da China na esfera mundial – esfera na qual os EUA se consideram a única potência dominante.

De caminho, tratam de retirar à velha Europa – se necessário destruindo à bomba canais de ligação e de comunicação – quaisquer veleidades de mediação entre grandes potências, e de consolidação das alternativas comerciais a Oriente, distanciando-se assim claramente dos ‘diktats‘ – exigências absolutas impostas pelo mais forte, sem outra justificação que não seja a força – do «complexo militar-industrial e económico-financeiro» com sede no Pentágono e na sua bélica sucursal, o flanco militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte, ou seja, a NATO.

Convém recordar que, bem antes da decisão do Kremlin alargar e intensificar a sua intervenção militar na Ucrânia, que já durava desde 2014, teria sido perfeitamente possível negociar e evitar o alastrar do conflito até às proporções que entretanto tomou. Só que isso não era do interesse do atual Presidente da Ucrânia, o “clown” (como ele próprio se considera) e autocrata protetor de neonazis, Volodymyr Zelensky, cuja popularidade estava de rastos por já ser altamente suspeito de corrupção, tendo os dias contados como chefe de Estado fantoche.

Mas isso também não era do interesse do Presidente dos EUA, o inenarrável Joseph (Joe) Robinette Biden – cujo filho, Hunter Biden, estava a encher os bolsos em Kiev – além da Administração de Joe Biden não querer respeitar os compromissos assumidos perante Gorbatchev, então Presidente da URSS, pelos anteriores Presidentes dos EUA, de não alargarem as fronteiras da NATO até à Ucrânia.

Todavia, os EUA e a sua tão amada e subserviente União Europeia (nas mãos duma cáfila de políticos imbecis e oportunistas), isto é, o mítico e fulgurante Ocidente a cintilar em todo o seu melancólico esplendor, convenceram-se de que esta era a grande oportunidade já há muito esperada para começar a dar cabo da Federação Russa e acabar por dar cabo da China, do seu poder e influência em boa parte do mundo. Por tudo isto, é fácil perceber por que razão é que Joe Biden decidiu, subitamente, debandar do Afeganistão a todo o vapor, devolvendo-o, 20 anos depois, aos Talibãs. Era urgente concentrar forças nesta guerra contra a Rússia por interposta Ucrânia, e ir soltando gradualmente as rédeas do “palhaço” de Kiev, sempre a experimentar até onde é que a Rússia resistiria a recorrer às armas nucleares táticas. Até se chegar ao ponto atual, em que se está à beira da III Guerra Mundial e duma confrontação nuclear!

Campo d’Ourique, 13 de Setembro de 2024

P.S. Quanto ao uso pelo “clown” Zelensky de mísseis “long range” para atacar a Rússia, Biden (a ler o papelinho que Blinken lhe escreveu) é bem mais cauteloso do que o fulgurante imbecil que já parece ser Keir Starmer, o pseudo trabalhista PM do Reino Unido…


Viver entre ruinas: a condição humana abissal

(Boaventura Sousa Santos, in Brasil247.com, 11/09/2024)

Destruição em Khan Younis, sul de Gaza (Foto: Hatem Khaled / Reuters)

A dominação moderna baseia-se na linha abissal que separa de forma radical os seres plenamente humanos dos sub-humanos.


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No momento em que escrevo, Gaza é a metáfora trágica do tempo que vivemos. Vivemos entre ruínas. Há memória recente de casas, de escolas, de hospitais, de gente viva, mas só presenciamos escombros e morte. Há memória recente de princípios éticos e de legalidade nacional e internacional, mas só observamos impunidade, indiferença, cumplicidade ou revolta impotente.

Há memória de ideias e projectos de resistência contra a dominação moderna eurocêntrica (capitalista, colonialista e patriarcal), mas aparentemente foram derrotados pela oposição frontal que lhes foi movida pelas classes dominantes, sobretudo desde o início do século XIX, as burguesias nacionais e a burguesia global, sempre as mesmas e sempre diferentes.

Foi esta a classe que sempre beneficiou do sistema de dominação e que hoje proclama com ruidoso triunfalismo que nunca permitirá ser desalojada dessa posição pacificamente.

Uma das características fundamentais da dominação moderna é a linha abissal que de modo radical separa os seres considerados plenamente humanos dos seres considerados sub-humanos ou infra-humanos, e como tal tratados. Esta linha abissal está radicalmente ausente da consciência filosófica moderna. É essa ausência que legitima a persistência da linha abissal, tanto nas relações sociais, como no desempenho “normal” das instituições políticas, jurídicas e educativas.

A ideia de que na era moderna eurocêntrica a humanidade não existe sem desumanidade é difícil de aceitar ou mesmo de entender, dado o extraordinário sistema de ilusões e de meias-verdades que, com o passar do tempo, se converteu em realidade para os que beneficiam desse sistema e, muitas vezes, mesmo para os que são vítimas dele.

Certamente o par humanidade/desumanidade sempre esteve presente ao longo da história, sendo indiferente saber se se trata de um castigo divino, de um imperativo religioso, bíblico ou corânico, ou simplesmente de uma fatalidade humana. O que é específico da era moderna é a negação de que tal dualidade existe. Nos seus termos, a humanidade é uma só e sem excepções; o que está fora da humanidade é, por definição, natureza não-humana, vida não-humana, por mais parecida que seja com a vida humana.

É notável a persistência dessa concepção. Os índios americanos eram seres inferiores e, como tal, extermináveis; os escravos africanos eram coisas transacionáveis; os palestinianos são, aos olhos dos sionistas de Israel, animais humanos; os imigrantes a caminho do Norte global são seres descartáveis, sempre que desnecessários para os interesses económicos dos países onde tentam chegar. Parafraseando James Baldwin, quem não tem o direito de dizer sim à vida, tal como o fazem os seres considerados plenamente humanos é, por definição, sub-humano.

Ou, como diria Frantz Fanon, habita a zona do não ser. A condição sub-humana é, assim, construída como natural e como tal ninguém é culpado dela, ninguém é responsável por ela. Eliminá-la é que seria antinatural, uma violência contra a natureza das coisas. 

A tragédia do tempo presente é que, embora a dualidade humanidade/desumanidade seja mais necessária do que nunca à sobrevivência do sistema moderno de dominação, há um mal-estar geral, uma malaise indefinida, decorrente do facto de, depois de séculos de convivência entre seres considerados plenamente humanos e seres considerados sub-humanos, ser impossível não ver que os seres sub-humanos são pessoas como todas as outras. O mal-estar que isso causa representa o momento em que a linha abissal se faz presente na consciência colectiva. 

Do outro lado da linha abissal teimam em afirmar a sua presença pessoas consideradas sub-humanas que têm tudo para poder dizer sim à vida, tal como os seres considerados plenamente humanos. Mas, assim sendo, o que lhes falta para serem tratados como seres plenamente humanos? A malaise contemporânea reside numa perplexidade não assumida que decorre da suspeita de que a resposta a essa pergunta seja intolerável para quem a faz.

Há, pois, dois tipos de perguntas: as perguntas que se fazem para conhecer a resposta e as perguntas que se fazem para evitar a resposta. As primeiras são motivadas pela curiosidade, as segundas, pelo pânico. A antecipação do pânico é tão paralisadora quanto o pânico em si mesmo.

O caracter inquietante da pergunta — o que lhes falta? — reside em que na era moderna eurocêntrica os seres considerados plenamente humanos só o são porque outros seres tão humanos quanto eles foram expropriados da capacidade de dizer sim à vida.

Essa resposta põe a totalidade dos seres humanos no centro da tragédia contemporânea. Os seres considerados plenamente humanos deixam de poder clamar inocência. A resposta credível não reside em assumir a culpa individual, mas antes em assumir a quota-parte individual de uma responsabilidade colectiva que criou este estado de coisas contraditório em que os princípios e valores do humanismo universal são, na prática, o privilégio exclusivo de alguns à custa do sacrifício de outros.

Isto significa que a linha abissal é tão desumanizante para os seres considerados plenamente humanos como para os seres considerados sub-humanos. Os seres considerados plenamente humanos são postos perante a ideia aterradora de que o seu bem-estar assenta num roubo há muito legalizado do bem-estar dos seres considerados sub-humanos. Os seres plenamente humanos são individualmente pessoas honestas, mas são colectivamente ladrões. São individualmente incapazes de violência, mas coletivamente assassinos profissionais. São cidadãos obedientes à lei, mas colectivamente beneficiam de uma impunidade sem limites.

De um lado, um privilégio injusto, do outro, um sacrifício injusto, ambos ocultados por um diáfano manto de princípios e valores universais (liberdade, igualdade, fraternidade). Não há psiquiatra que resolva esta antinomia quando ela se instala no corpo e na alma, tanto dos seres considerados plenamente humanos como dos seres considerados sub-humanos. A essa mesma conclusão chegou o grande psiquiatra Frantz Fanon.

É necessário analisar fenomenológica e existencialmente tanto a condição abissal das populações, relativamente cada vez mais numerosas, que foram expropriadas do direito a dizer sim à vida, como a condição dos que beneficiaram e beneficiam dessa expropriação. É fundamental ter em conta três factos.

Primeiro, a existência da linha abissal é uma constante da era moderna eurocêntrica. Contudo, a linha não é fixa e historicamente tem-se movido, quer no sentido de incluir mais população na plena humanidade, quer no sentido inverso.

Segundo, é possível passar individualmente de um lado para o outro da linha abissal e aí permanecer com alguma estabilidade; o que não é possível é que o colectivo a que o indivíduo originalmente pertenceu passe colectivamente para o outro lado da linha. 

Terceiro, nas condições prevalecentes, sobretudo no Norte global, é possível que indivíduos transitem diariamente da plena humanidade para a sub-humanidade, e vice-versa.

Viver do lado de lá da linha abissal. 

A condição existencial de sub-humanidade consiste num conjunto imenso de características. Não significa que todas estejam presentes, mas algumas delas estarão. Uso o plural masculino universal para designar indivíduos e colectividades sub-humanizados.

Não pertencem ao mundo que oficialmente se reconhece como mundo, mas vivem nele. Tal como nem todos os que vivem na cidade pertencem à cidade.

Conhecem os princípios e os valores universais (liberdade, igualdade, fraternidade), mas sabem, por experiência, que eles não os protegem; no máximo, contribuem para promover a sua passividade.

São constantemente avaliados e julgados pelo que são, e não pelo que fazem.

Só partilham duradouramente a amizade, a alegria e o sofrimento com os que estão do mesmo lado da linha abissal. Os considerados plenamente humanos aparecem e desaparecem segundo as suas conveniências.

O máximo reconhecimento oficial que podem obter deve-se ao facto de serem úteis ou, pelo menos, de não serem considerados perigosos.

São muitas as opiniões sob a sua condição com imagens próprias de quem observa uma paisagem num safari urbano para turistas ou analisa resíduos de uma história infeliz que felizmente foi superada ou é melhor esquecer.

Têm opiniões próprias, mas ninguém as tem em conta no mundo oficial senão na medida em que forem consideradas perigosas ou apropriáveis.

Quando se vêem ao espelho têm a sensação de que o espelho os vê, segundo as circunstâncias, ora com desconfiança, resignação, complacência, ora com orgulho e incontida revolta.

Quando saem de casa (se a tiverem) entram num mundo hostil que, no máximo, os aceita condicionalmente e por razões pragmáticas que lhes são estranhas. Quando a repressão tem sede de sangue, a casa é tão perigosa quanto a rua.

O seu trabalho, quando pago, é sempre sobredesvalorizado e precário. Quando lhes é dada autonomia, é sempre sem condições para serem autónomos. A autonomia é uma das mil formas de autoescravização.

Se viverem num país onde os escravos viveram no mesmo território que os seres considerados plenamente humanos, nunca deixarão de ser descendente de escravos, mesmo que sejam descendentes de reis ou de rainhas.

Não podem planear a sua vida nem a da sua família. A cada momento ocorrem emergências e riscos que põem tudo a perder, inclusivamente a própria vida. Por mais que eduquem os filhos, sabem que eles muito provavelmente nunca poderão fugir a essa contingência.

São tratados ocasionalmente com benevolência pelos seres considerados plenamente humanos, mas sabem que nenhum deles gostaria de ser como eles ou de viver com eles.

Têm marcadores corporais, ideológicos ou religiosos que os tornam suspeitos aos olhos dos seres considerados plenamente humanos até prova em contrário, uma prova que nunca vale para o colectivo a que pertencem.

São instigados a imitar o mundo dos seres considerados plenamente humanos, mas sob a condição de nunca lhe pertencer ou de o usar para benefício próprio.

São permanentemente vigiados e policiados. A convivência de proximidade com os seres considerados plenamente humanos, aparentemente benévola e educativa, é muitas vezes a mais insidiosa.

Vão à escola para desaprender tudo o que a família ou os antepassados lhes ensinaram e, sobretudo, para não conhecerem as verdadeiras razões da sua condição sub-humana. O que aprendem ensina-os a viver imitando os considerados plenamente humanos, mas nunca os ensina a serem diferentes deles e iguais a eles. O máximo que a escola lhes pode ensinar é não desprezar ou odiar, apesar de serem desprezados e odiados.

Têm momentos de intensa alegria, mas isso é muito diferente de ser feliz.

Sabem que ninguém controla o destino, mas que, no caso deles, alguém, que não eles, controla o seu destino.

Alguém lhes disse que no passado havia uma classe de gente que não tinha nada a perder senão as suas grilhetas. Perguntam-se: tudo o que têm pode ser considerado grilhetas?

Quando recebem ajuda travam a garganta para não ter de gritar: Maldita seja a ajuda por ser necessária!

Estarem conscientes que foram expropriados e desarmados é a arma primordial para resistir.

Viver do lado de cá da linha abissal

Na sociedade moderna eurocêntrica (capitalista, colonialista e heteropatriarcal), viver do lado de cá da linha abissal é sinónimo de ser considerado plenamente humano. Ser plenamente humano nas condições da modernidade ocidental é poder viver realisticamente uma existência com as características diametralmente opostas às que acabei de enumerar para caraterizar a sub-humanidade.

Viver a plenitude humana como se fosse uma condição universal é a inocência existencial primordial da modernidade ocidental. Ao longo de vários séculos foi-se construindo a imensa biblioteca da inocência ocidental, enumerando, analisando, detalhando, criticando, propondo incessantemente novas interpretações para todos os princípios, valores e ideais supostamente universais, constitutivos dessa inocência, e organizando toda a parafernália institucional político-jurídica, ideológica e educacional que oculte a fractura abissal em que assenta essa inocência.

Foi assim que se controlou e legitimou a parcela da humanidade a que foi concedido o privilégio de representar a totalidade da humanidade titular dos princípios e valores universais. Foi um investimento ideológico e político imenso. O que estava em causa era a reprodução da linha abissal e a garantia da sua invisibilidade para poder ser plenamente eficaz na reprodução do sistema moderno e eurocêntrico de dominação.

Se a biblioteca da inocência ocidental tiver de ser definida por conceitos essenciais, dois parecem evidentes: o liberalismo e o esquecimento da história. O liberalismo consistiu na prerrogativa de universalizar o que convinha à burguesia emergente e de particularizar (e, portanto, descartar) tudo o que se lhe opunha. O esquecimento da história consiste em concebê-la como passado e nunca como presente. Os EUA foram construídos à custa do extermínio dos índios, mas isso é passado ou filmes de Hollywood e John Wayne. O bem-estar dos europeus foi construído tanto com o roubo dos recursos naturais dos povos colonizados, quanto com o roubo dos seus recursos humanos através da escravatura, mas isso terminou com o fim da escravatura e as independências das colónias.

A vigência dos princípios e valores universais e as instituições que lhes foram dando corpo nunca impediram que houvesse exclusões sociais no interior do mundo dos seres considerados plenamente humanos. Mas tais exclusões foram controladas e minoradas pela vigência efectiva desses princípios e instituições: primado do direito, democracia, direitos humanos. Ou seja, direitos e garantias a serem accionados para eliminar ou minorar tais exclusões.

A cegueira constitutiva do liberalismo foi não ver que do outro lado da linha abissal, no mundo das relações entre os seres considerados plenamente humanos e os seres considerados sub-humanos, tais princípios e instituições não vigoravam, precisamente porque, se funcionassem do mesmo modo, poriam em causa a fractura abissal que lhes dera vida. Por isso, as práticas sociais nunca puseram em causa a universalidade dos princípios que violavam.

O preço que se paga por se ser considerado plenamente humano e protegido como tal nestas condições reside num risco existencial. O risco de, em algum momento, vir a ser-se confrontado com a ideia de que essa condição de plenitude, longe de ser um direito natural e universal, é um cruel privilégio que, desde o século XVI, assenta na necessidade inelutável de submeter populações inteiras à condição de sub-humanidade.

A ideologia da vigência universal que sustenta o princípio do primado do direito ou o princípio dos direitos humanos é tão hegemónica que as populações consideradas sub-humanas não têm sequer outra alternativa para minorar o sofrimento injusto a que são sujeitas senão apelar para esses princípios, mesmo sabendo que eles só virão em sua ajuda para aliviar marginal e transitoriamente a sua condição e para garantir a sua passividade ante o sistema de dominação.

Ser plenamente humano nas condições da modernidade ocidental implica um grau de desumanização. Implica ter de viver com a ideia de que a plenitude humana, de que tanto se orgulham os modernos eurocêntricos, assenta nos escombros, nas ruínas, nas valas comuns da humanidade de tantos seres humanos ao longo da história moderna, e hoje mais que nunca.

Arrisco-me a afirmar, pensando em Gaza, que esse grau de desumanização é vivido hoje com mais intensidade do que nunca, mesmo que seja uma vivência de passividade. É o resultado de processos sociais complexos e até contraditórios, tão contraditórios quanto as soluções que estão a ser dadas a essa vivência existencial.

As sociedades contemporâneas estão dramaticamente divididas entre os grupos sociais que não querem lembrar a história e os grupos sociais que a não podem esquecer. Por isso, concluo este texto com a voz do grande poeta palestiniano, Mahamoud Darwish:

A guerra vai acabar

Os líderes apertarão as mãos

A mulher idosa continuará à espera do seu filho martirizado

A rapariga esperará pelo seu amado marido

E as crianças esperarão pelo seu pai herói

Não sei quem vendeu a nossa pátria

Mas vi quem pagou o preço.


Fonte aqui.