A ONU ainda faz sentido?

(António Gil, in Substack.com, 29/09/2024)

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Para seus burocratas, apenas. O resto do mundo viveria melhor sem tal máfia. 

Em 2003, no auge do cio da invasão do Iraque e na falta de uma resolução de aprovação dessa terrível guerra de agressão, Donald-o-Rumsfeld quackou:
– A ONU tornou-se irrelevante. 

Bom, ele concluiu isso pelas razões erradas mas a verdade é que a ONU já era irrelevante há uns anos. É sempre difícil apontar uma data limite mas eu diria que pelo menos desde as guerras promovidas na ex Jugoslávia se tinha percebido que a agremiação era tão inútil como uma faca sem gume.

Se nos lembrarmos que essa ‘coisa’ aprovou a fundação do Estado de Israel, num país onde já vivia outro povo e contra o desejo de grande número de Estados membros do Médio Oriente, então essa data recua ainda mais. 

A ONU falhou quase sempre e em quase tudo? foi pior que isso: suas forças de manutenção de paz (capacetes azuis), suas organizações ditas humanitárias (UNESCO) e sua organização de saúde (OMS) ganharam a tenebrosa reputação de violar consistentemente os direitos humanos das nações onde actuaram.

Muitos de seus enviados tiraram partido de sua situação de poder e abusaram de crianças (dos dois sexos) desvalidas, chantagearam pais e mães em troca de coisas tão básicas como água e alimentos para satisfazerem seus apetites monstruosos.

E no caso da OMS, seus ‘programas de vacinas’ tiveram consequências terríveis sobretudo em África e no sul da Ásia, matando ou incapacitando meninas para a reprodução (a esterilização não consentida entre esse legado sombrio).

A ONU sempre foi uma máquina de crueldade praticada sob a mesa, devidamente disfarçada de filantropia. Uma perversão total, pela própria definição da palavra : praticante do Mal, invocando o bem.

Mas não quero ser injusto para com tantos de seus funcionários que realmente fizeram trabalho humanitário de mérito em vários países, incluindo com refugiados de guerra, correndo riscos enormes e tantas vezes pagando com a vida (o Brasileiro Sérgio Vieira de Melo entre eles, morto num atentado terrorista no Iraque em que a CIA deixou impressões digitais por todo o lado).


Não, o problema da ONU não está na maioria dos casos em quem nela trabalha. Ela nasceu torta, começando pela ‘arquitectura de segurança’ (os 5 Estados com poder nuclear podendo vetar qualquer resolução), criando assim ‘categorias’ de Nações, onde umas tinham mais direitos que outras.


A sua evolução posterior foi uma consequência lógica disso, daí que não seja de estranhar que se tenha tornado numa instituição pronta a limpar a porcaria que os poderosos do mundo decidiram fazer, um pouco por todo o mundo: uma grande empresa de lavagem de sangue e dinheiro, em suma.

Não concebo uma Ordem Mundial mais justa sem a extinção TOTAL da ONU. E já agora, o julgamento de muitos de seus mandantes. 

Fonte aqui.

Vamos financiar a russofobia no OE de 2025?

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 28/09/2024)

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A União Europeia (UE) não cessa de mostrar sintomas da sua doença incurável. Não só as instituições existentes constituem uma imitação descolorida de um federalismo de contrafação, sem constituição, nem cidadania europeia, como os titulares das mesmas não revelam nem a formação, nem o talento ou a vontade de aprender indispensáveis para o razoável desempenho dos cargos.

Numa altura em que a guerra na Ucrânia parece hesitar entre uma solução coreana – fim das hostilidades nas linhas atuais do campo de batalha, deixando tratado de paz para o futuro -, ou um enfrentamento direto NATO-Rússia, capaz de incendiar grande parte do mundo, o Parlamento Europeu (PE) escolheu esta última opção, ao aprovar no dia 19 uma “Moção conjunta” sobre a continuação “do apoio financeiro e militar à Ucrânia pelos Estados-membros da UE”.

A Moção, grosseiramente russófoba, cheia de exigências aos Estados da UE, é mais brutal do que muitas declarações de guerra registadas pela historiografia.

Vejamos apenas algumas das medidas propostas pelos eurodeputados: 1) acabar com todas as restrições ao uso por Kiev de armas ocidentais contra alvos na Rússia; 2) exigir ao chanceler alemão a entrega a Kiev do míssil germânico de longo alcance, Taurus (uma pressão absurda sobre Scholz, imposta por essa criatura esquisita em que se transformou o partido alemão Os Verdes); 3) Solicitar à Comissão “uma comunicação estratégica” europeia sobre a importância de apoiar a Ucrânia (mais propaganda e desinformação para preencher o vazio deixado pela repressão do debate sério e esclarecido); 4) Depois de ter arrefecido o seu breve entusiasmo pelo Pacto Ecológico, o PE exulta com a rápida implementação da Estratégia para a Indústria de Defesa Europeia.

O clímax guerreiro dos eurodeputados foi atingido, contudo, quando insistem em “que todos os EM da UE devem comprometer-se a apoiar anualmente a Ucrânia militarmente com não-menos de 0,25% do seu PIB.” No caso português, os nossos eurodeputados, cidadãos de um país com o Estado Social em falência, querem investir 628.450.000 euros (referência ao PIB de 2023) do OE 2025 no prolongar sangrento de uma guerra absurda.

A Moção passou com 425 votos a favor, 131 contra, e 63 abstenções. Os eurodeputados portugueses que querem mísseis a destruir Moscovo, nem que para isso seja preciso empobrecer ainda mais os portugueses, são todos os da AD, PS (exceção da abstenção de Bruno Gonçalves) e IL. O Chega absteve-se.

Os dois sensatos e residuais votos contra, respetivamente, do PCP e do BE, comprovam que Descartes errou (ou seria ironia fina?) quando escreveu que: “O bom senso é a coisa mais bem distribuída no mundo.”

Na periferia do Império e da sorte

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 29/09/2024)

(Deixem a guerra para quem sabe de guerra, digo eu. Ao ler este artigo e comparando-o com os dislates que todos dias ouço da grande maioria dos ditos “especialistas” das televisões, lembrei-me logo do antigo ditado que rezava assim: «Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?» 🙂

Estátua de Sal, 29/09/2024)


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A atual fase da manobra dos Estados Unidos no Médio Oriente através de Israel constitui uma evidente consideração do papel da União Europeia como um ator subordinado na periferia do império — um esfregão.

As atuais ações dos Estados Unidos no Médio Oriente inserem-se numa estratégia apresentada há anos pelo domínio do grande espaço da margem oriental do Mediterrâneo que inclui a Síria, o Iraque e tem como objetivo principal o Irão.

Para alcançar este objetivo, os Estados Unidos necessitam de uma base segura e absolutamente dedicada e essa base é Israel. As ações que através dos israelitas os Estados Unidos estão a desenvolver na Palestina e no Líbano — o genocídio dos palestinianos e a destruição do que resta do Líbano — tem por finalidade criar uma situação em que Israel não tenha de dividir meios e forças para assegurar o seu domínio interno com perturbadores como os movimentos de resistência palestiniana e se possa concentrar no objetivo principal, o de servir de base de ataque — ou testa de ponte — no ataque ao Irão.

A eliminação dos palestinianos — sob qualquer pretexto, seja o Hamas ou a qualidade da água do Jordão — assim como o controlo absoluto do Líbano têm a finalidade de preparar o ataque ao Irão e esse ataque tem de ser efetuado antes que este passe a dispor de capacidade nuclear e de um escudo de proteção antiaéreo eficaz.

A violência, o desprezo pela opinião pública por parte dos dirigentes de Israel e as afirmações de apoio incondicional aos objetivos anunciados por Netanyahou feitas pela administração americana resultam da urgência de provocar o Irão e de o atacar e esta urgência liga-se a uma outra, a de evitar que depois de alcançados os seus objetivos na Ucrânia, a ocupação do Donbas e neutralização da capacidade militar ofensiva de Kiev, a Rússia esteja em condições de apoiar o Irão sem as limitações atuais. O tempo urge.

Nesta fase, os Estados Unidos estão a conduzir uma guerra em duas frentes relativamente barata, com sucesso absoluto em termos militares na Palestina e no Líbano (alvos moles), com grandes dificuldades na Ucrânia, mas com ganhos económicos significativos, pois eliminaram a União Europeia como concorrente económico, impuseram-lhe o seu petróleo aos preços que lhes convém para asfixiar a sua indústria, ainda a obrigaram a pagar a guerra na Ucrânia quer diretamente com as doações e empréstimos sem prazo, quer através das compras de armamento americano. Com as duas guerras que conduz à distância, os Estados Unidos têm hoje uma economia florescente que justifica a alegria de Kamala Harris e permite as rábulas de Trump. Existe apenas um problema: com uma derrota (previsível) na Ucrânia, os Estados Unidos serão tentados a demonstrar a sua força noutro cenário e esse será, com elevadas probabilidades, o Irão.

As duas esquadras americanas atualmente posicionadas como guarda-costas de Israel permitem que o objetivo da limpeza do terreno na Palestina e no Líbano seja efetuada sem resistência significativa, nem intervenção externa, mas não são suficientes para apoiar um ataque ao Irão com possibilidade de sucesso. Há que trazer mais meios quer de defesa antiaérea, quer lançadores de armas de ataque. Os Estados Unidos necessitam de um pretexto para utilizarem as armas nucleares de que dispõem em Israel, antes de empregarem as embarcadas nos seus meios navais e aéreo, e é essa necessidade que está a ser discutida embrulhada na narrativa da autorização por parte dos Estados Unidos de utilização de misseis balísticos de longo alcance a partir da Ucrânia. É evidente que a Ucrânia não é tida nem achada nessa “autorização”, os misseis de longo alcance serão utilizados ou não de acordo com a manobra dos Estados Unidos.

O momento em que os misseis — os ATACMS — serão lançados a partir da Ucrânia contra um objetivo significativo no interior da Rússia está dependente do final da operação de limpeza em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano. Esse ataque será a casus belli que justificará uma resposta da Rússia, desejavelmente, do ponto de vista dos Estados Unidos, com armas nucleares táticas, que dê o pretexto para um ataque nuclear ao Irão não só às suas instalações nucleares, mas a toda a sua infraestrutura económica.

É este o tabuleiro de xadrez onde se está a jogar a nossa existência. Um tabuleiro onde a União Europeia não joga, apenas paga e sofre as consequências que são previsíveis de rápido empobrecimento, como acontece com as periferias dos impérios em guerra.

A manobra dos Estados Unidos no Médio Oriente tem uma elevada possibilidade de implicar o emprego de armas nucleares e é essa possibilidade que está a ser equacionada, e para a qual os meios de manipulação já estão a preparar as opiniões públicas ocidentais, amplificando os avisos que Moscovo tem feito da alteração da sua doutrina de emprego face à manobra de envolvimento que está a observar e que não necessita, aliás, de especiais dotes de presciência.

De Bruxelas nem uma palavra.