A diplomacia da cedência

(João-MC Gomes, In VK, 02-12-2024)


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A recente visita de António Costa a Kiev, já empossado como Presidente do Conselho Europeu, marca um ponto baixo na trajetória de um político que, apesar de se proclamar socialista, parece cada vez mais distante dos princípios que deveriam fundamentar tal ideologia.

Ao abraçar Volodymyr Zelensky, que atualmente governa sem mandato presidencial legítimo sob o pretexto de uma lei marcial autoimposta, Costa não apenas valida implicitamente a erosão dos valores democráticos, mas também perpetua uma abordagem europeia enviesada e subserviente aos interesses da NATO e dos Estados Unidos.

Quando Mário Soares, assumiu políticas que colocavam o “socialismo na gaveta” para garantir a estabilidade democrática de Portugal, estava, ao menos, a lidar com uma conjuntura nacional crítica, onde o equilíbrio de poderes e a construção de um novo regime exigiam compromissos. Contudo, as ações de António Costa não podem sequer ser justificadas por tal pragmatismo histórico. Ao contrário, a sua atitude reflete um alinhamento cego e acrítico com uma política externa que perpetua conflitos, em vez de buscar soluções negociadas. Costa vai além de guardar o socialismo: ele desfaz-se dele, abraçando uma lógica neoliberal e militarista, disfarçada de solidariedade europeia.

Ao associar-se tão calorosamente a Zelensky, Costa parece ignorar que a verdadeira representatividade democrática reside na soberania popular, manifestada por meio de eleições livres. O argumento da lei marcial para justificar a suspensão indefinida de eleições na Ucrânia pode até ter apelo em cenários de emergência, mas perde força diante de uma prolongada ausência de mecanismos que garantam a voz do povo. Uma União Europeia que se pretende defensora de valores democráticos deveria adotar uma postura mais crítica e exigente, em vez de abraçar lideranças que se afastam de tais princípios.

A atitude de Costa reforça a continuidade de uma política externa europeia que ignora as raízes do conflito no Donbass, iniciado muito antes da invasão russa de 2022. Desde 2014, as populações destas regiões foram vítimas de um conflito que poderia ter sido resolvido por meio do diálogo e do respeito pelo direito à autodeterminação. No entanto, a NATO e os seus aliados insistiram numa estratégia de expansão que, em última análise, desestabilizou ainda mais a região e pavimentou o caminho para a guerra atual.

Ao alinhar-se de forma incondicional a essa lógica, Costa demonstra uma falta de autonomia política, revelando-se um peão num jogo geopolítico maior. As suas ações não apenas minam qualquer possibilidade de mediação europeia independente, mas também reforçam a perceção de que a União Europeia é, muitas vezes, uma extensão dos interesses norte-americanos.

Em vez de abraçar figuras que perderam a sua legitimidade democrática, a diplomacia europeia deveria ser marcada por formalidades que reflitam prudência e equilíbrio. A postura de António Costa, no entanto, simboliza a abdicação de uma oportunidade de liderar com uma voz crítica e construtiva, optando por reforçar o status quo belicista.

António Costa, que ascendeu politicamente sob o manto de um socialismo moderado, parece ter ultrapassado o seu antecessor, Mário Soares, na renúncia aos ideais que deveriam guiar o seu caminho. A sua atuação como líder do Conselho Europeu sugere não apenas um distanciamento das raízes socialistas, mas também uma perigosa conivência com a perpetuação de conflitos, a erosão democrática e a submissão a interesses alheios à soberania europeia.

Em vez de representar uma nova era de equilíbrio e autonomia para a Europa, Costa reforça as piores tendências de uma política externa europeia decadente e desprovida de visão.

O cerco!

(João-MC Gomes, In VK, 01-12-2024)


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A menos de dois meses da tomada de posse de Trump a situação geopolítica atual, marcada por uma série de desafios à estabilidade da Federação Russa, parece configurar um cerco político-militar orquestrado a partir de várias frentes. Essa pressão multidimensional abrange a Ucrânia, a Geórgia, a Síria e, possivelmente, novos desenvolvimentos no uso de mísseis de longo alcance pela Ucrânia. Uma análise estratégica precisa e concreta dos principais fatores que configuram esse cerco indica:

1. Ucrânia: O Conflito Prolongado e a Ameaça de Mísseis de Longo Alcance

A Rússia, embora concretizando pequenas vitórias e avanços, continua a enfrentar desafios na sua intervenção militar na Ucrânia. Embora o controle do conflito seja uma prioridade para o Kremlin, a resistência ucraniana e o apoio ocidental, incluindo a possibilidade de mísseis de longo alcance, complicam a situação. A autorização para a Ucrânia usar mísseis de longo alcance significa uma escalada significativa, permitindo ataques mais profundos no território russo, com possíveis impactos em centros logísticos e em zonas críticas para a operação militar russa. A resposta russa será obrigatoriamente mais aguda e coordenada, levando a uma necessidade de consolidação de forças na frente ucraniana. Essa decisão criaria um dilema estratégico para a Rússia, já que a escalada em território ucraniano poderia resultar numa maior perda de apoio internacional, dificultando a situação militar e diplomática.

2. Geórgia: Instabilidade Institucional e Retirada da Proposta de Adesão à UE

Na Geórgia, as tensões internas e conflitos institucionais estão em ascensão, particularmente com a recente decisão do governo de retirar a proposta de adesão à UE. Esta mudança é interpretada como uma retirada estratégica da Geórgia do campo de influência ocidental, para evitar uma maior escalada nas tensões com Moscovo. Ao mesmo tempo, isso pode ser uma tentativa de apaziguar a Rússia e mostrar que o território georgiano não se torna uma frente aberta contra ela. A instabilidade interna da Geórgia enfraquece a posição do Ocidente na região, abrindo uma oportunidade para a Rússia reestabelecer alguma influência. Essa situação de fragilidade governamental pode ser usada como um ponto de pressão adicional, desviando a atenção e os recursos russos de outras frentes.

3. Síria: Tentativas de Forças Opositoras para Assumir Aleppo

Na Síria, a situação continua a ser uma frente de resistência para a Rússia, que apoia o regime de Bashar al-Assad. As forças contrárias a Assad estão a tentar assumir o controle de Aleppo, um movimento que visa desorganizar as forças russas presentes no terreno e forçar uma dispersão dos recursos militares russos. Este movimento cria uma nova ameaça para a Rússia, exigindo uma distribuição de forças e uma priorização estratégica que pode impactar a sua capacidade de concentração no conflito ucraniano. A perda de Aleppo ou mesmo uma situação de instabilidade prolongada em regiões chave da Síria pode enfraquecer a posição russa no Oriente Médio, além de atrasar ou desviar recursos militares para defender a sua presença síria, diminuindo sua capacidade de projetar poder em outras regiões.

4. Cerco Político-Militar: Uma Estratégia de Pressão Multidimensional

O que está emergindo é uma estratégia de cerco político-militar, coordenada por forças ocidentais reconhecidamente controladas pelos EUA, sendo a Rússia pressionada simultaneamente em várias frentes: na Ucrânia, com o aumento das capacidades militares ucranianas e o risco de uma escalada de ataques, na Geórgia, com uma crescente instabilidade política que enfraquece a posição pró-Ocidente, e na Síria, com tentativas de forças opositoras de desorganizar o regime de Assad e as forças russas. Este cerco, completamente coordenado entre os diferentes atores, cria uma situação de múltiplas frentes que obrigará a Rússia a manter uma atenção constante e recursos dispersos, enfraquecendo a sua posição de domínio único no espaço pós-soviético e no Oriente Médio.

5. A Resposta Russa: Necessidade de Recalcular a Estratégia

A Rússia, portanto, encontra-se diante de um dilema estratégico. A necessidade de controlar a frente ucraniana e responder à ameaça de mísseis de longo alcance pode forçar a Rússia a redirecionar mais recursos militares para garantir a estabilidade interna, mas isso implicaria numa resposta mais agressiva e mais difícil de justificar internacionalmente, especialmente se escalado para um confronto de maior magnitude. A dispersão das forças militares devido à instabilidade na Geórgia e na Síria pode criar uma vulnerabilidade crescente para a Rússia em várias frentes, forçando uma alteração em suas prioridades de segurança nacional.

O cerco político-militar ocidental à Rússia, gerado pelas ações simultâneas na Ucrânia, Geórgia e Síria, representa uma pressão estratégica sem precedentes, que coloca Moscovo numa posição vulnerável. A necessidade de responder a múltiplas ameaças enquanto mantém o controle da situação na Ucrânia exige uma gestão cuidadosa dos recursos e forças militares. A Rússia terá que recalcular as suas prioridades, levando em consideração as implicações internas e externas de suas ações.

O riso de Costa

(Whale project, in Estátua de Sal, 01/12/2024, revisão da Estátua)


(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos sobre a tomada de posse de António Costa como Presidente do Conselho Europeu (ver aqui). Pela sua atualidade, e pela justeza das suas considerações – que a visita de hoje de Costa a Kiev só vem justificar ainda mais -, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 01/12/2024)


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Costa desistiu de Portugal por não ter a espinha direita e ter medo de ter um destino pior que Robert Fico.

Desde os tempos de Judas Iscariotes que a raça dos traidores se refinou. Os traidores de hoje não têm crises de consciência e garantidamente não acabam a pôr uma corda ao pescoço num campo comprado com o dinheiro da traição.

Os taidores conseguem bons tachos e Costa tem certamente motivos para sorrir e se rir de todos nós e disto tudo. Está tudo a correr a bom ritmo para quem quis lançar Portugal nas garras desta direita torta.

O Orçamento de Estado para 2025 foi aprovado, apenas e só, porque o PS regressou aos tempos da “abstenção indignada” de António José Seguro. Por essa altura nem sequer havia razões para isso. A dupla Coelho/Portas tinha maioria absoluta pelo que, Seguro, podia mostrar uma posição decente contra orçamentos devastadores para quem vivia do seu trabalho; não esquecer que nenhum ordenado, incluindo o miserável salário mínimo, aumentou nesses anos e, as reformas, nem as mais pequenas aumentaram.

Mas o maior partido da oposição quis mostrar que afinal de contas até concordava com esse “ir para além da troika”. Mas sabia que se votasse abertamente a favor de tais barbaridades poderia perder votos para a “esquerda radical”. Garantia um velho socialista – daqueles que militam no PS porque ser abertamente de direita parece mal -, que essa era a atitude correta para “não sublevar a população”. Valha, a gente dessa, um burro aos coices.

O PS foi domesticado. O país jaz nas garras de uma direita disposta até a imolar-nos nas estepes ucranianas – se tal for exigido por quem realmente manda -, e Costa deve estar a pensar o que, segundo o mito fundador de Israel, pensou o rei amalequita: “decerto já se afastou de mim a amarga experiência da morte”.

Certamente, Costa terá melhor destino que o tal amalequita que terá sido retalhado à espadeirada por um sumo-sacerdote sanguinário e ensandecido. E é o saber isso que o faz tão risonho. Muito daquele riso é mesmo o riso de alívio de quem saiu de uma experiência de quase morte. Ele lá sabe o que ouviu no tal telefonema. Mesmo assim, quem se mete a político, sabe ao que vai e que o risco de morte faz parte da vida.

Costa não teve espinha, traiu o seu país e o seu povo e isso é sempre condenável. Quantos anos espera continuar nos mares desde mundo com a idade que já tem? Valeu a pena ter-nos brindado com um Primeiro-ministro destes? Um bandalho que disse que a vida das pessoas não estava melhor, mas que o país estava melhor, e que quem estivesse mal devia mudar-se?

Agora o PS abstém-se num orçamento que, não sendo tão devastador como os orçamentos fascistas, aumenta reformas miseráveis abaixo da inflação e tira aos pobres para dar aos ricos, trocando investimentos em saúde e educação por descidas no IRC.

E, se esta gente não tiver juízo – que até não tem -, teremos como próximo Presidente da República um almirante que está convencido que impediu uma grande invasão russa pelo Sul. E que está disposto a mandar-nos a todos para a morte em nome da NATO. Em resumo, alguém que precisa de ajuda psiquiátrica de um profissional qualificado.

Talvez tenhamos o que merecemos, depois de tantos atestados psiquiátricos passados ao presidente russo. Mas que custa a roer, custa. Valha-nos um burro aos coices.