Os Américos que já se apresentaram: são 3 e bem Américos!

(Por oxisdaquestão in Blog oxisdaquestao, 05/01/2025, revisão da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Por algum motivo, até a esta hora desconhecido, a notícia do aparecimento do terceiro Américo não foi capa dos jornais. É verdade: Venturas, o nosso Bolsonaro de Xabregas, comunicou que se vai candidatar a PR. As televisões, sempre atentas e convocadas, fizeram alarde do facto e seguiram para outra, depois de mostrar o homem!

Valerá a pena fazer uma breve menção de onde vieram os Américos da nossa terra, como chegaram à Presidência e como ressurgem ao mesmo tempo que o 25 de novembro é lembrado, com cerimónia na Assembleia da República.

Os Américos foram encubados em 1926, precisamente no 28 de maio a partir da cidade dos arcebispos e do cónego Melo, que Deus tenha. Na ditadura insipiente, o primeiro foi Mendes Cabeçadas, um militar sem outro perfil que usar farda cinzenta e polainitos. Seguiu-se-lhe Gomes da Costa, o do 28 que gostava de aparecer a cavalo e que até fazia piafés impecáveis. Com Salazar no trono e feito salvador, foi indicado a dedo outro militar para ser Américo: Carmona por 25 anos, metade do tempo do reinado do homem de Santa Comba. Ainda militar, seguiu-se Craveiro Lopes, tão militar como os anteriores Américos mas a querer arrebitar cachimbo.

Foi substituído pelo verdadeiro Américo, marinheiro-almirante, bronco e salazarista sem titubeios e também por os ter, mas inofensivos. Criou-se então a figura do Américo de Deus-Tomaz e sua senhora. Rodava com Cerejeira e tudo corria bem, salvas as circunstâncias que Humberto Delgado, em vida e sendo candidato, apresentou ao regime. Sendo bronco, mas com dragonas, lia os discursos que Salazar lhe metia nas mãos; fora deles só dizia asneiras que eram autênticas piadas que, nas mesas dos cafés, se reproduziam para vergonha dos vigilantes da PIDE, que rondando, as ouviam.

Foi  um verdadeiro Américo que agora ressurge porque as marés vão propícias. E tanto que já o país tem, conhecidos, três Américos, a saber: o Américo Gouveia, contra-almirante distribuidor de vacinas, o equitativo da Pfizer em tempos de Covid; Marques Mendes, comentador político na TV que sabia e sabe tudo antes dos outros comentamerdosos, por ter um funil ao contrário no PPD que lhe escorria e escorre os casos actuais e futuros; o Venturas que ataca emigrantes e minorias, vidrado na segurança e defensor de polícias neonazis e caceteiros, homem de penaltis e pegas ribatejanas do seu braço direito no hemiciclo e redondéis outros.

Com, para já, três Américos deste calibre serão as eleições para PR que se avizinham algo glorioso e com desfecho que a NATO-CEE acolherá de bom grado e não terá de anular, invocando intervenção russo-chinesa-iraniana-iemenita. Tudo limpo, votos americanos ou nos Américos como se pretendia de antemão.

Sem que a campanha comece não é fácil dizer que Américo será mais Américo ou terá mais ADN Tomaz-de-Deus, será mais 25 de novembro ou mais Deus-Pátria-Família e mais da NATO.

Estamos, para já, bem servidos de Américos. Confiemos, então, no que aí pode vir…

Fonte aqui

Costa insiste no apoio total à Ucrânia, sem qualquer iniciativa diplomática da União Europeia

(João Mc-Gomes, in VK, 04/01/2025, Revisão da Estátua)

“Como Ícaro seduzido pelo brilho de um Sol sem calor, ele alçou voo, deixando para trás o ninho onde um dia guardou os seus valores, apenas para descobrir que as alturas que almejava eram feitas de vazio e reflexos fugazes.”

É isso que penso de António Costa e da sua atual apetência pela hipócrisia politica. Pensa ele que vai “salvar a UE” da desgraça em que os seus dirigentes a colocaram, nesta e noutras matérias!?


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

António Costa defende o reforço da segurança na UE para assegurar a paz no continente. O presidente do Conselho Europeu, que iniciou funções há um mês, disse que a Ucrânia “continua a ser a prioridade” e que é preciso apoiá-la “tanto quanto necessário, enquanto for preciso”, a caminho do terceiro aniversário do conflito, que ocorrerá no dia 24 de fevereiro de 2025.

O presidente do Conselho Europeu, António Costa, defendeu que é necessário “reforçar a segurança para garantir a paz na Europa”, por ocasião do arranque da presidência polaca do Conselho da União Europeia (UE). Assim:

A nossa União [Europeia] nasceu como um projeto de paz depois da Segunda Guerra Mundial, e precisamos de reforçar a nossa segurança para assegurar a paz na Europa“, disse António Costa, durante uma cerimónia, em Varsóvia, para assinalar o início da presidência rotativa do Conselho da UE.

O presidente do Conselho Europeu, que iniciou funções há um mês, acrescentou que a Ucrânia “continua a ser a prioridade” e que é preciso apoiá-la “tanto quanto necessário, enquanto for preciso“, a caminho do terceiro aniversário do conflito, no dia 24 de fevereiro de 2025.

A defesa é uma “prioridade estratégica” para a União Europeia, considerou o ex-primeiro-ministro de Portugal.

António Costa lembrou que organizou para o início de fevereiro um encontro informal entre os presidentes e primeiros-ministros dos 27 países do bloco comunitário, o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), Mark Rutte, e o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, para abordar a cooperação nesta área.

Alinhando com a narrativa da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o presidente do Conselho Europeu pediu um reforço da cooperação com a NATO (23 dos 32 Estados-membros da Aliança Atlântica são também da UE).

António Costa considerou que o facto de a primeira presidência semestral de 2025 caber à Polónia vai ser “uma inspiração”, pela “força de resistência” da população numa altura de “interferência estrangeira que ameaça a integridade democrática”.

A Polónia assumiu no dia 01 de janeiro e conduzirá até 30 de junho a presidência rotativa do Conselho da União Europeia com atenções focadas na segurança do bloco comunitário, numa altura de incertezas e de desafios geopolíticos causados por conflitos.

Varsóvia sucede à Hungria, liderada pelo controverso primeiro-ministro Viktor Orbán, na presidência semestral do Conselho da UE.

Num momento em que a guerra na Ucrânia desencadeada pela invasão russa está quase a alcançar três anos e que a região do Médio Oriente vive um cenário de conflito e de fortes tensões, Varsóvia pretende liderar o bloco comunitário, este semestre, dando prioridade à defesa dos 27 Estados-membros, nas dimensões externa, interna, informativa, económica, energia, alimentar e sanitária.

Sob o mote “Segurança, Europa!”, a Polónia, que faz fronteira com a Ucrânia e tem estado na linha da frente ao apoio prestado a Kiev face aos ataques russos, destaca no programa para a presidência semestral que a agressão de Moscovo ao país vizinho “ameaça a segurança de todo o continente”.

“Mas é também uma guerra contra os princípios e valores representados pela União Europeia”, frisam as autoridades de Varsóvia, indicando que “a presidência polaca esforçar-se-á para os respeitar e promover na UE, salientando o papel especial da sociedade civil”.

Quando também instituições como a Comissão Europeia e o Conselho Europeu — liderados respetivamente por Ursula von der Leyen e António Costa —, iniciam novos mandatos, a presidência semestral polaca adianta que o facto de coincidir com este início do ciclo institucional da UE “constitui uma oportunidade para definir objetivos, sugerir soluções e iniciar processos para os próximos cinco anos”

Na tempestade de fogo

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 03/01/2025)

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Na guerra da Ucrânia, os soldados dos dois lados, mortos e feridos, não têm direito à revelação completa dos nomes. A lista de baixas está transformada num segredo de Estado. A batalha que se trava nos jornais e nas televisões é de pólvora seca verbal.

Que sabemos, verdadeiramente, sobre a experiência desses soldados, homens e mulheres, ucranianos e russos, dilacerados nesse inferno de fogo e sangue lavrando há quase três anos? Para nos aproximarmos de uma resposta teremos de recuar à I Guerra Mundial (IGM).

As semelhanças esmagam. Duas guerras de dominância industrial e tecnológica. Novas e antigas armas encontram-se reunidas num concerto letal, colocando o mais treinado e valente dos guerreiros numa situação de impotência e acaso perante o fogo de artilharia, o ataque de drones e mísseis, as minas, a investida dos tanques, o tiro furtivo dos snipers, o fogo de armas ligeiras, os ataques aéreos a distâncias que inibem qualquer defesa por antecipação.

Na I GM não ameaçavam drones assassinos, mas imperavam os gases venenosos, banidos hoje dos teatros de operações. Na I GM, o combate desenrolou-se, a partir do final de 1914, numa linha contínua de fortificações, que, na frente ocidental, correspondia aos 750 km que vão do Mar do Norte até à fronteira franco-suíça.

Na Ucrânia, a frente fortificada estende-se por mais de 1200 km. Nos dois conflitos a maioria das baixas é causada pela arma de artilharia. As condições dos combatentes nas trincheiras são, em ambos os casos, de enorme dureza, e os tempos médios de sobrevivência (sem algum tipo de ferimento), podemos alvitrar, serão de escassos meses.

Para quem queira conhecer (e sentir) melhor a brutalidade do esforço que Kiev e Moscovo pedem aos seus soldados nesta guerra (nada comparável com as campanhas assimétricas travadas pelos EUA contra rivais muito inferiores) aconselho a leitura do melhor livro sobre a I GM: Tempestades de Aço (edição portuguesa de Guerra & Paz, 2023), da autoria do grande escritor alemão Ernst Jünger (1895-1998), na altura um jovem oficial, miraculosamente sobrevivente a quatro anos de combate contínuo, pontuado por catorze ferimentos graves: “Cinco tiros de espingarda, dois estilhaços de granada, uma bala de granada, quatro granadas de mão e dois estilhaços de projétil de espingarda” (p. 278). Em setembro de 1918, Jünger receberia a mais alta condecoração militar prussiana, Pour le Mérite, normalmente apenas atribuída a generais e marechais.

O livro baseia-se nas anotações dos seus diários de guerra. Nele se pratica um hercúleo exercício de distanciamento e objetividade, tratando a guerra como se fosse um cataclismo natural, semelhante a um sismo ou um furacão. A narrativa está povoada pelos nomes de companheiros mortos, por gratidão com camaradas que por ele deram a vida, pela lembrança de soldados inimigos, mortos pelas suas armas, ou por ele poupados. Entre 1920 e 1978, o livro conheceu sete edições, revistas parcialmente. Na última edição, Jünger, a propósito de um jovem soldado inglês abatido pela sua espingarda, acrescenta o seguinte: “Mais tarde, pensei nele muitas vezes, cada vez mais, com o decorrer dos anos. O Estado, que nos isenta da responsabilidade, não nos pode libertar da dor; temos de ser nós a lidar com ela. Ele penetra até às profundezas dos nossos sonhos” (p. 235).

Na guerra, mesmo os sobreviventes prosseguem um cruel combate. Entre culpa e redenção, para resgatar uma réstia de bondade humana dos campos de batalha.

*Professor universitário