Do “centro extremo” à extrema-direita

(Arnaud Bertrand, in X, 18/01/2025, Trad. Estátua)


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Nenhum dos políticos na periferia da imagem acima está, nem de perto nem de longe, à esquerda.

A verdadeira história do que de mais importante aconteceu desde a Guerra Fria é talvez melhor ilustrada por esta anedota que se conta sobre Margaret Thatcher. Em 2002, perguntaram-lhe qual era a sua maior realização. Ela respondeu: “Tony Blair e o New Labour. Obrigámos os nossos adversários a mudar de ideias”.

E adivinhem: ela tinha razão, esse foi de facto o seu maior feito.

Foi o que aconteceu em todo o Ocidente: a tomada ideológica da “esquerda” por “sociais-democratas” que não tinham qualquer diferença substancial em relação aos seus adversários do outro lado do corredor.

E, para manter a pretensão de que eram diferentes, decidiram centrar a sua plataforma em questões culturais e de identidade, abandonando qualquer desafio ao poder económico ou imperial – reduzindo as lutas pelos direitos civis a desvios convenientes das questões de classe e de mudança sistémica.

 Não é a esquerda que é impopular, é este sucedâneo higienizado dela. Votar tornou-se essencialmente uma escolha entre o mesmo produto com uma embalagem diferente, a ilusão de escolha.

Ainda mais desprezível: os candidatos que surgiram e que estavam realmente à esquerda, que queriam promover mudanças substanciais e significativas, foram infinitamente demonizados com algumas das táticas mais desonestas e nojentas da política. Jeremy Corbyn, no Reino Unido, é um exemplo perfeito disto – difamado como uma ameaça à segurança nacional (e um antissemita) não só pelo seu programa económico, mas também por questionar a sensatez da expansão da NATO e por se opor ao imperialismo ocidental. Em França, estamos atualmente a assistir à aplicação do mesmo manual a Jean-Luc Mélenchon.

Isto remete para o conceito de “centro extremo” descrito por pensadores como Tariq Ali, Pierre Serna ou Alain Deneault. Uma forma radicalizada de liberalismo que se apresenta como moderada e razoável, mas que, na realidade, assume posições extremistas em defesa do status quo – seja através de um apoio inabalável a aventuras imperiais no estrangeiro, seja através da supressão de alternativas democráticas em casa.

Este centrismo é “extremo” na forma como reage ferozmente a qualquer desafio genuíno da esquerda à ordem estabelecida, quer através de campanhas de difamação nos meios de comunicação social, quer através da guerra legal, quer através da utilização cínica da política de identidade como arma para defender tanto a desigualdade interna como o poder imperial.

A ironia e a situação em que hoje nos encontramos é que este “centro extremo”, na sua defesa zelosa da ortodoxia neoliberal e na sua recusa em abordar as queixas económicas fundamentais, acabou por criar as próprias condições de instabilidade social e polarização política, contra as quais ele afirmava lutar. E, em última análise, também as condições que levarão ao seu próprio desaparecimento, como estamos a ver atualmente em todo o Ocidente.

O triste resultado é que, devido ao facto de a esquerda atual ter sido tão completamente demonizada, a raiva e o ressentimento populares legítimos são em grande parte direcionados para movimentos niilistas que, longe de resolverem os nossos problemas fundamentais, canalizam esses sentimentos para bodes expiatórios e para a divisão. Estes movimentos que não vão resolver os nossos problemas fundamentais – embora possam romper com certos aspetos da ortodoxia neoliberal -, oferecem sobretudo uma estética de rebelião, deixando de lado até a pretensão de servir o bem comum.

É aqui que estamos: a vitória do “centro extremo” sobre a esquerda provou ser simultaneamente absoluta e autodestrutiva. A ostentação de Thatcher sobre Blair pode ter sido prematura – seu verdadeiro legado pode não ter sido apenas tornar a esquerda compatível com a economia neoliberal, mas criar um mundo onde nossa única escolha é entre a peste e a cólera.

Fonte aqui

A UE, a Ucrânia, os EUA e a NATO

(Carlos Esperança, in Facebook, 26/01/2025)


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Três anos após a invasão russa, com nacionalismos exacerbados durante a longa guerra civil ucraniana, a UE, em vez de procurar a paz, escolheu entrar na guerra.

A Ucrânia foi arrastada para a guerra por uma figura sinistra, Boris Johnson, o líder do Partido Conservador que retirou o RU da UE. quando a decisão dos eleitores começou a ser moldada pelas redes sociais e o notório fascista, Steve Bannon, assessor político de Trump, veio para a Europa, em 2018, a promover os partidos populistas.

Foi nesta conjuntura que a UE se hipotecou ao Partido Democrata dos EUA e Zelensky se converteu no herói comum, presente em todos os areópagos do chamado Ocidente, convencido de que era o artífice da geopolítica americana e não um joguete seu.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e a Representante da UE para os Negócios Estrangeiros, Kaja Kallas, comprometeram a UE no combate à Rússia com o apoio de Biden e da Nato. Arriscaram a guerra nuclear na Europa, e a chegada de António Costa não lhes mitigou o entusiasmo. Pelo contrário, contagiou-se.

Algumas vezes as duas líderes pareceram dirigentes da Nato, e, tal como Mark Rutte, Macron e Olaf Scholz, tornaram-se irrelevantes enquanto cresceu a extrema-direita e esmoreceu o apoio europeu à causa ucraniana.

O convite de Trump aos líderes europeus da extrema-direita no poder, para a tomada de posse, prenunciou as negociações do fim da guerra na Ucrânia entre EUA e Rússia, sem outros interlocutores. Quem apostou tudo na vitória de Biden revelou total incapacidade de previsão e assumiu um compromisso ruinoso para a UE com a vitória ucraniana.

Já é claro que foram inúteis as sanções à Rússia e pesadas as contrassanções para a UE. Deviam envergonhar-se os responsáveis das promessas de uma derrota rápida da Rússia e do êxito da contraofensiva ucraniana em sucessivas narrativas que impediram a reflexão sensata, agravadas pela censura da opinião pública e o apodo de putinistas.

Os recursos dissipados pela UE com uma guerra que provocou milhões de refugiados à Ucrânia e centenas de milhares de soldados e civis mortos e estropiados, conduziu a UE à estagnação da economia e à insignificância entre os atores políticos mundiais, onde os EUA e a China são as duas únicas grandes potências à escala global.

A subserviência aos interesses dos EUA tornou a Europa politicamente irrelevante, com uma economia em estado comatoso e as democracias periclitantes, à mercê dos humores de um delinquente fascista que despreza o ambiente, o direito internacional e os aliados.

Agora, perante a síndrome de Estocolmo, os vassalos dispostos a agradar ao novo amo, os perdedores, querem 5% do PIB para comprar armas aos EUA e sacrificar a Europa social e os seus princípios: liberdade, democracia e respeito pelos direitos humanos.

Que NATO quer a UE perante o desinteresse dos EUA? É cada vez mais claro que o perigo vem dos EUA e não da Rússia. Porquê e para quê 5% para a Defesa? E defesa de quem?  É preciso gritar a quem não quer ouvir a nossa opinião a esse respeito. NÃO!

A derrota mediática de Israel

(Agostinho Costa, 25/01/2025)


Imagens da libertação de reféns doem mais a Israel do que 70 mil toneladas de explosivos que lançaram em Gaza. “É uma derrota mediática”.


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O Major-general Agostinho Costa considera que, perante a forma como ocorreu a libertação de quatro reféns israelitas, “estamos a assistir a um outro nível da guerra”. “Estamos a assistir a combates no âmbito mediático”, adianta o especialista em Assuntos de Segurança.

Apesar de o vídeo abaixo não mostrar as intervenções dos restantes participantes no painel, posso dizer-vos quer a pivot e o resto do painel, como sempre, tentaram minimizar as conclusões do Major-general, mas debalde. A realidade tem muita força e nós todos também vimos as imagens da libertação dos refens.

Ver aqui o vídeo da intervenção na CNN de Agostinho Costa.