É a Justiça portuguesa, estúpido!

(Por Pedro Almeida Vieira, in Página Um, 24/01/2025)

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Vivemos em Portugal há quase meio século num regime democrático, que gostamos de abrilhantar com descidas pela Avenida da Liberdade, que nos prometeu liberdade e igualdade e, pensava eu, transparência. Contudo, o cravo na lapela tornou-se mais símbolo do que substância.

O peito de muitos continua a encher-se de orgulho com discursos comemorativos e celebrações públicas, brandindo a ameaça de tempos sombrios se os partidos populistas ascenderem ao poder, mas por baixo da retórica subsiste um sistema cada vez mais corrompido, corrompendo valores e princípios, alimentado por compadrios, nepotismos e uma cultura de opacidade que mina os fundamentos da democracia. É aqui que reside a grande tragédia do nosso país: instituições que deveriam ser o pilar de uma sociedade justa tornaram-se cúmplices da perpetuação de um poder corrupto e ineficaz. E no epicentro dessa disfunção encontra-se a Justiça.

Ler artigo completo aqui.

Do Dário da Diana – 12 anos – escola C+S da Musgueira

(Carlos Esperança, in Facebook, 23/01/2025)

(O texto que segue é uma deliciosa e pertinente alegoria. Provavelmente mais ancorada na realidade do que seria desejável. Os meus parabéns ao Carlos Esperança.

Estátua de Sal, 24/01/2025)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

O meu pai ficou eufórico com a posse do Dr. Trump. Nesse dia não trabalhou. Esteve a ver TV. E ainda não voltou a bater na minha mãe! Viu o Dr. Elon Musk, o Dr. Zuckerberg e o Dr. Bezos, e disse que não são como os políticos portugueses, que enriquecem à nossa custa, esses já são ricos e só querem fazer a América grande outra vez.

Gostou muito de ver o Dr. Musk a saltar e, quando o viu a levar a mão ao coração e a erguer o braço, o meu pai, eufórico, levantou-se da mesa, imitou-o, partiu um copo, e gritou «ail, André!!». Já fui ver o que quer dizer ail ou hail, e não vem no Google. Não perguntei à professora porque a minha mãe diz para não repetir o que oiço em casa.

O Dr. Trump perdoou a 1500 patriotas presos por quererem a América grande outra vez. Gostavam tanto do seu presidente que tiveram de matar polícias. Não é como o Dr. Biden que perdoou à família e aos amigos. Eu sou criança, e penso que os presidentes americanos são bondosos e só desejam perdoar.

O meu pai riu-se muito quando o Dr. Trump não beijou a mulher porque empancou no chapéu. Depois, quando foi comemorar a vitória do Dr. Trump, com amigos, a minha mãe disse que a mulher do Trump devia usar um chapéu com arame farpado à volta, mas não sei o que quis dizer com isso. Penso que a minha mãe odeia os amigos do meu pai.

Ele disse que se fosse americano ia ser dono do táxi e depois de uma frota. Em Portugal é uma porcaria por causa dos paquistaneses que lhe roubam os fregueses e que só serão expulsos quando o André limpar Portugal.

Os jornalistas são maçons e comunistas, só dizem mal dos deputados do Chega: do Dr. Pacheco Amorim porque o grupo dele matou um padre para nos salvar do comunismo; do que bate na mulher, se bate é porque merece, pois; do que tirou dinheiro da caixa de esmolas da igreja para não ir parar às mãos do padre; do Dr. Miguel Arruda, amigo do preso político Dr. Mário Machado, por levar uma mala do aeroporto, não compreendem que um brilhante académico açoriano pode ser distraído.

Bem, vou fazer os deveres. Amanhã volto a escrever o que o meu pai diz porque ele diz uma coisa hoje e outra amanhã, e eu não lhe posso dizer isso porque me bate.

Musgueira, 23 de janeiro. Diana.

As raizes da (in)decência

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 24/01/2025)

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Sem surpresa, na sua tomada de posse, Trump mostrou como o farol dos EUA mudou de tonalidade e função. Aboliu-se a pretendida luz exemplar da liberdade, disseminada com intensidade prosélita pelo mundo. A luz de Trump será o holofote de vigilância da fortaleza-América, hostil a tudo o que é estrangeiro, palavra usada, até, como sinónimo de criminoso. Na verdade, o mundo de Trump continua a ser o espelho da América. Um país há muito dominado pelo individualismo desenfreado. Um campo de batalha entre “vencedores e falhados” (winners and losers). É por isso que recuso o superficial consenso gerado nos círculos europeus, considerando Trump como o crepúsculo da “decência” representada por Biden, em cuja despedida muitos europeus choraram como órfãos.

Como aqui escrevi (DN, 17/01/25, ver aqui), o brutalismo de Trump é uma clarificação daquilo que tem sido a política geral dos EUA, com destaque para a externa, sobretudo a partir do momento em que as instituições da democracia representativa foram totalmente capturadas pelos grandes e até pequenos interesses. O Congresso americano é eleito pelo povo, mas é mantido e alimentado pelos grupos de pressão, que, como escreveu John Rawls em 1999, tratam o Capitólio como um mercado onde as leis são compradas e vendidas.

Só por ingenuidade se pode dar crédito a Biden, quando de saída alertou para o risco de oligarquia com Trump. Na verdade, pelo menos desde Reagan, os EUA iniciaram o caminho sem recuo para se transformarem numa plutocracia, um governo ao serviço dos ricos. Basta olhar para as sucessivas reformas fiscais, aliviando o big money.

Que total contraste com os tempos de F.D. Roosevelt e J.F. Kennedy, sobretudo entre 1944 e 1963, quando o imposto sobre os rendimentos mais altos chegou a atingir 90%!

O “decente” Biden terminou o seu mandato indultando o próprio filho e exigindo a Kiev que empurrasse para a fornalha de uma guerra perdida jovens de 18 anos. Arriscou uma escalada bélica, lançando mísseis comandados por militares norte-americanos, contra alvos na Rússia. Antes disso, conseguiu atingir um vetusto objetivo estratégico dos EUA, reiterado em 2019 num relatório da Rand Corporation (Extending Russia): separar (energeticamente, e não só) a UE da Rússia, em particular a Alemanha. Congratulou-se, sem a assumir, com a maior sabotagem industrial da história. O “amigo” Biden, através do Inflation Reduction Act, obrigou à deslocalização de muitas empresas europeias. O cúmulo da (in)decência foi atingido quando a Administração Biden deu cobertura, em Gaza, ao maior genocídio cometido por um Estado contra um povo indefeso, desde o Camboja de Pol Pot.

É de recear que, caso Trump resolva aprender a falar de mansinho com quem por cá manda nos governos e nos media, ainda possamos acabar na Europa, só com a roupa que trazemos no corpo. E a dizer obrigado.

Professor universitário