(Manuel Loff, in Público, 03/03/2026)
Instalou-se um niilismo legal e moral na política internacional que espelha a deriva fascizante que se vai impondo na vida política dos Estados ocidentais.
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Escuso de reiterar que a tese que os iranianos estavam a semanas/dias de conseguir fabricar armamento nuclear é a mentira que mais vezes se conta em Israel e em Washington desde há anos. Ela não deixa de servir permanentemente de pretexto para outra guerra ilegal contra o Irão, que se soma a tantos outros ataques, cada um deles, por seu lado, mais grave do que todos os anteriores. Na fase em que entrámos da trumpização da política internacional, qualquer aparência de legalidade, qualquer avaliação produzida de forma minimamente independente sobre o programa nuclear iraniano, não vale coisa alguma. O que vale é a performance:
“O imperialismo americano não nasceu com Trump, mas agora mostra-se sem máscaras. O Presidente não tenta esconder as suas ingerências [nem] as envolve num discurso moral universalista como os seus antecessores” (Benoit Bréville, Le Monde Diplomatique – edição portuguesa, fevereiro 2026).
É, por isso, inacreditável (ou melhor: revelador) que dirigentes europeus como Merz (“Não damos lições aos nossos parceiros [EUA e Israel] sobre os seus ataques militares contra o Irão”) ou Von der Leyen (condenando a reação iraniana) não tenham, depois das 600 mortes ocorridas em dois dias no Irão, uma palavra sequer sobre a enésima violação da Carta das Nações Unidas. Pelo contrário: a França prepara-se para entrar na guerra de Trump! Com exceção da Espanha e da Irlanda, não há um membro da UE que junte a sua voz a António Guterres. Da parte do Governo português, e como se recordava no editorial de domingo, “a sua obrigação é dar uma explicação ao país sobre o seu envolvimento nesta guerra, e de uma forma clara”, a propósito do uso da Base das Lajes nestas operações militares “sem enquadramento no direito internacional” (PÚBLICO, 1.3.2026).
Instalou-se um niilismo legal e moral na política internacional (a guerra descrita como opção legítima independentemente de qualquer norma) que espelha a deriva fascizante (ataques aos direitos humanos e sociais e à liberdade, o racismo e a xenofobia adotados como ideologia de Estado) que se vai impondo na vida política dos Estados ocidentais.
Também não começou com Trump nem com Netanyahu, nem sequer com Putin; salvo raras exceções, a política da força, mesmo depois de 1945, foi a regra. Os escrúpulos, ou a sua invocação, é que desapareceram. Gaza foi a demonstração cabal da tolerância (e da cumplicidade) com o genocídio, contra todas as lições do Holocausto, e nem as ameaças à Gronelândia impedem que os europeus aplaudam ou se somem às ações dos EUA na Venezuela, em Cuba ou no Irão.
Regressamos sempre ao mesmo ponto: os EUA intervêm impunemente em vários pontos do globo (no Médio Oriente sempre com o auxílio de Israel e da Grã-Bretanha) sob pretextos que ou não têm fundamento algum (incumprimento dos limites ao programa nuclear iraniano, armas de destruição maciça iraquianas), ou não têm respaldo no direito internacional e contradizem tudo quanto demonstra a História do imperialismo e da construção da democracia (“exportar” democracia, “libertação” de povos). No fim, o que emerge é sempre a natureza predatória (o petróleo iraquiano, venezuelano, iraniano) da intenção. Desde 1941 que os EUA estão em guerra permanente: mais de 200 intervenções militares desde 1945, 114 desde o fim da Guerra Fria, 72 desde o ano 2000. Dezenas de milhões de mortos.
Como em Israel, nos EUA o social-militarismo impregna políticas públicas e a cultura, ajudando a manipular as classes populares e as minorias étnicas, cujos filhos morrem na guerra imbuídos da ilusão de representarem uma Nação que nunca os quis.
Em 1942, advertido de que teria de enfrentar “vinte anos de guerrilhas” contra a ocupação nazi se viesse a ganhar a guerra, Hitler disse-se “encantado”: “A Alemanha manter-se-á assim sempre em estado de alerta!” Os territórios soviéticos seriam “um magnífico campo de experiências”, “um espaço infinito para a nossa Força Aérea” – o que Trump acha do Médio Oriente. Uma “paz que dure mais de 25 anos prejudica a nação”, porque “os povos, como os indivíduos, precisam de perder sangue para se poderem regenerar” (Hitler’s Table Talk, 1941-1944). Quais 25 anos! O projeto é o da guerra permanente.
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
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