O Ocidente ainda não está morto, mas está a cavar a sua própria sepultura

(Yanis Varoufakis in blog yanisvaroufakis.eu, 19/12/2024)

(Raramente opino sobre os textos que aqui publico. Deixo o caminho aberto para quem nos lê e que queira manigfestar a sua opinião. Abro uma exceção para este texto de qualidade excecional. Pela capacidade de síntese de séculos de História económica, pela lucidez das propostas de grelha de leitura para muitos dos factos que estão a marcar a atualidade a nível geopolítico. O texto é já de dezembro mas só o descobri hoje e não resisti a trazê-lo. Parabéns ao Yanis Varoufakis.

Estátua de Sal, 06/02/2025)


O poder do Ocidente continua mais forte do que nunca. O que mudou foi o facto de a combinação da desregulação da finança, o colapso das perspectivas para os 50% mais pobres e a entrega das nossas mentes à Big Tech terem dado origem a elites ocidentais prepotentes com pouca utilidade para o sistema de valores do século passado.


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Um grupo heterogéneo de especialistas centristas na Europa e no Sul Global, após a vitória eleitoral de Donald Trump, nos Estados Unidos acredita que o Ocidente está em declínio. Na verdade, nunca tanto poder esteve concentrado nas mãos de tão poucas pessoas (e códigos postais) no Ocidente, mas isso, por si só, significa que o poder do Ocidente está condenado?

Na Europa, há boas razões para abraçar a narrativa do declínio. Assim como o Império Romano mudou a capital para Constantinopla para prolongar a sua hegemonia por mais um milénio, abandonando Roma aos bárbaros, o centro de gravidade do Ocidente mudou para os Estados Unidos, abandonando a Grã-Bretanha e a Europa à estagnação que as torna inertes, atrasados e cada vez mais irrelevantes.

Mas há uma razão mais profunda para o sentimento sombrio dos especialistas: a tendência de confundir o declínio do compromisso do Ocidente com o seu próprio sistema de valores (direitos humanos universais, diversidade e abertura) com o declínio do Ocidente. Como uma cobra trocando de pele, o Ocidente está a ganhar poder ao livrar-se de um sistema de valores que sustentou a sua supremacia durante o século XX, mas que, no século XXI, já não serve mais para esse objetivo.

A democracia nunca foi um pré-requisito para a ascensão do capitalismo, e o que agora consideramos o sistema de valores do Ocidente também não é um pré-requisito para isso. O poder ocidental foi construído, não sobre princípios humanistas, mas sim sobre a exploração brutal dentro de cada país, juntamente com o comércio de escravos, o comércio de ópio e vários genocídios nas Américas, África e Austrália.

Durante a sua ascensão, o poder ocidental não foi contestado no exterior. A Europa enviou milhões de colonos para subjugar povos e extrair recursos. Os europeus fingiram que os nativos que viram não eram humanos e declararam a terra deles terra nullius, uma terra sem povo para os colonos que a desejavam – o primeiro ato de todo genocídio, desde as Américas, África e Austrália à Palestina hoje.

Mas, embora inquestionado no exterior, o poder ocidental foi desafiado em casa pelas classes mais baixas que se levantaram em resposta às crises económicas causadas pela incapacidade de as maiorias serem incapazes de consumir os bens que produziam, em fábricas pertencentes a muito poucos. Esses embates evoluíram para conflitos em larga escala, entre as próprias potências ocidentais que disputavam mercados entre si, culminando em duas guerras mundiais.

Como consequência, as elites do Ocidente tiveram que fazer concessões. Internamente, concordaram com a educação pública, os sistemas de saúde e as pensões. Internacionalmente, a indignação com as guerras cruéis e genocídios do Ocidente levou à descolonização, declarações universais de direitos humanos e tribunais penais internacionais.

Durante algumas décadas após a Segunda Guerra Mundial, o Ocidente deleitou-se com o brilho caloroso da justiça distributiva, da economia mista, da diversidade, do estado de direito nos vários países e de uma ordem internacional baseada em regras. Economicamente, esses valores foram servidos extraordinariamente bem pelo sistema monetário global planeado centralmente e projetado pelos EUA, conhecido como Bretton Woods, que permitiu aos Estados Unidos reciclar os seus excedentes para a Europa e para o Japão, essencialmente dolarizando osseus aliados para sustentar as suas próprias exportações líquidas.

Mas eis que, em 1971, os Estados Unidos se tornaram um país deficitário. Em vez de apertar o cinto, ao estilo germânico, os EUA implodiram Bretton Woods e exponenciaram o seu deficit comercial. A Alemanha, o Japão e mais tarde a China, tornaram-se exportadores líquidos, cujos lucros em dólares foram enviados para Wall Street poder comprar a dívida do governo dos EUA, imóveis e ações de empresas nas quais os EUA permitiam que os estrangeiros investissem.

Então, a classe dominante americana teve uma epifania: porquê fabricar coisas em casa quando os capitalistas estrangeiros podiam despachar os seus produtos e os seus dólares para os EUA? Assim, eles exportaram linhas de produção inteiras para o exterior, desencadeando a desindustrialização do coração manufatureiro da América.

Wall Street estava no centro desse novo e audacioso mecanismo de reciclagem. Para desempenhar o seu papel, não poderia haver restrições. Mas a desregulamentação em larga escala precisava de uma economia e de uma filosofia política para a apoiar. E a procura criou a sua própria oferta: nasceu o neoliberalismo. Em pouco tempo, o mundo estava inundado de derivados, surfando no tsunami de capital estrangeiro que inundava os bancos de Nova Iorque. Quando a onda quebrou, em 2008, o Ocidente quase se afogou com ela.

Os líderes ocidentais em pânico autorizaram a cunhagem de 35 biliões de dólares para refinanciar os especuladores enquanto impunham austeridade às suas populações. A única parte desses biliões que foi realmente investida na economia real foi dirigida para a construção do capital da nuvem que deu às Big Tech o seu poder generalizado sobre os corações e mentes das populações ocidentais.

A combinação da desregulação da finança, da queda das perspetivas dos 50% mais pobres e da rendição das nossas mentes ao capital da nuvem das Big Tech, deu origem a um Admirável Ocidente Novo onde, para as suas elites arrogantes, o sistema de valores do século passado tem pouca utilidade. Livre comércio, regras anti truste, emissões zero de carbono, democracia, abertura à migração, diversidade, direitos humanos e o Tribunal Penal Internacional foram tratados com o mesmo desprezo com que os EUA trataram os seus ditadores amigos – os seus “próprios bastardos” – depois da sua utilidade ter terminado.

A Europa tornou-se impotente, devido à sua incapacidade de criar um poder político comum após ter criado uma moeda comum. O mundo em desenvolvimento está mais endividado do que nunca. Apenas a China se atravessa no caminho do Ocidente. A ironia, no entanto, é que a China não quer ser uma potência hegemónica. Ela só quer vender seus produtos sem impedimentos.

Mas o Ocidente agora está convencido de que a China representa uma ameaça letal. Como o pai de Édipo, que morreu nas mãos do filho porque acreditou na profecia de que este o mataria, o Ocidente está a trabalhar de forma incansável para empurrar e forçar a China a dar um salto, e desafiar seriamente o poder ocidental. Isso pode ser feito, por exemplo, transformando os BRICS num sistema semelhante ao de Bretton Woods, baseado agora não no dólar, mas no renminbi.

Em 2024, o Ocidente continuou a tornar-se mais forte. Mas, depois de atirar o seu sistema de valores para o lixo, também cresceu a sua propensão para arquitetar o seu próprio declínio.

Fonte aqui

100 mil milhões de dólares (pelo menos) desapareceram sem deixar rasto no “buraco negro” da Ucrânia

(José Catarino Soares, in A Tertúlia Orwelliana, 05/02/2025) 

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Volodymyr Zelensky, o putativo presidente da Ucrânia (o seu mandato expirou em 21 de Maio de 2024) não é flor que se cheire, por vários motivos. Um deles é o seguinte: antes do início do seu mandato, Zelensky transferiu a sua avultada fortuna pessoal (estimada em 30 milhões de dólares americanos pela revista americana Forbes, em 21 de Abril de 2022) para paraísos fiscais, a fim de poder fugir aos impostos pagos pelo comum dos seus concidadãos.

Em resumo, no cocuruto do regime ucraniano está um comediante espertalhão e corrupto. Não sou eu quem o diz. É a conclusão que se retira das revelações feitas pelos “Pandora Papers”, uma investigação do International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ) [v. Elena Loginova, “Pandora Papers Reveal Offshore Holdings of Ukrainian President and his Inner Circle.” OCCRP/Slidstvo.Info, 3 October 2021; “Zelensky apanhado nos Pandora Papers com contas offshore.” Correio da Manhã, 6 de Agosto de 2022; Steven Derix & Marina Shelkunova, Zelensky: A Biography of Ukraine’s War Leader. Canbury Press. August 2022].

As revelações dos “Pandora Papers” são anteriores ao início da 2.ª guerra na Ucrânia (24 de Fevereiro de 2022), bem antes, portanto, da operação internacional de rebranding (reformulação de marca) que apresentou Zelensky aos olhos do mundo como se ele fosse o Churchill do século XXI. Parece-me razoável supor que, se essas revelações tivessem sido divulgadas depois dessa operação, teriam sido imediatamente abafadas e os seus autores vilipendiados como “agentes de Putin”.

Seja como for, a corrupção do regime ucraniano é bem conhecida e já provocou muitas baixas no círculo próximo de Zelensky ao longo destes 3 anos de guerra. Mas agora é o próprio Zelensky que veio confessar publicamente que não sabe onde param 100 mil milhões de dólares (!!), 58% do total da ajuda que os EUA lhe forneceram até agora (177 mil milhões de dólares, segundo as contas de Zelensky) para sustentar a sua guerra suicidária.

Em 31 de Outubro de 2024 (últimos dados disponíveis da fonte mais fidedigna, o “Ukraine Support Tracker” do Kiel Institute of World Economy), a ajuda dos 27 países da União Europeia (UE) à Ucrânia cifrava-se em 201 mil milhões de euros, em números redondos. Se a este montante adicionarmos as contribuições do Reino Unido, Suíça, Noruega e Islândia (39 mil milhões de euros), obtemos um total de mais 240 mil milhões de euros de ajuda de 31 países europeus ao esforço de guerra da Ucrânia.

Fonte: Christoph Trebesch, et al. (2024). “The Ukraine Support Tracker: Which countries help Ukraine and how?”. Kiel Working Paper, N.º 2218, 1-75.

Por isso, é muito expectável que o que aconteceu com a ajuda dos EUA à Ucrânia tenha acontecido também com a ajuda da UE+4, e que outros tantos milhares de milhões de euros oriundos desta última proveniência tenham também desaparecido sem deixar rasto no “buraco negro” da Ucrânia. Chegará o dia em que ficaremos a saber toda a verdade sobre o assunto.

As declarações de Zelensky, com legendas em Inglês, podem ser vistas no vídeo aqui.

Fonte do artigo aqui.

Notas Soltas – Meia semana de coisas insólitas

(António Gil, in Substack.com, 05/02/2025)

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O DOGE (Department of Government Efficiency – chefiado por Elon Musk) ‘arrombou’ as portas da sede do FBI para obter os nomes de aproximadamente 5.000 agentes que trabalharam nos casos de 6 de janeiro de 2021 (a invasão do Capitólio em Washington). Isso aconteceu porque a agência se recusou a revelar detalhes sobre os nomes .de seus agentes envolvidos no processo, depois de intimada a fazê-lo pelo Departamento da Justiça.

Então, já sabemos quem vai investigar os investigadores. Falta agora saber quem vai investigar os investigadores dos investigadores. Chegará esse dia?

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Alguns milhares de funcionários da USAID que trabalhavam noutros países vão agora regressar aos EUA. Muitos deles têm experiência em dar golpes de Estado. Será que vão usar seus conhecimentos para organizar uma revolução colorida em casa? Seria divertido!

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Zelensky está habituado a dispor daquilo que não é seu: fê-lo com o dinheiro destinado à Ucrânia (o que foi dado e o que foi emprestado) e mais recentemente propôs entregar as terras raras do país aos EUA. Trump diz que está interessado mas talvez não saiba que a maior parte desses minérios raros estão em territórios que já estão na posse dos russos. É natural que Zelensky lhe diga: pronto, estão dados, agora vocês americanos têm de ir lá buscá-los. De qualquer forma, Trump vai querer um presidente legitimado por eleições para efectuar essa doação, não vá alguém dizer mais tarde que o comediante não estava mandatado para fazer tal negócio. Portanto, a oferta de Zelensky pode desta vez voltar-se contra ele próprio.

(…)

Não é que eu seja fã de Elon Musk mas acho estranho que os Democratas agora digam que ele não foi eleito para suas funções no DOGE. Na verdade ele tinha sido indicado para tal papel fiscalizador mesmo antes das eleições, ou seja, fazia parte do ‘pacote’ de promessas de Trump. Já George Soros ou o seu herdeiro Alex nunca foram mencionados pelos candidatos democratas, o que não os impediu de agirem abertamente ao lado das administrações democratas.

(…)

É apenas quarta-feira mas dificilmente alguém fará uma declaração mais estúpida do que a de Mark Rutte esta semana, mesmo numa era em que a estupidez é abundante. Ele disse que a a frente na Ucrânia não se estava a mover na direcção certa. Também poderia dizer que os soldados ucranianos estavam a avançar…em direcção a Kiev.

Fonte aqui.