Nem tudo o que parece é

(Major-General Carlos Branco, in Diário de Notícias, 09/02/2025)


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Para melhorarem a sua situação estratégica e colocarem os opositores numa posição desvantajosa, as grandes potências provocam crises deliberadamente, de risco calculado, com o intuito de explorar as vulnerabilidades dos rivais. Isso exige uma definição clara e cuidadosa dos objetivos políticos a atingir. A potência desafiadora procura criar ao opositor uma situação insustentável que o leve a empenhar-se, normalmente contrariado. Isso foi evidente quando os EUA apoiaram militarmente os mujahidins, levando à intervenção soviética no Afeganistão, em 1979. O então Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA durante a presidência de Jimmy Carter Zbigniew Brzeziński nunca escondeu essa intenção.

Situação muito semelhante ocorreu na Ucrânia, quando os EUA promoveram o golpe de estado em Kiev, em 2014, levando à ocupação da Crimeia por Moscovo; e na preparação das forças de Kiev para atacarem os ucranianos de origem russa em Lugansk e Donetsk, ao que se adiciona a ameaça de nuclearização da Ucrânia feita pelo presidente Zelensky na conferência de segurança de Munique, o catalisador específico que levou à invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022.

A dificuldade em definir com clareza os objetivos políticos dessas confrontações estratégicas tem sempre resultados desastrosos para o desafiador. Essa falta de esclarecimento conduziu ao que ficou conhecido como “mission creep”, ou seja, a adição gradual de novas tarefas ou atividades a um projeto, de tal forma que o objetivo ou a ideia original se perdem. Isso foi notório em várias intervenções militares norte-americanas, desde o Vietname à Líbia, passando pelo Afeganistão e o Iraque, o que originou um imenso debate no establishment político-militar norte-americano, pelos vistos com resultados positivos. Numa entrevista à revista Time, Eric Green membro do Conselho de Segurança Nacional durante a Administração Biden veio alertar-nos para o facto de o Presidente Biden ter definido três objetivos para a resposta norte-americana e “a vitória da Ucrânia não se encontrava entre eles.” Era sua missão apoiar a Ucrânia “durante o tempo que for necessário”. A formulação desse objetivo era, no entanto, segundo ele, intencionalmente vaga. Assim sendo, qual seria então o significado do envolvimento temporal norte-americano, o tempo que for necessário para fazer o quê?

Segundo Green “não falámos [EUA] deliberadamente sobre questões territoriais.” Os EUA não prometeram à Ucrânia ajudá-la a recuperar os territórios ocupados pela Rússia, em 2014 e 2022, algo que o Presidente Zelensky não terá, ou não quis interiorizar. Por isso, todas as tentativas de Kiev para envolver a NATO na contenda foram infrutíferas. Não conseguiu que a NATO estabelecesse uma No Fly Zone sobre o território ucraniano e quando atribuiu à Rússia a responsabilidade pela queda de um míssil na Polónia, o presidente Biden mandou-o calar.

A definição de um objetivo estratégico exige a clarificação das formas/caminhos e dos meios (ways and means) para os atingir. Washington foi transparente sobre a matéria. Os EUA pretendiam provocar uma revolta contra Putin, levar a cabo uma mudança de regime em Moscovo e derrotar estrategicamente a Rússia (objetivo), sem envolver uma confrontação militar direta com Moscovo (forma/caminho). A Casa Branca fez com que isso não acontecesse, inviabilizando uma série de medidas demasiado perigosas, apesar de Biden não ter tido pejo em o fazer, no final do seu mandato, para dificultar a tarefa de Trump, quando a resolução do problema ucraniano iria brevemente deixar de estar sob a sua alçada.

A guerra por procuração, recorrendo aos soldados ucranianos e ao fornecimento de ajuda militar, o estrangulamento da economia russa através de sanções e a ostracização da Rússia tornando-a num estado pária faziam parte da panóplia dos “meios” a empregar. Zelensky não percebeu que fazia apenas parte dos “meios”. Os seus objetivos não eram os mesmos dos EUA. Numa escala de prioridades nem se encontravam no topo da lista.

O objetivo estratégico norte-americano era arrojado. A reduzida probabilidade de sucesso, que tinha no início do conflito, esvaiu-se nestes três anos de guerra, prestes a completarem-se. Ao contrário do apregoado, a economia russa não soçobrou, conseguiu encontrar novos mercados para a sua energia e as sanções tiveram um efeito modesto. A sua capacidade militar cresceu, o poder de Putin aumentou controlando “as alavancas do poder, desde os serviços militares e de segurança aos meios de comunicação social e à narrativa pública.” E afirmou-se no chamado Sul Global consolidando a sua posição nos BRICS. Apesar do revés estratégico, Washington conseguiu resistir à tentação de mission creep.

Entre outras lacunas e à semelhança de outros casos, como no Iraque e na Líbia, Washington não tem alternativas de poder a Putin que possa controlar. Se há algo que une os diferentes grupos da elite russa, incluindo os mais liberais, é a sua clara oposição à expansão da NATO.

Ainda, segundo Green, na opinião da Casa Branca, estava para além “da capacidade da Ucrânia recuperar os territórios ocupados pelos russos, mesmo com uma ajuda robusta do Ocidente” – algo repetido pelo recente Secretário de Estado Marco Rubio. “Não seria uma história de sucesso, em última análise”, disse Green. “O objetivo mais importante era a sobrevivência da Ucrânia como um país soberano e democrático, livre para prosseguir a integração com o Ocidente”. Por outras palavras, Biden incorporou nos seus “meios” defender a Ucrânia contra a Rússia, que não é o mesmo que derrotar a Rússia, o objetivo político último de Washington.

Se Washington estava ciente de que a Ucrânia não tinha capacidade para recuperar os territórios ocupados, como se explica o veto ao acordo de paz, em março de 2022, em Istambul, quando era possível negociar um resultado consideravelmente menos gravoso para Kiev do que agora, passados três anos de guerra? Como ficou demonstrado, o argumento de prosseguir com os combates para poder negociar no futuro em condições favoráveis não passa de uma falácia. A verdadeira razão é outra. Dois meses de guerra eram insuficientes para causar o atrito e a erosão necessária – económica e política – às hostes russas, para se atingirem os objetivos políticos estabelecidos por Washington. Recordamo-nos dos comentadores que afirmavam não ser a Rússia capaz de resistir mais de seis meses ao esforço de guerra que lhe estava a ser exigido.

Apesar da propaganda dizer todos os dias que a economia russa vai soçobrar na semana seguinte, isso está longe de acontecer, como é reconhecido no Ocidente por entidades de reconhecida credibilidade (FMI, Bloomberg, Foreign Affairs). Na verdade, não é apenas a Ucrânia que enfrenta um esgotamento estratégico. Os Estados Unidos e os países da União Europeia encontram-se numa situação semelhante, tendo demonstrado a sua incapacidade para apoiar um esforço de guerra prolongado. O subestimar da capacidade política, económica e militar russa pelos estrategistas de Washington está a custar-nos caro. Aquilo que se projetou erradamente como um “passeio na praia” está a transformar-se num pesadelo. Para lá da constatação óbvia de Rubio e da anunciada pressa do presidente Trump em acabar com a guerra, não sabemos o que pensa fazer a nova liderança norte-americana para terminar o conflito. Vai reformular o objetivo político da Administração Biden? Recorrendo a que formas/caminhos e com que meios? Será que tem um pensamento consolidado para responder a estas questões?

O cancelamento do fornecimento da ajuda à Ucrânia e a exigência da realização de eleições por Kiev, tornada pública por Keith Kellogg Jr., o enviado especial do presidente Trump, dão-nos pistas interessantes, mas ainda insuficientes para podermos antecipar o modo como o conflito irá terminar.

*Major-general (na reserva)

Depois de 16 meses em cativeiro não sei o que Netanyahu esperava

(Agostinho Costa, 08/02/2025)


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O aspeto físico dos três reféns libertados esta manhã pelo Hamas choca Israel, mormente Netanyahu. O Major-general Agostinho Costa responde-lhe: “Depois de 16 meses em cativeiro não sei o que Netanyahu esperava”.

Além disso, o Major-general Agostinho Costa acredita que Benjamin Netanyahu “deve explicar aos três israelitas porque tiveram dez meses a mais do que aquilo que seria possível, face às circunstâncias em que se encontram”. “Netanyahu não tem moral nenhuma. O processo da sua libertação só não foi concluido mais cedo por teimosia de Israel”, acrescenta.

Ver aqui o vídeo da intervenção na CNN do Major-general Agostinho Costa.

Interferência americana na Europa? Sempre existiu

(António Gil, in Substack.com, 09/02/2025, Revisão da Estátua)

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Durante décadas, os burocratas europeus nunca se queixaram por os EUA interferirem nas eleições europeias, até gostavam e aplaudiam tais interferências. O caso mais recente, a anulação das eleições presidenciais na Roménia é só mais um numa longa lista de casos, embora seja um dos mais descarados.

Então por que razão a Europa se zanga agora com a investida de Musk no panorama político europeu, apoiando a AfD, o Partido da Reforma de Farage e previsivelmente, num futuro próximo, a Assembleia Nacional de Marine Le Pen? todos sabemos a resposta: desta vez os beneficiários dessa interferência não são os mesmos do costume.

O extremismo centrista, que dominou desde sempre o poder na Europa, também graças ao compadrio neoliberal americano não viu isto chegar apenas porque se recusou a ler o que está escrito na parede.

Macron, Scholz, Starmer, nenhum deles quis aceitar sequer a possibilidade da derrota do liberalismo, todos eles se afirmaram seguros que isso jamais aconteceria.

Na verdade, foram mais longe na recusa dessa probabilidade que se revelou de certa forma previsível: interferiram claramente na eleição americana lançando todo o seu peso na candidatura de Kamala Harris.

Fizeram-no de forma bastante aberta, aliás, nem tentaram escondê-lo. Starmer foi o que mais arriscou, enviando delegações de seu partido aos comícios da candidata agora derrotada. Macron e Scholz não fizeram isso mas certamente desqualificaram e insultaram Trump e o seu MAGA.

De resto a não eleita Comissão Europeia já tinha várias vezes tentado interferir nas eleições nacionais da própria Europa. Ursula disse, por ocasião das últimas presidenciais italianas, tentando impedir a vitória de Giórgia Meloni: nós temos ferramentas para impedir os Partidos Populistas de tomar o poder.

Bom, nesse caso as ferramentas falharam mas coagiram a actual presidente italiana a não desafiar em demasia a máquina burocrática Europeia. Portanto toda a gritaria sobre os EUA interferindo nas eleições europeias soa a hipócrita.

O que falta saber é até que ponto a nova administração americana vai interferir porque há diversas formas (e ferramentas, como Ursula o afirmou) de interferir, umas mais subtis, outras mais descaradas.

Até agora tudo se resumiu a alguns tweets de Musk mas as reacções a esse acto propagandístico de Musk têm sido tão descabeladas que a parada pode subir, do outro lado do Atlântico.

A recente criação do Escudo Digital Europeu, anunciada recentemente pela comissão Europeia, será vista por aquilo que é: uma medida pensada e executada contra a administração Trump.

A escalada pode começar a qualquer momento e envolver ameaças, retaliações económicas e talvez mesmo ajuda financeira aos adversários do liberalismo na Europa. Tudo coisas que já foram feitas no passado e com assinalável sucesso, só que a favor de quem agora se queixa de interferência.

Os receios dos neoliberais europeus fazem sentido: eles sabem bem a quem ficaram a dever os seus cargos e mordomias num passado recente. Mas ao baterem no peito e jurarem luta, talvez estejam apenas a atrair tudo o que dizem querer evitar.

Que parte do carácter retaliador de Trump é que eles e elas ainda não perceberam?

Fonte aqui.