Afinal havia outro modo

(João Mc-Gomes, in VK, 13/02/2025, Revisão da Estátua)


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Trump não tem medo do “imperialismo russo” e pretende negociar um Acordo de Paz para o conflito ucraniano que poderia ter sido obtido em 2022. A UE e os dirigentes europeus, em maioria, mostraram ao longo de três anos completos a sua incapacidade de tentar resolver o conflito, baseados na constante mentira propalada de que “a Rússia quer atacar a Europa“, porque Putin tem uma politica de ambições imperialistas.

Esse argumento das “ambições imperialistas de Putin” perde agora força e razão de ser não apenas porque, afinal, existe a possibilidade de uma solução negociada como, na realidade, se reduz a ações que Putin tomou com justificação na defesa objetiva do seu território: politicas especificas e objetivos muito concretos de poder tornar a Federação Russa numa nação capaz de usar as suas potencialidades num Mundo Económico em mudança permanente.

O argumento de que a Rússia tem “ambições imperialistas” que foi lançado durante três anos, muitas vezes partiu de uma análise superficial e alinhada com a narrativa ocidental predominante, ignorando nuances históricas e geopolíticas importantes.

Vamos desconstruir essa acusação com base em factos e contextos:

.Putin e outros líderes russos, desde o colapso da URSS, alertaram repetidamente para o avanço da NATO em direção às fronteiras russas. Em 1990, há registos de promessas ocidentais (feitas a Gorbachev) de que a NATO “não avançaria uma polegada para o leste” em troca da reunificação da Alemanha. No entanto, essa promessa foi ignorada, e a aliança expandiu-se sucessivamente, incluindo países do antigo bloco soviético e até ex-repúblicas da URSS, como os estados bálticos.

Essa expansão tem que ser vista como uma violação do equilíbrio estratégico que havia sido estabelecido, levando a Rússia a adotar medidas defensivas. A segurança nacional de um país não pode ser analisada de forma isolada – se uma potência nuclear vê uma aliança militar hostil aproximar-se das suas fronteiras, é natural que tome contramedidas.

. Se a Rússia fosse um Estado imperialista agressivo, não teria priorizado a construção de laços comerciais estratégicos com a Europa durante décadas. O projeto Nord Stream, por exemplo, era uma prova da tentativa russa de se integrar economicamente no continente. No entanto, essa cooperação foi desmantelada, não pela Rússia, mas por ações políticas dos EUA e de certos setores europeus.

. Um verdadeiro império expansionista buscaria anexar territórios e estabelecer colónias, mas a Rússia, ao contrário dos EUA, não tem bases militares espalhadas pelo mundo nem um histórico recente de invasões múltiplas.

O conflito na Ucrânia é frequentemente citado como “prova” do imperialismo russo, mas há uma série de fatores negligenciados:

– O golpe de 2014 em Kiev, apoiado pelo Ocidente, instalou um governo hostil à Rússia.

– A repressão contra populações russófonas no Donbass levou a uma guerra civil que durou anos antes da intervenção russa em 2022.

– Os Acordos de Minsk, que previam a autonomia para as regiões separatistas, foram ignorados pela Ucrânia, que, segundo declarações ocidentais posteriores (como as de Angela Merkel e François Hollande), nunca teve intenção real de cumpri-los.

A ação russa na Ucrânia pode ser vista como uma resposta estratégica à crescente militarização da região e à ameaça direta que representava para a sua segurança. Não se trata de uma guerra de conquista territorial clássica, mas de uma tentativa de reverter o avanço ocidental sobre um espaço historicamente ligado à esfera de influência russa.

Imperialismo, no sentido clássico, envolve expansão territorial sistemática, domínio económico sobre outras nações e controle político direto. A Rússia, ao longo das últimas décadas, não tem um histórico comparável ao dos EUA, que interveio militarmente em dezenas de países e manteve ocupações prolongadas (como no Afeganistão e no Iraque) e, agora, já fala em controlar a Groenlândia, em comprar a Faixa de Gaza, em açambarcar o Canal do Panamá, etc.

Se há um ator no cenário global que mantém uma política claramente imperialista, é a NATO liderada pelos EUA, que força alinhamentos políticos, promove golpes de Estado e impõe sanções económicas contra nações que não seguem a sua linha.

Essa acusação de “ambições imperialistas russas” parece mais um slogan político do que o resultado de uma análise objetiva da realidade. Tem que se reconhecer que a Rússia tem adotado políticas defensivas diante da crescente pressão do Ocidente, e que a sua atuação na Ucrânia, embora possa ser questionável pelos métodos e não pelos objetivos, não pode ser vista isoladamente sem considerar o contexto geopolítico dos últimos 30 anos.

Por outro lado, a política ocidental em relação ao conflito na Ucrânia foi, em muitos aspetos, um enorme erro estratégico e um desastre económico para a própria Europa. Vários fatores demonstram que uma solução diplomática teria sido mais benéfica desde o início, mas foi deliberadamente sabotada por interesses políticos e geopolíticos específicos.

Nos primeiros meses do conflito, houve negociações reais entre a Rússia e a Ucrânia, mediadas por países como a Turquia. O próprio governo ucraniano, sob pressão das suas forças armadas que estavam sofrendo pesadas baixas, mostrou-se disposto a aceitar um acordo. No entanto, (a mando de quem?) Boris Johnson, então Primeiro-Ministro do Reino Unido, foi a Kiev e pressionou Zelensky para não assinar qualquer tratado, garantindo que o Ocidente continuaria a apoiar a Ucrânia militarmente.

Isso significou que, em vez de encerrar rapidamente o conflito e evitar a destruição massiva, o Ocidente optou por prolongar a guerra, numa tentativa de “enfraquecer a Rússia” através de uma guerra por procuração.

A UE embarcou numa política de sanções contra a Rússia que, não apenas falhou em colapsar a economia russa, como prejudicou gravemente as próprias economias europeias. A dependência do gás russo foi subestimada, e as alternativas (como o gás natural liquefeito dos EUA) mostraram-se muito mais caras. A desindustrialização da Alemanha e o aumento do custo de vida em toda a Europa foram consequências diretas dessa má estratégia.

Além disso, a Europa perdeu o acesso a um mercado de exportação valioso e competitivo, e a decisão de seguir as diretrizes de Washington na política energética teve um impacto negativo direto na sua competitividade industrial.

Durante quase três anos, o Ocidente tentou alimentar a narrativa de que a Ucrânia poderia vencer militarmente a Rússia, fornecendo armas, apoio logístico e financiamento. No entanto, isso ignorou várias realidades estratégicas fundamentais:

– A Rússia tem uma capacidade industrial militar superior.

– A Ucrânia tem um problema de recrutamento cada vez maior, enquanto a Rússia conseguiu mobilizar centenas de milhares de soldados.

– A NATO não poderia intervir diretamente sem risco de escalada nuclear.

Agora, com Trump indicando que deseja negociar um fim para o conflito, percebe-se que toda essa estratégia ocidental apenas prolongou desnecessariamente o sofrimento ucraniano.

Muitos governos europeus que apoiaram a política anti Rússia sofreram desgaste interno:

– Macron enfrenta instabilidade na França.

– Scholz lida com uma economia alemã em crise e crescente insatisfação.

– O Reino Unido passa por dificuldades económicas e políticas após o governo de Johnson.

– A política ucraniana da UE alienou milhões de eleitores, que percebem agora que os sacrifícios feitos não levaram a resultados concretos.

Se Trump realmente chegar a um acordo com Putin, isso evidenciará que toda a abordagem ocidental foi um erro desde o início. Em vez de garantir segurança para a Ucrânia e estabilidade para a Europa, a guerra prolongada trouxe destruição, crises económicas e instabilidade política. O erro do Ocidente, e em especial da UE, foi não ter aceitado negociar em 2022. O erro foi permitir que interesses externos à Europa ditassem a política de segurança do continente. Agora, resta aos europeus pagar o preço dessas más decisões.

A “Culpa” de Orwell – A Ucrânia de 2014 a 2024: uma década a fabricar a novilíngua

(Luís M. Loureiro , in A Tertúlia Orwelliana, 12/02/2025) 

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Who controls the past controls the future. Who controls the present controls the past”. 

[Quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado]

George Orwell (1949), in Nineteen Eighty-Four


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Se há quem tenha as costas largas pela tragédia que se abateu sobre o nosso modo de vida “democrático”, é George Orwell. Ele viu tudo, com quase um século de adianto. Viu tanto que hoje, facilmente, o vemos a ele na ficção tornada real em que passeamos os nossos dias. Em que passeamos a ilusão de viver num mundo onde somos livres de dizer o que pensamos, especialmente quando isso não interessa para nada — experimentemos dizer o que pensamos quando isso interessa, de facto, e veremos o que nos acontece.

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Isto ainda é só o início

(Manuel Loff, in Público, 11/02/2025)

Não há dúvida: Gaza, além de se ter tornado um barómetro moral de validade universal, tornou-se um laboratório da nova ordem mundial.


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Há dias, durante a visita a Washington de um Netanyahu sob mandado de captura do TPI por crimes contra a humanidade, Trump divagou sobre o seu plano para construir uma “Riviera do Médio Oriente” sobre as ruínas e as dezenas de milhares de palestinianos mortos pelas tropas israelitas em Gaza. Para lá do desplante (que Netanyahu achou ser um “pensamento fora da caixa”), típico do presidente-empresário narcísico (réplica em muito mais perigosa do Berlusconi de há 30 anos), o mais sinistro foi a forma como somou Gaza à lista de territórios que passaram a estar sob ameaça de ocupação (Gronelândia, Canadá, Canal do Panamá). A frase usada foi que os EUA vão “ocupar” (“take over”) e “ser donos” (“own”) da Faixa de Gaza para “criar desenvolvimento económico”. Com um detalhe. Os 2,3 milhões de palestinianos que resistem em Gaza devem transferir-se para “países vizinhos” que, espera ele, tenham “um coração humanitário” e “grande riqueza”, pensando em países (Jordânia, Egito) cujos governos estão há muito na dependência dos EUA.

Não há dúvida: Gaza, além de se ter tornado um barómetro moral de validade universal, tornou-se um laboratório da nova ordem mundial. A começar pela desfaçatez do novo Presidente racista que iniciou o mandato com a caça aos imigrantes e refugiados nos EUA e que recomenda agora aos outros (que há quase 80 anos acolhem milhões de refugiados palestinianos) que façam o contrário do que ele faz no seu próprio país. Pelo desprezo mais absoluto pelo direito internacional: depois de apoiar, por via militar, económica e diplomática, uma operação categorizada como genocida por parte dos procuradores do TPI, e suficientemente documentada como tal por várias agências da ONU, o Governo dos EUA encarrega Israel de proceder à limpeza étnica de Gaza e pressiona os seus “aliados” árabes a abrir as portas para a deslocação forçada da população. No fim, e recuperando a mais colonial das tradições do imperialismo, avisa que procede à ocupação de um território à revelia de todas as regras de direito, e em nome do… “desenvolvimento económico”!

No mesmo dia, Trump, que, à moda de Hitler em 1933, já anunciou a saída dos EUA da OMS e do Conselho de Direitos Humanos da ONU, decretou sanções contra todos os funcionários do TPI responsáveis pelos mandados de captura de Netanyahu e do seu ex-ministro da Defesa. “Qualquer pessoa ligada à investigação dos crimes cometidos em Gaza que ‘auxilie, patrocine, dê apoio financeiro, material ou tecnológico’” ao TPI poderá ser sancionada, o que representa uma ameaça às ONG, escritórios de advogados e “funcionários dos Estados-membros do TPI”, como Portugal, “que estão obrigados a cooperar com este”. Recordemos que aquele que os nossos governos têm descrito como o nosso “principal aliado” aprovou em 2002 uma lei que “dá ao Presidente americano plenos poderes para libertar uma pessoa detida na prisão do TPI em Scheveningen”, sede do Tribunal, que foi apelidada pelas ONG como “Lei de Invasão da Haia”!

O direito internacional, as organizações que resultam da sua institucionalização, os tratados e convenções em que se sustenta, os procedimentos para a verificação do seu cumprimento, são o que são: limitados. É em momentos históricos como este que percebemos bem como pairam algures sobre a ilusão de que são capazes de dar segurança jurídica a um sistema internacional profundamente desigual.

A sua genealogia é tipicamente ocidental: os mesmos que o começaram a codificar impunham uma pata imperial sobre continentes inteiros e imaginaram que as normas funcionariam sempre a seu favor. O direito internacional devia servir para disciplinar os outros. Direitos humanos e autodeterminação dos povos, os outros que respeitassem. Já vimos este filme. Tratados e convenções convivem com as guerras. No dia em que as organizações internacionais encarregadas de os fazer cumprir são desmanteladas, é só mais simples fazer a guerra.

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico