Do diário da Diana – 12 anos – Escola C+S da Musgueira – Capítulo IV

(Carlos Esperança, in Facebook, 10/02/2025)

(O texto que segue é mais uma deliciosa e pertinente alegoria. Provavelmente mais ancorada na realidade do que seria desejável. Os meus parabéns ao Carlos Esperança.

Estátua de Sal, 10/02/2025)


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No domingo, enquanto o meu pai andava a dizer mal dos imigrantes aos fregueses, a minha mãe falou-me da reunião em Madrid de um bando que designou, sem conhecer a família, de uma forma que uma menina não diz nem ela costuma dizer.

Na presença do meu pai fica sempre calada porque, se abre a boca, manda-a calar e, se o contraria, pode dar-lhe uma estalada.

Falou-me dos que estiveram presentes, que o meu pai admira, e disse que era o bando de filhos de quem não digo, que foram ali celebrar o Trump, a quem devem o êxito, a ele e ao Musk. Até adaptaram o seu slogan, para fazer a Europa grande outra vez (MEGA).

Disse que o André foi pregar em espanhol a homilia de Portugal, esquecido da alcateia que o desfeiteia com as mais diversas patologias. O rapaz, rapaz é o André, passou aí de verme nacional a verme internacional. Foi a Madrid dizer do PM espanhol o mesmo que lá tinha dito o Paulo Rangel num comício do PP ao serviço do sr. Feijóo.

E os pesos pesados, sem o chefe, entretido a negociar terras raras da Ucrânia, ladraram depois do André. A sede da internacional fascista é na Sala Oval, a sala onde o Trump dispara decretos e o Elon Musk algoritmos.

As vedetas eram Viktor Orbán, PM da Hungria, e Marine Le Pen, que pode ser PR da França. Excitaram-se a elogiar o Trump de quem todos gostam muito, e falaram dele como cães a salivar por um osso. Trump até criou o Desparamento da Fé evangélica, espécie de Ministério para a Propagação da Virtude e Prevenção do Vício dos talibãs do Afeganistão.

O vice-primeiro-ministro da Sr.ª Meloni, Matteo Salvini, da Itália, e o holandês do PVV, Geert Wilders, foram outros distintos entusiastas presentes que, além de Trump, também adoram Netanyahu, ausente para limpar Gaza para Trump construir a nova Riviera.

O bando de que a minha mãe fala, diz-se patriota e quer reconquistar a Europa. Eu até julgava que a Europa era de todos os europeus, e esses patriotas dizem que tem muitos muçulmanos, que urge expulsá-los para a tornar cristã. Quem os conhece, diz que este Papa não lhes dá a bênção.

A cimeira fascista de Madrid, onde foi anfitrião o líder do Vox, Santiago Abascal, abriu com o ex-ministro das Finanças da Estónia Martin Helme após a mensagem em vídeo da Corina Machado.

Os democratas que assistiram na TV, ficaram desolados ao verem que a D. Corina, a presidente da Venezuela que tinha ganhado as eleições, afinal também era fascista, uma desilusão mais a juntar ao Juan Guaidó.

Eu também falei muito, mas só quis escrever o que ela disse, para mais tarde recordar. Hoje ainda tenho muito para estudar e ela ainda não regressou para me tirar dúvidas.

Musgueira, 10 de fevereiro de 2025 – Diana

O que ele gostava mesmo era ser da PIDE

(Major-General Carlos Branco, in Blog Cortar a Direito, 09/02/2025)


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Este jovem que dá pelo nome de João Gomes (JG), sob o disfarce de um avatar, publicou na sua página do “X”, a imagem que podem ver acima junto com o seguinte texto: “São estes alguns dos rostos que em Portugal servem o regime de Putin. Se souberem mais, diga-se que se vai adicionando.”, como podem constatar.

Há um website mantido por elementos ucranianos nazis que faz algo semelhante. Publica uma lista das pessoas que considera inimigos da Ucrânia, com informação pessoal, com o intuito de lhes causar dano pessoal. Ao fim do dia, como agora se diz, recorrendo à terminologia anglo-saxónica, o objetivo do post deste jovem não anda muito longe disso.

Apesar da sua tenra idade (rondará os 35 anos), apresenta-se como conselheiro sénior da Iniciativa Liberal (não tenho nada contra a IL), para além de comentador de futebol, olheiro de futebolistas, e associado a um projeto falhado de alojamentos de curta duração para turistas.

Também fez algumas incursões no jornal Observador (dizem que é o jornal da IL) publicando uma rábula de frases feitas e banalidades sobre a liberdade. Teve a lata de dizer ser “Portugal um país historicamente associado aos valores da liberdade e da democracia”. Esqueceu-se de dizer qual era a janela temporal a que se referia. Mas isso não interessa. É uma coisa bonita de se dizer. Afinal a ignorância também deve ter direito a expressar a sua opinião. E tem uma vantagem, impede de ver o ridículo.

O que é mesmo cool para subir na vida é dar nas vistas, um conselheiro sénior tem de dizer umas coisas – mesmo que sejam umas banalidades, aproveitando o que está a dar para malhar nuns tipos que com a idade dele já tinham estado em cenários de guerra, e que talvez tenham alguma propriedade para falar de coisas que JG ignora.

Ah, e falar assim de coisas fixes como liberdade, globalização, resiliência, tolerância, multiculturalismo. A inteligência artificial dá um jeito do caraças. Não é preciso ter ideias. Basta ver se as vírgulas estão no sítio certo. E, entretanto, ir seguindo as crianças que dão toques certeiros na bola. Depois de ler a sua prosa em que não diz nada concluo que aquilo em que o Dr. JG é mesmo bom é em não pensar.

O bufo

Há formas dignas de subir na vida, mas andar armado em bufo a apontar o dedo a pessoas por delito de opinião, como se fossem criminosos, não parece ser a mais adequada, nem compaginável com a regurgitação de chavões sobre liberdade de pensamento, mesmo que não se perceba o significado daquilo que se diz.

Mas JG  tem de o fazer porque afinal ele é conselheiro sénior. E um dia, portando-se bem, ainda vai ser presidente da junta.

PS: Das nove pessoas nas fotografias, só conheço pessoalmente duas. Uma nem sei quem é. As restantes quatro conheço-as da televisão. Nunca cheguei à fala com elas.

Fonte aqui.

Nem tudo o que parece é

(Major-General Carlos Branco, in Diário de Notícias, 09/02/2025)


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Para melhorarem a sua situação estratégica e colocarem os opositores numa posição desvantajosa, as grandes potências provocam crises deliberadamente, de risco calculado, com o intuito de explorar as vulnerabilidades dos rivais. Isso exige uma definição clara e cuidadosa dos objetivos políticos a atingir. A potência desafiadora procura criar ao opositor uma situação insustentável que o leve a empenhar-se, normalmente contrariado. Isso foi evidente quando os EUA apoiaram militarmente os mujahidins, levando à intervenção soviética no Afeganistão, em 1979. O então Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA durante a presidência de Jimmy Carter Zbigniew Brzeziński nunca escondeu essa intenção.

Situação muito semelhante ocorreu na Ucrânia, quando os EUA promoveram o golpe de estado em Kiev, em 2014, levando à ocupação da Crimeia por Moscovo; e na preparação das forças de Kiev para atacarem os ucranianos de origem russa em Lugansk e Donetsk, ao que se adiciona a ameaça de nuclearização da Ucrânia feita pelo presidente Zelensky na conferência de segurança de Munique, o catalisador específico que levou à invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022.

A dificuldade em definir com clareza os objetivos políticos dessas confrontações estratégicas tem sempre resultados desastrosos para o desafiador. Essa falta de esclarecimento conduziu ao que ficou conhecido como “mission creep”, ou seja, a adição gradual de novas tarefas ou atividades a um projeto, de tal forma que o objetivo ou a ideia original se perdem. Isso foi notório em várias intervenções militares norte-americanas, desde o Vietname à Líbia, passando pelo Afeganistão e o Iraque, o que originou um imenso debate no establishment político-militar norte-americano, pelos vistos com resultados positivos. Numa entrevista à revista Time, Eric Green membro do Conselho de Segurança Nacional durante a Administração Biden veio alertar-nos para o facto de o Presidente Biden ter definido três objetivos para a resposta norte-americana e “a vitória da Ucrânia não se encontrava entre eles.” Era sua missão apoiar a Ucrânia “durante o tempo que for necessário”. A formulação desse objetivo era, no entanto, segundo ele, intencionalmente vaga. Assim sendo, qual seria então o significado do envolvimento temporal norte-americano, o tempo que for necessário para fazer o quê?

Segundo Green “não falámos [EUA] deliberadamente sobre questões territoriais.” Os EUA não prometeram à Ucrânia ajudá-la a recuperar os territórios ocupados pela Rússia, em 2014 e 2022, algo que o Presidente Zelensky não terá, ou não quis interiorizar. Por isso, todas as tentativas de Kiev para envolver a NATO na contenda foram infrutíferas. Não conseguiu que a NATO estabelecesse uma No Fly Zone sobre o território ucraniano e quando atribuiu à Rússia a responsabilidade pela queda de um míssil na Polónia, o presidente Biden mandou-o calar.

A definição de um objetivo estratégico exige a clarificação das formas/caminhos e dos meios (ways and means) para os atingir. Washington foi transparente sobre a matéria. Os EUA pretendiam provocar uma revolta contra Putin, levar a cabo uma mudança de regime em Moscovo e derrotar estrategicamente a Rússia (objetivo), sem envolver uma confrontação militar direta com Moscovo (forma/caminho). A Casa Branca fez com que isso não acontecesse, inviabilizando uma série de medidas demasiado perigosas, apesar de Biden não ter tido pejo em o fazer, no final do seu mandato, para dificultar a tarefa de Trump, quando a resolução do problema ucraniano iria brevemente deixar de estar sob a sua alçada.

A guerra por procuração, recorrendo aos soldados ucranianos e ao fornecimento de ajuda militar, o estrangulamento da economia russa através de sanções e a ostracização da Rússia tornando-a num estado pária faziam parte da panóplia dos “meios” a empregar. Zelensky não percebeu que fazia apenas parte dos “meios”. Os seus objetivos não eram os mesmos dos EUA. Numa escala de prioridades nem se encontravam no topo da lista.

O objetivo estratégico norte-americano era arrojado. A reduzida probabilidade de sucesso, que tinha no início do conflito, esvaiu-se nestes três anos de guerra, prestes a completarem-se. Ao contrário do apregoado, a economia russa não soçobrou, conseguiu encontrar novos mercados para a sua energia e as sanções tiveram um efeito modesto. A sua capacidade militar cresceu, o poder de Putin aumentou controlando “as alavancas do poder, desde os serviços militares e de segurança aos meios de comunicação social e à narrativa pública.” E afirmou-se no chamado Sul Global consolidando a sua posição nos BRICS. Apesar do revés estratégico, Washington conseguiu resistir à tentação de mission creep.

Entre outras lacunas e à semelhança de outros casos, como no Iraque e na Líbia, Washington não tem alternativas de poder a Putin que possa controlar. Se há algo que une os diferentes grupos da elite russa, incluindo os mais liberais, é a sua clara oposição à expansão da NATO.

Ainda, segundo Green, na opinião da Casa Branca, estava para além “da capacidade da Ucrânia recuperar os territórios ocupados pelos russos, mesmo com uma ajuda robusta do Ocidente” – algo repetido pelo recente Secretário de Estado Marco Rubio. “Não seria uma história de sucesso, em última análise”, disse Green. “O objetivo mais importante era a sobrevivência da Ucrânia como um país soberano e democrático, livre para prosseguir a integração com o Ocidente”. Por outras palavras, Biden incorporou nos seus “meios” defender a Ucrânia contra a Rússia, que não é o mesmo que derrotar a Rússia, o objetivo político último de Washington.

Se Washington estava ciente de que a Ucrânia não tinha capacidade para recuperar os territórios ocupados, como se explica o veto ao acordo de paz, em março de 2022, em Istambul, quando era possível negociar um resultado consideravelmente menos gravoso para Kiev do que agora, passados três anos de guerra? Como ficou demonstrado, o argumento de prosseguir com os combates para poder negociar no futuro em condições favoráveis não passa de uma falácia. A verdadeira razão é outra. Dois meses de guerra eram insuficientes para causar o atrito e a erosão necessária – económica e política – às hostes russas, para se atingirem os objetivos políticos estabelecidos por Washington. Recordamo-nos dos comentadores que afirmavam não ser a Rússia capaz de resistir mais de seis meses ao esforço de guerra que lhe estava a ser exigido.

Apesar da propaganda dizer todos os dias que a economia russa vai soçobrar na semana seguinte, isso está longe de acontecer, como é reconhecido no Ocidente por entidades de reconhecida credibilidade (FMI, Bloomberg, Foreign Affairs). Na verdade, não é apenas a Ucrânia que enfrenta um esgotamento estratégico. Os Estados Unidos e os países da União Europeia encontram-se numa situação semelhante, tendo demonstrado a sua incapacidade para apoiar um esforço de guerra prolongado. O subestimar da capacidade política, económica e militar russa pelos estrategistas de Washington está a custar-nos caro. Aquilo que se projetou erradamente como um “passeio na praia” está a transformar-se num pesadelo. Para lá da constatação óbvia de Rubio e da anunciada pressa do presidente Trump em acabar com a guerra, não sabemos o que pensa fazer a nova liderança norte-americana para terminar o conflito. Vai reformular o objetivo político da Administração Biden? Recorrendo a que formas/caminhos e com que meios? Será que tem um pensamento consolidado para responder a estas questões?

O cancelamento do fornecimento da ajuda à Ucrânia e a exigência da realização de eleições por Kiev, tornada pública por Keith Kellogg Jr., o enviado especial do presidente Trump, dão-nos pistas interessantes, mas ainda insuficientes para podermos antecipar o modo como o conflito irá terminar.

*Major-general (na reserva)