Se há quem tenha as costas largas pela tragédia que se abateu sobre o nosso modo de vida “democrático”, é George Orwell. Ele viu tudo, com quase um século de adianto. Viu tanto que hoje, facilmente, o vemos a ele na ficção tornada real em que passeamos os nossos dias. Em que passeamos a ilusão de viver num mundo onde somos livres de dizer o que pensamos, especialmente quando isso não interessa para nada — experimentemos dizer o que pensamos quando isso interessa, de facto, e veremos o que nos acontece.
Há dias, durante a visita a Washington de um Netanyahu sob mandado de captura do TPI por crimes contra a humanidade, Trump divagou sobre o seu plano para construir uma “Riviera do Médio Oriente” sobre as ruínas e as dezenas de milhares de palestinianos mortos pelas tropas israelitas em Gaza. Para lá do desplante (que Netanyahu achou ser um “pensamento fora da caixa”), típico do presidente-empresário narcísico (réplica em muito mais perigosa do Berlusconi de há 30 anos), o mais sinistro foi a forma como somou Gaza à lista de territórios que passaram a estar sob ameaça de ocupação (Gronelândia, Canadá, Canal do Panamá). A frase usada foi que os EUA vão “ocupar” (“take over”) e “ser donos” (“own”) da Faixa de Gaza para “criar desenvolvimento económico”. Com um detalhe. Os 2,3 milhões de palestinianos que resistem em Gaza devem transferir-se para “países vizinhos” que, espera ele, tenham “um coração humanitário” e “grande riqueza”, pensando em países (Jordânia, Egito) cujos governos estão há muito na dependência dos EUA.
Não há dúvida: Gaza, além de se ter tornado um barómetro moral de validade universal, tornou-se um laboratório da nova ordem mundial. A começar pela desfaçatez do novo Presidente racista que iniciou o mandato com a caça aos imigrantes e refugiados nos EUA e que recomenda agora aos outros (que há quase 80 anos acolhem milhões de refugiados palestinianos) que façam o contrário do que ele faz no seu próprio país. Pelo desprezo mais absoluto pelo direito internacional: depois de apoiar, por via militar, económica e diplomática, uma operação categorizada como genocida por parte dos procuradores do TPI, e suficientemente documentada como tal por várias agências da ONU, o Governo dos EUA encarrega Israel de proceder à limpeza étnica de Gaza e pressiona os seus “aliados” árabes a abrir as portas para a deslocação forçada da população. No fim, e recuperando a mais colonial das tradições do imperialismo, avisa que procede à ocupação de um território à revelia de todas as regras de direito, e em nome do… “desenvolvimento económico”!
No mesmo dia, Trump, que, à moda de Hitler em 1933, já anunciou a saída dos EUA da OMS e do Conselho de Direitos Humanos da ONU, decretou sanções contra todos os funcionários do TPI responsáveis pelos mandados de captura de Netanyahu e do seu ex-ministro da Defesa. “Qualquer pessoa ligada à investigação dos crimes cometidos em Gaza que ‘auxilie, patrocine, dê apoio financeiro, material ou tecnológico’” ao TPI poderá ser sancionada, o que representa uma ameaça às ONG, escritórios de advogados e “funcionários dos Estados-membros do TPI”, como Portugal, “que estão obrigados a cooperar com este”. Recordemos que aquele que os nossos governos têm descrito como o nosso “principal aliado” aprovou em 2002 uma lei que “dá ao Presidente americano plenos poderes para libertar uma pessoa detida na prisão do TPI em Scheveningen”, sede do Tribunal, que foi apelidada pelas ONG como “Lei de Invasão da Haia”!
O direito internacional, as organizações que resultam da sua institucionalização, os tratados e convenções em que se sustenta, os procedimentos para a verificação do seu cumprimento, são o que são: limitados. É em momentos históricos como este que percebemos bem como pairam algures sobre a ilusão de que são capazes de dar segurança jurídica a um sistema internacional profundamente desigual.
A sua genealogia é tipicamente ocidental: os mesmos que o começaram a codificar impunham uma pata imperial sobre continentes inteiros e imaginaram que as normas funcionariam sempre a seu favor. O direito internacional devia servir para disciplinar os outros. Direitos humanos e autodeterminação dos povos, os outros que respeitassem. Já vimos este filme. Tratados e convenções convivem com as guerras. No dia em que as organizações internacionais encarregadas de os fazer cumprir são desmanteladas, é só mais simples fazer a guerra.
O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico
O jornalista britânico Richard Medhurst está a ser perseguido mais uma vez pela polícia federal em mais uma nação ocidental por causa das suas reportagens sobre os abusos de Israel e dos seus apoiantes ocidentais, desta vez na Áustria. A polícia austríaca e os serviços de inteligência supostamente detiveram Medhurst em Viena na segunda-feira, depois revistaram a sua casa e apreenderam dispositivos eletrónicos, dizendo que o fizeram sob suspeita de ele ser um membro do Hamas.
Em agosto, Medhurst foi preso pela polícia antiterrorista britânica com base na Seção 12 da Lei de Terrorismo do Reino Unido de 2000 e detido por durante horas, supostamente por expressar opiniões políticas consideradas muito simpáticas para com um grupo terrorista proibido.
Por outras palavras, um jornalista ocidental foi alvo e perseguido pelas autoridades policiais em vários países ocidentais por ter um discurso crítico sobre Israel.
Podem ver o vídeo com legendas em inglês (devem ser ativadas nas opções).
Isso aconteceu dias depois de o jornalista Ali Abunimah ter sido preso por duas noites pela polícia suíça por expressar juízos errados sobre Israel, e dá continuidade a uma tendência que vem aumentando desde o início do holocausto em Gaza.
Realmente, pasmem e reflitam no quão arrepiante e assustador é os direitos civis estarem a ser sistematicamente desmantelados em todo o mundo ocidental em nome da proteção dos interesses de informação de um estado genocida de apartheid no Médio Oriente.
Por ordem do presidente Trump, foi lançada nos EUA uma task-force multi-agências com o propósito oficial de combater o antissemitismo nas escolas e nas universidades, e o propósito não oficial de visar ativistas pró-Palestina .
As coisas estão a ficar mal, também aqui na Austrália. Noutro dia, um jornalista desportivo foi demitido por partilhar no Twitter/X informações factuais sobre os abusos de Israel e foi informado de que a sua demissão tinha ocorrido porque as suas partilhas fizeram com que os judeus em Melbourne “se sentissem inseguros” ao ouvir a sua voz pela rádio. O chefe da emissora estatal australiana ABC acabou por dizer que é antissemita usar a frase “ocupação ilegal da Palestina”, justificando com esse argumento a demissão pela instituição da jornalista Antoinette Lattouf, que também foi demitida por tweetar factos sobre a criminalidade de Israel em Gaza.
O ex-ministro da defesa israelense Yoav Gallant admitiu o facto já estabelecido de que as IDF causaram muitas das mortes e da destruição vistas em 7 de outubro, quando as suas forças começaram a atirar sobre israelitas para impedir que fossem feitos reféns, dando cumprimento, assim, à notória Diretiva Hannibal de Israel.
É isso mesmo, crianças, nunca se esqueçam de 7 de outubro, aquele dia terrível em que mil israelitas foram massacrados por balas, tanques e helicópteros israelitas, e também um pouco pelo Hamas.
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Tudo o que temos visto em Gaza e na Cisjordânia tem sido o resultado de uma agenda para remover todos os palestinianos da Palestina por meio da morte ou deslocamento. Tudo. Nunca foi sobre combater o terrorismo. Não é sobre resgatar os palestinianos de um enclave em ruínas. Nunca foi sobre autodefesa. Nunca foi sobre reféns. Sempre foi sobre acabar com a existência de palestinianos na Palestina para que os seus territórios possam ser totalmente propriedade de judeus israelitas.
Isso tem sido verdade para todas as ações abusivas de Israel desde outubro de 2023, e foi verdade para todas as ações abusivas de Israel antes de outubro de 2023. É a isso que os palestinianos estão a resistir, e isso foi o principal motivo da ocorrência do 7 de outubro. Estamos a assistir a uma população indígena a utar contra uma agenda — uma agenda que é apoiada por um império global inteiro — para acabar com sua existência como um povo na sua terra natal.
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É o cúmulo da submissão os Democratas estarem a considerar, esse plano de limpeza étnica, como um empurrão que surgiu do nada, quando Trump assumiu o cargo. A limpeza étnica SEMPRE foi o plano para o dia a seguir à demolição de Gaza. Eu mesma escrevi sobre isso constantemente durante o governo Biden , assim como muitos outros. Que Israel estava a usar o 7 de outubro como desculpa para outra apropriação colonial de terras era claramente óbvio desde o início , e tornou-se cada vez mais óbvio à medida que Israel sistematicamente transformava Gaza num deserto inabitável , destruindo deliberadamente tudo o que era necessário à vida humana.
O genocídio aconteceu enquanto Biden era presidente. Biden cometeu o assassínio, Trump é apenas o tipo que apareceu para ajudar Israel a livrar-se do corpo. São apenas partes diferentes do mesmo crime. Você não comete um assassínio sem um plano para se livrar do corpo, e você não pode livrar-se de um corpo sem ter cometido o assassínio primeiro.
Os fiéis do Partido Democrata apontam e gritam para o mafioso que está a afundar o corpo no rio, dizendo: “Olhem! Ele matou aquele tipo, sozinho!”, como se não tivéssemos todos presenciado o outro mafioso a dar um tiro na cabeça da vítima.