O pacto com o diabo

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 06/03/2025)


No Ocidente passou a ser pecado falar de neonazis na Ucrânia, dando-se início à maior campanha de branqueamento de um regime político realizada até hoje.


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No Ocidente passou a ser pecado falar de neonazis na Ucrânia, dando-se início à maior campanha de branqueamento de um regime político realizada até hoje.

O tema ganhou uma renovada acuidade quando o presidente Donald Trump apelidou o seu congénere ucraniano de ditador. Independentemente do rigor das palavras usadas por Trump importa perceber qual é a verdadeira natureza do regime presentemente instalado em Kiev. Segundo a Varities of Democracy, uma organização de elevada credibilidade académica, que estuda o tema dos regimes políticos a nível mundial, considera a Ucrânia uma autocracia eleitoral, portanto, longe de ser uma democracia plena. Embora não se pretenda com este artigo fazer incursões teóricas no domínio da ciência política, ele apresenta alguns factos que podem ajudar o leitor a fazer uma apreciação do tema mais informada.

Para uma melhor compreensão dos factos e com o intuito de facilitar a sua leitura e sistematização, consideraram-se neste trabalho quatro períodos distintos: desde a independência (1991) até à vitória de Viktor Yanukovych (2010); durante a presidência Yanukovych (2010 – 2014); desde o golpe de Maidan (2014) até à eleição de Zelensky (2019), e desde a eleição deste até aos dias de hoje. Por questões de parcimónia, iremos, fundamentalmente, concentrar-nos no último período.

O aparecimento na Ucrânia, à luz do dia, de organizações ultranacionalistas teve lugar no primeiro período, acelerando após a revolução laranja (2004) e a chegada ao poder de Viktor Yushchenko que, por exemplo, em 2006 reabilitou a organização nacionalista ucraniana OHH UN, responsável pela execução de cerca de 100 mil polacos e judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Nessa sequência, em 2010, pouco antes de abandonar a presidência, Yushchenko concedeu o título de Herói da Ucrânia aos líderes da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) Stepan Bandera e Roman Shukhevych (22 de janeiro).

Durante a presidência de Yanukovych houve uma pausa nessa política de estado, com a anulação do título de herói da Ucrânia concedido por Yushchenko. Mas, isso não impediu que esses grupos continuassem a proliferar. Por exemplo, em 2013, nasce a Misanthropic Division, uma rede internacional neonazi cujo dirigente Dmytro Kanuper foi condecorado pelo parlamento dinamarquês, em 2024, como um combatente pela liberdade, o mesmo que tinha o Mein Kampft como a sua leitura preferida; ou, a trasladação (21 de julho de 2013) por ativistas da organização ucraniana Pamiat (Memória) dos restos mortais de soldados ucranianos que combateram na Divisão SS “Galicia”.

O golpe de estado arquitetado pelos EUA no início de 2014 – numa audição no Congresso norte-americano, Vitória Nuland confessou terem sido gastos, desde 1991, cinco mil milhões de dólares em ações subversivas na Ucrânia – foi executado com a colaboração ativa destes grupos. Não é, por isso, de estranhar ver Oleg Tyanibok, um confesso nazi líder do Svoboda, uma organização de extrema-direita, impedido de entrar nos EUA devido às suas opções políticas, ser reabilitado e aparecer ao lado do falecido John McCain.

Em 2014 realizaram-se eleições presidenciais (25 de maio) e legislativas (25 de agosto). Nas primeiras concorreram 21 candidatos e nas segundas 29 partidos, num ambiente de grande hostilidade relativamente às forças não apoiantes do novo regime. O Partido das Regiões que tinha ganhado as eleições em 2010 não teve condições para concorrer às eleições legislativas, apesar de ter apresentado um candidato às presidenciais. O sistema marginalizou e absorveu os partidos pró-russos influentes. Nesse ambiente iniciaram-se as perseguições e o assédio a jornalistas e opositores ao regime.

Petr Poroshenko, presidente, entretanto, eleito, vem dizer, num tom “conciliador” que os “ucranianos terão empregos, eles [os russos] não; nós teremos pensões, eles não; as nossas crianças irão para as escolas e jardins de infância, as deles terão de se esconder em caves.” Iniciam-se os ataques indiscriminados às populações russófonas do Donbass por milícias ultranacionalistas, com a anuência do governo, recorrendo ao bombardeamento intensivo de áreas residenciais. Tornaram-se triviais as procissões destes grupos pela Avenida Moscow Prospect, redenominada Avenida Bandera Prospect, com archotes, em datas simbólicas.

Poroshenko toma medidas para diminuir a relevância social da língua russa e da Igreja Canónica Ortodoxa. Em 2017, foi aprovada uma lei que proibia o uso do russo no sistema de ensino. Em dezembro de 2018, foi criada a Igreja Ortodoxa da Ucrânia (OCU), independente da igreja canónica ortodoxa, alinhada com Constantinopla, cujos sacerdotes não só subscrevem a ideologia dos setores politicamente mais radicais do espetro político ucraniano, como homenageiam publicamente colaboradores nazis, personagens como Stepan Bandera.

Neste período generalizaram-se as punições públicas extrajudiciais dos chamados marauders, uma forma de justiça popular, “em que pessoas são atadas a árvores e postes com fita-cola, com as calças ou saias baixadas e as nádegas fustigadas com chibatas e varas.” Estas práticas sociais passaram a ser dirigidas contra quem se suspeitasse ser russófilo. Bastava ser ouvido pela “polícia de costumes” a falar russo ao telemóvel. Em 2015, Poroshenko bane o partido comunista, do antecedente, uma força política com uma considerável influência na sociedade.

Em maio de 2019, Zelensky ganha as eleições e assume o poder com a promessa de resolver o problema das províncias rebeldes que dilacerava a sociedade ucraniana havia cinco anos e fazer a paz. Mas fez tudo ao contrário do que tinha prometido. Tendo chegado ao poder escudado num partido – “Servo do Povo” – com uma ideologia libertária, rapidamente se posicionou como um partido russofóbico e pró-americano, navegando num pântano de contradições ideológicas que combinava ideias liberais, socialistas e nacionalistas.

A intervenção na Rada (27 de maio de 2019) de Dmytro Yarosh, fundador do Sector Direito e comandante do Exército Voluntário ilustra bem a importância dos referidos grupos na sociedade ucraniana, quando ameaçou Zelensky de morte se “traísse a Ucrânia”, ou seja, se tivesse a aleivosia de implementar os Acordos de Minsk (“que não eram para ser cumpridos, mas para ganhar tempo e preparar a ofensiva final contra o Donbass e a Crimeia”).

Com a tomada de posse de Zelensky, acelera-se o processo de deterioração das liberdades cívicas iniciado no mandato do seu antecessor, particularmente no que respeita à promiscuidade entre Estado e grupos ultranacionalistas, que aumentam de protagonismo. Completamente alinhado ideologicamente com aqueles grupos, Zelensky vai aprofundar aquilo que Poroshenko tinha iniciado. Os oligarcas seguem-lhe o exemplo.

Um dos principais objetivos do presidente, ex-russo falante, é a completa eliminação da língua e cultura russa. Imediatamente após os protestos de Maidan, o Verkhovna Rada decidiu revogar a lei sobre os princípios da política linguística do Estado, que estava em vigor desde 2012. Em 2017, Poroshenko proíbe o ensino em russo, e a partir de janeiro de 2021, Zelensky dá outra machada na língua russa, ao proibir a sua utilização na administração do Estado.

Foram igualmente proibidos os livros escritos em russo, incluindo os clássicos da literatura russa. Zelensky ordenou a retirada de 100 milhões de livros de autores russos das bibliotecas da Ucrânia. Tolstoi, Pushkin, Dostoievski e Gorky, entre outros, foram proscritos. O mesmo sucedeu aos compositores russos. Tchaikovsky, Prokofiev, Shostakovich, Borodin, Glinka, Rimsky-Korsakov e muitos outros foram também banidos. Espetáculos e quaisquer outras manifestações culturais em língua russa foram igualmente proibidas. O inglês passou a ser a segunda língua na Ucrânia. As minorias húngaras e romenas, que tinham pretensões semelhantes à russa foram igualmente atingidas e objeto de discriminação.

No plano religioso, Zelensky foi mais além de Poroshenko e proibiu a igreja canónica ortodoxa (ICO). Foi penoso ver, em abril de 2023, o cerco ao Kiev Pechersk Lavra (KPL) e os correligionários da nova igreja ucraniana expulsarem os sacerdotes da ICO com a ajuda da polícia. De santuário de referência da ICO, o KPL passou a ser lugar de cerimónias pagãs e de encontros gastronómicos sem qualquer relação com a religião. Por toda a Ucrânia, os acólitos da nova igreja apoderaram-se dos santuários da ICO e expulsaram os seus sacerdotes.

Foi durante a vigência de Zelensky, que se realizaram os maiores ataques à liberdade de expressão no país. No dia 3 de fevereiro de 2021 foram banidos três canais de televisão (ZIK, News 1 e 112 Ukraine). No dia 20 de março de 2022, obedecendo às ordens de Zelensky, o Conselho de Defesa e Segurança Nacional da Ucrânia ilegalizou, de uma assentada, 11 partidos políticos por supostas ligações à Rússia. Viktor Medvedchuk, o líder da “Plataforma para a Vida”, o principal partido da oposição, que ocupava 44 lugares no parlamento ucraniano, foi colocado em prisão domiciliária.

Destino semelhante teve o presidente do supremo tribunal. O presidente do Tribunal Constitucional “ausentou-se” para parte incerta para não ter a mesma sorte. Até o antigo Presidente Poroshenko, um adversário político e inimigo de longa data de Zelensky, foi vítima da repressão política e da caça às bruxas “politicamente motivada” promovida por Zelensky, que o acusou de “alta traição” e de auxílio a organizações terroristas. É longa a lista de políticos, jornalistas e empresários mortos, sequestrados ou torturados durante a presidência de Zelensky. Um deles, é Oleksander Dubinskyi deputado na Rada, vítima de duas tentativas de assassinato e preso há mais de 15 meses por criticar a corrupção no país.

Em contrapartida, nenhuma das organizações neonazis foi ilegalizada. O nazismo e as insígnias fascistas normalizaram-se na sociedade e no seio das forças armadas. A suástica, o Sol negro e a caveira de Totenkopf vulgarizaram-se e tornaram-se moda. Zelensky publicou, sem qualquer pudor, fotografias destas insígnias nas suas contas das redes sociais.

A 13 de maio de 2023, Zelinsky visitou o Papa envergando uma camisola preta com o emblema da UNO, uma organização nacionalista ucraniana, e entregou-lhe um ícone com uma silhueta negra de Cristo ao colo da Virgem Maria, o que, de acordo com os cânones da Igreja Católica pode ser considerado satânico. A moda chegou também a outros domínios como monumentos, toponímia e filatelia, utilizados para exaltar figuras prominentes do movimento ucraniano bandeirista, responsável pela morte de judeus.

No dia 1 de março de 2022, de acordo com o decreto assinado por Zelensky, foi criada a “Legião Internacional de Defesa da Ucrânia” que passou a ser integrada na estrutura das Forças Armadas, cujo pessoal incluía mercenários, adeptos de ideias extremistas e terroristas de várias partes do mundo.

Zelensky aderiu e alimentou a fantasia, promovida pelos ultranacionalistas, de um estado mono étnico, monocultural e centralizado. A aprovação na Rada da lei racista e xenófoba sobre os povos indígenas” (13 de dezembro 2022) foi uma materialização desse desígnio. Inserido neste projeto, assiste-se a um movimento de revisionismo histórico com laivos fantasiosos e caricatos. Igor Tsar, autor do livro “Ucrânia – a pátria ancestral da humanidade”, vencedor do Prémio Stepan Bandera, publicado em Lvov alerta-nos para uma imensidão de “factos históricos” desconhecidos (foram as tribos arianas da Ucrânia que fundaram o Irão no 4º milénio a.C. e colonizaram a Palestina. A língua inglesa é proveniente da Ucrânia. Até Jesus era ucraniano).

Nesta análise sobre o regime ucraniano sob a tutela de Zelensky, não podíamos deixar de referir o envolvimento de Zelensky na corrupção que grassa no país, que se encontra devidamente documentada. No outono de 2021, o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação publicou os chamados Pandora Papers, onde se incluíam dados das contas offshore de 35 líderes mundiais. Zelensky e os seus parceiros do estúdio Cartel 95 estavam entre eles.

Entre 2012 e 2016, foram transferidos 41 milhões de dólares para a empresa offshore de Zelensky. Num país normal teria sido preso. Uma das múltiplas mansões que tem por esse mundo fora encontrava-se na Crimeia, um erro que lhe custou caro. Foi expropriado e a mansão vendida em hasta pública, tendo o resultado da venda revertido para um fundo de ajuda a combatentes russos.

No Ocidente passou a ser pecado falar de neonazis na Ucrânia, dando-se início à maior campanha de branqueamento de um regime político realizada até hoje. O “Guardian”, entre outros órgãos de referência da comunicação social, que antes do início da guerra em 2022 escrevia “bem-vindo à Ucrânia, o país mais corrupto da Europa”, passou depois a considerar que “A luta pela Ucrânia é a luta pelos ideais liberais.” A corajosa reportagem de Mariana Van Zeller sobre grupos neonazis na Ucrânia foi censurada e retirada do canal Disney. Quem desmonta esta e outras falácias (o tema está longe de se esgotar neste artigo) foi acusado de ser propagandista do Kremlin.

O branqueamento do regime instaurado em 2014 é feito com base em dois argumentos: se o regime tivesse a filiação ideológica de que é acusado não teria um presidente judeu; os neonazis não têm expressão eleitoral significativa, por isso o regime é democrático. As questões devem, no entanto, ser colocadas de outro modo. Seria insuportável para as democracias europeias admitirem que estão a apoiar um regime que permite a proliferação da ideologia nazi e protege organizações neonazis.

Por outro lado, omite-se o facto de que muitos desses partidos/grupos ultranacionalistas não concorreram às eleições, e menospreza-se deliberadamente a sua influência na sociedade, sobretudo nas forças militares e de segurança, consolidada no rescaldo do golpe de Maidan. O facto da Ucrânia ter servido de tirocínio de combate a vários grupos neonazis europeus está superlativamente documentado em língua portuguesa (aqui (cap.IV) e aqui).

A farsa completa-se quando Zelensky participou nas comemorações do 80º aniversário da libertação do campo de extermínio nazi de Auschwitz, ou se ajoelha no memorial de Babyn Yar, em Kiev, não obstante a sua adesão incondicional à exaltação histórica dos bandeiristas, os mesmos que perpetraram o massacre lembrado por aquele memorial.

Não podemos deixar de nos questionar sobre a complacência e promiscuidade do Ocidente com as forças neonazis que proliferam na Ucrânia, porque é que se omitiu essa realidade e se tornou um tabu a partir de fevereiro de 2024, apesar de denunciada antes, com o conluio da comunicação social. Os exemplos são gritantes, e são muitos. Os aplausos em pé no parlamento canadiano a Yaroslav Hunka, que durante a Segunda Guerra Mundial serviu na 14ª Divisão de Granadeiros da Waffen-SS, considerado um “herói” durante a visita do Presidente Zelensky. Por terem sido vítimas da brutalidade destes grupos, os polacos são uma exceção a este unanimismo.

Pelo exposto, pode concluir-se que Donald Trump não anda afinal muito longe da verdade. Pelo andamento da carruagem, não se admire o leitor se um dia acordar e perceber que andou três anos a ser enganado. A possibilidade de isso acontecer já esteve mais distante.

Crónica de um combate em Sala Oval

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 05/03/2025)


E a Europa que ia tão bem à sombra de Washington, vivendo do que sobrava da rapina norte-americana, o que dava para a nossa classe política viver bem, desde que não faltasse também a riqueza que continua a escorrer enquanto esprememos os nossos povos. Trump veio estragar tudo. 


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A ópera bufa protagonizada, no cenário certo, por dois políticos reles e irresponsáveis, sociopatas de gema que quase se envolveram à estalada por causa da bagatela de 350 mil milhões de dólares e milhão e meio de mortos, é o retrato do império que nos subjuga, um exemplo cru de como funciona a «ordem internacional baseada em regras» que engoliu o Direito Internacional.

Do lado de cá do Atlântico, uma horda de pequenos mafiosos, suseranos do galifão de crista que ameaçava com o dedo em riste o tipo ostentando o grafismo do nazi-banderismo na farda, espremiam-se fazendo claque pelo pequeno führer, eles mesmos em pânico por se sentirem abandonados pelo padrinho de Washington – quem vai agora defender-nos do papão de Leste?

Assim vai o Ocidente, espelho da «nossa civilização».

Aos 350 mil milhões de dólares da discórdia, esbanjados numa vergonhosa derrota segundo o imperador de turno, devem acrescer-se mais uns milhares de milhões, não de dólares mas de euros, que os nossos dirigentes sacaram dos nossos bolsos, sem o decoro de pedir licença – há várias designações para o acto, o leitor tem muito por onde escolher – agravando a fome e a miséria, o analfabetismo funcional, a indigência cívica, o racismo e a xenofobia, espalhando a habitação precária abarracada e humilhante por territórios cada vez mais vastos; enquanto primeiros-ministros, como o de Portugal, dando-se muito bem por conta própria, explicam que vivemos no paraíso, os povos é que não sentem nem sabiam.

Se calcularmos por alto os valores envolvidos, no meio dos quais os cinco mil milhões de dólares investidos em 2014 pela equipa Obama/Biden no golpe sangrento de Maidan em Kiev, o óvulo disto tudo, não são mais do que uma gorjeta; o somatório situa-se, pelo menos, nos 400, 500 mil milhões de dólares/euros. Essa é verba despendida pelos paladinos dos direitos humanos e proprietários dos «valores ocidentais» para liquidarem mais de um milhão de ucranianos e, ao que parece, umas centenas de milhares de russos; seres humanos que não lhes fizeram mal nenhum e que, no caso ucraniano, lá iam vivendo naquela recomendada democracia liberal desde a independência do seu país estabelecida à martelada sobre o cadáver da União Soviética. Um sistema que não funcionava nem melhor nem pior do que noutros países guiados pelo farol democrático de Washington, equipado para alumiar todo o mundo no tal futuro mirífico em que nada teremos e seremos felizes.

A democracia liberal, porém, não é perfeita. E no caso ucraniano tinha escolhido quem não devia, pelo que o imperador e os colonos se viram obrigados a corrigir o defeito através de métodos mais eficazes. Tal remedeio, é certo, teve como resultado a chacina de aproximadamente milhão e meio de pessoas numa guerra tão artificial como o jardim de Borrell, mas todos aprendemos há mais de 30 anos, pela voz de grandes mestres na matéria, que os esforços para implantar a democracia entre os bárbaros não conseguem evitar os danos colaterais. Como explicam os deuses do neoliberalismo, progenitor da democracia liberal, não há almoços grátis. 

Combate viciado, como é próprio do império

A altercação na Sala Oval da Casa Branca, onde a cada segundo se define como deve andar o mundo, foram provocadas, em primeira instância, pelo ajuste de contas entre agiota e credor sobre os tais 350 mil milhões da discórdia, mas o contexto é mais vasto. Sem deixar de assinalar que a anterior administração de Washington informara a ditadura de Kiev de que a fartura de armamento era expedida em leasing, método interpretado pelos acarinhados terroristas como cedida a fundo perdido. Portanto, agora é que são elas. 

Num canto do ringue, o imperador não deixou dúvidas de que pretende fugir a todo o custo, não apenas da vergonha militar na Ucrânia como dos encargos que os incapazes suseranos europeus lhe provocam por causa do seu entranhado pavor do que pode vir do Kremlin, seja o ocupante quem for, chame-se Putin, Estaline, Lenine ou outro alguém com nome e coroa de czar. Não interessa: no Kremlin não se pensa noutra coisa que não seja dar cabo dos malandros dos europeus.

É certo que Napoleão procurou instalar-se nesse mesmo Kremlin para que o perigo fosse eliminado de vez. A coisa correu mal e só então os malditos russos saíram da toca e vieram Europa fora até deixarem o imperador francês em Paris, no lugar de onde nunca devia ter saído.

Hitler repetiu a façanha mais de um século depois e aconteceu mais ou menos o mesmo. E lá vieram outra vez os russos, desta feita até Berlim, onde refeições de cianeto ou de outra coisa do género impediram o führer e seus comparsas de os receber.

Se os acobardados dirigentes europeus não fossem uns cábulas em História ou não se entretivessem apenas com os contos de fadas narrados pelos seus historiadores amestrados, saberiam que os russos não têm por hábito deixar o sossego das suas terras e o usufruto das suas riquezas humanas e naturais para se virem imiscuir neste ninho de víboras a que chamam União Europeia, confundida abusivamente com a Europa. Seria até um caso de masoquismo a merecer acompanhamento especializado. Sejamos práticos e realistas: o que ganhariam eles em meter-se numa megaempresa falida gerida por incompetentes não eleitos e que têm como ocupação única, além de remoerem a ameaça russa, a de maltratarem os seus povos? Tratar do seu país imenso já lhes dá bastante que fazer.

É certo, como todos verificámos, que aquele combate na Sala Oval foi viciado, como é da praxe nos espectáculos imbecis da luta livre americana. Trump usou como reforço o seu segundo, JD Vance, especializado em falar verdade aos europeus, explicando-lhes o que eles verdadeiramente são, desnudando-os sem decoro. Um formato injusto, sem dúvida, mas que fazer? A «ordem internacional baseada em regras» é assim, quem dita as regras ou a ausência delas é a única nação «indispensável» e «excepcional». Citando mais uma vez o sabichão Kissinger, o que nunca é demasiado enquanto os invertebrados europeus berram como carpideiras contratadas, «ser inimigo da América é perigoso, mas ser amigo é fatal».

No outro canto do ringue da Sala Oval esteve o imitador de führer banderista, marioneta manipulada até agora por Obama e Biden («stupid president», lhe chamou Trump como quem dá um murro nos rins de Zelensky) e também pelos europeus –  a quem o nazismo não faz comichão e até complementa cada vez mais a democracia liberal.

O bando de criminosos que o golpe norte-americano de Maidan instalou em Kiev, com apoio de Bruxelas – que até aceitou como merecida autoflagelação o «fuck the EU» de Nuland – encorajou os nazi-banderistas a assumirem a raça pura que um qualquer deus lhes soprou para limparem o país da escória russa dos territórios de leste. Apesar da carnificina, na qual contaram com o apoio «diplomático» em formato de burla garantido por gente de bem da democracia liberal como Angela Merkel e François Hollande, não completaram a tarefa porque os russos do Kremlin perderam a paciência e disseram «acabou-se a brincadeira».

Caiu o Carmo e a Trindade com tal atrevimento. Vêem como os russos afinal saem da toca? Ao que parece, contudo, pouco mais traziam do que as mãos a abanar, quanto muito umas pás e outras alfaias agrícolas como munições, peças de máquinas de lavar até estariam a mais para quem acabara de sair da Idade Média para se atrever a confrontar-se com o futuro antecipado.

Mesmo assim, haveria que ter cuidado. De Washington e Bruxelas choveu dinheiro, transportaram-se para Kiev armas e outros equipamentos militares de muitas gerações, até das que estão para vir, a vitória esteve à mão de semear, as ofensivas de Verão iriam despachar os russos com as caudas entre as pernas, mas os instrumentos agrícolas e outros adereços arrancados a electrodomésticos afinal pareciam trazer poderes sobrenaturais: e a verdade é que a vitória esmagadora se transformou numa aterradora derrota, a mãe de todos os medos.

Nos cemitérios ampliados para dimensões nunca vistas, nos campos de batalha distribuídos através de toda a Ucrânia jazem e apodrecem mais de um milhão de seres humanos. O país está em ruínas, falido, os cidadãos comuns fogem desesperadamente aos raptos para não serem enviados para os cadafalsos da frente. Grande parte da população abandonou o naufragado barco, se bem que sejam muitos os que aproveitaram para ajudar ao saque do país.

A comunicação social que tem os senhores da guerra como patrões cantou hossanas às gloriosas vitórias, atiçou-nos a todos contra os selvagens dos russos e agora geme como quem encomenda as almas na Quaresma. Não se importa de ter jogado com a sensibilidade, a boa fé e a credibilidade das pessoas a quem era suposto servir. Cumpriu a sua missão, na altura certa haverá condecorados.

Ai que vêm aí os russos, clamam os inúteis chefes europeus, com as mãos na cabeça e perdidos entre visitas e reuniões «de emergência» onde tomam decisões que nascem inaplicáveis. Zelensky bem avisa, dando agora o dito por não dito: eles têm, afinal, um exército terrível; «se a Ucrânia cair os russos tomarão conta de toda a Europa». Talvez seja exagero: no caso de se cumprir o histórico da História, de Kiev não passarão – até pode acontecer que abdiquem de chegar lá. 

Ao fim e ao cabo desta cegada entre gente sem sentimentos nem emoções, Zelensky deve sentir-se afortunado por sair da Sala Oval apenas com uns tabefes verbais. 

Atribulações dos europeus na Europa

Na hora da debandada e do salve-se quem puder, os primeiros a tentar safar-se são os mesmos que, na qualidade de donos do mundo, criaram a catástrofe e a matança de inocentes. A comandar as hostes golpistas está agora Trump, não Obama ou Biden, os responsáveis directos. Trump exerceu um primeiro mandato como presidente já a agressão contra as impuras minorias estava há muito em andamento, mas como as vítimas eram ainda apenas os russos do Donbass, deixa andar que segue tudo sobre rodas. 

Agora o caso mudou de figura, é preciso recorrer à estratégia usada no Vietname ou no Afeganistão: salvar a pele, não deixar pedra sobre pedra, não sem antes acertar contas e assegurar os despojos a que, sendo o império o que é, tem direito por concessão divina. Afinal as guerras fazem-se para ganhar dinheiro em negócios sem limites e sem regras, podendo ainda contribuir para um alívio demográfico do planeta, como defendem credenciados eugenistas instalados em posições influentes nas mais poderosas seitas neoliberais.

Interpretando o que está a passar-se, percebe-se que chegou a hora de exigir, de um lado, e regatear, do outro; é aí que estamos, com os resultados a que o mundo pôde assistir ao vivo e a cores a partir do ringue da Sala Oval. O agiota exige o capital e os juros que calcula como lhe apetece; o pedinchão sente pela primeira vez o que é alguém pôr limites aos seus caprichos sanguinários: «você está a brincar com a Terceira Guerra Mundial» – nunca o verme da Casa Branca tivera um momento de tamanha lucidez, com recado extensível aos parasitas da Europa. 

Pela boca de Trump, os Estados Unidos querem como recompensa  a riqueza da Ucrânia em terras raras, elementos naturais pouco abundantes, como explica o seu baptismo, indispensáveis para a indústria dos chips e susceptíveis de garantir o monopólio da inteligência artificial, que pertence ao império, nem poderia ser de outra maneira. Até porque, sendo a Natureza traiçoeira como é, as principais reservas de terras raras, numa percentagem esmagadora de mais de 80% e violando todos os princípios do mercado e da leal concorrência, estão lamentavelmente enterradas na República Popular da China, que sabe bem quanto valem.

Por isso há que deitar mão ao remanescente existente na Ucrânia, ainda que seja minério a escorrer sangue humano, que se há-de fazer, a vida continua e ao império o que é do império. E há que assegurá-lo antes que os europeus reclamem o seu quinhão. Mais uma vez, Nuland é que a sabia toda, «fuck the EU».

Mas os europeus, senhor, porque lhes dais tanta dor?… O pequeno Napoleão desmultiplica-se em expedições, por ele ia até ao Kremlin porque em tais situações mesmo o diabo pode ser útil. O desastrado candidato a mini-fuhrer de Berlim, mascarado de social-democrata, foi atirado para o lixo mas, ainda assim, conseguiu cumprir uma missão histórica: devolver a Alemanha às extremas direitas e deixar de pantanas o velho, ainda que abastardado, partido que dizia representar.

Em Bruxelas, Von der Leyen, Kallas e Costa, este no papel de basbaque impante quando se passeia ao lado de Zelensky, mimam e embalam o moribundo ditador de Kiev, ameaçam mandar tropas de «paz» que não têm – e ainda bem para elas porque já chega de cadáveres no território ucraniano.

Mas garantem que vão fazer com que a Ucrânia vença a guerra a todo o custo. Sim, não somos cobardes nem interesseiros como o arrivista do Trump, mesmo que da velha Europa, sequestrada pela fraude da União Europeia, nada mais reste. Não nos renderemos, vamos defender-nos atacando, não precisamos dos traiçoeiros Estados Unidos para nada: e assim terminará ingloriamente a ficção da União Europeia, ficando a própria NATO a duvidar se tem futuro.

O que existe para lá do eixo franco-alemão e do triunvirato ditatorial de Bruxelas em que assenta o poder executivo da União, fala mas não diz nada, reúne-se mas não vai além de rabiscos insignificantes no bloco de apontamentos, com excepção de duas ou três aberrações a quem o mostrengo de Putin não provoca pesadelos.

Em bicos de pés, Macron, o debutante Friedrich Merz, o imitador de Blair chamado Keir Starmer tentam falar grosso, mas o som sai-lhes fininho das entranhas, falta-lhes qualquer coisa; não temos armas, não temos dinheiro, não temos indústria, não temos recursos naturais. E a Europa que ia tão bem à sombra de Washington, vivendo do que sobrava da rapina norte-americana, o que dava para a nossa classe política viver bem desde que não faltasse também a riqueza que continua a escorrer enquanto esprememos os nossos povos. Trump veio estragar tudo. 

Por isso queremos prosseguir a guerra e, ao mesmo tempo, entrar nas negociações de paz – nós que até proibimos a palavra «paz» e perseguimos quem insistia em usá-la – e levar o Zelensky connosco; temos esse direito, afinal deixaram-nos na penúria, desarmados e à mercê dos gananciosos e insaciáveis do Kremlin, capazes de nos arrancar a pele. Também somos gente, gritam enquanto ninguém os ouve.

Moral desta história de terror: não é dos russos que a Europa e os europeus têm de se proteger. É dos seus próprios dirigentes. 

Para isso não há outro remédio que não seja substituir a mafiosa democracia liberal pela democracia, isto é, o sistema em que os desprezíveis da classe política que sequestraram o poder de decidir sejam varridos de cena – noutros tempos seriam defenestrados – e os povos se façam ouvir com a sua legítima voz de comando.

Fonte aqui.

Ucrânia, o campo de treino militar para a extrema-direita mundial

(Ricardo Cabral Fernandes, in Público, 21/06/2020)

(Podem perguntar porque publico um artigo de 2020. Porque, nessa altura, a comunicação social podia dizer a verdade sobre a Ucrânia, mostrá-la como o regime nazi e antro da extrema-direita que é, e hoje esconde tudo isso dos olhos dos cidadãos, para que o Governo possa continuar a mandar armas e milhões para Zelensky sem sofrer a censura dos portugueses. Portugueses que, talvez a maioria, ignoram a gente corrupta e sanguinária que andam a apoiar.

Muitos mesmo, sujeitos que tem sido a sucessivas lavagens ao cérebro, até julgam que os nazis estão na Rússia, quando um dos principais objetivos desta é “desnazificar” a Ucrânia. Que leiam o artigo e que, em consciência e honestamente, tirem as inerentes conclusões e fiquem a saber, sem sombra de dúvida, quem andam a apoiar.

Estátua de Sal, 05/03/2025)


A Ucrânia tornou-se para a extrema-direita o que a Síria foi para o Daesh. Militantes recebem treino, melhoram tácticas e técnicas e estabelecem redes internacionais, e depois regressam aos seus países. Milhares de estrangeiros combateram em milícias contra os separatistas pró-russos no Leste do país.


A Ucrânia é hoje um dos principais pólos de atracção para a extrema-direita internacional e quase quatro mil estrangeiros de mais 35 países já receberam treino e combateram nas fileiras de milícias na Guerra Civil Ucraniana. Uma delas, o Regimento Azov, transformou-se num alargado movimento, criou um Estado dentro do Estado ucraniano, estendeu tentáculos por toda a Europa e quer criar uma Legião Estrangeira ucraniana.

“Olho para a Ucrânia como o local onde a extrema-direita pode adquirir treino, capacidades militares e partilhar ideias. É, de muitas formas, para a extrema-direita o que o Daesh conseguiu na Síria”, disse ao PÚBLICO Jason Blazakis, investigador associado no Soufan Center e director do Centro sobre Terrorismo, Extremismo e Contraterrorismo, na Califórnia, Estados Unidos. “A Ucrânia é a porta das traseiras para a União Europeia no que à extrema-direita diz respeito, e a ameaça é muito grande. Os indivíduos recebem treino nos campos de batalha ucranianos e depois regressam aos seus países de origem”.

Uma situação que o relatório White Supremacy Extremism: The Transnational Rise of the Violent White Supremacist Movement, do Soufan Center e publicado em Setembro de 2019, classifica como preocupante. “Tal como os jihadistas usaram conflitos no Afeganistão, Tchetchénia, Balcãs, Iraque e Síria para melhorarem as tácticas, técnicas e procedimentos e solidificarem as suas redes internacionais, também os extremistas de direita estão a usar a Ucrânia como laboratório de campo de batalha”, lê-se no documento.

terrorista responsável pelo massacre em duas mesquitas de Christchurch, na Nova Zelândia, em Março de 2019, estava bem integrado na extrema-direita mundial e o colete balístico que envergou no atentado tinha o símbolo do sol negro, popularizado pelo Regimento Azov. No manifesto, intitulado A Grande Substituição, que escreveu para justificar o massacre, o terrorista disse ter visitado a Ucrânia. Não tardaram a surgir suspeitas de que terá estado com o Azov pouco depois de ter sido criado, em 2014, apesar de a milícia ter negado ter tido qualquer contacto com ele.

Meses depois do massacre que matou 50 muçulmanos, o manifesto foi traduzido para ucraniano por militantes neonazis de uma organização com ligações ao Azov, a Wotanjugend, noticiou o site de investigação Bellingcat. Milhares de cópias foram impressas e houve milicianos, cuja filiação se desconhece, que posaram para fotografias com exemplares nas mãos.

Jason Blazakis: “A Ucrânia é a porta das traseiras para a União Europeia no que à extrema-direita diz respeito, e a ameaça é muito grande” Pierre Crom/Getty Images

O massacre de Christchurch chamou a atenção para os riscos que a extrema-direita na Ucrânia representa para a Europa e EUA, seja por causa de possíveis atentados terroristas cometidos por pequenas células ou “lobos solitários” ou por, ao regressarem aos seus países, criarem ou fortalecerem as suas organizações de origem – as organizações terroristas neonazis The Base e Attomwaffen Division queriam e já têm ligações estabelecidas com o Azov, respectivamente, para receber treino. No Ocidente, o terrorismo de extrema-direita é hoje mais significativo do que o jihadista.

A realidade é ainda mais preocupante se se tiver em conta o número de combatentes estrangeiros identificados no mesmo relatório que já lutaram na guerra que opõe o Estado ucraniano aos separatistas pró-russos: um total de 17.241. Destes, 3879 estrangeiros, dos quais 879 de 36 países — Suécia, Estados Unidos, Israel, Itália, Dinamarca, Alemanha, França e até Portugal — estiveram nas fileiras de milícias que combatem do lado ucraniano. A maior fatia (3000) provém da Rússia, uma vez que o movimento neonazi russo se dividiu entre apoiar ou combater o que dizem ser o imperialismo da Rússia.

Voluntário da milícia Azov durante um acção de treino em Urzuf, arredores de Mariupol, em 2015 Marko Djurica/Reuters

E, no que a Portugal diz respeito, pelo menos um português combateu num dos batalhões do Corpo de Voluntários Ucranianos, da organização de extrema-direita Sector Direito. “Há dois anos [2018], descobri um cidadão português que participou em combates, por dois a três meses, nas fileiras do Corpo de Voluntários Ucranianos”, disse ao PÚBLICO o investigador que recolheu os dados do relatório, sem conseguir, no entanto, dar mais pormenores sobre a sua identidade.

Porém, a grande maioria de combatentes europeus de extrema-direita juntou-se aos separatistas pró-russos contra os militares e milicianos ucranianos (13.372, dos quais 1372 russos).

A estimativa de combatentes que já passaram pelas milícias ucranianas foi feita através de fontes abertas, ou seja, fotografias e comentários em fóruns e redes sociais, não se descartando a possibilidade de os números serem bem maiores, como ressalva o documento. Mas como se chegou a esta situação?

Azov nasce com a guerra

A extrema-direita ucraniana já tinha saído das margens da política quando a Revolução EuroMaidan, contra o Presidente ucraniano Viktor Ianukovich, tomou as ruas de Kiev em 2013. Ianukovich, aliado do Presidente russo, Vladimir Putin, foi deposto e, pouco depois, em Março de 2014, Moscovo anexou a Crimeia e apoiou os separatistas de Donetsk e Lugansk, dando início a uma guerra que ainda hoje se arrasta e que já causou mais de 13 mil mortos, entre os quais muitos civis, e milhares de deslocados.

Com o Exército ucraniano sem capacidade para combater os separatistas, o então recém-eleito Presidente ucraniano, Petro Poroshenko, apelou a voluntários que pegassem em armas contra a ameaça russa. Assim o fizeram, e em massa: foram formados entre 30 e 40 batalhões de voluntários para combater os separatistas.

Um dos homens por trás deste esforço foi o oligarca Ilhor Kolomoiski, um dos dois homens mais ricos da Ucrânia e a sombra do Governo de Poroshenko e, agora, do de Zelensky. Em 2014, rompeu com a discrição que o caracterizava e saiu em defesa da Ucrânia, dando entrevistas e financiando vários batalhões, entre os quais o Azov, o Dnipro 2, o Shakhtarsk e o Poltava. E, em Abril do mesmo ano, prometeu uma recompensa de dez mil dólares (nove mil euros) a quem capturasse um mercenário russo.

Ilhor Kolomoiski Valentyn Ogirenko/Reuters

Com o arrastar da guerra, Kolomoiski passou a usar os paramilitares que financia quase como exército privado, para obter dividendos políticos, entrando em choque com o actual Presidente ucraniano. “Os empresários precisam destes grupos como apoio físico, por ser muito mais fácil controlarem as suas estruturas empresariais. Os grupos de extrema-direita são parte deste mercado a favor dos grandes empresários”, disse ao PÚBLICO Viacheslav Likhachev, politólogo ucraniano especialista na extrema-direita do país.

Uma das pessoas que responderam ao apelo de Poroshenko e recebeu dinheiro do oligarca Kolomoiski foi Andrii Biletski, líder do antigo partido neonazi Patriotas da Ucrânia, com a criação do então Batalhão Azov a 5 de Maio de 2014 — transformou-se depois em regimento e está em vias de se tornar divisão, apesar de ainda não ter militares suficientes (10 mil). A proeminência de Bilitski foi tanta que chegou a ser deputado entre 2014 e 2019, primeiro como independente e depois pelo braço político do Azov, o Corpo Nacional.

Andriy Biletsky, ex-deputado e líder do partido de extrema-direita Corpo Nacional durante uma manifestação em Kiev contra a corrupção, em Março 2019 Sergei Chuzavkov/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

Os milicianos, com pouco treino, foram para as linhas da frente e as baixas tornaram-se incomportáveis, ao enfrentarem separatistas bem treinados e apoiados por Moscovo. A unidade paramilitar foi então integrada por Poroshenko na Guarda Nacional ucraniana a 12 de Novembro de 2014, no que foi visto como tentativa de a manter sob controlo e meio para lhe fornecer armamento militar topo de gama, fornecido pelos Estados Unidos (em 2018, o Congresso aprovou uma lei a proibir que material militar chegasse ao Azov, sem se saber como é aplicada na prática), União Europeia (não-letal, como coletes balísticos) e Canadá. Até Israel permitiu a produção da sua arma padrão, a Tavor-21, em fábricas ucranianas, acabando por chegar às mãos dos neonazis — o Azov tinha no seu site, na parte dos apoios, o logótipo da empresa israelita que detém a patente da espingarda de assalto.

Hoje, o Azov dispõe de artilharia, blindados e infantaria, e até de campos de treino. O principal está localizado em Mariupol, no Sul da Ucrânia, na costa do mar de Azov, e lá são treinados os combatentes estrangeiros que respondem ao apelo para pegarem em armas em seu nome — a milícia fê-lo pouco depois de ser criada. Em 2015, os estrangeiros tinham um responsável que os seleccionava: Gaston Besson, mercenário francês que combateu no Camboja, Laos, Birmânia, Suriname e Croácia. Disse, na altura, que recebia centenas de contactos todos os dias.

FotoO mercenário francês Gaston Besson

O regimento evoluiu de simples unidade paramilitar para movimento em larga escala, ganhando espaço e legitimando-se junto da sociedade, por os seus combatentes serem apresentados como heróis que enfrentam o expansionismo russo. O Azov é uma grande organização de extrema-direita que se descreve como Movimento Azov e responde a um único líder: Andrii Biletski. O movimento inclui várias organizações: o Regimento Azov, o partido Corpo Nacional, o movimento de rua Milícia Nacional, a Irmandade dos Veteranos, etc.. E tem outras na sua órbita de influências, muitas das quais neonazis, como a WotanJugend.

Os paramilitares têm uma forte presença nas redes sociais, várias revistas e uma rádio e, sempre que um camarada de armas é morto em combate, organizam cerimónias com tochas e parada militar.

Infiltração no aparelho de Estado

O Movimento Azov infiltrou-se no Estado ucraniano e é hoje indissociável dele. Recebe milhares de euros em financiamento para programas de incentivo ao patriotismo direccionado à juventude (crianças com nove anos recebem treino militar, por exemplo), apoio político e militar. E essa infiltração é mesmo reconhecida pela secretária do Departamento Internacional do Corpo Nacional, Olena Semeniaka. “Em apenas quatro anos, o Movimento Azov tornou-se um pequeno Estado dentro do Estado”, escreveu a dirigente no Facebook a 29 de Outubro de 2018.

O ministro do Interior de Poroshenko e do actual Presidente é acusado de ser um dos responsáveis pela crescente influência neonazi no aparelho de Estado ucraniano. Arsen Avakov tem beneficiado da unidade paramilitar para defender os seus interesses — apresenta-se como indispensável para a controlar e fez recentemente uma aliança com o multimilionário Ilhor Kolomoisky, que tem tido fricções com Zelensky — e sai em defesa dos milicianos sempre que são alvo de críticas pelo seu cariz neonazi. Zelensky também o faz, ainda que mais timidamente, e chegou até a condecorar os paramilitares do Azov por actos de bravura na linha da frente, ao mesmo tempo que se reúne com as suas altas patentes.

Activistas do partido Corpo Nacional durante uma manifestação a que chamaram “Marcha dos Esquadrões Nacional”, em Março de 2019 Pavlo Conchar/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

O Azov tem neste momento tanto poder que chega a rejeitar as ordens do chefe de Estado quando não concorda com elas, no que já é visto por analistas como uma ameaça ao próprio Estado ucraniano. No final de Outubro, o comandante supremo das Forças Armadas ordenou o recuo das tropas ucranianas de Zolote e de duas outras cidades para aumentar a distância entre as linhas da frente — eram de 30 metros, distância de arremesso de uma granada de mão — e evitar as constantes escaramuças e violações de cessar-fogo. O líder do Azov não gostou e ameaçou enviar dez mil voluntários para Zolote, para “defender as posições conquistadas com sangue”.

Publicamente desafiado, Zelensky foi à linha da frente para convencer os milicianos, mas acabou por os acusar de o considerarem um “tolo” e de lhe estarem a fazer um “ultimato”. Os milicianos mantiveram-se firmes e acabaram por ser desarmados por militares ucranianos e retirados da linha da frente, com a imprensa ucraniana a referir que se temia que a explosiva situação levasse ao derramamento de sangue.

Olena Semeniaka: “Em apenas quatro anos, o Movimento Azov tornou-se um pequeno Estado dentro do Estado”

Avakov teve um papel fundamental no desarmar da crise e, dentro do Governo, conquistou pontos, mostrando mais uma vez ser indispensável para a ordem interna. O seu poder depende daquilo a que a imprensa ucraniana diz ser um jogo duplo: apoiar as forças de segurança e militares e, ao mesmo tempo, os milicianos.

A 28 de Outubro de 2019, Avakov visitou o campo de treino da unidade em Mariopol para lhe mostrar apoio público e, dias antes, deixou claro que “a força especial Azov é uma unidade legal da Guarda Nacional ucraniana e os seus militares têm sido exemplares nas tarefas de combate desempenhadas na defesa da pátria”. “A campanha de informação sobre a alegada propagação de ideologia nazi entre os militares é uma tentativa deliberada para descredibilizar a unidade, principalmente entre os parceiros internacionais da Ucrânia, e provocar uma crise na relação com os nossos aliados”, continuou o ministro. Ao nível da comunicação visual, o Regimento Azov tem demonstrado recentemente um cuidado particular para não ser conotado politicamente.

Azov estende tentáculos à Europa

A anexação da Crimeia e o apoio ao separatismo no Leste da Ucrânia dividiu a extrema-direita europeia a favor de Moscovo. A maior parte dos grupos viu nas acções militares de Putin, promovidas por um dos seus mais próximos conselheiros e ideólogo de extrema-direita, Aleksandr Dugin, uma oposição ao atlanticismo ocidental, isto é, aos Estados Unidos, à NATO e à União Europeia. A francesa União Nacional e a italiana Liga continuaram a apoiar a Rússia – por seu lado, o Chega já assumiu no Parlamento a defesa da Ucrânia com um voto de condenação da agressão russa, e foi por isso elogiado pelo Movimento Azov.

Com a frente de batalha a ser-lhe desfavorável, a extrema-direita ucraniana viu-se isolada no palco internacional e o Azov não perdeu tempo a tentar inverter a situação, conseguindo-o com relativo sucesso. Em 2013, três militantes ucranianos de extrema-direita criaram a Misanthropic Division (MD), uma rede internacional neonazi, com o objectivo de estabelecer um Estado etnonacionalista no país da Europa de Leste. No entanto, a partir de 2015, por causa da guerra com a Rússia, a rede passou a promover a causa ucraniana e a recrutar combatentes internacionais para as fileiras do Azov — a MD ainda hoje se mantém activa, principalmente na Ucrânia.

Membros da Misanthropic Division

Por outro lado, o braço político do Azov, o Corpo Nacional (antes Corpo Cívico), montou uma campanha internacional de sensibilização sobre a ameaça russa e uma rede internacional cuja responsabilidade coube a Olena Semeniaka, seguidora de Dugin até à anexação da Crimeia e que viaja recorrentemente pela Europa participando em conferências — esteve em Portugal em 2018 a convite do Escudo Identitário, organização neofascista portuguesa inspirada no italiano CasaPound.

As acções de propaganda e o estreitar de ligações protagonizados por Semeniaka começaram na Europa Central e de Leste e, depois, foram alargados a países europeus mais distantes: Itália, Portugal, Noruega, Suécia e Reino Unido.

E, ao mesmo tempo, organizou eventos políticos na capital ucraniana: as conferências PanEuropa, em 2017 e 2018 em Kiev, e o projecto político Intermarium Support Group, um grupo de apoio fundado em 2016 por Biletskii que se baseia num conceito geopolítico alternativo ao atlanticismo e cujas raízes históricas vêm do pensamento do polaco Jósef Pilsudski, do período entre guerras mundiais. O conceito, apropriado pela extrema-direita, defende uma estratégia de segurança focada no “etnofuturismo” e visa integrar países do Báltico ao mar Negro numa aliança regional — foi a resposta do Azov ao sentimento de abandono da Ucrânia pelo Ocidente.

Voluntários da Batalhão Azov numa manifestação em Kiev Vladik Musienko/NurPhoto via Getty Images

O Azov convida para estas palestras teóricos da extrema-direita, entre os quais o norte-americano Greg Johnson (deportado da Noruega em Novembro de 2019, por elogiar o terrorista Anders Breivik, falhando um voo para Portugal, onde vinha assistir a uma conferência no Iscte-IUL sobre imigração e extrema-direita) e líderes políticos, focando-se, no caso do Intermarium, nos países que fariam parte da desejada aliança.

Esses contactos internacionais têm também como objectivo a formação de uma Legião Estrangeira Ucraniana. “Os voluntários estrangeiros começaram a juntar-se ao Batalhão Azov em 2014-2015. Assim, quando o Partido Corpo Nacional foi fundado, a orientação política sobre a criação de uma Legião Estrangeira Ucraniana – o nosso sonho em comum – foi inserida no nosso programa político”, lê-se numa publicação de Facebook do Intermarium Support Group em que anunciou que a IV conferência da organização, em Zagreb, na Croácia, “promete levar a cooperação a outro nível”.

O Regimento Azov já é membro honorário da organização de veteranos Francopan, que coopera com a Legião Estrangeira Francesa. “Para esta organização [o Azov], a cooperação sinergética comforças armadas estrangeiras não tem precedente”, continua a mesma publicação de 23 de Junho de 2019.

Artes marciais para recrutar

A violência sempre foi uma característica da extrema-direita e o militarismo e as artes marciais os escapes. Com o sucesso das artes marciais mistas (MMA), os seus militantes viram um novo terreno onde se podiam implantar, prosperar e, mais importante, recrutar. E, pelo meio, tecem ligações internacionais através de torneios em que participam lutadores dos Estados Unidos e Europa.

O Azov percebeu-o e agarrou essa oportunidade aliando-se a Denis Kapustin (conhecido por Denis Nikitin), um dos mais influentes militantes da extrema-direita europeia, cidadão russo-alemão e dono da marca desportiva White Rex. Nikitin dedicou-se em tempos a treinar militantes do britânico Acção Nacional, grupo neonazi banido pelas autoridades, e é o verdadeiro responsável pelo Reconquista Club, local onde o Azov organiza torneios em Kiev.

Denis Kapustin

“Se matarmos um imigrante por dia, são 365 imigrantes por ano. Mas dezenas de milhares chegarão de qualquer forma. Percebi que estamos a combater as consequências, não as causas. Agora combatemos pelas mentes; não nas ruas, mas nas redes sociais”, disse Nikitin ao The Guardian, em Abril de 2018.

Nikitin é o responsável por trazer lutadores dos EUA e da Europa para os torneios que organiza através de uma rede de ginásios em todo o continente europeu. Em França, organiza o Pride France desde 2013 em Paris, e o Day of Glory em Lyon, em parceria com o Blood and Honor, considerado grupo terrorista pela Europol. E desde 2015 que organiza o festival alemão Kampf der Nibelungen (entretanto banido pelas autoridades alemãs) e o grego Pro Patria, em parceria com antigos e actuais elementos do neonazi Aurora Dourada. Já em 2018 fundou o Shield and Sword, um festival de extrema-direita com um torneio de MMA.

As ligações de Nikitin estendem-se a todo o continente e chegam até aos russos do Fathers Frost Mode (FFM), que também organiza torneios de MMA — o Hammer of the Will, por exemplo. Nikitin e o líder do FFM, Max Savelev, são próximos — o segundo esteve em Portugal em 2018.

Mas há quem não tenha pudor em dizer que a Ucrânia pode ser uma base para os militantes de extrema-direita. No início de Maio, Bogdan Khodakovski, líder do grupo neonazi ucraniano Tradição e Ordem, próximo do Azov, apareceu num vídeo em directo no Instagram, em que Nikitin fez de tradutor, e disse que a “União Europeia tem de ser destruída”.

Membros do movimento paramilitar Azov numa manifestação em Mariupol, em 2015 Pierre Crom/Getty Images

“Estamos a apelar às forças na Europa: estamos prontos para vos dar uma base, um espaço seguro e avançar em conjunto com uma Cruzada contra Bruxelas, os liberais e os imigrantes”, disse Khodakovski, sublinhando “serem bem recebidos na Ucrânia para todo o tipo de treinos”. E vários foram os internautas que perguntaram “como posso fazer para treinar convosco na Ucrânia?”, tendo como resposta a sugestão de enviarem mensagens privadas.

Os dois líderes de extrema-direita anunciaram ainda no mesmo directo que a Tradição e Ordem vai abrir uma filial na Alemanha, para unir “eslavos e alemães” e “partilhar conhecimento teórico e prático”. Os contactos de MMA servem, assim, para estabelecer pontes e criar organizações com ligações à extrema-direita ucraniana, que lhes oferece treino militar. Transformado num grande movimento com enorme influência na Ucrânia, o Movimento Azov e seus aliados tornaram o país num farol para uma parte da extrema-direita.

Fonte aqui (Para que não venham dizer que a Estátua publica fake news).