O terrorismo, esse pilar da democracia liberal

(Por José Goulão, in SCF, 06/06/2025, Revisão da Estátua)


Como é da praxe para quem tem sempre razão, os fins justificam os meios, sem dúvida um princípio fundador da democracia liberal.


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Primeiro Emmanuel Macron, agora Donald Trump. As duas vertentes transatlânticas da chamada “civilização ocidental”, ou “nossa civilização”, aparentemente tão desavindas nestes tempos, competem agora em Veneza ao chefe terrorista islâmico Abu-Muhammad al-Jolani, que sequestrou o poder em Damasco em 8 de Dezembro último.

Esqueçam todas as diferenças que se dizem existir entre a União Europeia e a administração Trump na Casa Branca. Nada disso é para levar a sério, muito menos as supostas críticas que as instituições federalistas e os chefes de governo da maioria dos 27 fazem ao desastrado indivíduo que governa os Estados Unidos da América. Quando se trata do chamado terrorismo islâmico e dos seus expoentes, seja a Al-Qaeda, o Isis ou o “Estado Islâmico” e a miríade de heterónimos com que se mimetizam, Washington e Bruxelas falam a uma só voz, a do apoio e da gratidão. Tem sido assim desde os anos 80 do século passado, mas a admiração e o afeto agora publicamente testemunhados pelo mercenário terrorista responsável pela carnificina da guerra contra a Síria fazem cair todas as máscaras, anulam quaisquer exercícios de hipocrisia.

Dr. Jekyll e Mr. Hyde

O culto da figura do carniceiro Abu Mohammad al-Jolani, agora conhecido como Ahmed al-Sharaa e vice-versa, é um tratado, ou poderá ser um estudo de caso sobre a “ordem internacional baseada em regras” pela qual se guia uma “civilização superior” como a ocidental, permanentemente envolvida no combate à “barbárie”.

Há um al-Jolani que foi alto conselheiro dos chefes da Al-Qaeda e do Isis, depois comandou a al-Nusra, uma designação adotada pela Al-Qaeda na Síria e a seguir alterada para Tharir al-Sham. Esta mobilidade semântica articulou-se de modo a tentar fazer crer ao mundo que a organização atuando no cenário sírio se divorciara do gangue fundado pela CIA e Bin-Laden e explica assim o seu lugar no núcleo dos terroristas “moderados” financiados pelo Ocidente. Mudaram os nomes mas a essência assassina manteve-se e a Al Qaeda continuou a ser o chapéu cobrindo toda a comunidade “moderada”. Nada a obstar. O então primeiro-ministro francês, o sionista Laurent Fabius, reuniu-se numa reunião da coligação internacional de apoio aos “moderados” que “a Al Qaeda está a fazer um bom trabalho” na Síria.

Al-Jolani, criminosos e mercenários que comandou alguns dos mais selváticos ataques contra civis praticados durante a guerra imposta à Síria, como que replicava o visual do seu ídolo bin-Laden: vestes tribais, cabelos em desalinho sob o turbante e barba longa e descuidada à “fundamentalista islâmica”. Numa palavra, Sr.

Ahmed al-Sharaa é visivelmente outra pessoa. Começou a apresentar-se ao mundo durante uma entrevista que lhe foi oferecida pela estação oficiosa da CIA, a Rádio Voz da América, e para a qual o equiparam à “ocidental”, um pouco apressadamente, há que dizê-lo. Nessa ocasião, o magarefe atualmente conhecido como “presidente interino” da Síria compôs desajeitadamente a figura de um “estadista” pronto para “a paz”, dispôs-se a defender uma sociedade democrática na qual seriam assegurados os direitos das minorias étnicas e religiosas, comunidades milenares que representam a própria essência nacional multifacetada do país. É no papel de al-Sharaa que al-Jolani caminha agora pelo exterior das fronteiras do seu país para receber as homenagens, os agradecimentos e as promessas de apoios generosos dos principais dirigentes mundiais, sempre obsessivamente empenhados na “guerra contra o terrorismo”. No encontro recente que teve com o presidente francês Emmanuel Macron, no Palácio do Eliseu, al-Sharaa discutiu até com o seu anfitrião uma plataforma de “coordenação na luta antiterrorista”. Nova palavra, Dr.

“Jovem, atraente e viril”

Fardando-se de al-Sharaa, enquanto os mercenários “islâmicos” comandados por al-Jolani prosseguem as operações de chacina contra as comunidades civis alauitas, drusas e cristãs – abandonadas que são pela “civilização cristã e ocidental” – o presidente “interino” lá foi até à Arábia Saudita, o seu berço na arte do terrorismo, ao encontro de Donald Trump. “Um tipo jovem, atraente e viril”, assim o retratou o presidente norte-americano, talvez embeiçado pelo fato Armani que ele envergava, em contraste com a camiseta cara, de marca e assinatura fascista mas de aspecto rasca que outro terrorista, Zelensky, apresentou na Casa Branca.

Tutor e protegido trocaram um caloroso abertura de mão em Riade na presença do verdadeiro chefe do regime sempre democrático saudita, Mohammed bin-Salman, o organizador do encontro. Para trás, como se percebe, ficaram as questões de alguns que Washington fez quando bin-Salman mandou sequestrar a Turquia e esquartejar em pedaços facilmente dispersáveis ​​o cidadão norte-americano e o jornalista Jamal Kashoggi, por sinal também agente da CIA. Tudo ficou esquecido e enterrado no passado, com os restos da pobre criatura.

Trump prometeu a al-Sharaa e ao seu regime golpista levantar todas as sanções económicas que os Estados Unidos impuseram ao governo de Bashar Assad, um executivo que estava legitimamente em funções segundo os mecanismos constitucionais e de acordo com eleições participadas em massa – porém manchadas com o pecado original de terem produzido resultados contrários aos “desejos”. Logo, por definição, as eleições foram uma burla; pelo contrário, o governo “interino” resultante de uma guerra terrorista imposta à Síria de fora para dentro é a garantia da restauração da democracia e da estabilidade no país, de acordo com os mais influentes dirigentes ocidentais. Este governo sim, deverá ficar isento de sanções para que seja possível “um novo começo”, declarou Trump na Arábia Saudita. Um “começo” que, no entanto, não deverá perturbar a continuidade de algumas actividades produtivas, como é o caso do roubo do petróleo do povo sírio pelos Estados Unidos da América.

“Ele é um verdadeiro líder, comandou uma experiência e é incrível”, testemunhou, rendido, o presidente norte-americano. “Tem possibilidade de fazer um bom trabalho e de manter a calma” na Síria. Calma é, certo, o atributo mais silencioso de al-Jolani.

Washington cancelou há algumas semanas a acusação de “terrorista” que pendia oficialmente sobre o presidente golpista sírio, embora a decisão seja omissa quanto à validade ou não da recompensa de 10 milhões de dólares prometidos a quem o capturar. Compreende-se que, apesar disto, Trump tenha selado com um aperto de mão o reconhecimento das funções políticas do seu interlocutor “atraente”. O mandado de captura foi emitido contra al-Jolani e não contra al-Sharaa, que não há mal-entendidos nem quaisquer insinuações mal intencionadas.

Estreia no Eliseu

Soube-se há poucos dias que al-Sharaa enviou uma carta a Trump pedindo-lhe que exercesse os seus bons ofícios para que fosse possível uma “normalização” das relações entre a Síria e Israel.

O assunto é música para os ouvidos do presidente norte-americano: remove mais um grande obstáculo à concretização do extermínio do povo palestino – a começar pela limpeza da “Riviera” de Gaza – abre caminho para transformação da Síria numa plataforma de ameaça constante, ou mesmo de guerra, contra o Irão e amplia o poder sionista, isto é imperial e do “mundo livre”, sobre a Ásia Ocidental. Um passo que facilita assim o entendimento tão desejado e estratégico entre não uma mas as “duas democracias” do Médio Oriente: Israel e Arábia Saudita.

Pelo que fica demonstrado o que são úteis e civilizadoras têm sido as organizações terroristas ditas “islâmicas”, designadamente a Al-Qaida e o Ísis, como instrumentos dos interesses ocidentais e braços armados da NATO.

Al-Sharaa tinha anteriormente levantado a questão da “normalização” das relações com Israel durante o encontro que o presidente francês lhe concedeu no Palácio do Eliseu, um acontecimento que parece ter embaraçado o aparelho de propaganda situacionista, uma vez que não beneficiou da merecida publicidade. Agora, com o aval do chefe do império, mesmo que seja Trump, tudo ficará claro e franco. Al-Sharaa tornou-se um dos “nossos”.

A visita ao Eliseu foi uma estreia , um verdadeiro teste de fogo para a transfiguração ocasional do terrorista al-Jolani no estadista e diplomata al-Sharaa.

Envergado o fato Armani e depois de uma passagem por Jean Louis David para aparar a barba e o cabelo no mais afamado coiffeur masculino de Paris, o presidente “interino” sírio arribou ao coração da V República Francesa onde foi recebido pelo pequeno grumete dos Rotschild’s. Macron apresentou-se com um fato do mesmo tom de azul e não disfarçou uma certa admiração ao mirar o homenzarrão árabe que tinha na frente. Evitou verbalizar o adjetivo “atraente” que Trump foi incapaz de conter; porém, somando o estilo de acolhimento aos frutos da conversa, percebe-se que o presidente francês ficou ali com um amigo para a vida. Dir-se-ia que al-Sharaa e al-Jolani, tirando a diferença de fardas, poderia ser uma e a mesma pessoa.

Emmanuel Macron manifestou ao visitante um certo receio pelo que julgava ser a contenção de Trump face à situação na Síria, uma vez que ainda não tinha reconhecido o novo regime. Preocupações infundadas, como se percebeu pouco depois através dos acontecimentos em Riade. O presidente francês prometeu a al-Sharaa envidar esforços, não só com a União Europeia mas também com os Estados Unidos, para conseguir um “levantamento gradual” das sanções e travar qualquer intenção de Washington de retirar as tropas de ocupação que mantém ilegalmente na Síria. Afinal, verifica-se que há uma harmonia total entre os dois lados do Atlântico, as sanções serão levantadas e as tropas ficarão.

Os formalistas poderão argumentar que Macron não representa a União Europeia porque talvez a desnorteada agremiação dos 27 ainda não tenha interiorizado completamente a muito favorável relação custo-benefício da estratégia golpista, terrorista e segregacionista montada para destruir Estados poderosos, como era o sírio.

As reservas formalistas, porém, não tiveram qualquer razão de existir porque a democracia liberal continua a fortalecer-se e a ampliar estrategicamente as capacidades para exercer um poder cada vez mais firme e discricionário através da integração dos conceitos de terrorismo, racismo e genocídio no seu património de valores. O resultado pode ser cada vez mais autoritário, mas nada que embacie o fulgor da democracia na qual nos debatemos.

Além disso, Bruxelas já deu sinais de ter aceitado sem constrangimentos a nova situação na Síria. Logo em Janeiro de 2025, um mês depois de consumado o assalto dos mercenários terroristas a Damasco, os ministros dos Negócios Estrangeiros de França e da Alemanha, depois Jean-Noel Barrot e Annalena Baerbock, viajaram até à capital síria em nome da União Europeia para se avistarem com o novíssimo presidente “interino”.

No Eliseu, al-Sharaa pediu que a França “garanta apoio à fragilidade da Síria” e “ajude a restaurar a ordem e a reconstruir um país devastado por 14 anos de guerra”, situação de que al-Jolani foi um dos grandes responsáveis ​​mas que também já ficou lá atrás, enterrado nos escombros e no passado, como centenas de milhares de seres humanos inocentes.

O visitante sírio acordou com Macron uma “coordenação antiterrorista” e espera-se que os alvos desta convergência operacional continuem a ser as comunidades civis alauítas, drusas e cristãs indefesas, vítimas de massacres cometidos sob o pretexto de combater os remanescentes do Exército Nacional Sírio.

Al-Sharaa também abordou em Paris o que parece ser o seu objetivo prioritário: a “normalização das relações” com Israel. É verdade que o aparelho militar sionista bombardeia diariamente o território sírio, incluindo Damasco, e ocupa vastas zonas do sul, muito para além dos montes Golã. E nós sabemos o que acontece quando o Estado sionista ocupa territórios vizinhos. Numa primeira fase, segundo declarações oficiais, Telavive exige que esses territórios sejam “desmilitarizados”.

Nada disto, porém, desencoraja o presidente “interino” da Síria: “há negociações indiretas com Israel através de mediadores para diminuir as indiretas e evitar a perda de controle”. Ao continuar a guerra diária de desgaste, Israel está apenas a fazer subir o preço de um próximo acordo, mas bem poderia poupar munições e vidas humanas, apesar de isso não representar qualquer lucro: o “governo” de al-Sharaa/al-Jolani não poderá vir a render-se ao sionismo mais do que já se rendeu.

Seguindo o fio da história recente, compreende-se a atitude até um pouco obsessiva do senhor de Damasco na direcção ao Estado sionista. Lá no fundo, afinal, ele é grato e não esquece quem sempre o ajudou. Nos picos das operações terroristas contra a Síria, Israel disse presente quando se tornou necessário evacuar mercenários “islâmicos” feridos para hospitais de campanha montados nos Montes Golã ocupados ou mesmo para hospitais no interior de Israel. Al-Jolani/al-Sharaa tem certamente na memória, como muitos de nós, as imagens registradas durante as solidárias e carinhosas visitas hospitalares do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu aos terroristas da Al-Qaeda e do Isis feridos. O comportamento suscitou algumas reservas tímidas nos Estados Unidos. O “Wall Street Journal” contactou uma “fonte militar israelita” sobre o assunto, que se explicou assim: “Não perguntamos quem os feridos são, não pesquisamos as suas origens; logo que têm alta mandamo-los para a fronteira para seguirem o seu caminho.” Menos pragmático foi outro “alto dirigente” político israelita denunciado pela imprensa norte-americana e que disse que “uma derrota da Al Qaeda” na Síria seria “um desastre” para Israel. Felizmente para o sionismo e para a “civilização ocidental”, a Al Qaeda não foi derrotada.

Numa perspetiva democrática, ocidental e civilizacional, pode dizer-se, em relação à Síria, que tudo está bem quando acaba bem. O mesmo deve ser lembrado em relação ao Afeganistão, ao Iraque, à Líbia, sem esquecer a Palestina. O recurso a grupos e regimes terroristas revelou-se um ovo de Colombo, uma estratégia vencedora nos objectivos inquestionáveis de consolidação da democracia liberal.

O massacre de milhões de seres humanos, seja na Síria, na Palestina, na Ucrânia e noutros países completamente devastados pela guerra, é um preço que vale a pena pagar, como disse a humaníssima Madeleine Albright a propósito do massacre de inocentes – 500 mil crianças – em resultado das sanções económicas contra o Iraque. Afinal, o que está em causa é a defesa da “nossa civilização” e dos “nossos valores”. Como é habitual para aqueles que têm sempre razão, os fins justificam os meios, sem dúvida um princípio fundador da democracia liberal.

Fonte aqui.

Contra a memória curta: Gouveia e Melo e o naufrágio da Democracia

(António Garcia Pereira, in NoticiasOnline, 05/06/2025)

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Crise em Portugal

Vive-se hoje, em Portugal, uma situação de impasse político e de grave crise económica e social, que ameaça explodir a qualquer momento. Segundo um recente relatório do Instituto Nacional de Estatística (INE), existem dois milhões e cem mil pessoas em risco de pobreza e exclusão social, mesmo após as chamadas transferências sociais. Ou seja, mesmo depois de receberem subsídios como os de doença ou dedesemprego, o Rendimento Social de Inserção ou o Complemento Solidário para Idosos. Sem essas prestações sociais, o número de concidadãos nessa situação de risco de pobreza ou exclusão duplicaria.

Ainda segundo o INE, um quarto destas pessoas tem trabalho, mas os seus salários são de tal forma miseráveis que não conseguem escapar à pobreza; e mais de 50% dos jovens têm contratos precários. Por outro lado, segundo o Eurostat, enquanto o custo médio da mão-de-obra por hora(incluindo salários, contribuições patronais para a Segurança Social, apólices de seguros e outros encargos) na zona euro, em 2024, foi de 37,30€, em Portugal não ultrapassou os 18,20€, ou seja, apenas 48,8% daquele valor.

A Saúde é o desastre que se conhece, com cerca de um milhão e seiscentos mil portugueses sem médico de família e inúmeras urgências hospitalares sistematicamente encerradas.

A crise da Habitação não cessa de se agravar, com rendas cada vez mais incomportáveis e despejos contínuos e crescentes, alguns dos quais já executados pelos senhorios através do recurso a milícias privadas.

Austeridade à vista

Sob o pretexto da guerra na Ucrânia e ao mesmo tempo que se calam quanto ao genocídio praticado pelo governo de Israel na Palestina, tanto o Governo português como os demais governos europeus preparam-se, servilmente, para aumentar as despesas militares. Começa, igualmente, afalar-se abertamente no regresso do défice, com tudo o que isso representa em termos de política de austeridade – algo que Povo Português conhece bem, sobretudo desde os tempos da tróica. Ou seja, cortes nos já magros salários, pensões e direitos sociais, bem como facilitação e embaratecimento da contratação precária e dos despedimentos – tudo isto num contínuo anunciar de medidas em que as de um dia são ainda piores do que as da véspera. Não por acaso, o antigo ministro de Passos Coelho e actual economista chefe da OCDE, Álvaro Santos Pereira, veio mesmo dizer aquilo que os grandes patrões sempre pretenderam, ou seja, que, para combater o défice – reconhecido, assim, expressamente – será preciso rever a Constituição e acabar com a proibição dos despedimentos sem justa causa.

A ameaça autoritária em construção

Ora numa situação como esta, de crise grave e de relativo impasse político, a solução encontrada pelas grandes corporações – desde logo a banca e as grandes empresas multinacionais – é a de pôr o PSD, com a cumplicidade de um PS dito responsável e colaborante, a aplicar o programa do partido fascista Chega: defesa intransigente dos interesses da banca e das grandes empresas,privatização de tudo o que ainda puder ser privatizado(não apenas na economia, mas também na saúde e na educação), cortes nos direitos sociais, combate a tudo o que cheire a cultura e desenvolvimento do espírito crítico e reforço da repressão (legal, institucional e policial) sobre quem proteste ou pense de forma diferente.

Neste quadro, e dentro da velha e conhecida táctica de procurar “colocar todos os ovos no mesmo cesto”, é muito importante, para as forças mais retrógradas da sociedade portuguesa, fazerem eleger um Presidente da República que, sob a capa de uma pretensa independência, de um pretenso rigor e de uma suposta eficácia, garanta luz verde ao regresso em força das políticas de austeridade e da repressão — e que, simultaneamente, reforce os seuspoderes, atropelando tudo e todos, inclusive a própria Constituição que jurou respeitar e fazer respeitar.

O candidato do sistema e o que se esconde por detrás da máscara

Ora, este é o papel que assenta, que nem uma luva, nalaboriosamente construída, e mediaticamente amplificada, figura de Gouveia e Melo. Na verdade, este não passa de um produto encomendado pela classe dominante a uma Comunicação Social que, desde há anos, se gaba de criar e vender presidentes como quem vende sabonetes,produzindo e amplificando tudo o que possa favorecer aimagem messiânica do “Salvador da Pátria” e escondendo tudo o que, do seu passado e do seu presente, possa contribuir para pôr a claro o seu verdadeiro carácter, bem como as suas reais ideias e ambições.

Tal já vem sendo denunciado – é certo que por muito poucos –, mas quem quiser analisar mais detalhadamente alguns desses aspectos pode fazê-lo facilmente, consultando, por exemplo, tanto um artigo que escrevi em 2024 – Gouveia e Melo: o “Messias” da Marinha ou o naufrágio da Democracia? – como um artigo de Jorge Silva Paulo, publicado em Novembro de 2021 – Não Aprenderam Nada: Gouveia e Melo, outro Menino-de-Oiro.

E, seguramente, um dia se saberá quais as razões que terão levado grande parte da Comunicação Social, dos jornalistas e dos comentadores do pensamento dominante a incensar continuamente Gouveia e Melo, silenciando factos e circunstâncias como os seguintes (e que desafio os seus habituais defensores oficiosos a, com provas, virem desmentir):

− O modo como, por meio de sinistras operações de homicídio de carácter, afastou e “liquidou”, um a um,todos os seus potenciais concorrentes ao cargo de Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA).

− A forma prepotente e ultra-autoritária com que sempre exerceu todos os cargos por onde passou – dos submarinos ao CEMA – instaurando um clima de medo, atacando, destituindo e demitindo quem dele discordasse ou simplesmente quisesse cumprir a lei.

− O modo e os verdadeiros motivos por que foram, por sua iniciativa, demitidos responsáveis da Marinha,designadamente no Algarve, ou a razão por que temmovido processos judiciais, inclusive criminais, com custas pagas pela Marinha, contra os seus críticos.

− A verdadeira máquina de propaganda e de autoelogio que montou na Armada: desde a criação de um gabinete de comunicação – que monitoriza toda a Comunicação Social e as redes sociais para fazer clipping de tudo o que diga respeito à Marinha e, sobretudo, a si próprio – até ao cultivo de relações privilegiadas com certos jornalistas, sempre prontos a publicitar as suas posições sob a tão anónima quanto desresponsabilizante fórmula das “fontes próximas da Marinha”.

− A publicação – que ninguém quis investigar nemdebater a sério – no último número da Revista da Armada sob a sua direcção, de um póster de página inteira que o retrata de braço dado com El-Rei D. João II, como se de um autêntico herói nacional se tratasse.

− A realização de operações navais, como a da passagem das linhas do Equador e do Círculo Polar pelo submarino Arpão, com Gouveia e Melo a bordo, sem qualquer justificação ou utilidade militar, implicandoelevadíssimos custos e servindo apenas para finspropagandísticos em seu proveito.

− A “doutrina” – a qual, de acordo com Gouveia e Melo e alguns dos seus apoiantes, porque modelando condutas, prevaleceria sobre a própria Constituição – do chamado “duplo uso” dos meios da Marinha, com a qual tem procurado justificar concepções e práticas absolutamente ilegais e inconstitucionais, como a colocação desses meios a praticar, sozinhos, actos da competência exclusiva das autoridades judiciárias ou dos órgãos de polícia criminal (tais como detenções ou apreensões de droga ou de pesca ilegal). E alguém se preocupou em saber se o Ministério Público – sempre célere em instaurar processos-crime ou averiguações preventivas – adoptou semelhante conduta perante estas actuações de Gouveia e Melo, em especial no Algarve?

− A forma abusiva – por vezes até ridícula, mas amplamente propagandeada – com que tentou retomar o protagonismo público após o período da vacinação, por meio de entrevistas televisivas encomendadas, procurando escamotear o papel desempenhado por forças policiais especializadas, como a Polícia Judiciária, para se vangloriar de uma alegada “inovadora estratégia” no combate ao narcotráfico no Algarve, chegando mesmo a afirmar ser bem mais eficaz do que as autoridades espanholas.

− Do ponto de vista da Ética, que ele tantas vezes invoca, o ensurdecedor silêncio que Sua Excelência manteve perante a forma miserável como o anterior CEMA, Almirante Mendes Calado, foi afastado do cargo antes de tempo por António Costa, para permitir a ascensão de Gouveia e Melo ao mesmo cargo – situação que gerou uma mais do que justificada onda de indignação e de solidariedade praticamente por toda a Marinha, com a única e significativa excepção do próprio Gouveia e Melo.

Tudo isto revela bem o carácter e o pensamento de Gouveia e Melo, em múltiplos campos e aspectos que, em alguns casos desde há muitos anos, embora conhecidos,praticamente ninguém questiona – nem a Comunicação Social, nem os outros candidatos ou putativos candidatos presidenciais.

Mas práticas e concepções anticonstitucionais sobre o papel das Forças Armadas num Estado que se proclama de Direito democrático, e também sobre a natureza e a missão da Autoridade Marítima Nacional e da Polícia Marítima; vaidade extrema e total narcisismo; perseguição implacável a quem dele discorde ou critique; ausência de camaradagem e de solidariedade; malversação da verdade dos factos para construir as narrativas convenientes; e contínua auto-promoção pessoal, inclusive à custa do erário público, tudo isto já deveria ser mais do que suficiente para, ao contrário do que por aí se diz, sabermos ao que vem Gouveia e Melo.

Acresce que, após a apresentação da sua candidatura, vem agora ao de cima (ainda que disfarçado ou “modernizado”) o bafiento e salazarento discurso dos “Salvadores da Pátria”. Mesmo que, a conselho dos seus assessores, tente agora dizer o contrário, esse discurso ésignificativamente próximo do de Ventura e do partido Chega: o descrédito dos partidos políticos e do parlamentarismo, a suposta necessidade de “regenerar” a Nação e, sobretudo, a ideia de que o país só pode ser salvo por um Messias independente, supostamente impoluto, eficaz e de pulso firme.

E assim se chega ao ponto mais significativo da natureza ultra-reaccionária e perigosa das posições de Gouveia e Melo, tão típica dos Bonapartes de todos os tempos: o culto da personalidade levado ao extremo; a ideia de que, por supostamente encarnar os anseios de toda a comunidade, tudo lhe é legítimo fazer, porque os fins justificariam os meios, mesmo os mais ilícitos ou ilegítimos, inclusive faltar à verdade e sacudir responsabilidades para os seus subordinados quando as coisas correm mal.

O caso Mondego

Foi assim, aliás, na entrevista conduzida pela jornalista Sandra Felgueiras, na passada segunda-feira, 2 de Junho, quando Gouveia e Melo, confrontado com a demonstração da completa e muito grave ilicitude da conduta da Marinha por si então chefiada face aos marinheiros do Mondego – patente no Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo de 30 de Abril último, que arrasou a argumentação da mesma Marinha e anulou, por quatro fundamentos distintos, as sanções aplicadas a 11 dos 13 militares – tentou defender o indefensável.

Antes de mais, tentou negar que foi ele quem, em claríssima violação da ética militar e do próprio Regulamento de Disciplina Militar, deu, de dedo esticado, uma reprimenda pública a todos os 13 militares do “Mondego” (superiores e subordinados hierárquicos), com altifalantes ligados e a Comunicação Social chamada para dar publicidade ao vexatório “puxão de orelhas”, numa postura absolutamente indigna, que, aliás, lhe valeu bastantes (ainda que “encolhidas”) críticas, desde logo no interior da própria Marinha.

Depois, e por um lado, mostrou que, apesar de estar na reserva há cinco meses, continuou, e continua, a ter acesso a informação sobre o processo. Mas mais grave ainda:faltou deliberadamente à verdade sobre este, ao mesmo tempo que deixava claro qual é, afinal, a sua concepção, muito própria e completamente errónea, de um Estado de Direito.

Já antes, quando, em Dezembro último, o Tribunal Central Administrativo Sul anulara as referidas sanções, Gouveia e Melo tentara fazer crer que a decisão ilícita não fora sua, mas do seu subordinado Comandante Naval – o que é falso. O que foi então anulado judicialmente foi a decisão do próprio Chefe do Estado-Maior da Armada, relativa ao recurso hierárquico que para ele fora interposto. Decisão essa subscrita por Gouveia e Melo e com 12 (doze!?)páginas de tentativa de justificação do injustificável.

Posteriormente, já em Abril de 2025, perante novo acórdão – desta vez do Supremo Tribunal Administrativo – que acrescentou um quarto fundamento (a não realização das relevantes diligências de prova requeridas pela defesa) aos três já enunciados pelo TCA Sul – Gouveia e Melo arrogou-se declarar que “não concordava” com a decisão. Como se, perante uma decisão judicial, fosse admissível àAdministração Pública (inclusive à Administração Militar) qualquer outra conduta que não a de cumprir e fazer cumprir essa decisão, tal como imperativamente estipula e impõe o artigo 205.º, n.º 2, da Constituição da República Portuguesa.

Mas, na referida entrevista televisiva, Gouveia e Melo foi ainda mais longe, desde logo insinuando que “o assunto ainda está na Justiça”, como se o Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo não fosse já definitivo. Ou será que o impoluto Almirante também defende – e opina, pelo menos – que a Marinha deve agora lançar mão de subterfúgios, manobras dilatórias ou pretensos recursos, designadamente de pretensa inconstitucionalidade, para assim tentar adiar o trânsito em julgado do Acórdão, tal como, por exemplo, fez recentemente o arguido Mário Machado?

Gouveia e Melo afirmou ainda – e também falsamente –que “os factos estão lá”, quando o Supremo, sem entrar na respectiva apreciação, apenas listou os factos que constavam do Acórdão do TCA-Sul, os quais resultaram (apenas) da versão e dos documentos apresentados pela Marinha. Precisamente porque não houve qualquer prova da defesa e, logo, também não houve.

Mais ainda: Sua Eminência afirmou que o Supremo Tribunal Administrativo teria dito que “há problemas que podem levar à anulação das sanções”, quando, na verdade, aquele Supremo Tribunal anulou efectivamente as sanções, e fê-lo com base em múltiplas violações da lei e da Constituição. Pretender, assim, reduzir essas violações (como a não informação dos arguidos quanto aos seus direitos, a nomeação de um instrutor com intervenção directa nos factos e evidente conflito de interesses, a ausência de audiência dos arguidos após novas diligências da acusação e a recusa da realização de prova essencial para a defesa, requerida de forma oportuna e fundamentadamente requerida) a meros “problemas”processuais, é desvalorizá-las de forma absolutamente inadmissível. Mais do que isso, constitui mesmo uma conduta absolutamente indigna, não apenas do cargo que Gouveia e Melo exercia, mas sobretudo do cargo de Chefe de Estado a que agora se candidata. 

Na verdade, um personagem que considera meras formalidades os princípios constitucionais, que se apropria de todos os êxitos – mesmo os que o não são – e culpa sempre os subordinados pelos insucessos, e que não hesita em falsear a verdade dos factos, é um problema grave para a Democracia.

Até porque amanhã, dentro desta lógica profundamente ditatorial, poderá estar a defender, e a praticar, que, desde que seja para perseguir pessoas “perigosas” (como divergentes de opinião, opositores políticos ou dirigentes sindicais, por exemplo), não faz mal faltar à verdade ou violar a lei. E por que não – tal como foi feito aos militares do Mondego – impedir tais arguidos de terem advogado, de se defenderem ou de produzirem prova? Ou,já agora, permitir à acusação realizar diligências após conhecer a defesa e, de seguida, escondê-las da mesma?

O desafio que se impõe

É isto, Caros Concidadãos, que se pode esperar de um Presidente da República?!

E a verdade é também que todos aqueles que têm a possibilidade – e, sobretudo, a obrigação – de evidenciar e não deixar apagar ou destruir a verdade dos factos, como os políticos ditos democratas e os jornalistas ditos independentes, mas se escusam a fazê-lo – porventura embriagados com aquilo que lhes parece ser o cheiro a Poder – não merecem melhor juízo.

Inquisidores-mores do Reino (mesmo que disfarçados de impolutos democratas) e ferozes ditadores envergando paternalísticas e messiânicas vestes, já os tivemos vezes suficientes na nossa História.

A Democracia não sobrevive à cumplicidade nem ao silêncio. E é disso, mais do que de qualquer inimigo externo, que ela corre hoje maior risco. A indiferença dos justos é o terreno mais fértil para o avanço dos autoritários. Cabe-nos impedir que a máscara caia tarde demais. Porque, depois, já não será apenas o passado que se repete – será o futuro que se perde!

Fonte aqui

Donald Trump dissocia os Estados Unidos da União Europeia

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 20/02/2025)


Contrariamente ao que havíamos imaginado, em 1991, a queda do « Império americano » não se assemelhará à da URSS. Os aliados europeus ocidentais de Washington pretendem perpetuá-lo, com ou sem o seu líder. Segue-se que o Presidente Donald Trump os irá abandonar em campo aberto.
Depois de ter dissociado os Estados Unidos dos « sionistas revisionistas » no Poder em Israel, o Presidente Trump dissocia-os da OTAN e da União Europeia : ele já não quer que o seu país tenha a ver seja o que for com o « Império americano » e os seus mercenários que são os « nacionalistas integralistas » ucranianos.


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Depois de ter dissociado os Estados Unidos de Israel [1], Donald Trump começou a dissociá-los da União Europeia. Tal como com Israel, primeiro ele deu a impressão de dar carta branca aos membros da UE e ao Reino Unido, depois iniciou o corte da ligação.

Recorde-se : o Presidente Trump deixou os dirigentes ocidentais convencerem-se que podiam na Ucrânia, por si sós, combater a Rússia. Durante muitas reuniões em Paris, em Londres e em Kiev, os dirigentes da UE e do Reino Unido esforçaram-se a anunciar que iam conjuntamente garantir a segurança do continente face ao perigo de « invasão russa ». Eles imaginaram colocar os seus países sob os guarda-chuvas nucleares britânico e francês e não mais sob o dos Estados Unidos. Eles pensaram numa guerra continental contra a Rússia e uma reorganização de alianças em torno do Reino Unido, da França, da Alemanha e da Polónia.

E depois : nada de nada. Os Estados Unidos suspenderam a sua coordenação com a UE [2]. Já não se concertam mais a propósito das medidas coercivas unilaterais que tomam contra a Rússia. O 17º pacote de «sanções» da UE foi o último lançado em Bruxelas com Washington. O 18º já o será em solitário. Anuncia-se que será de uma amplitude sem precedentes, mas sem os Estados Unidos, ele está condenado ao fracasso de antemão.

Os Estados Unidos assistiram à preparação de um « tribunal penal internacional para julgar os “crimes russos” na Ucrânia », no seio do Conselho da Europa, mas eles põem-se à margem [3]. A seus olhos, esta jurisdição não tem nenhum significado. Os tribunais penais de Nuremberga e de Tóquio tinham seguido a vitória dos Aliados sobre o nazismo, mas este antecipa a vitória dos «nacionalistas integralistas » ucranianos, colaboracionistas dos nazis, sobre a Rússia. Ele não é validado pelas Nações Unidas e não tem qualquer hipótese de o ser, tendo em conta o direito de veto russo.

Hoje, o Reino Unido e a UE devem ater-se às evidências. Não dispõem dos meios militares para aplicar a sua política. Estão encerrados nas suas contradições denunciando os danos colaterais ucranianos da “operação militar especial” russa, ao mesmo tempo que se comprazem com os danos colaterais palestinianos da guerra israelita contra o Hamas, portanto muito mais severos. Foram eles próprios que se afastaram dos Estados Unidos, a quem não levaram a sério.

Resta-lhes uma arma : o confisco de activos russos que eles congelaram já. Estes permitiriam então reconstruir a Ucrânia, sem que eles mesmos tivessem que pagar. No entanto, confiscar bens por motivos políticos, é violar o direito à propriedade. Uma tal decisão seria irreversível. Ela só é possível em tempo de guerra contra um inimigo. Confiscar estes activos é, pois, declarar guerra a um inimigo muito mais poderoso do que o conjunto formado pelo Reino Unido e pela UE.

Para além do facto de que os seus exércitos não resistiriam dois dias numa guerra contra a Rússia, a UE iria inspirar medo a todos os seus parceiros no planeta : se é possível confiscar os bens russos, porque é que Bruxelas iria parar neste “excelente” caminho e não confiscaria já agora os activos de qualquer Estado que não tivesse condenado a Rússia ?

Em 14 de Fevereiro, durante a Conferência sobre Segurança de Munique, o Vice-Presidente JD Vance avisou o Reino Unido e a UE. Ele declarou : « a ameaça que mais me preocupa na Europa não é a Rússia. Não é a China. Não é um qualquer agente externo. O que mais me inquieta, é a ameaça que vem do interior – o recuo da Europa em certos dos seus valores mais fundamentais, valores que são partilhados com os Estados Unidos da América ».

Entenda-se bem aquilo que se passa. O Presidente Donald Trump anunciou que, agora, exigia que todos os aliados consagrassem 5% do seu PIB às despesas militares. Sendo este número impossível de alcançar – ele implica uma duplicação de despesas — a saída dos Estados Unidos do comando integrado da OTAN era previsível. Simultaneamente, o Presidente garantiu repetidamente que a União Europeia havia sido criada para prejudicar os Estados Unidos, quando a UE é o componente civil do «Império Americano», do qual a OTAN constitui o braço militar. Agora, depois de ter constatado que, nem o Reino Unido, nem a UE, são capazes de por em causa «o Império Americano», que os seus dirigentes são dependentes do «Império Americano» em prejuízo dos seus cidadãos, que se recusam a ser livres e independentes, Washington corta as amarras com eles.

Notem bem que Donald Trump não ataca os Europeus Ocidentais. Ele deixa-os apenas derivando em perseguição de uma quimera.

Para aqueles que, como eu, imaginavam a dissolução da OTAN e da UE depois da da União Soviética, é um passo em frente. Mas para súbditos britânicos e os cidadãos europeus, é uma catástrofe.

Nos próximos meses, assistiremos à reconciliação russo-americana. Tudo aquilo que formatou a nossa maneira de pensar será votado ao esquecimento. Chegou o momento dos Ocidentais substituírem suas elites e repensarem as suas sociedades. Mas, eles não estão preparados para isso, de todo.

Enquanto em 1991, imaginávamos a dissolução do « Império Americano » à semelhança do da URSS, constatamos que aquilo que o Presidente Donald Trump pretende concretizar é um cenário completamente diferente. Tal como Mikhaïl Gorbachev, ele deseja trazer o seu país de volta aos seus fundamentos (Make America Great Again!)-(«Tornar a América Forte Outra Vez»-ndT), mas os seus aliados europeus, esses, pensam prolongar esse Império.

Em Bruxelas, a administração da UE ainda não aceitou este cowboy. Ela espera que ele seja assassinado em breve ou que perca as eleições intercalares e seja forçado a entrar na linha. De uma certa maneira, aquilo que se joga hoje é o fim da Guerra Fria, quando os serviços de retaguarda (stay-behind) da OTAN faziam e desfaziam os governos Europeus Ocidentais. Os dirigentes da UE, a começar por Ursula von der Leyen e Kaja Kallas, têm origem directa nessas operações secretas. Eles são as crias do « Império Americano » e pretendem perpetuá-lo.


Notas

[1] “Donald Trump dissocia os Estados Unidos de Israel”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 13 de Maio de 2025.

[2] «Russland-SanktionenEnde der Absprache mit den USA», Florian Flade & Ben Huebl & Joerg Schmitt, Süddeutsche Zeitung, 27. Mai 2025.

[3] “A justiça dos “vencedores” que perderam”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 2 de Junho de 2025.