Somos contra imigrantes e pode-se bater nas mulheres

(Ana Sá Lopes, in newsletter do Público, 03/07/2025)


Cara leitora, caro leitor:

Não queremos cá imigrantes e não nos incomoda grande coisa que um homem, mesmo ocupando elevados cargos públicos, bata na mulher. É uma definição triste, mas é isto que somos, em Julho de 2025. Todos aqueles que atacam a imigração em nome de um suposto feminismo – em Portugal as mulheres são muito bem tratadas e a violência doméstica é condenada judicial e socialmente de forma exemplar – bem podem limpar as mãos à parede.

Dois casos (e meio):

1. O Governo avançou com as mudanças à lei da nacionalidade, mostrando que consegue ir não “além da troika”, como no passado, mas além do Chega, se preciso for. Claro que o Chega nunca ficará satisfeito com as mais desumanas leis inventadas por Montenegro. A radicalização anti-imigrante, com as consequências sociais que daí advêm, vai agravar-se.

A resposta do ministro Leitão Amaro à pretensão do PS de que as propostas e projectos lei sobre nacionalidade baixassem à comissão sem votação (uma forma de remeter uma discussão mais profunda para a sede de comissão parlamentar respectiva) é de antologia.

O Chega não precisa de estar no Governo para estar no Governo: a adopção das políticas da direita populista radical nesta matéria por Montenegro e companhia mostram ou uma enorme ingenuidade – acha que é assim que mata o Chega – ou uma vontade de humilhar o PS que, na situação difícil em que se encontra, estava disponível para fazer vários acordos com o Governo.

As duas ideias (copiar o Chega achando que lhe rouba os votos e humilhar o PS, que está na mó de baixo) devem ter sido metidas na varinha mágica e saiu uma mistura digna de quem se esqueceu da velha social-democracia do PSD, que ainda tem aqui e ali uns defensores, embora agora já não tenha a ex-deputada Rubina Berardo, que se fartou das políticas de direita populista.

Então o que disse Leitão Amaro, seguindo o guião anti-imigrante da direita populista? A votação de sexta “vai testar cada partido e demonstrar onde está”. “Querem preservar o que ainda sobra de uma época de facilitação ou contribuir para uma mudança de política que vem a ser feita desde o ano passado?”, perguntou, provando que o interlocutor preferido não será o PS.

Resta dizer que o velho Montenegro, como aqui explica o Filipe Santa-Bárbara, defendia o reagrupamento familiar como uma forma de integração de imigrantes. O novo Montenegro já não. O Chega, no fundo, é que ganhou as eleições.

Gouveia e Melo, que andou a esforçar-se para mostrar o seu centrismo, também deu a sua contribuição para o discurso anti-imigrantes esta semana: “Claro que precisamos de gente por causa da nossa demografia. Mas não é qualquer gente. Devemos de alguma forma conseguir controlar os fluxos para defender também os interesses portugueses”. Não precisando Portugal de “qualquer gente”, segundo o candidato presidencial, era bom que ele fizesse a lista daqueles que não quer. Alemães? Louros de olhos azuis? Milionários com direitos a vistos gold? Era sumamente interessante.

O discurso contra o imigrante é hoje dominante no mainstream social e está associado não a políticas públicas – quem paga as reformas dos portugueses? – mas a um ódio visceral em grande parte racista, a roçar o slogan “A Europa será branca ou não será”. Sabem o que vai acontecer? Não será.

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2. O Governo marcou esta quinta-feira as eleições autárquicas para 12 de Outubro. Esta sexta-feira, o presidente da Câmara de Vizela, cujo processo de violência doméstica foi agora reaberto pelo Ministério Público – depois de um arquivamento surreal, tendo em conta as provas apuradas no hospital –, vai reapresentar a sua recandidatura, desta vez como independente. José Luís Carneiro seguiu o procedimento de Pedro Nuno Santos e manteve a retirada do apoio do PS à recandidatura.

Mas sabem o que fizeram os socialistas vizelenses? Vão todos apoiar Victor Hugo Salgado. Em massa. Estão nas listas. Aparentemente, negociaram com a direcção não virem a ser expulsos. São todos “Victor Hugo Salgado”, como dizem. A mulher do presidente da câmara ficou com o nariz partido? Não interessa. O PS vizelense não quer saber o que se passa na casa de cada um.

Quando lermos um acórdão de um juiz a desculpabilizar a violência doméstica – e têm sido vários – lembremo-nos do caso de Vizela. A justiça reflecte sempre a sociedade e a sociedade não se importa absolutamente nada com a violência doméstica. Estamos no tal país que não quer imigrantes porque respeita imenso as mulheres, não é?

P.S. Nas minhas férias, li que Pedro Adão e Silva apresentou um livro de um condenado num caso de violência doméstica, Manuel Maria Carrilho, na Feira do Livro de Lisboa. Além de condenado por violência doméstica, Carrilho foi condenado em vários processos de difamação contra a ex-mulher e a família da ex-mulher, quando foi para os jornais acusá-los de coisas de que me abstenho por manifesto pudor de reproduzir.

Espero agora que Pedro Adão e Silva apresente o próximo livro de José Sócrates – pelo menos esse ainda não foi condenado. Isto é o nosso país, a alegada elite e a alegada não elite. Acho que Alexandre O’Neill foi o melhor trovador da coisa: “País engravatado todo o ano/e a assoar-se na gravata por engano”.

Até para a semana.

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A Ucrânia a colapsar

(Estátua de Sal, 04/07/2025)


Não há coincidências, acha a Estátua. Consumidora dos canais televisivos de notícias sempre que está acordada e vigilante, a Estátua tem vindo a notar um certo realinhamento opinativo na CNN sobre as guerras na Ucrânia e em Gaza

Para começar o general Isidro – que devia ter um beliche para pernoitar nos estúdios da estação -, nunca mais apareceu e deixou de nos vender banha da cobra, desde o dia em que publicamente se assumiu como protocandidato à Presidência da República, não desdenhando nessa condição o apoio do Chega. Boa viagem, avança ó Isidro, que tens todo o meu apoio! Se é para roubar votos ao Almirante, a Estátua até te publica aqui um cartaz de propaganda, quando chegar a campanha eleitoral… 🙂

Desse modo, as manhãs e inícios de tarde, como hoje, ficaram muito mais apelativos. Começou por intervir o Major-general Agostinho Costa e seguiu-se o Major-general Carlos Branco, o que também é inédito: nunca opinavam os dois em sequência e a solo, não estando sujeitos ao contraditório da Soller, da Ferro Gouveia ou do Serronha e quejandos.

Já estou a imaginar os comentários dos direitolas e dos belicistas da bandeirinha azul e amarela, a vomitarem raiva por entredentes: “A CNN transformou-se num antro de putinistas!” 🙂

Meus caros direitolas, nada disso. Business is business e a CNN, que deve saber mais do que aquilo que nos mostra, provavelmente só está a antecipar a mudança do vento. Trump retirou uma parte importante do apoio à Ucrânia, sobretudo em termos de defesa aérea, e os mísseis e drones russos penetram cada vez incólumes no território ucraniano. Agostinho Costa, no vídeo abaixo, explica tudo.

Trump quer uma solução política para o conflito e quer que Zelensky se sente – não à mesa das negociações mas num banquinho das negociações para não fazer muitas exigências – ou então que se afaste e convoque novas eleições que, constitucionalmente, já há muito deviam ter ocorrido.

Sem o apoio dos EUA a Ucrânia irá colapsar num prazo breve, e essa é a força de Trump para impor uma solução política.

Tempos estranhos estes, em que a paz se faz pela força das ameaças, e pela retirada das armas aos contendores e não pela razoabilidade dos argumentos. Seja na Ucrânia, seja em Gaza, a técnica de pressão de Trump sobre os belicistas ocidentais é idêntica.

A ser bem-sucedido num caso e noutro, por ironia do destino, Trump caminhará a passos largos em direção ao Nobel da Paz. Obterá o galardão pelo seu amor à humanidade a transbordar do seu vulto imponente de grande estadista? Não. Será apenas porque, para ele, business is business as usual.

Mas que querem vocês? Nestes percursos labirínticos para a paz, como em muitos outros percursos, atenho-me ao antigo provérbio popular, manda quem pode, obedece quem deve.


“Kiev sem defesa” – a situação difícil em Kiev

(Agostinho Costa, in CNN, 04/07/2025)

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E finalmente começou a novela…

(Estátua de Sal, 03/07/2025)

Começou hoje a encenação que dá pelo nome de “julgamento da Operação Marquês”. Antes de mais devo aos meus leitores, em jeito de declaração de interesses, a resposta à seguinte questão? Acha a Estátua que Sócrates é culpado ou inocente? A Estátua não sabe e é mais que legítimo que existam dúvidas sobre a existência de eventuais culpas, e sobre qual o seu grau. Mas sabe, sem qualquer dúvida, quatro coisas que passa a expor:

1) Compete à justiça provar a sua hipotética culpabilidade – o que está longe de ter sido conseguido -, e não a Sócrates provar que é inocente.

2) Os atropelos jurídicos que têm sido cometidos na saga judicial do processo Marquês, desde a prisão de Sócrates em 2014 até hoje, são mais que muitos e não pode censurar-se Sócrates por os invocar, arguindo nulidades processuais em sua defesa, já que isso é um DIREITO insofismável que lhe assiste.

3) Se Sócrates fosse um distinto militante do PSD ou do CDS, provavelmente este processo nunca teria nascido, ou há muito que já teria tido o arquivamento como destino. Assim aconteceu com Portas e o “caso dos submarinos”, (ver aqui), em que a justiça alemã provou a existência de corrupção sobre os governantes portugueses, mas cá o Ministério Público não conseguiu descortinar os corrompidos e mandou arquivar o caso. Assim aconteceu no “caso dos sobreiros Portucale”, com ministros do CDS a serem ilibados, sendo apenas julgados funcionários do partido, apesar dos “donativos” ao CDS terem sido mais que provados (Ver aqui e aqui). Assim aconteceu com Cavaco e a muito mal contada história da “casa da Coelha”, ver aqui). E assim está também a acontecer com Montenegro no caso Spinumviva, em que apesar de todos os indícios, apesar das meias-verdades do Primeiro-ministro e das suas tentativas de ocultação, o Ministério Público não vê motivos para investigar.

4) A conclusão é óbvia: há décadas que o lawfare é praticado em Portugal, com uma enorme taxa de sucesso e sempre com os mesmos objetivos: colocar no poder o PSD/CDS ou branquear os desmandos destes partidos quando já estão à frente da governação.

Neste contexto, não vai fazer-se qualquer julgamento ou praticar-se justiça, mas apenas fazer-se uma encenação do folhetim da “corrupção de Sócrates” para consumo mediático, com o objetivo de acabar com o que resta do PS nas eleições autárquicas de 12 de Outubro. O timming foi escolhido a dedo. Saem agora os primeiros episódios da novela só até dia 16, quando começam as férias judiciais, e a partir de 1 de setembro virá o enredo mais pícaro, coincidindo com a campanha eleitoral.

Quando em abril de 2021 o juíz Ivo Rosa, deu como não provadas todas as narrativas do Ministério Público quanto aos hipotéticos crimes de corrupção de Sócrates, escrevi e publiquei aqui um texto em que, a dado passo, dizia o seguinte:

Sendo a Justiça um sistema imperfeito – porque humanos e imperfeitos são os seus agentes -, fiquei hoje com a sensação de que o sistema contém em si, ainda assim, uma lógica de contrapesos que lhe permite corrigir os seus próprios limites e falhas.

Perante o que se passou a seguir, em que uma turba de juízes e procuradores, mancomunados com um batalhão de jornalistas, tentaram destruir e reverter o despacho de Ivo Rosa, tenho que fazer mea culpa e reconhecer que me enganei.

A Justiça, em Portugal, é incorrígivel pois funciona num casulo de opacidade, fechado ao escrutínio democrático. Assim, é ela que comanda a política, enviezando, sempre que é necessário a certos interesses, o sentido de voto dos cidadãos.

E isso aconteceu repetidas vezes após o 25 de Abril, e também aconteceu neste caso, independentemente, da culpa ou da inocência de José Sócrates.

E para terminar deixo dois textos que corroboram a conclusão que acima expressei. Um, de Miiguel Sousa Tavares, que aqui publiquei em 16/04/2021, aquando da saída do despacho de Ivo Rosa.

Outro mais atual, de um fundador do PS, ainda vivo, António Campos, uma referência de antifascismo, um tipo de referência cada vez mais rara no PS.


O lobby dirigido pelo Ministério Público

(António Campos, in Facebook, 02/07/2025, Revisão da Estátua)

O José Sócrates é acusado de ter sido corrompido pelo grupo Lena, pelo grupo Espírito Santo e por um empreendimento de Vale de Lobo.

O lobby organizado contra ele, é dirigido pelo Ministério Público, com a colaboração de alguns jornalistas bem conhecidos da praça pública, e o silêncio cobarde de falsos democratas que nunca exigiram a prova dos factos da corrupção destes três grupos.

Estamos fartos de ouvir acusações públicas mas nunca foram publicadas as verdadeiras e incontestáveis provas de corrupção daqueles grupos.

O que temos visto e ouvido são sistemáticas violações dos direitos, liberdades e garantias constitucionais sobre a sua vida privada e da de um amigo.

O lobby dirigido pelo Ministério Público, prende-o e só o acusa passados três anos, nomeia juízes membros do lobby e o Conselho Superior da Magistratura cria um grupo para acompanhar o processo.

Este comportamento lembra os tribunais plenários da ditadura fascista.

Sócrates, hoje em Bruxelas, disse uma verdade insofismável de que só nas ditaduras os juízes são escolhidos para julgarem processos e até vai ter um grupo de fiscalização que lembra a PIDE que decretava a pena.

É óbvio, que a sua capacidade de pensar e de realizar politicamente, assustou e muito a mediocridade reinante.

O Mistério Público após tantas violações constitucionais tem de provar publicamente com provas reais a corrupção das três entidades ,em vez de o julgar na sua vida privada.

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