Portugal opõe-se ao direito de um povo a comer!

(João Gomes, in Facebook,18/07/2025, Revisão da Estátua)

Ele não desilide: Rangel, o ministro que envergonhou Portugal

Portugal, país de marinheiros, poetas e missionários, orgulhoso do seu humanismo universal e da herança cristã de solidariedade, acaba de escrever uma das páginas mais vergonhosas da sua diplomacia contemporânea.

Na recente reunião da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), em Bissau, o nosso governo opôs-se explicitamente à inclusão do direito dos palestinianos à alimentação numa declaração sobre segurança alimentar e nutricional. Repito: Portugal recusou apoiar o direito de um povo sitiado… a comer (ver notícia aqui).

É difícil escrever isto sem sentir indignação. Em que é que nos tornámos?

Segundo a delegação portuguesa, a menção ao direito dos palestinianos à alimentação seria demasiado política. Mas quando é que a fome deixou de ser política? Quando um povo inteiro, encurralado num território devastado por bombardeamentos, cercado por mar e ar, privado de água, eletricidade e comida, é deixado à mercê do esquecimento internacional, recusar-se a mencionar o seu direito à alimentação é um ato político em si mesmo – e dos mais cruéis.

Esta decisão não é neutra. É um alinhamento vergonhoso com os interesses das potências que apoiam o bloqueio e a destruição de Gaza. É a negação da humanidade de milhões de pessoas que, além de perderem as suas casas e os seus filhos, são agora silenciadas também na luta pela sobrevivência mais básica: o direito ao pão, à água, ao leite.

Uma traição ao povo português e à nossa História

Portugal sempre gostou de se apresentar como uma  ponte entre culturas, como um país de paz, de diálogo, de solidariedade. Foi esse o espírito com que muitos portugueses aplaudiram os acolhimentos de refugiados, as campanhas de ajuda humanitária, o reconhecimento do direito do povo palestiniano à autodeterminação.

Mas tudo isso parece hoje uma retórica vazia. Quando, na prática, o governo português age como cúmplice do silêncio e da opressão, tudo o que resta é o cinismo da diplomacia sem alma. Pior: é uma traição a todos os portugueses que acreditam nos direitos humanos universais e que crescem a ouvir que quem tem fome, tem pressa, como dizia Betinho, o ativista da segurança alimentar.

Esta é a política que os portugueses escolheram

É preciso dizê-lo com toda a clareza: esta é a consequência das escolhas eleitorais recentes. Os partidos que formam a maioria política atual (ou que lhe dão cobertura institucional e ideológica) representam uma visão da política externa submissa ao eixo euro-atlântico, mais preocupada em não desagradar a Washington ou Bruxelas do que em manter-se fiel à Constituição da República, que no seu artigo 7.º afirma que Portugal se orienta pela paz, pela solidariedade entre os povos e pela defesa dos direitos humanos.

Sim, os portugueses votaram – direta ou indiretamente – nesta posição. Votaram em partidos que relativizam o sofrimento dos outros, que esvaziam a diplomacia da sua dimensão moral, e que veem o mundo como um xadrez de interesses e não como uma casa comum da humanidade.

A fome em Gaza é uma fome portuguesa

Quando Portugal se recusa a reconhecer o direito dos palestinianos a comer, está a negar-se a si próprio. Está a negar os valores cristãos que dizem alimentar a sua cultura, onde partilhar o pão sempre foi símbolo de comunidade e de compaixão. Está a negar o seu passado de país pobre, emigrante, tantas vezes faminto e esquecido – como hoje o são os palestinianos.

A fome de Gaza é também uma fome portuguesa – a fome de alma, de coragem e de justiça.

Um apelo à consciência nacional

Não é possível construir uma paz verdadeira com base na omissão e na cobardia. Portugal não pode continuar a invocar princípios humanistas e, ao mesmo tempo, virar as costas a um povo que sofre um castigo coletivo que o direito internacional reconhece como crime. Todos os cidadãos conscientes, todas as organizações da sociedade civil, e todas as igrejas, movimentos estudantis e culturais, deveriam levantar a voz. Não em nome de ideologias, mas em nome da decência.

Porque quando um país nega a alguém o direito de comer, está a negar o direito de se ser humano. E isso, nós, portugueses, nunca deveríamos aceitar que tal fosse feito em nosso nome.

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A renazificação europeia em curso

(Carlos Esperança, in Facebook, 17/07/2025)


Não é preciso conhecimento profundo da década de trinta do século passado para ver as semelhanças com os nacionalismos que irrompem na Europa. Repetem-se os sinais que precederam a ascensão do nazi-fascismo e a eclosão da 2.ª Grande Guerra.

O racismo, a xenofobia, o anticomunismo e a alegada identidade nacional, alimentados a partir de mitos identitários e potenciados por estagnação económica, foram o álibi para perseguições às vítimas mais à mão, os estrangeiros, os ciganos e os judeus. Hoje são os magrebinos, os indostânicos, os pretos e os islâmicos de qualquer etnia.

Ontem, ao ver imagens da caça a imigrantes por bandos de extrema-direita nas ruas de Torre Pacheco, uma cidade na região de Múrcia, aqui ao lado, em Espanha, lembrei-me da Noite de Cristal, 9 e10 de novembro de 1938, em que o regime nazi coordenou a onda de violência antissemita que percorreu a Alemanha. Foi um primeiro ensaio.

Hoje não se consegue perceber esta histeria da corrida ao armamento sem regressar ao século passado. A Alemanha e a Itália, à semelhança do Japão, armaram-se, não para se defenderem de qualquer invasão, mas para invadirem e ocuparem os países vizinhos até à capitulação. Não devemos estigmatizar países, mas não podemos esquecer a História.

A obsessão pela indústria da defesa do oligarca Friedrich Merz, novo chanceler alemão, não tranquiliza. As dificuldades da indústria automóvel alemã exigem a reconversão e é tentador juntar a Volkswagen, a Mercedes-Benz e a BMW à Rheinmetall e à Airbus para a rentável produção de armas. É a renovação da tradição do império Krupp no ramo.

Macron, podia lembrar-se dos soldados alemães a desfilar sob o Arco do Triunfo, mas decide, por intermédio do seu Primeiro-ministro, juntar-se à febre armamentista, tentando congelar as pensões e os salários da função pública sem os atualizar à inflação, uma receita copiada de Passos Coelho. Até na eliminação de dois feriados a França não é original. Foi feita por Passos, com a bênção de Cavaco, e apoiada na Assembleia da República pelo então líder parlamentar Montenegro.

Certamente os franceses não permitirão o despautério. Mas não tenho a mesma esperança nos portugueses e em Portugal, onde o desvario do Presidente da República, em sucessivas dissoluções da Assembleia da República, transferiu o poder para o PSD e acrescentou 50 deputados ao Chega, que tão ingrato ora se mostra.

Entretanto, a Turquia, onde se prendem os oposicionistas, nomeadamente os autarcas da oposição, é o nosso aliado preferencial. A ocupação de parte norte do Chipre está esquecida e finge-se ignorar que o Irmão Muçulmano Erdogan caminha para uma ditadura islâmica.

E fala-se na defesa das democracias obedecendo a Trump e ao seu capataz Mark Rutte, sem lhe ser censurada a interferência nos tribunais do Brasil e de Israel ou a cumplicidade nas atrocidades de Netanyahu sobre Gaza e invasões da Cisjordânia, Irão e Síria!

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O fanfarrão e o silêncio do Presidente da Assembleia da República

(Por Alberto Carvalho, in Facebook, 16/07/2025, Revisão da Estátua)


 “Fanfarrão” não é insulto — é definição.


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Um fanfarrão é alguém que fala alto para esconder o vazio; que se impõe com pose para disfarçar a ausência de substância.

Segundo o dicionário, é “quem ostenta qualidades que não possui”.

André Ventura construiu uma carreira política precisamente nesse molde: retórica inflamada, soluções nulas, e uma habilidade notável para converter o ressentimento popular em espetáculo.

Ora, chamar-lhe fanfarrão não é insulto — é diagnóstico clínico.

E, no entanto, foi essa palavra — fanfarrão — que motivou uma chamada de atenção do Presidente da Assembleia da República.

Não a exposição pública dos nomes de crianças estrangeiras. Não a construção de uma narrativa racista disfarçada de “preocupação cultural”. Não o uso de menores como arma ideológica. Nada disso mereceu reparo. Apenas o adjetivo.

Este episódio, que à superfície pode parecer menor, revela uma falha profunda na presidência parlamentar: a incapacidade de distinguir entre insulto e verdade, entre linguagem vigorosa e discurso de ódio, entre defesa da dignidade humana e “falta de maneiras”.

Ao pretender preservar a “elevação” do debate, o Presidente da Assembleia acaba por o nivelar por baixo. E, sem se dar conta, torna-se cúmplice do “fanfarrão” — porque o legitima como vítima, e não como instigador do ruído.

Esta neutralidade fingida do Presidente da Assembleia da República — este desejo de parecer árbitro quando há um dos lados que joga com facas — é o que mata as democracias por dentro.

O Presidente da Assembleia pode ter agido com educação, mas faltou-lhe coragem. E, nestes tempos, ser educado sem ser corajoso é ser útil ao “fanfarrão”.

No fundo, o silêncio da Assembleia não é institucional — é estrutural. É um silêncio cúmplice, que prefere punir a palavra que incomoda do que conter o discurso que ameaça. Ventura sabe disso. Alimenta-se disso. Cresce disso.

E assim, o adjetivo certo passou a ser repreendido, enquanto a calúnia subtil, a insinuação perigosa e o ataque ao elo mais frágil — crianças imigrantes — passam como se fossem apenas parte do jogo. Não são.

O “fanfarrão” grita para ser temido. Mas é o silêncio respeitoso e cobarde que o torna forte. E esse silêncio, hoje, tem um nome: Presidência da Assembleia da República.