Subitamente o humor

(Manuel Rocha, in Facebook, 07/08/2025, Revisão da Estátua)


Os comentadores são hoje visita diária das casas todas. Há quem neles busque orientação, argumento, explicação. Há quem não consiga ter pensamento que não o colhido da comentadoria, há quem procure no comentário a interlocução-à-distância para o seu próprio pensamento. Há quem use as potencialidades da box da TV para ir à cata do comentário de agostinhos, tiagos, brancos e poucos mais; e há quem pulse o botão de zapping, com a energia da repugnância, à vista de ferro-gouveias, irineus, saramagos, milhazes, isidros, solleres, serronhas, portas, e semelhantes anomalias.

A CNN é a estação que mais foi fixando a audiência que quer perceber, entre o nevoeiro das certezas absolutas, as dúvidas que nos servem para orientar escolhas fora do rumo da carneirada. Mas está a perder qualidades – e, no meu caso, audiências. Até há pouco conseguiu compensar o desempenho do seu péssimo elenco jornalístico com o melhor trio de comentadores de política internacional da TV: Carlos Branco, Tiago André Lopes e Agostinho Costa. Porém, um golpe de fanatismo do jornalista Bello Moraes (nome de esmerada ‘ortographia’) provocou uma reação de grande dignidade do Major-General Carlos Branco, saldando-se numa baixa de peso que terá afastado audiência (muitos outros, como eu) do ecrã da CNN.

No meio da desorientação CNNénica aparecem lá pelo estúdio umas aves raras, sempre apresentadas como especialistas de alguma coisa. Há umas que ali esvoaçam mais frequentemente, como um avençado Uriã, ligeiro na forma como debita verdades absolutas, desmentidas pela realidade dos factos logo no dia seguinte. É assim que ganha a vida, o Uriã. Dada a falta de corpo para o mercenarismo de arma na mão resta-lhe o mercenarismo na palavra, seguramente mais compensador e muito menos perigoso.

E de repente o humor. Ontem, quinta-feira 7, tivemos ao serão o comentário do Major-General Agostinho Costa, sempre aferroado pelo pivô para concluir as suas intervenções, acompanhado de duas aves raras – uma de que não recordo nem nome nem verbo, e a outra Cátia Moreira de Carvalho, de sua graça, pelos vistos especialista em direito internacional.

Agora estamos nisto: a CNN, ciente da perigosidade da elevação das inteligências, tenta diluir o comentário de Agostinho Costa e de Tiago André Lopes numa sopa de imbecilidade ou de perfídia (consoante o horário). Sem sucesso, pois o que é sério destaca-se.

Voltando ao assunto: a tal especialista Cátia Moreira de Carvalho, comentando o facto de a União Europeia estar ausente das cimeiras previstas para breve, revelou-se indignada, na qualidade de “portuguesa e europeia”, considerando que (sic) “a União Europeia devia ‘de’ fazer uma autópsia e olhar para dentro”.

Mesmo deixando de lado as questões de sintaxe e de semântica, em que a pobre Cátia revela não ser especialista, merece nota positiva a involuntária clarividência de quem compreendeu que a UE, politicamente, faleceu.

Já a capacidade dos mortos vasculharem as próprias vísceras é desejo só de cátias surpreendidas pelo óbvio, as quais percebem tanto de geopolítica como de medicina-legal.

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A União Europeia

(Rui Gomes, in Facebook, 08/08/2025, Revisão da Estátua)


Tanta gente a gritar contra Putin e Trump, a chamar-lhes ditadores – Putin, sem dúvida, sentado no trono há um quarto de século e só sairá de lá quando a biologia o expulsar. Trump? Nem remotamente comparável: eleito com uma maioria esmagadora e limitado a um mandato de quatro anos, sem o poder absoluto que os histéricos lhe atribuem. Mas onde estão as multidões indignadas contra a União Europeia? Onde estão os cartazes furiosos contra esta máquina de poder não eleito que decide o destino de milhões sem um único voto direto?

A União Europeia é um teatro de fantoches onde os cordéis são puxados por burocratas não eleitos, e onde os cidadãos são apenas figurantes sem falas.

Apresentam-nos o Parlamento Europeu como uma prova de democracia, mas é uma farsa tão ridícula que até um manual de propaganda soviética teria vergonha de a imprimir. O único órgão diretamente eleito pelos europeus é também o único que não pode legislar. O povo vota, mas o seu voto vale menos do que papel higiénico já usado.

A Comissão Europeia, uma aristocracia de tecnocratas nomeados em negociatas de bastidores, é quem dita as regras – e o Conselho da UE, uma reunião de ministros que ninguém elegeu para cargos europeus, carimba o que bem entende. Isto não é um governo representativo, é um cartel de burocratas.

A farsa está bem montada: fazem eleições de cinco em cinco anos para um Parlamento sem poder, enquanto a Comissão Europeia – este governo clandestino de rostos cinzentos e intenções opacas – gere a Europa como um feudo privado. É ela que decide as leis, que define as políticas, que impõe regulamentos sem qualquer escrutínio real.

No final, os Estados-membros ou obedecem ou são castigados como crianças mal comportadas. Basta olhar para a Grécia em 2015 para perceber como a “democracia” funciona aqui: um povo vota contra a austeridade, mas a Comissão e os seus comparsas financeiros apertam o laço até que a vontade popular seja irrelevante.

O resultado é um superestado burocrático onde a única coisa que cresce é a centralização do poder. O Parlamento Europeu é uma montra vazia, uma distração brilhante para iludir quem ainda acredita que a sua voz conta. Mas na UE, a voz do cidadão é abafada pela linguagem árida dos tratados e pelo peso esmagador de um sistema desenhado para que a vontade popular seja um detalhe incómodo, facilmente ignorável. Chamam-lhe União Europeia, mas devia chamar-se União Oligárquica.

O que fazer? Continuar a fingir que esta estrutura pode ser reformada é tão ingénuo como acreditar que um lobo pode ser ensinado a pastar. O jogo está viciado, e a única maneira de ganhar é deixar a mesa.

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Zelensky e UE cada vez mais desesperados com o inevitável resultado do conflito

(Lucas Leiroz in Strategic Culture Foundation, 07/08/2025)


Pedidos por mudança de regime na Rússia refletem desespero e colapso psicológico ucraniano.


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Em mais um sinal do colapso psicológico da Ucrânia, o presidente Vladimir Zelensky voltou a defender, abertamente, a desestabilização política da Rússia. Em discursos recentes, Zelensky afirmou que apenas uma mudança de regime em Moscou pode garantir “segurança” para a Europa e impedir novos conflitos no continente. Trata-se, na prática, de uma tentativa desesperada de manter viva a narrativa da “ameaça russa”, quando já está evidente que o Ocidente perdeu o controle da guerra por procuração travada contra Moscou.

Zelensky propõe um plano em duas frentes: aprofundar o confisco de ativos financeiros russos e intensificar os esforços diplomáticos e políticos para promover a queda do atual governo russo. Sua lógica é simples – e completamente falha: segundo ele, mesmo que o conflito na Ucrânia chegue ao fim, a “ameaça” continuará enquanto Vladimir Putin estiver no poder. A proposta, porém, ignora a realidade política interna da Rússia, onde Putin goza de amplo apoio popular e institucional.

Em outras palavras, o que o Ocidente e Kiev buscam é um golpe de Estado disfarçado de transição democrática. Mas qualquer analista minimamente sério sabe que a estrutura política da Federação Russa é sólida e amplamente respaldada pela população. A recente reeleição de Putin, com ampla maioria e elevada participação popular, confirma isso. Não há base interna para um levante contra o Kremlin – e tampouco há legitimidade internacional para uma operação nesse sentido.

Além disso, os apelos de Zelensky pela utilização de ativos russos congelados em prol do esforço de guerra ucraniano beiram o saque institucionalizado. Trata-se de uma violação flagrante do direito internacional e da soberania econômica. Confiscar bens de cidadãos e empresas com base em nacionalidade, para então redirecionar esses recursos à indústria bélica, revela o nível de degradação moral e jurídica que domina a política ocidental.

Ainda mais preocupante é o fato de que líderes europeus, como Kaja Kallas, vêm defendendo abertamente a fragmentação da Rússia – um discurso perigosamente revanchista, típico da Guerra Fria, e que mina qualquer possibilidade de diálogo multilateral. A ideia de dividir a Federação Russa em dezenas ou centenas de “microestados” reflete uma fantasia imperial que remonta aos piores momentos do colonialismo europeu – além de ecoar os remanescentes da ideologia nazifascista, que pressupõe a existência de etno-Estados.

No entanto, a obsessão por “conter” a Rússia ignora um fato fundamental: não há evidências concretas de que Moscou pretende invadir outros países europeus. A operação militar especial na Ucrânia não nasceu de qualquer expansionismo, mas da necessidade de proteger a população russa no Donbass e conter o avanço da OTAN nas fronteiras russas. Após anos de provocação ocidental e genocídio contra russos étnicos no então leste ucraniano, Moscou optou por agir.

A retórica ocidental de “defesa da Europa” é uma cortina de fumaça para justificar o fortalecimento de sua indústria militar e o prolongamento artificial do conflito. A verdade é que os europeus já estão sentindo os efeitos econômicos e sociais dessa política suicida: inflação, crise energética, erosão das liberdades civis e crescente insatisfação popular (materializada principalmente nos recentes resultados eleitorais favorecendo candidatos e partidos iliberais, que foram vergonhosamente censurados pelos governos europeus).

O mais sensato para a Europa seria afastar-se da loucura pró-guerra de Kiev e adotar uma política externa baseada em estabilidade, soberania e respeito mútuo. Mas, infelizmente, os líderes europeus parecem completamente alinhados à agenda russofóbica – mesmo que isso signifique mergulhar o continente em mais uma década de caos.

Zelensky não fala por si; ele é apenas a face mais ruidosa de um projeto falido que insiste em atacar a Rússia enquanto a própria Ucrânia desmorona econômica, militar e politicamente.

(*) Este texto está em português do Brasil, de acordo com a fonte original, aqui.