Já tem dois dias a frase mais comovente da literatura portuguesa do século XXI: “Bem-vindo, puto!”, escreveu alguém nas redes sociais do INEM para legendar a fotografia de um recém-nascido a ser resgatado do caixote de lixo, depois de para ali ter sido atirado, na terça-feira, para os lados de Santa Apolónia, em Lisboa.
Salvador, foi assim baptizado o bebé, continua a ser notícia não só porque Marcelo Rebelo de Sousa seguiu do encerramento do Web Summit, ontem, para as redondezas da estação de comboios de maneira a poder congratular o sem-abrigo que notou sinais de vida, na tarde de terça-feira, dentro de um eco-ponto nas imediações da discoteca Lux. O Presidente da República quis conhecê-lo e “agradecer-lhe pessoalmente”. Abraçou-o e chamou-lhe “herói”.
Continua a ser notícia porque ainda não se sabe o que vai acontecer, no futuro próximo, a Salvador, tal como se discutiu em mais uma emissão do Ao Vivo na Redação do Expresso.
Vai, ou devia, continuar a ser notícia enquanto o salário mínimo nacional se mantiver em níveis miseráveis, um dos mais baixos da Europa. Por estes dias discute-se a fixação do salário mínimo em 625 euros, já em 2020, mas também foi esta semana que se soube que, apesar dos fabulosos aumentos, só em 2018 se ultrapassou a fasquia fixada em 1975.
Os 750 euros que o Primeiro-Ministro propôs na tomada de posse para o final desta legislatura são, sem dúvida, um recorde; mas são também o retrato do crescimento anémico e do desenvolvimento pífio da economia portuguesa. Neste indicador, eles são notáveis, estão praticamente ao nível de há 45 anos.
Uma carta aberta pueril, como é normal que seja quando é escrita por alguém de 17 anos que aparenta ter pouco mundo (posso estar a ser injusto), foi o sucesso das “redes”. Publicada pelo “Observador”, ganhou uma legitimidade política diferente daquela que teria se o autor, Manuel Bourbon Ribeiro, a tivesse escrito no seu Facebook.
Aquela redação, sem desprimor para o esforço meritório do jovem conservador, mereceu entrar, pela porta do jornal que hoje representa esse sector da política portuguesa, no debate público. E tendo atingido, a partir daí, notoriedade nas redes sociais, deveria merecer resposta. Preferencialmente de alguém que esteja próximo da faixa etária do Manuel, para que fique clara a falácia que o jovem autor e o “Observador” obviamente quiseram fazer passar: que há aqui um confronto geracional, o que seria extraordinário tendo em conta as velhíssimas ideias que o texto divulga. Haverá um debate político, é certo. E, provavelmente, um combate social.
Tropecei nessa resposta e pedi autorização ao autor, que não conheço, para a publicar aqui. O título é descritivo – “Carta aberta a Manuel Bourbon Ribeiro” – e o texto bastante claro. Ao publicá-lo, não subscrevo tudo o que nela está escrito, apesar de subscrever grande parte. Dou-lhe apenas o espaço que acho que merece. O autor é André Francisquinho (nome real), tem 20 anos e é aluno do 3.º ano da licenciatura de Economia na Nova SBE. Sei sobre ele quase tanto como sei sobre o autor da outra carta. Publicou-a originalmente no site da Comunidade Cultura e Arte.
“Caro Manuel,
Ao contrário de ti, não vou começar esta carta com deliberações de grandeza nacional que, ainda que tenha a certeza de que demonstrem o quanto aprendeste com a professora de História lá do colégio, estão por estes anos já um pouco ultrapassadas. Quando tiveres mais uns aninhos vais perceber que a grandeza de um país é de pouca substância e que criticar é tanto um direito como um dever que não é nem deve ser cingido àqueles que tu consideras que têm autoridade intelectual para o fazer. Se calhar não te apercebeste deste facto, uma vez que fazes dos teus 17 anos uma característica especial, mas a democracia que nos permite a cada um de nós criticar o estado das coisas já por cá anda há uns 44 anos.
Caso também não te tenhas apercebido, a universalidade da educação é um feito histórico e a sua gratuitidade um direito constitucional. Se achas que é chato que esta tal escola gratuita e para todos, sem olhar a classe ou origem, te “impinja coisas sem sentido” como a igualdade fundamental entre homens e mulheres ou a educação sexual, eu arriscava-me a dizer que, por muito que queiras ter liberdade de escolha para optares por outra escola, não vais conseguir é optar por estudar no século XIII.
Se afirmas que queres ter liberdade para escolher o que fazer com a tua saúde, ótimo, estamos de acordo, até porque a despenalização da eutanásia que criticas é isso mesmo que faz: dar a opção a cada um de escolher o seu destino final da forma que achar mais digna, sem preconceitos alguns. Quando também achas que deves poder ir ao hospital que queres, apenas te posso dizer que fico feliz por ti, por efetivamente teres essa possibilidade. E para os que não a têm? Há os impostos que os teus pais pagam que servem, em parte, para financiar hospitais públicos que garantam que ninguém morre por não poder pagar os privados onde tu vais. Sim, porque não acredito que quando te referes aos rendimentos que o nosso país te tira, queiras dizer que já sofreste o que é a precariedade laboral em que tantos jovens um pouco mais velhos que tu e eu vivem e, que eu saiba, as mesadas ainda não são tributadas.
Quanto à natureza dos nossos governantes, a história geralmente mostra que qualquer governante que não é questionado ou escrutinado tem um caminho muito mais fácil para a “grandeza”. Mas é mesmo essa grandeza desmerecida que tem de ser explicada nas escolas e desenterrada (por vezes literalmente) de um passado histórico entrincheirado. Se quiseres falar de corrupção, também o lamento em todas as suas dimensões, mas talvez tenhas mais a aprender sobre isso com aqueles com quem partilhas o teu nome do meio do que comigo.
Eu sei que tens 17 anos, eu tenho 20, a diferença talvez não seja assim tanta, mas porventura três anos sejam suficientes para tomar atenção às contradições dos outros: não deixa de ser engraçado que fales em falta de democracia no nosso país por teres um governo que, para todos os efeitos, governou durante quatro anos com um apoio da maioria dos deputados eleitos ou que questiones a legitimidade de uma decisão referendada democraticamente há já 12 anos.
Posso não ter muitos mais anos de vida do que tu, mas sei que a nossa geração, a outra parte com que tu não te cruzas no teu dia a dia, resultado de um Portugal ainda desigual e classista, está farta da demagogia e preconceito com que tu e outras vozes à tua direita propagam a sua mensagem.
A hipótese de Fernando Medina suceder a Mário Centeno à frente das Finanças vem carregada de picante. O cenário avançado por Marques Mendes traz recados em diferentes direções e permite leituras. Passadas as legislativas, e com o Governo empossado, as autárquicas tornaram-se prioridade absoluta. Para continuar a governar, o PS não pode perder essas eleições. Mas há outro aviso: o braço de ferro entre Medina e Pedro Nuno Santos é agora mais do que evidente.
Nas últimas autárquicas, em 2017, as coisas não correram bem a Fernando Medina. Tinha herdado de António Costa a maioria no Executivo mas perdeu-a. Apesar da vitória com 42%, conseguiu menos 3 vereadores do que em 2013. O delfim de Costa não fez uma grande campanha, e teve uma concorrente feroz: Assunção Cristas. Foi na sequência desse resultado que Medina chegou a acordo com o movimento Cidadãos por Lisboa, que agora ocupa, entre outros, a vice-presidência da autarquia. E aqui está a primeira estranheza deste cenário: que sentido faria Medina sair para o Governo e entregar o poder a uma não socialista do Cidadãos por Lisboa? O cenário até poderia fazer sentido, se na CML ainda estivesse Duarte Cordeiro, líder da poderosa federação socialista de Lisboa, mas Cordeiro deixou a vice-presidência da câmara para ocupar os Assuntos Parlamentares.
O que seria pior para Medina: refugiar-se nas Finanças para estar protegido de uma hipotética derrota ou assumir o combate e o resultado, na primeira pessoa, até ao último dia do mandato?
Nos bastidores socialistas já se diz que esta hipótese foi posta a correr porque Costa teme perder Lisboa e a substituição de Centeno por Medina era a forma de “salvar” o delfim. Boas intenções, portanto! Mas o que seria pior para Medina: refugiar-se nas Finanças para estar protegido de uma hipotética derrota ou assumir o combate e o resultado, na primeira pessoa, até ao último dia do mandato?
A imagem de políticos demasiado calculistas é fatal e Medina não ignora a fatura que teria de pagar se fugisse para salvar a pele. Aliás, ciente de que o mandato é para levar até ao fim, dizia ao Expresso no ano passado – curiosamente quando o seu nome era avançado para outros cargos disponíveis: “vim para Lisboa para ficar, com o mandato que assumi e com o desejo de que ele se prolongue no próximo mandato.”
Mas há outra premissa neste cenário que me parece pouco lógica, pelo menos a esta distância. Bem sei que o calendário eleitoral favorece o PSD, os governos são normalmente castigados nas autárquicas e o PS terá tendência para cair depois dos bons resultados de 2017, mas daí a concluir pela derrota de Medina em Lisboa vai um enorme passo. É certo que não é um peso pesado em campanha, nem um mobilizador nato, mas se até às autárquicas continuar a apostar em áreas chave como a habitação e os transportes – e Costa deu-lhe uma enorme ajuda com os passes sociais – é ousado dizer que pode perder as eleições. Sobretudo quando a direita está em tão mau estado na cidade.
Toda esta história transpira a jogos de poder e cria danos ao partido. Não é novidade que este combate é feito sobretudo de duas caras: Pedro Nuno Santos e Fernando Medina. Escolher este momento para atirar Medina para as Finanças é tentar retirá-lo de cena, é reduzi-lo a coisa pouca. Como reparava e bem José Miguel Júdice, liderar a ala direita do PS terá muito pouca importância neste segundo mandato. Como se depreende, o day after de António Costa já se desenha. Por este andar, e dadas as personalidades em causa, o combate será a doer. Parece-me que Medina não começa mal. Arranca no centro da história, falam dele, outra vez. E se, ao contrário de Costa, cumprir o “palavra dada é palavra honrada”, é já um ganhador. Ficou até ao fim, deu a cara e sem precisar de mandar recados por ninguém. E acima de tudo, não está obrigado a ser candidato à liderança do PS. Ao contrário do ministro Pedro Nuno, que surge cada vez mais amarrado ao objetivo que traçou.