Trata-se do general Williams Kaliman, que anteriormente fora adido militar da Embaixada da Bolívia em Washington. No seu curriculum conta-se uma passagem pela School of Americas, em Fort Bennings, Georgia, destinada a formar militares e polícias latino-americanos. O general Kaliman assumira o cargo de chefe das Forças Armadas Bolivianas em 24/Dezembro/2018. Anteriormente estivera no comando do Exército. Quando se dirigia ao Presidente Evo Morales chamava-o de “irmão”.
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Os polícias vêm dos mesmos meios que hoje abandonam o Labour ou os democratas americanos, e sentem-se a perder autoridade e estatuto que tinham quando ser polícia significava um upgrade nessas comunidades.
Num editorial recente no New York Times, David Leonhardt comenta um artigo do Economist, referindo a mudança significativa que está a acontecer no comportamento eleitoral de comunidades de trabalhadores e operários em sítios como um porto da costa inglesa, onde sempre se votou trabalhista, e no Ohio. No Reino Unido, vão votar em Boris Johnson e nos EUA em Trump, em grande parte porque têm a percepção que os partidos em que votavam tradicionalmente, o Labour e os Democráticos, já “não estão ao seu lado”. No caso inglês votaram no “Brexit” em massa e querem o Reino Unido fora da União Europeia, por temerem que o mercado único lhes roube o emprego e mude o seu modo de vida, e, no caso americano, porque a retórica política de Trump em defesa das indústrias nacionais, do “empregue americano e compre americano”, parece proteger-lhes o emprego e o salário. As coisas não são bem assim, mas é o que parece e é o que eles “sentem”.
Num certo sentido, eles sentem a sua identidade social posta em causa por partidos muito mais receptivos a assentar as suas políticas noutras identidades, das mulheres na interpretação feminista, das comunidades LGBT, da raça negra, da ecologia “climática”, da miríade de identidades mais ou menos na moda, mais ou menos construídas intelectualmente e que enchem o discurso da política mais radical, mas também impregnam partidos que eram tradicionalmente partidos mais atentos à classe do que ao género, escolha sexual, ou raça. E sendo assim, não só não são entendidos como “não estando ao seu lado”, mas como estando contra eles.
Nesses artigos também é sublinhado que uma viragem à esquerda de partidos como o PS, ou o Labour (que tem uma das direcções mais esquerdistas dos últimos anos) ou os Democratas profundamente divididos nestas matérias, mas que nunca estiveram tanto à esquerda desde o New Deal, não resolve este crescente divórcio. Ou seja, quer a ala esquerda do PS que hoje abraça todas as causas das novas identidades, quer o Bloco de Esquerda, não conseguem travar o sentimento que “não estão ao lado” da mescla de gente que está cada vez mais radicalizada contra os partidos de governo, desde os lesados do BES, desde os “coletes amarelos”, até à juventude e aos idosos dos subúrbios, e que caminham em direcção a um populismo claramente antidemocrático. Até agora esse populismo habitava as redes sociais, agora chegou à rua e à Assembleia. Não adianta a política do epíteto e do esconjuro, só a política do “entendimento” no sentido weberiano do termo.
Em Portugal, se olharmos para o crescimento do Chega, este foi o único dos pequenos partidos que foi buscar votos fora de Lisboa, em áreas que votavam à esquerda. E, embora tirasse votos ao CDS e ao PSD, presumo aliás mais ao segundo do que ao primeiro pela dimensão, o seu potencial de crescimento não está na competição com esses partidos, a não ser pela intermediação da abstenção zangada.
Daí que o único partido que é um travão ao Chega, é, imagine-se, o PCP, que é também o partido cujo eleitorado mais é sugado pelo Chega. Parece contraditório, mas não é, porque a fronteira está ali, porque ambos partilham de uma proximidade natural com aqueles que se sentem sem representação no sistema político. Com o enfraquecimento do PCP, cresce o Chega, mas na verdade quem dá “contexto” ao crescimento do Chega é o PS, o PSD e o Bloco.
Com o tempo, o Chega alargará o seu recrutamento, esgotada que esteja a expansão nas áreas comunistas, como aconteceu em França com a Frente Nacional, para as áreas da abstenção, do ressentimento social e da zanga com tudo e todos, muitas vezes mais relevante no plano simbólico do que real, mas exactamente por ser assim, mais eficaz.
Não é preciso ir mais longe do que olhar para os polícias. Houve um tempo em que as reivindicações policiais e da GNR eram expressas por sindicatos e associações de uma esquerda próxima do PCP e da CGTP, mas hoje a força dominante é o Movimento Zero cuja relação com o Chega se não existia já, é agora mais umbilical nos protestos das forças de segurança. Os polícias, por muito que hábitos e idiossincrasias simbólicas, em particular o sentimento de que são os que estão na linha da frente do combate ao crime e quando as coisas não correm bem, são abandonados à sua sorte, os aproximassem da direita mais radical, essa aproximação era minoritária no plano político. Até que as coisas mudaram. Os polícias vêm dos mesmos meios que hoje abandonam o Labour ou os democratas americanos, e sentem-se a perder autoridade e estatuto que tinham quando ser polícia significava um upgrade nessas comunidades.
E “quem está ao lado deles”? O Chega. Depois queixem-se.
As notícias sobre a escassez de médicos nas urgências pediátricas do Garcia de Orta têm o condão de concentrar parte dos dramas estruturais do sistema de saúde. Aliás, a complexidade dos problemas e os interesses conflituantes em jogo são de tal ordem que há poucos motivos para estamos otimistas.
O episódio é conhecido: ao longo dos últimos tempos, foi-se tornando crescentemente difícil manter abertas as urgências pediátricas noturnas em Almada. A diminuição do número de pediatras disponíveis (isto é, com menos de 50 anos) e a impossibilidade de médicos de medicina geral e familiar desempenharem a função levou, entretanto, a uma rutura. Perante isto, o hospital tem aberto vários concursos para contratar pediatras e procurado celebrar os famigerados contratos de prestação de serviços. Mesmo com valores superiores aos de referência, os concursos têm ficado vazios.
O problema do Garcia de Orta não é do Garcia de Orta. Em Almada temos uma manifestação da necessidade de reorganização da rede de urgências na região de Lisboa combinada com um estrangulamento no acesso a algumas especialidades, sem que o SNS tenha a capacidade suficiente para gerir de forma articulada os dois problemas. Uma versão extrema de um problema que se vai alastrar pelo país.
O tema da reorganização das urgências não é novo, pelo que o que deve ser motivo de reflexão são os motivos pelos quais não avança em Lisboa — como aconteceu no Porto, onde as urgências pediátricas estão concentradas no São João. Por irracionalidade da rede e ausência de outras respostas, persiste o recurso excessivo às urgências em situações que não são de urgência. Ao que se junta o défice de médicos em algumas especialidades. No passado, a escassez de médicos estava associada aos numerus clausus; hoje, com mais licenciados, temos um problema de estrangulamento no acesso às especialidades. Como a OCDE vem alertando, garantir a coordenação entre crescimento de licenciados e formações posteriores, conducentes à especialização, é nevrálgico. Só que, entre nós, enquanto a formação de base é pública (e muito onerosa, um licenciado em medicina custará 100 mil euros, enquanto em média um licenciado custa 15 mil euros), a proposta das vagas de acesso à especialidade é da Ordem dos Médicos.
É neste quadro que, independentemente de juízos políticos sobre o modelo ideal de sistema de saúde, se colocam duas questões: é justo que a um investimento público muito oneroso não esteja associada nenhuma retribuição finda a formação (à imagem das boas práticas empresarias, quando os trabalhadores têm de compensar a empresa quando esta financia a sua formação)?
Do mesmo modo que é fundamental saber se é compatível termos um SNS universal quando não cabe ao Estado controlar quem é formado e, por isso, não tem nem capacidade de planeamento nem de distribuição pela rede. Se não encontrarmos uma resposta eficaz a estas questões, mil Garcias de Orta vão florescer.