Índice do Citacionismo. Marcelo entre a tenaz de dois candidatos anti-sistema

(Vítor Matos, in Expresso Diário, 20/05/2020)

Quatro frases da semana: o fator Ana Gomes, a candidata que é um embaraço; César, o presidente de um estranho partido político que não quer discutir política; Costa, o primeiro-ministro que decretou o fim de uma crise cheia de buracos por explicar; e Ventura, o taberneiro da segunda República.


“Se a democracia não está suspensa no país, também não pode estar suspensa no PS. O PS não é o partido do dr. Costa”.
Ana Gomes, militante do PS, dia 18 de maio, em declarações ao Expresso17 valores no índice agarraram o Marcelo, vou-me a eles.


O efeito foi exatamente o contrário. Se a intenção de António Costa com o número pró-Marcelo na Autoeuropa era (também) travar uma candidatura de Ana Gomes, o que fez foi incentivar a ex-eurodeputada e arranjar um sarilho no PS (já lá vamos à questão do congresso na citação seguinte). Para a diplomata – que já tinha dito ao Expresso que não avançava -, a indignação é um combustível e a entrada na corrida presidencial pode resultar tanto contra Costa como contra Marcelo.

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Uma candidatura de Ana Gomes, que depois desta manifestação de disponibilidade pouca margem de recuo terá, vai ser um incómodo para o Presidente, uma maçada para o primeiro-ministro e uma dificuldade para André Ventura. Conhecendo a agenda da ex-eurodeputada, o professor Marcelo deve começar a preparar-se para temas como a entrada de Isabel dos Santos no BPI, o caso de Manuel Vicente e as relações com Angola, ou a não recondução da Procuradora-Geral da República e ainda Tancos. Veremos se Ana Gomes vai seguir os instintos ou moderá-los.

O facto de já ter classificado Marcelo com um “político do sistema” é todo um programa que permite agregar temas como aqueles: uma concorrência destas à esquerda vai colocar Marcelo sob um escrutínio que ainda não teve e não era Marisa Matias que o faria. Será uma dificuldade para Marcelo que precisa mais do que nunca de votos à sua esquerda.

Mas Ana Gomes, com a suas tentações populistas, que também tem, pode servir de antídoto ao populismo de André Ventura e assim, de certa forma, também pode servir de escudo ou almofada a Marcelo Rebelo de Sousa à direita. Atacar Ventura com os créditos de quem tem trabalho para mostrar na corrupção e no escrutínio da classe política (mesmo no seu partido) gera competição no mesmo terreno eleitoral e desarma o candidato que quer acabar com o regime. Resta saber como reagirá Marcelo entalado dentro desta tenaz de dois candidatos anti-sistema à direita e à esquerda: responderá, não responderá, será agressivo nos debates? É um paradoxo que, com tanta popularidade, esta eleição pareça mais difícil do que a anterior (embora acredite que ganhe à primeira volta).

Quanto a Costa, a crítica de que não se pode comportar como dono do PS, é uma pequena amostra do que está para vir: na pele de candidata transversal e de consciência do PS (papel que já foi de Alegre), não vai poupar o primeiro-ministro e o PS oficial, de Carlos César a Augusto Santos Silva. Será uma candidata livre e à solta a quem o PS não saberá o que fazer. Com um discurso mais suave e com um candidato oficial do PS tão popular como Soares, Manuel Alegre teve um milhão de votos em 2006.

Em cima disto tudo, a diplomata ainda cria um problema à esquerda, sobretudo ao Bloco: valerá a pena avançar com Marisa Matias? O dilema do BE será este: importa entrar na corrida e arriscar um resultado abaixo dos 10% – que será sempre visto como uma derrota -, ou deixar Ana Gomes ocupar toda a praça da esquerda (menos a do PCP)?

“[Um congresso] no último trimestre deste ano resultará em prejuízo quanto à participação e transformará o congresso num debate sobre presidenciais
Carlos César, presidente do PS, dia 16 de maio, ao “Púbico”17 valores no índice da minha política é o trabalho

A justificação com a pandemia ainda vá que não vá: era pausível e bastava. Agora, dizer que um congresso de um partido político fica contaminado pela discussão política sobre umas eleições que estão aí à porta, é rejeitar aquilo que justifica a existência e a essência dos próprios partidos políticos (e depois admirem-se dos populistas crescerem). Se um partido não deve pode ter um congresso para debater presidenciais porque não dá jeito, serve para quê? O PS não quer um congresso, quer um festival de cheerleaders a louvaminhar o chefe. Esta frase de Carlos César é a imagem estampada do incómodo de ter em Marcelo o candidato implícito ou explícito do Governo e a necessidade de retirar palco a Ana Gomes e a outras vozes críticas que possam aparecer neste contexto.

E Pedro Nuno Santos, o que pensa disto?

“Quanto à instabilidade… a estabilidade está restabelecida e tudo corre normalmente”.
António Costa, primeiro-ministro, dia 16 de maio, em conferência de imprensa16 valores no índice de acenar e sorrir

Nada, já não se passa nada. A instab… aliás, a estabilidade voltou, nada temei bom povo, continuamos firmes no leme e certos do rumo. É um alívio ter um primeiro-ministro assim, que abre e fecha crises como a porta de um frigorífico. Os chefes do Governo habituam-se a estas coisas de decretar sobre tudo e depois decretam o fim dos assuntos, não se fala mais disso.

Pelo menos reconheceu que havia instabilidade, mas a responsabilidade na maior parte do psicodrama foi sua: a) ainda não percebemos porque é que quis enterrar o ministro das Finanças em público e abrir uma crise política lui même com o presidente do Eurogrupo; b) ainda não percebemos porque é que quis fazer depender a injecção no Novo Banco daquela auditoria em particular, quando conhece o contrato e o Orçamento do Estado; c) que consequências estaria disposto a suportar se a transferência não tivesse sido feita naquela data? d) porque é que no comunicado final acabou por admitir todas as justificações de Mário Centeno?

O assunto foi encerrado, mas ainda há muito que explicar. Será que a auditoria nos vai trazer mais surpresas desagradáveis? Para já, o melhor é acenar e sorrir. Já passou… Qualquer dia, mais cedo que tarde, Centeno seguirá feliz para a próxima reencarnação. Mais tarde que cedo, saberemos o que motivou esta novela.

“Cabe-nos a nós deputados da nação portuguesa, representantes desse povo, a quem muitos aqui chamam tasca ou de taberna, cabe-nos a nós representar esse mesmo povo ou a tasca e a taberna será maior do que nós”.
André Ventura, líder do Chega, num discurso no Parlamento19 valores no índice de tabernização parlamentar

“Oportunista”, como à direita lhe chamou Francisco Mendes da Silva. “Abutre”, como à esquerda classificou Daniel Oliveira. Aproveitar o homicídio de uma criança para desencaixotar a prisão perpétua, a pandemia para confinar os ciganos, ou mandar calar o Quaresma porque é um futebolista, é de uma vileza que o Correio da Manhã já percebeu: André Ventura é tóxico, provoca danos reputacionais, e já não tem mais palco na Cofina. Ajudaram a criá-lo e ele aí está.

A frase de cima foi tirada do discurso em que apresentou o seu “Projeto Valentina”, uma indecência total perante a tragédia de uma inocente que não merece o nome apropriado para alimento político de um populista que quer acabar com o regime (e instaurar o quê?).

Cada vez mais apostado numa estratégia populista clássica – nós, o povo, contra eles, a elite que olha para o povo como frequentador de tabernas – André Ventura tenta fazer da representação parlamentar uma conversa de tasca. Faltam sete meses para as presidenciais e o homem está em esforço a reproduzir tudo em estilo ‘casa de pasto’. Talvez o portugueses entretanto percebam melhor a natureza do que ali está. A responsabilidade de secar aquele discurso está sobretudo à direita, ou a própria direita deixará de ser alternativa.


Portugal precisa do Totoloto, mas não conta para o Totobola

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 19/05/2020)

Pedro Santos Guerreiro

A Alemanha e a França vão quebrar o lacre que proibia dívidas conjuntas para subsídios a fundo perdido com esta dimensão. Porque a Itália é “grande de mais para falir”. Mas se pensa que 500 mil milhões de euros é dinheiro a rodos, faça as contas, porque não chega para combater a crise.


Merkel e Macron mostraram esta segunda-feira garrafas magnum sem dizer ainda se lá dentro está champanhe ou água. Um número é um número, 500 mil milhões de euros a fundo perdido impressiona, até porque é difícil apreender a escala real de números com tantos algarismos. O anúncio do pacote para a recuperação carece de muitos detalhes, mas comecemos pelo número. Parece grande? E é. Mas calcule a percentagem que cabe a Portugal e divida por sete anos. Dá menos de 1% do PIB anual.

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O Governo está a esconder o pânico com os cenários económicos atrás do sorriso para projetar confiança. O maior sinal é ver o primeiro-ministro às compras na Baixa de Lisboa para as câmaras de televisão e o Presidente da República fotografado numa fila de supermercado. Nesses exemplos está uma súplica: depois do feche-se em casa, o abra-se a carteira. Gaste à francesa e, se necessário, viva afinal à sueca. Porque a destruição económica, as falências, o desemprego, as dívidas, a pobreza, a fome não se extinguem no segundo trimestre maldito: começam nele.

Os primeiros indicadores económicos não são os mais relevantes. Março trouxe uma recessão a pique (provavelmente próxima de 10% na segunda quinzena) e abril será uma tragédia de dois dígitos. Isso não surpreende. A depressão será funda como um poço até junho, mas o Governo já percebeu que a destruição não será um desamor de primavera, que se enterre na areia quando formos para a praia. O turismo, que aguentava o país, no terceiro trimestre estará de maré rasa. E mesmo com todas as ajudas ao lay-off, linhas de liquidez e moratórias de créditos e de impostos, o que os números ainda não registam os olhos já veem.

A recessão será pesada, os riscos financeiros estão ao virar da esquina, as filas de desemprego e dos apoios alimentares estão a abarrotar; e o Estado terá de continuar a gastar em apoios à economia e sobretudo em apoios sociais, não se sabe durante quanto tempo, mesmo se não houver segundas vagas. Não ficar tudo bem e ainda pode ficar tudo mal. Por isso, “gastem”. Por isso, “SOS Europa”.

Portugal não tem peso político na UE, precisa de um Totoloto mas não conta para o Totobola. Paradoxalmente, a nossa salvação está na Itália, que é “grande de mais para falir”, da mesma maneira que dizíamos dos grandes bancos quer eram “too big to fail”. Trata-se de uma das maiores economias da Europa e tem uma das maiores dívidas públicas do mundo. Estás de rastos com a pandemia, que tudo agravou. Não salvar a Itália é agendar uma crise de dívidas soberanas no sul da Europa, no coração da UEM e na cabeça da UE. E se ajudas houver para Itália (como para Espanha), para outros países haverá. Incluindo Portugal.

Daí que o anúncio esta segunda-feira feito por Merkel e Macron avance até onde a UE nunca avançou, sobretudo por causa de Itália mas também de Espanha. Falta conhecer detalhes e a articulação com outros planos já anunciados (incluindo o programa SURE e o papel do BCE), mas já parece possível dizer o que de melhor e de pior se prepara.

A proposta de Merkel e Macron passa pela criação de um pacote de 500 mil milhões de euros, em dívida conjunta da UE e paga mais tarde pela UE, dinheiro que será distribuído a fundo perdido pelos Estados-membros, supostamente em proporção das suas contribuições para o orçamento comunitário, que por sua vez crescerá com a cobrança de novos impostos, designadamente de negócios digitais.

O modelo parece correto. Isso é o melhor deste plano: contemplar não apenas dinheiro a fundo perdido, “pedido” por todos em conjunto e “pago” por todos em conjunto, mas também um aumento do orçamento comunitário. A Europa perderá a virgindade nos financiamentos conjuntos desta monta. E como o que custa sempre é quebrar o tabu, depois será mais fácil aprofundar este tipo de mecanismos.

O pior do plano é que é pouco dinheiro. Sim, pouco. Veja o caso português: se for à proporção das contribuições para o orçamento comunitário, mesmo que Portugal receba 2%, serão dez mil milhões de euros. Ao longo de sete anos (2021-2027), o que dá uma média (que provavelmente será distribuída com mais dinheiro no principio do que no fim) de 1,4 mil milhões de euros por ano. É menos de 1% do PIB. 140 euros por português por ano. Não, não é muito. Para o que precisamos, não é muito.

Os subsídios deveriam ter em conta não apenas a proporção no orçamento mas também o impacto da pandemia e o ponto de partida da dívida pública de cada país. Se assim não for, Alemanha, França, Itália e Espanha (quatro países) receberão quase dois terços dos 500 mil milhões, dividindo-se o pouco mais de um terço final pelos outros 23 países, entre os quais Portugal.

Falta saber mais para fechar conclusões, incluindo as decisões finais do Conselho Europeu daqui a poucas semanas. Este anúncio prévio de programa de recuperação significa que se está a preparar terreno político, comunicação com as opiniões públicas e tranquilização dos mercados, que estão de dedo nervoso no gatilho. A dimensão, repartição e contrapartidas nunca serão politicamente fáceis, até porque as instituições europeias não pensam todas da mesma maneira, e repito que as medidas desbravam os muros que eram invioláveis. Mas não se encandeie com a grandeza do número. Para que tudo não se resuma a um “toma lá 140 euros e não digas que vais daqui”. Para que o “a fundo perdido” não se seja na verdade um fundo perdido.


Remorsos de Magalhães

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 18/05/2020)

Daniel Oliveira

Com centenas de milhares de crianças casa, é impossível não recordar o projeto e-escolinha e o Magalhães. Os arquivos desse tempo são um retrato do nosso debate político. Casos, casos, casos. Fora isso, a reação geral da nossa elite foi a de ridicularizar.


Quando vejo centenas de milhares de crianças ficarem confinadas em suas casas, longe da escola, e dependentes dos recursos tecnológicos (e culturais) das suas famílias, é impossível não recordar o malogrado projeto e-escolinha, que ficou popularizado como Magalhães. Com vontade de recordar este projeto, nos seus acertos e falhas, fui procurar o que se foi escrevendo. Os arquivos desse tempo são um retrato da qualidade do nosso debate político. Pouco se encontra sobre as vantagens e perigos da ideia. Casos, casos e mais casos.

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O caso da JP Sá Couto, com a acusação de fraude e fuga ao fisco. As polémicas em torno das burocracias e dos processos administrativos que caíram em cima dos professores por causa do portátil. Episódios caricatos em torno de cantigas sobre o Magalhães entoadas em ações de formação, que se espalharam em vídeos pela Internet. A utilização de imagens de crianças a usar o Magalhães em tempos de antena do PS. Os erros de português nas instruções dos jogos do computador. No meio de uma selva de polémicas mais ou menos relevantes, preocupantes ou apenas caricatas, quase não existiu debate público sobre a necessidade de dar a todos este instrumento.

Usando a memória, lembro-me que a reação geral da nossa elite foi a de ridicularizar. Do alto de um conservadorismo arrogante, que tendo a modernidade garantida em casa acha que aos mais pobres bastará o passado da ardósia e cursos profissionais para serem, quem sabe, canalizadores competentes, aquilo parecia-lhe uma bizarria. O herói desse tempo, que paralisou a modernização da escola pública durante quatro anos por causa dos seus preconceitos ideológico, foi Nuno Crato. Ainda me lembro de ver o mesmo homem que desfez o Magalhães e todas as modernices dos que achavam que os pobres precisavam de mais do que aprender a contar, ler, escrever e ter um ofício, a distribuir tablets oferecidos por uma empresa, já como ministro.

A forma como se fez o debate contribuiu para o seu fracasso. Porque a superficialidade da crítica, que se concentrou nos escândalos e em episódios e foi incapaz de perceber a função democratizadora do acesso de todos às tecnologias, foi acompanhada por um discurso modernizador simplista e deslumbrado, habitual em José Sócrates. Não percebia que dar a tecnologia sem modernizar a escola não é mais do que oferecer uma ardósia com teclas. E a verdade é que o Magalhães foi pouco usado no contexto da sala de aulas. Porque não se pode acreditar que a tecnologia do século XXI serve para ensinar como no século XIX. Nem o atavismo engraçadote, que despreza em tom anedótico tudo o que modernize a escola, nem o deslumbramento dos “choques tecnológicos”, que separa a tecnologia do modo de aprender, de produzir e de fazer as coisas, permite que a escola dê o salto que tem de dar.

Ao olhar para milhares de crianças isoladas da escola, sem um computador e Internet, que não é tratada como um bem essencial, constato o mesmo que na interminável polémica sobre o TGV, que nos deixou eternamente dependentes dos transportes aéreos sem futuro num mundo em transição energética: a incapacidade de olhar para o essencial, corrigindo o processo sem matar o objetivo. A ausência de democracia no acesso ao espaço público faz com que os mais pobres sejam sempre esquecidos nas polémicas que nos entretêm.

Podíamos ter atacado as suspeitas de ilegalidade, brincado com as parvoeiras e corrigido os erros. Mas se nos tivéssemos dedicado mais a debater o que era preciso mudar na sala de aulas para que o Magalhães fosse útil, é provável que hoje estivéssemos numa fase diferente. Provavelmente, com manuais digitais, poupando os recursos públicos e o ambiente. Provavelmente, com todas as crianças com um tablet e uma ligação à Internet. Provavelmente, sem ter de regressar à “telescola”, fraco remendo para quem não tem quem ajude em casa. Era tão bom que não nos distraíssemos sempre com as curvas quando queremos ir para algum lado.