Remorsos de Magalhães

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 18/05/2020)

Daniel Oliveira

Com centenas de milhares de crianças casa, é impossível não recordar o projeto e-escolinha e o Magalhães. Os arquivos desse tempo são um retrato do nosso debate político. Casos, casos, casos. Fora isso, a reação geral da nossa elite foi a de ridicularizar.


Quando vejo centenas de milhares de crianças ficarem confinadas em suas casas, longe da escola, e dependentes dos recursos tecnológicos (e culturais) das suas famílias, é impossível não recordar o malogrado projeto e-escolinha, que ficou popularizado como Magalhães. Com vontade de recordar este projeto, nos seus acertos e falhas, fui procurar o que se foi escrevendo. Os arquivos desse tempo são um retrato da qualidade do nosso debate político. Pouco se encontra sobre as vantagens e perigos da ideia. Casos, casos e mais casos.

O caso da JP Sá Couto, com a acusação de fraude e fuga ao fisco. As polémicas em torno das burocracias e dos processos administrativos que caíram em cima dos professores por causa do portátil. Episódios caricatos em torno de cantigas sobre o Magalhães entoadas em ações de formação, que se espalharam em vídeos pela Internet. A utilização de imagens de crianças a usar o Magalhães em tempos de antena do PS. Os erros de português nas instruções dos jogos do computador. No meio de uma selva de polémicas mais ou menos relevantes, preocupantes ou apenas caricatas, quase não existiu debate público sobre a necessidade de dar a todos este instrumento.

Usando a memória, lembro-me que a reação geral da nossa elite foi a de ridicularizar. Do alto de um conservadorismo arrogante, que tendo a modernidade garantida em casa acha que aos mais pobres bastará o passado da ardósia e cursos profissionais para serem, quem sabe, canalizadores competentes, aquilo parecia-lhe uma bizarria. O herói desse tempo, que paralisou a modernização da escola pública durante quatro anos por causa dos seus preconceitos ideológico, foi Nuno Crato. Ainda me lembro de ver o mesmo homem que desfez o Magalhães e todas as modernices dos que achavam que os pobres precisavam de mais do que aprender a contar, ler, escrever e ter um ofício, a distribuir tablets oferecidos por uma empresa, já como ministro.

A forma como se fez o debate contribuiu para o seu fracasso. Porque a superficialidade da crítica, que se concentrou nos escândalos e em episódios e foi incapaz de perceber a função democratizadora do acesso de todos às tecnologias, foi acompanhada por um discurso modernizador simplista e deslumbrado, habitual em José Sócrates. Não percebia que dar a tecnologia sem modernizar a escola não é mais do que oferecer uma ardósia com teclas. E a verdade é que o Magalhães foi pouco usado no contexto da sala de aulas. Porque não se pode acreditar que a tecnologia do século XXI serve para ensinar como no século XIX. Nem o atavismo engraçadote, que despreza em tom anedótico tudo o que modernize a escola, nem o deslumbramento dos “choques tecnológicos”, que separa a tecnologia do modo de aprender, de produzir e de fazer as coisas, permite que a escola dê o salto que tem de dar.

Ao olhar para milhares de crianças isoladas da escola, sem um computador e Internet, que não é tratada como um bem essencial, constato o mesmo que na interminável polémica sobre o TGV, que nos deixou eternamente dependentes dos transportes aéreos sem futuro num mundo em transição energética: a incapacidade de olhar para o essencial, corrigindo o processo sem matar o objetivo. A ausência de democracia no acesso ao espaço público faz com que os mais pobres sejam sempre esquecidos nas polémicas que nos entretêm.

Podíamos ter atacado as suspeitas de ilegalidade, brincado com as parvoeiras e corrigido os erros. Mas se nos tivéssemos dedicado mais a debater o que era preciso mudar na sala de aulas para que o Magalhães fosse útil, é provável que hoje estivéssemos numa fase diferente. Provavelmente, com manuais digitais, poupando os recursos públicos e o ambiente. Provavelmente, com todas as crianças com um tablet e uma ligação à Internet. Provavelmente, sem ter de regressar à “telescola”, fraco remendo para quem não tem quem ajude em casa. Era tão bom que não nos distraíssemos sempre com as curvas quando queremos ir para algum lado.


17 pensamentos sobre “Remorsos de Magalhães

  1. Brevemente deixarei aqui um comentário sobre o assunto. Trabalhei (Prof.1º ciclo) com ele desde o nascimento até à sua morte. Principais coveiros e por esta ordem, professores, fazedores da opinião pública ( veja o que disse Pacheco Pereira sobre a matéria) e alguns políticos hipócritas, nomeadamente o governo que se seguiu. Triste, muito triste. Grande olheiro o Sócrates.

  2. Por várias vezes escrevi que jamais votei em José Sócrates,jamais militei no PS.nunca tive a menor relação pessoal com tal indivíduo.
    Porém,a partir do momento em que o Cavaco, a direita e a esquerda decidiram expulsá-lo do Governo,passei a defendê-lo sempre que o assunto Sócrates vem à baila. A razão é simples: Sócrates fez, realizou,mexeu com toda a estrutura do país. E tal,para mim,é bom!
    Analisemos só parte do que conseguiram que ele não fizesse ! O túnel do Marão,anos e anos parado,com indemnizações faraónicas aos empreiteiros.
    Aeroporto de Lisboa,projecto aprovado,parecer do Ministério do Ambiente favorável,terrenos disponíveis.
    TGV projectado,obras iniciadas numa Linha.
    Auto Estrada de Beja,iniciada,obras de arte quase terminadas,até hoje a apodrecerem…
    Nem é preciso lembrar que se tinha encontrado financiamento para todas estas obras.
    A minha pergunta é:
    -Porquê tamanha cegueira de quem tudo fez para que nenhuma se realizasse? Não pode ser só má-fé cínica ou obtusidade córnea! Há mais,há muito mais e tem que ser exposto à vista de todos!!!.

    • Nota. Epá, lendo-te recorrentemente, percebe-se que fundamentalmentens é um problema de falta de inteligência. E essa memória vai por arrasto: quem enxutou s pandilha do José Sócrates foram os portugueses que reduziram o PS nas legislativas a números capazes de se compararem com os piores do Almeida Santos, seguiu-seca fuga e, ao cadastro anterior, juntou-se a fraude académica na SciencesPo… até que o MP evo juiz Carlos Alexandre o engavetaram nos “calores” da prisão de Évora (é memorável a proibição de umas botas quentinhas, lembras-te?). Mas tudo isso vais poder assistir durante o realitty-choque do julgamento da Operação Marquês, assim tu tenhas saúde que essa vida dedicada à arte do travestismo faz mossa…

      • Se o troll com o seu manancial de alarvidades não aparecia do lado dos bons e dos justos….. És tão previsível e tão desprezível, coitadinho de ti rfc, coitadinho.

        • Deixa o senhor, Carlitos, continua em lay-off e, olha, investe no travestismo através da net que é o que está a dar com o confinamento.

    • Problemas dos projectos à parte, porque tenho mais opiniões do que certezas, e já esqueci metade dessas (excepto o facto de que não era um TGV), os projectos não aconteceram porque depois do “estado da macroeconomia é globalmente bom” morreu a convergência da desunião e com ela o dinheiro, pois era preciso continuar a alimentar o motor especulativo dos países bem comportados aumentando as bolhas.

  3. Dois dos terramotos do nosso século podem ser designados pelos políticos: terramoto Socrates e terramoto acompanhado de tsunami Passos-Portas.
    Com o 1º hipotecámos o futuro com o 2º recuámos 50 anos!

  4. Falta de inteligência, certeiro diagnóstico ! Vá lá,receita-me lixívia, o remédio do teu maior, se dá para o vírus também deve dar para este mal !
    A “pandilha ” do monstro era de tal quilate que o teu,hélas, professor universitário Coelho ,génio de quase tudo e o criadito do António Borges,um tal Gaspar, viram-se à nora para o ultrapassar.
    O computador Coelho,tardou mas convenceu. Os aerogeradores Coelho ainda hoje são dos melhores da Europa. Os jardins infantis Coelho são a delícia da criançada. O Inglês na Primária Coelho pode ver-se. As Escolas remodeladas à Coelho estão aí para se ver,A rede de auto-abastecimento Coelho dá corrente a quem queira. O Ministério de Investigação marca Coelho investigou a valer,as auto-estradas Coelho dão prioridade a circulação…
    Quem,com todos os meios do poder na mão,não realizou uma só coisa que se enumere,pode ser o vosso ídolo.?
    A agência Coelho vendeu tudo o que pôde,desinvestiu onde lho consentiram,os resultados são conhecidos.
    A obra de Sócrates fala por ela,não necessita de comentadores.
    Lixívia,meu caro,lixívia,pelo menos as nódoas ficarão menos perceptíveis!

    • Nota.

      Calhambeque, vruuummm, não te irrites que ainda gripas esse motor o que, em tempos de Covid-19 como a hora grave que o pa´s atravessa, pode não vir a ser uma gripezinha.

      Como os nervos te chiutaram para aqui, mas presmindo que te referirias à minha simples pessia, deixa-me reafirmar-te que eu só disse verdades (como sempre, aliás).

      Recapitulando, ó cabeça dura: que foi o soberano quem, em eleições livres e justas, deu um pontapé na pandilha socrática, que o dito fugiu para Paris para viver à grande e à francesa, que a SciencesPo apanhou os cacos de uma fraude académica de tipo africano, que oteu São José, por uns tempos, descansou os cavalos usufruindo dos ares de Évora, gozando então de um espanto e duvida singulares junto da opinião pública portuguesa, dúvida, o tal Bom Povo Português, que existe, e que bastante espantado ficou quando teve oportunidade de o defender-se nas TV’s como um homem livre. E foi, a partir desse momento, que o senhor José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, premonitoriamente nascido em Vilar da Maçada, se revelou uma personagem de traços sinistros sob os holofotes e actor de uma historieta de sexo, e foi a Delícia Cabrita quem o masculinizou repara bem, men-ti-ras [escutas] e vídeo que acabará nos tribunais deste país encantador.

      E o espanto deu lugar à estupefacção entre os portugueses, eu não te disse?, disputando hoje a primazia com Cavaco Silva na pequena galeria dos políticos mais odiados no pós-25A.

      Se ainda não percebeste isto que é simples, e depois de tanta água que correu em direcção ao mar, recomendo-te ajuda especializada que eu não sou a pessoa indicada.

      Mas saúde, apesar dessas saudades, muita saúde!

      • Adenda. Ah, lê o Eça que ali usa-se é benzina mas ganha um pouco de vergonha na cara com as mentiras que vais deixando caír onde poisas (não te apropries do trabalho solitário do falecido Mariano Gago, por exemplo, que tinha décadas e que vinha desde os tempos da JNICT). Mariano Gago que, relembre-se, fechou aquela espécie de Universidade Independente em que o seu amigo Armando Vara se licenciou à má-fila e o Injenheiro se quis fazer engenheiro antes de se tornar filósofo, preso políitico tornando-se, hoje, o mais famoso exilado da Ericeira (onde vive num casa “emprestada”, né?).

        • Falhou-lhe a falta de clubite do Eça. O vazio ideológico dá nisto, comentário após comentário, muitos ad hominem, zero argumentos.
          E nem era, como nunca foi, difícil encontrar falhas no individuo, mas era preciso começar por aceitar que não era o anticristo.

          • Adenda. Paulinho, meu menino, quem te manda a ti andares a meter-te com os crescidos? Vá, volta lá para o quarto e vê se fazes o TPC até à hora de jantar…

              • Paulo Marques

                Eu já deixei de dar corda a este “brinquedo” infantil e deitei a chave fora !

                Era um boneco de lata, tinha a corda toda fo+++a, o exterior era um esterco, cheio de mossas, a pintura caíu, inexorávelmente, aos bocados…enfim, uma pôia…

                A ferrugem que atacou tal “brinquedo”, foi a indicação do seu estado terminal, e o fim dele, definitivamente, foi o caixote do lixo.

                E, levado pelo camião da higiene urbana, para a lixeira mais próxima, foi a forma de dar o meu modesto contributo em favor da tão necessária como urgente despoluição climática !

                Só tive que, depois, lavar e desinfectar cuidadosamente as mãos e o teclado…

                Mas o Paulo Marques, óbviamente, fará como entender !

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