Retrato de uma tragédia anunciada

(Pedro Adão e Silva, in Expresso,16/05/2020)

Pedro Adão e Silva

Há semanas, o Governo reuniu-se com economistas para discutir medidas de relançamento da economia. Infelizmente, este é um momento em que o contributo dos economistas é próximo do zero. Mesmo que se desenhassem as políticas e os estímulos mais eficazes, persistiria um problema de fundo: falta de confiança.

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É este o retrato que nos deixa a sondagem do ICS/ISCTE publicada pelo Expresso. Os portugueses continuam a confiar na resposta que políticos e instituições têm dado à pandemia e acreditam maioritariamente na nossa capacidade coletiva para limitar a difusão do vírus (62%), mas todos os outros sinais são aterradores.

Com razão, estamos preocupados em relação à situação económica e financeira do país (94%) e tememos que o pior ainda esteja para vir (57%). Só que, questionados em relação aos riscos associados ao desconfinamento, uma larga maioria julga arriscado regressar às rotinas quotidianas comuns. Os portugueses consideram mesmo que não se esperou o tempo suficiente para levantar as restrições.

A decisão de colocar o país em confinamento foi rápida e eficaz, mas a reabertura será bem mais exigente e não dependerá de soluções para a economia, de dados estatísticos, nem sequer da melhor informação médica. A perceção de risco é um processo social e alterá-la depende de mecanismos difusores de confiança coletiva que não se vislumbram.

A história das nossas civilizações é, em importante medida, a história da socialização dos riscos. O que nos distingue, hoje, é não sermos individualmente responsáveis pela nossa saúde e o nosso bem-estar económico depender de mecanismos coletivos (à cabeça a segurança social pública). A resposta comunitária dada à pandemia correspondeu a mais uma etapa deste longo e atribulado processo de gestão coletiva de riscos.

Mas há também duas outras ideias relevantes sobre gestão de riscos: a primeira é que há riscos que decidimos ignorar, enquanto privilegiamos a resposta a outros; a segunda é que a resposta que lhes damos pode ir da individualização radical (cada um é responsável por lidar com os riscos que enfrenta), passando pelo fatalismo (não há nada a fazer), até aquilo que foi feito face à covid-19: uma abordagem comunitária (todos procuramos proteger todos os outros, em particular os grupos de risco) combinada com mecanismos de decisão hierárquicos (de que o Estado de emergência é o pináculo).

O que os dados da sondagem demonstram é que chegou o momento de alterar o equilíbrio entre os riscos que privilegiamos e aqueles que igno­ramos (sob pena de termos de enfrentar uma pandemia económica e social aterradora), sem com isso comprometer o equilíbrio virtuoso entre comunitarismo e respostas hierárquicas que caracterizou a resposta à pandemia em Portugal. É o único caminho para recuperarmos um pouco de confiança.


3 pensamentos sobre “Retrato de uma tragédia anunciada

  1. Portugueses e não só :
    No RU, Boris mudou o discurso num repente, do “fiquem em casa”,(Stay Home), para o “fiquem atentos”, (Stay Alert). Isto de surpresa no discurso de 10/5 e sem avançar com razões plausíveis para a alteração, deixando a Nação atónita. Todas as sondagens apontam para existencia de uma forte maioria de cidadãos que estão contra a medida e a Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte recusaram mesmo seguir o Primeiro-Ministro, que se viu assim reduzido a governar apenas a Inglaterra.

  2. Acho que a grande questão que o Pedro Adão e Silva não responde, e na verdade ninguém responde, é:

    Porque razão estamos agora melhores do que em Março? O que aconteceu para que o virus seja muito menos perigoso? Ou estamos tão melhor preparados? Mas de que forma?

    É que objetivamente e ao contrário da Espanha, por exemplo, a nossa taxa de infectados é baixíssima (portanto mesmo existindo imunidade, estamos muito longe da imunidade de grupo); ou seja, o que impede que o que aconteceu em Março, apesar de fortes diretivas para encerramento de escolas, para evitar transportes públicos, para todas essas coisas se repita, mas desta vez pior?

    Não me venham com a lengalenga das máscaras; se a OMS/DGS não aconselhou o seu uso durante tanto tempo por achar (e corretamente) que poderia dar um falso sentido de protecção derivado da inexperiência dos Portugueses no seu uso, parece-me que o argumento continua válido.

    Parece-me que os Portugueses olham para o que aconteceu e para como estamos e dizem:

    Mas que ***** aconteceu no entretanto que agora querem que a gente vá às compras e trabalhar e almoçar fora etc…? Inventou-se uma vacina? O virus fica mais fraco com o sol? O Costa pediu ao N. Sr. a Sua proteccão e portanto estamos salvos?

    Uma vez que a resposta a todas estas perguntas é não, ou não interessa, os Portugueses estão é só estupefactos com a mudança de paradigma tendo em conta que nada de substancial aconteceu para mitigar o risco…

    • Há mais informação, quer para a prevenção, quer para o tratamento, quer até para confinamento adequado. E confiança de que conseguimos flexibilizar a resposta. O que o PAS (parece que) se refere é a confiança económica, e essa… bem, a confiança é de que os últimos vinte anos foram um paraíso para os cidadãos, porque o layoff já iniciou uma ronda de austeridade com mais do mesmo em quantidades impensáveis.

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