(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 03/02/2023)

O envio dos tanques Leopard para a Ucrânia representa uma mudança essencial e a dois níveis no papel dos países neutros, embora amigos ou aliados da Ucrânia. Por um lado, não se trata mais de enviar armas para ajudar Kiev a defender-se da invasão russa e a evitar que, como nos contam para adormecermos, depois da Ucrânia, Moscovo venha por aí fora até à foz do Tejo, mas sim de armas ofensivas que permitam a Kiev assegurar a tal vitória que, segundo o secretário da Defesa norte-americano, é o objectivo final da guerra e garantirá que nunca mais a Rússia se atreva a aventuras semelhantes, ainda que provocada. E, por outro lado, não sendo uma decisão colectiva, tomada no âmbito da NATO (o que implicaria o desencadear da Terceira Guerra Mundial), significa apenas uma decisão unilateral de cada país, tomada por vontade própria.
Assim sendo, e juntando os nossos quatro leopardozinhos — dos 37 que temos e dos 12 operacionais — ao contingente de 120 já garantidos a Zelensky, o que Portugal está na iminência de consumar, para todos os efeitos legais e políticos, é uma declaração de guerra à Rússia, através do seu envolvimento directo no conflito. E a seguir aos Leopard, irão talvez os F-16, que Zelensky logo tratou de pedir mal obteve os tanques, naquelas suas emissões televisivas matinais onde todos os dias reclama novas armas que, mais tarde ou mais cedo, lhe são dadas. Não sei mesmo se com o entusiástico prosseguimento da guerra, não teremos a seguir de avançar com os nossos submarinos e as fragatas MEKO — na certeza, porém, de que, tal como sucede com os tanques e os F-16, também aí Zelensky terá meia desilusão: sucede que, se as nossas Forças Armadas gostam de ter ao serviço os melhores brinquedos disponíveis no mercado, como em tempos reportava um embaixador americano, rapidamente a maior parte deles são armazenados por falta de peças sobresselentes, falta de interesse superveniente ou falta de respeito pelos contribuintes.
Como quer que seja, declarámos guerra à Rússia. Pelo que, se um dia destes, essa fragata russa que anda aí pelo Mediterrâneo, à passagem por Lisboa, se lembrar de nos saudar com uns quantos mísseis, não fiquem chocados. É uma hipótese altamente improvável, mesmo nas sapientes conjecturas da dupla Rogeiro/Milhazes, mas, em termos de jus belli, não haveria nada de que reclamar. O que eu reclamo é da forma como nos envolveram neste processo, como se fosse a coisa mais banal do mundo.

Em primeiro lugar, foi verdadeiramente surpreendente e humilhante que a primeira fonte que noticiou o envio de tanques portugueses para a Ucrânia fosse o próprio Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, em conferência de imprensa. Fazendo-o sem que a hipótese tivesse ainda sido sequer veiculada aqui e sem que a Alemanha, fabricante dos Leopard, tivesse dado autorização para a sua reexportação para um cenário de guerra, Zelensky mostrou o quanto a sua vontade são ordens para o Governo português.
Em segundo lugar, é extraordinário que uma decisão desta relevância seja decidida sem passar pela Assembleia da República (onde tantas trivialidades são discutidas assanhadamente), pelo Conselho de Estado (tantas vezes convocado para debater o sexo dos anjos), e mesmo sem uma palavra do comandante supremo das Forças Armadas, Marcelo Rebelo de Sousa, a quem nenhum assunto, por mais ridículo que seja, passa sem comentário.
Sem uma explicação pública do primeiro-ministro e nem sequer o habitual abanar de cabeça concordante do ministro figurante dos Negócios Estrangeiros. E, claro, sem qualquer manifestação de interesse em debater o assunto pela opinião pública, mais interessada em debater há 15 dias a invasão do palco do São Luiz por uma transloucada sexual em defesa do monopólio dos papéis teatrais pelas diversas espécies sexuais contemporâneas e futuras.
E, enfim, é para mim espantoso que António Costa, que vive a desculpar-se com a inflação e outros problemas importados por via da guerra — o que é verdade — não peça aos manifestantes que estão na rua, os professores e outros, a todos os portugueses descontentes e em dificuldades, que vão antes manifestar-se em frente às embaixadas dos Estados Unidos, da Rússia, da Ucrânia, da representação permanente da UE, exigindo o fim da guerra e a abertura de negociações de paz. Sei bem que somos um pequeno país cuja voz vale o que vale. Mas se, apesar de pequenos, servimos para enviar tanques e aviões para a guerra, também servimos para perguntar até quando é que teremos de pagar por ela, enquanto vemos os fabricantes de armas a fazerem fortunas, a economia americana a prosperar enquanto a Europa definha e se ajoelha, a Ucrânia a ser destruída paulatinamente, o combate às alterações climáticas a retroceder anos e os ignorante úteis ou fingindo-se de tal a proclamar que não há outro caminho senão continuar a guerra indefinidamente. Ao prestar-se a enviar os Leopard para a Ucrânia — e, logo depois, os F-16 e o mais que Zelensky exigir, até às armas nucleares —, António Costa não pode deixar de estar consciente da contribuição, ainda que relativamente pequena, que Portugal está a dar para a escalada da guerra e a sua continuação sem fim à vista. Assim, é hipócrita queixar-se mais da guerra: podia era meditar no exemplo do seu amigo Lula da Silva, que, solicitado a enviar também tanques para Zelensky, ofereceu-se antes para fazer parte de um grupo para mediar a paz. Mas isso é tudo o que por aqui, na Europa, é proibido sequer pensar: é o novo TINA (There Is No Alternative).
2 Um ano depois da surpreendente maioria absoluta que libertou António Costa da chantagem dos seus parceiros de esquerda e lhe abriu um horizonte de quatro anos de oportunidades e dinheiros do PRR, apesar da guerra, da inflação e da subida abrupta dos juros do BCE, não há melhor síntese para definir este ano do que a frase, dita há dias, pela ministra Mariana Vieira da Silva: “Acabou o tempo das eleições, este é o tempo de governar.” Que seja aquela que é, talvez, o elemento mais lúcido deste Governo a dizer aquilo que todos pensamos é irónico e eloquente do que foi este ano: um ano perdido. A seu favor, o Governo tem os dados económicos positivos da conjuntura; e contra tem, sobretudo, a falência indisfarçável de tudo aquilo que são serviços públicos essenciais para os quais pagamos impostos sem qualquer correspondência com o retorno recebido. Mas, acima de tudo, o que o Governo de António Costa revela é uma desesperante falta de horizonte para o país, de reformar o que está podre à vista de todos, de enfrentar e romper o círculo vicioso das corporações que se apoderaram do Estado e dele fazem a sua coutada e o seu cofre privado. Mas nisso, verdade seja dita, só tivemos um primeiro-ministro que, nos últimos 30 ou mais anos, se atreveu a travar esse combate e a pensar para a frente: é aquele cujo nome não pode ser pronunciado, sob pena de passarmos para a lista de suspeitos sob escuta ordenada pelo juiz Carlos Alexandre.
3 Se a TAP, na sua totalidade, vier a ser vendida pelos €900 mil em que, segundo o Expresso, foi avaliada, isso significa que, apenas contando com a última injecção de capital público, a bravata da sua renacionalização por este Governo terá custado aos contribuintes €2,3 mil milhões — mais uns milhões pagos aos privados para se irem embora, aos trabalhadores para serem despedidos e aos actuais administradores pelo “sucesso” da “recuperação” da companhia. E se, como por aí consta, a TAP acabar nas mãos da Ibéria, esta tratará de canibalizar e pagar-se rapidamente com a próspera exploração das rotas do Brasil (obra do brasileiro Fernando Pinto) e das dos Estados Unidos (obra do brasileiro-americano David Neeleman), mas prestando um serviço bem pior a brasileiros, americanos e portugueses. Além disso, matará o mítico hub de Lisboa, a invocada razão primeira da renacionalização, e que logo será transferido para Madrid e ao serviço do turismo concorrencial de Espanha, inclusivamente levando a questionar outra vez a urgência do sempre adiado novo aeroporto de Lisboa. E, por último, dará aos portugueses aquela que, pela minha experiência pessoal, e, entre as companhias de referência, é a pior companhia aérea do mundo, a seguir à Turkish Airlines. Mas há sempre uma consolação: como me dizia há dias um comissário de bordo da TAP, quando lhe devolvi, intocado, o intragável jantar servido a bordo (e por onde passa também o “sucesso” da “recuperação” da empresa): “Quando a Ibéria tomar conta disto, servimos tapas.” É isso: de TAP passamos a TAPAS — €2,3 mil milhões depois. Não admira que o outro tenha fugido da fita do tempo.
4 O anarcossindicalismo do STOP, que tanto entusiasma as senhoras professoras, desdenha de tribunais arbitrais ou das leis do país, e não se comove com os pais que não têm onde deixar os filhos para irem trabalhar e ganhar o seu salário ou com os filhos pobres que não têm onde comer a sua única refeição decente porque o sindicato dos professores paga aos auxiliares para eles fazerem greve e fecharem as escolas. Temendo ser ultrapassada pela dinâmica deste novo sindicalismo, Catarina Martins, do BE, após reflexão, concluiu que, apesar dos “problemas” levantados por estas formas de greve, o que importa é que as maiorias absolutas (burguesas e parlamentares) “nada podem contra as maiorias sociais, que fazem mover montanhas e tremer o mundo”. Lenine disse o mesmo há mais de 100 anos e praticou-o. Uma vez conquistado o poder em nome das massas, ele fez tremer o mundo. Começou por liquidar — literalmente, fuzilando e massacrando numa orgia de sangue — os burgueses e os parlamentares, os anarcossindicalistas, os sociais-democratas, os socialistas revolucionários e todos os companheiros de caminho até ao partido único, e depois os operários que faziam greve e os camponeses que não entregavam as suas colheitas, para, sobre um cemitério de milhões de mortos, erguer um “mundo novo” a que chamaram URSS. É absolutamente extraordinário que, passados mais de 100 anos, ainda haja quem, por pudor ou por puro oportunismo político, ainda se atreva a desafiar a história.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
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