A absoluta infâmia

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 17/02/2023)

Miguel Sousa Tavares

Ele, D. José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, lê um texto aparentemente já escrito antes de ouvir as conclusões da Comissão Independente sobre a pedofilia na Igreja Católica portuguesa. O detalhe é revelador: quaisquer que fossem as conclusões, a Igreja já tinha a resposta preparada, fossem 512 os casos documentados, cinco mil os denunciados (“uma ínfima parte”) ou 25 os ainda não prescritos, ou fossem 10 vezes mais, como devem ter sido ao longo dos anos. E a resposta da Igreja era banal e burocrática: sim, pediam “perdão a todas as vítimas” e não há “lugar na Igreja para os abusadores”. Mas sobre indemnizações às vítimas, nada; sobre as responsabilidades dos bispos encobridores, nada; sobre a entrega à justiça ou, ao menos, o afastamento dos suspeitos ainda no activo, logo se irá ver, há procedimentos próprios da cúria a respeitar. Ou seja, e tudo posto a nu, a hierarquia da nossa Igreja Católica confia em que, assente a poeira mediática e prescritos quase todos os crimes, tudo se resolverá com o esquecimento, uns pais-nossos e umas ave-marias e, ironia das coisas, um gigantesco espaço de confissões na próxima Jornada Mundial da Juventude, em que os pecadores serão os jovens e o perdão será concedido pelos padres. Um festival em que as vítimas prestarão vassalagem aos abusadores, representados por algumas centenas de bispos, alguns dos quais, quem sabe, durante décadas participaram na orgia pedófila ou se dedicaram a encobri-la, “fazendo o que era costume” — ou seja, e segundo o relatório da Comissão, registando as queixas recebidas apenas oralmente, de modo a não deixar rastos.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

A Igreja, no seu livre-arbítrio, decidiu que o sacerdócio é exclusivo de homens e que estes devem viver em celibato — o que é um contrato contrário à natureza humana. Mas, se decidiu assim, o preço a pagar por essa decisão não pode recair nos filhos dos outros.

“Deixai vir a mim as criancinhas”, a frase de Cristo, não significa dispor dos filhos dos outros para satisfação das frustrações sexuais de homens castrados da sua natureza por imposição de fé. Os padres nunca tiveram filhos, nunca os viram crescer no útero de uma mãe, nunca os viram nascer, nunca os vigiaram nas doenças, nunca os levaram à escola, nunca brincaram com eles, nunca sofreram por eles, nunca sentiram que dariam a vida por eles, nunca perceberam que pode­riam matar por eles.

O que esses predadores de Cristo andaram a fazer aos filhos de outras mulheres e homens ao longo de décadas e séculos, nos seminários, colégios, retiros e paróquias, está muito para além da capacidade de perdão. Eu olho para a cara de muitos destes bispos e percebo que eles não entendem ou não querem entender, apenas querem apagar a memória da ignomínia — o que é diferente de exterminar a raiz do mal. E é por isso que tantos não aceitam e não cumprem as directrizes do Papa Francisco. Preocupa-os mais a dignidade do altar onde ficarão ao lado do Papa, mesmo que custe milhões, do que o remorso dos crimes cometidos contra milhares de crianças confiadas à sua guarda, a quem despojaram cobardemente de toda a dignidade e inocência. Resta-nos um consolo no meio de tanta podridão, tanta infâmia: por uma vez, uma comissão fez o seu trabalho até ao fim, com persistência e coragem, contra o silêncio e a ocultação. O país deve-lhe isso.

2 Num distante 4 de Agosto de 2014, estávamos muitos de nós de férias, um confiante Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, veio anunciar-nos que tinha decidido ser o primeiro entre pares a lançar mão do mecanismo de resolução de um banco privado: o BES. Fazia-o com a bênção do Governo de então, de Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque. Sobre a nebulosa de um banco na iminência de falência, ele, garantiu-nos, iria erguer um banco novo e com todas as condições para triunfar no mercado. Para tal iria injectar nele — provisoria­mente, é claro — €4,9 mil milhões de dinheiros públicos, mas apenas para o lançar na praça. Mas, ficássemos nós descansados, tudo isso o Estado recuperaria até ao último tostão. Uns anos e várias asneiras depois, o Novo Banco foi vendido a uns gordos do Texas com má fama por um preço de aflitos e com o Estado, através do Fundo de Resolução, a ficar responsável por aquilo a que chamaram o “capital contingente”: traduzido por miúdos, os créditos duvidosos. E durante vários anos os créditos de cobrança duvidosa ou de valor garantido — palacetes no Estoril, herdades no Alentejo, seguradoras, Comportas, aventuras do presidente do Benfica — foram vendidos ao desbarato, sendo o saldo, necessariamente passivo, cobrado no final de cada ano ao Fundo de Resolução. Uns exercícios passados e sem conseguir, mesmo assim, disfarçar mais os proveitos do negócio, o Novo Banco começou, enfim, a registar lucros e o processo de resolução foi declarado oficialmente extinto, com o saldo final de €3,4 mil milhões de prejuízo para o Estado. Se a isso somarmos os €4,9 mil milhões da injecção inicial, temos que a aventura da resolução custou aos contribuintes um total de €7,3 mil milhões, abatendo os mil milhões que a Lone Star pagou pelo banco — sem contar com os €4 mil milhões deitados a perder no BESA, quando a “garantia irrevogável” de Angola foi rasgada pela imbecilidade da gestão pública do Novo Banco. Nada mau para o tal banco novo que não nos iria custar um tostão! Carlos Costa goza agora uma reforma dourada e dita livros de memórias sobre intrigas palacianas em que ele foi herói e todos os outros foram vilões; Maria Luís Albuquerque trabalha como consultora para um dos antigos credores da troika que é suposto ter enfrentado como ministra das Finanças, e Pedro Passos Coelho consta que é um desejado D. Sebas­tião para reensinar o país a sair da sua zona de conforto, como ele disse então. E se escrevo isto é apenas porque é preciso dizer que nem toda a gente perdeu a memória. Segue-se a TAP.

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3 Por mais que eu leia e por mais que me esforce para entender de economia — e acreditem que me esforço ainda —, a economia permanece para mim um mistério indecifrável. Com a guerra da Ucrânia, os combustíveis fósseis escalaram todos de preço e nós, consumidores, passámos a pagar preços absurdos, que determinaram uma subida em cadeia da inflação. Os Governos intervieram para mitigar o efeito do preço dos combustíveis nos consumidores e o BCE interveio para conter a inflação, subindo as taxas de juro, mesmo correndo o risco de mergulhar a Europa numa recessão. Tudo isto faz sentido para os economistas, o que não faz sentido para os consumidores são os lucros exorbitantes das petrolíferas neste cenário e, mais ainda, a contestação ao imposto sobre “os lucros caídos do céu”. Entre nós, a Galp acaba de anunciar lucros recorde de €841 milhões e todos os bancos também foram atrás. Mas, contestando o imposto sobre os lucros excessivos dos bancos, o professor de Economia João Duque explicava aqui, no último Expresso, que, ao não pagarem nada sobre os depósitos — uma das fontes de lucro, face aos 4% cobrados nos empréstimos —, os bancos estavam a fomentar o consumo, fonte do nosso crescimento económico. Ou seja, desincentivando a poupança e incentivando assim o consumo, os bancos eram, afinal, os grandes beneméritos da nossa economia — pelo que não havia razão para os taxar por lucros extraordinários, antes para os aplaudir. E eu, que aprendi na faculdade, de outros professores de Economia, que a saúde dos paí­ses estava na capacidade de poupança, com a qual os bancos financiavam os investimentos, que faziam a economia crescer! Estamos sempre a aprender!

4 Perante um desvanecido Parlamento Europeu, Zelensky apelou à urgente entrada da Ucrânia na União Europeia com um argumento que, em boa verdade, lhe foi fornecido pelos próprios europeus: que na guerra contra os invasores russos ele está a defender os valores europeus. Mas não é verdade, assim como não é verdade que, como reza a propaganda ocidental, Putin se tenha oposto à adesão da Ucrânia à UE. Putin opôs-se e opõe-se, sim, à adesão da Ucrânia à NATO, pela razão elementar de não gostar de ver mísseis nucleares do inimigo estacionados no seu quintal das traseiras, tal como Kennedy não os quis ver em Cuba, em 62: tão simples quanto isto. Agora, se, como também reza a propaganda ocidental (e aí eu concordo), é do interesse de Putin ver a UE desmembrada por dentro e reduzida à ineficácia, a entrada da Ucrânia servirá às mil maravilhas os seus interesses. Não se trata apenas da questão de a Ucrânia ultrapassar na adesão países que há mais tempo estão em lista de espera — com o caso extremo da Turquia a embaraçar tudo e todos — ou dos custos astronómicos da sua adesão para o orçamento comunitário, ou da revolução que exigiria na PAC. Esses problemas, que já seriam capazes, por si, de paralisar a UE durante anos, deixariam de fora, porém, o principal deles, a médio e longo prazo: é que, ao contrário do que jura Zelensky, os valores da Europa não são os valores da Ucrânia. Na sua matriz, a UE — e a sua antecessora, a CEE — colheu a inspiração política nos valores da democracia ateniense, depois solidificados por décadas de democracias liberais na Europa Ocidental, embora com excepções (Portugal e Espanha). Mas a Ucrânia, como a Rússia, pertence a outra história, outra civilização e outra Europa: a Europa eslava e autocrática. Não é por acaso que os valores tradicionais liberais da UE esbarraram, após o alargamento a leste, com a resistência autocrática de países como a Chéquia, a Polónia ou a Hungria. Assim como não é por acaso que os dossiês mais complicados que estão a ser negociados entre a Ucrânia e a UE, nesta fase de pré-adesão, sejam assuntos que nem sequer estiveram em cima da mesa quando, por exemplo, Portugal e Espanha negociaram: corrupção endémica das instituições do Estado, falta de independência dos tribunais, insuficiente liberdade de imprensa. Em Bruxelas, a Ucrânia é um elefante no meio da sala. Os democratas europeus sabem-no e Putin também. Um pouco mais de conhecimento da História e de percepção geopolítica e um pouco menos de entusiasmos infantis chegariam para o entender.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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É oficial: estamos em guerra

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 03/02/2023)

Miguel Sousa Tavares

O envio dos tanques Leopard para a Ucrânia representa uma mudança essencial e a dois níveis no papel dos países neutros, embora amigos ou aliados da Ucrânia. Por um lado, não se trata mais de enviar armas para ajudar Kiev a defender-se da invasão russa e a evitar que, como nos contam para adormecermos, depois da Ucrânia, Moscovo venha por aí fora até à foz do Tejo, mas sim de armas ofensivas que permitam a Kiev assegurar a tal vitória que, segundo o secretário da Defesa norte-americano, é o objectivo final da guerra e garantirá que nunca mais a Rússia se atreva a aventuras semelhantes, ainda que provocada. E, por outro lado, não sendo uma decisão colectiva, tomada no âmbito da NATO (o que implicaria o desencadear da Terceira Guerra Mundial), significa apenas uma decisão unilateral de cada país, tomada por vontade própria.

Assim sendo, e juntando os nossos quatro leopardozinhos — dos 37 que temos e dos 12 operacionais — ao contingente de 120 já garantidos a Zelensky, o que Portugal está na iminência de consumar, para todos os efeitos legais e políticos, é uma declaração de guerra à Rússia, através do seu envolvimento directo no conflito. E a seguir aos Leopard, irão talvez os F-16, que Zelensky logo tratou de pedir mal obteve os tanques, naquelas suas emissões televisivas matinais onde todos os dias reclama novas armas que, mais tarde ou mais cedo, lhe são dadas. Não sei mesmo se com o entusiástico prosseguimento da guerra, não teremos a seguir de avançar com os nossos submarinos e as fragatas MEKO — na certeza, porém, de que, tal como sucede com os tanques e os F-16, também aí Zelensky terá meia desilusão: sucede que, se as nossas Forças Armadas gostam de ter ao serviço os melhores brinquedos disponíveis no mercado, como em tempos reportava um embaixador americano, rapidamente a maior parte deles são armazenados por falta de peças sobresselentes, falta de interesse superveniente ou falta de respeito pelos contribuintes.

Como quer que seja, declarámos guerra à Rússia. Pelo que, se um dia destes, essa fragata russa que anda aí pelo Mediterrâneo, à passagem por Lisboa, se lembrar de nos saudar com uns quantos mísseis, não fiquem chocados. É uma hipótese altamente improvável, mesmo nas sapientes conjecturas da dupla Rogeiro/Milhazes, mas, em termos de jus belli, não haveria nada de que reclamar. O que eu reclamo é da forma como nos envolveram neste processo, como se fosse a coisa mais banal do mundo.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Em primeiro lugar, foi verdadeiramente surpreendente e humilhante que a primeira fonte que noticiou o envio de tanques portugueses para a Ucrânia fosse o próprio Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, em conferência de imprensa. Fazendo-o sem que a hipótese tivesse ainda sido sequer veiculada aqui e sem que a Alemanha, fabricante dos Leopard, tivesse dado autorização para a sua reexportação para um cenário de guerra, Zelensky mostrou o quanto a sua vontade são ordens para o Governo português.

Em segundo lugar, é extraordinário que uma decisão desta relevância seja decidida sem passar pela Assembleia da República (onde tantas trivialidades são discutidas assanhadamente), pelo Conselho de Estado (tantas vezes convocado para debater o sexo dos anjos), e mesmo sem uma palavra do comandante supremo das Forças Armadas, Marcelo Rebelo de Sousa, a quem nenhum assunto, por mais ridículo que seja, passa sem comentário.

Sem uma explicação pública do primeiro-ministro e nem sequer o habitual abanar de cabeça concordante do ministro figurante dos Negócios Estrangeiros. E, claro, sem qualquer manifestação de interesse em debater o assunto pela opinião pública, mais interessada em debater há 15 dias a invasão do palco do São Luiz por uma transloucada sexual em defesa do monopólio dos papéis teatrais pelas diversas espécies sexuais contemporâneas e futuras.

E, enfim, é para mim espantoso que António Costa, que vive a desculpar-se com a inflação e outros problemas importados por via da guerra — o que é verdade — não peça aos manifestantes que estão na rua, os professores e outros, a todos os portugueses descontentes e em dificuldades, que vão antes manifestar-se em frente às embaixadas dos Estados Unidos, da Rússia, da Ucrânia, da representação permanente da UE, exigindo o fim da guerra e a abertura de negociações de paz. Sei bem que somos um pequeno país cuja voz vale o que vale. Mas se, apesar de pequenos, servimos para enviar tanques e aviões para a guerra, também servimos para perguntar até quando é que teremos de pagar por ela, enquanto vemos os fabricantes de armas a fazerem fortunas, a economia americana a prosperar enquanto a Europa definha e se ajoelha, a Ucrânia a ser destruída paulatinamente, o combate às alterações climáticas a retroceder anos e os ignorante úteis ou fingindo-se de tal a proclamar que não há outro caminho senão continuar a guerra indefinidamente. Ao prestar-se a enviar os Leopard para a Ucrânia — e, logo depois, os F-16 e o mais que Zelensky exigir, até às armas nucleares —, António Costa não pode deixar de estar consciente da contribuição, ainda que relativamente pequena, que Portugal está a dar para a escalada da guerra e a sua continuação sem fim à vista. Assim, é hipócrita queixar-se mais da guerra: podia era meditar no exemplo do seu amigo Lula da Silva, que, solicitado a enviar também tanques para Zelensky, ofereceu-se antes para fazer parte de um grupo para mediar a paz. Mas isso é tudo o que por aqui, na Europa, é proibido sequer pensar: é o novo TINA (There Is No Alternative).

2 Um ano depois da surpreendente maioria absoluta que libertou António Costa da chantagem dos seus parceiros de esquerda e lhe abriu um horizonte de quatro anos de oportunidades e dinheiros do PRR, apesar da guerra, da inflação e da subida abrupta dos juros do BCE, não há melhor síntese para definir este ano do que a frase, dita há dias, pela ministra Mariana Vieira da Silva: “Acabou o tempo das eleições, este é o tempo de governar.” Que seja aquela que é, talvez, o elemento mais lúcido deste Governo a dizer aquilo que todos pensamos é irónico e eloquente do que foi este ano: um ano perdido. A seu favor, o Governo tem os dados económicos positivos da conjuntura; e contra tem, sobretudo, a falência indisfarçável de tudo aquilo que são serviços públicos essenciais para os quais pagamos impostos sem qualquer correspondência com o retorno recebido. Mas, acima de tudo, o que o Governo de António Costa revela é uma desesperante falta de horizonte para o país, de reformar o que está podre à vista de todos, de enfrentar e romper o círculo vicioso das corporações que se apoderaram do Estado e dele fazem a sua coutada e o seu cofre privado. Mas nisso, verdade seja dita, só tivemos um primeiro-ministro que, nos últimos 30 ou mais anos, se atreveu a travar esse combate e a pensar para a frente: é aquele cujo nome não pode ser pronunciado, sob pena de passarmos para a lista de suspeitos sob escuta ordenada pelo juiz Carlos Alexandre.

3 Se a TAP, na sua totalidade, vier a ser vendida pelos €900 mil em que, segundo o Expresso, foi avaliada, isso significa que, apenas contando com a última injecção de capital público, a bravata da sua renacionalização por este Governo terá custado aos contribuintes €2,3 mil milhões — mais uns milhões pagos aos privados para se irem embora, aos trabalhadores para serem despedidos e aos actuais administradores pelo “sucesso” da “recuperação” da companhia. E se, como por aí consta, a TAP acabar nas mãos da Ibéria, esta tratará de canibalizar e pagar-se rapidamente com a próspera exploração das rotas do Brasil (obra do brasileiro Fernando Pinto) e das dos Estados Unidos (obra do brasileiro-americano David Neeleman), mas prestando um serviço bem pior a brasileiros, americanos e portugueses. Além disso, matará o mítico hub de Lisboa, a invocada razão primeira da renacionalização, e que logo será transferido para Madrid e ao serviço do turismo concorrencial de Espanha, inclusivamente levando a questionar outra vez a urgência do sempre adiado novo aeroporto de Lisboa. E, por último, dará aos portugueses aquela que, pela minha experiência pessoal, e, entre as companhias de referência, é a pior companhia aérea do mundo, a seguir à Turkish Airlines. Mas há sempre uma consolação: como me dizia há dias um comissário de bordo da TAP, quando lhe devolvi, intocado, o intragável jantar servido a bordo (e por onde passa também o “sucesso” da “recuperação” da empresa): “Quando a Ibéria tomar conta disto, servimos tapas.” É isso: de TAP passamos a TAPAS — €2,3 mil milhões depois. Não admira que o outro tenha fugido da fita do tempo.

4 O anarcossindicalismo do STOP, que tanto entusiasma as senhoras professoras, desdenha de tribunais arbitrais ou das leis do país, e não se comove com os pais que não têm onde deixar os filhos para irem trabalhar e ganhar o seu salário ou com os filhos pobres que não têm onde comer a sua única refeição decente porque o sindicato dos professores paga aos auxiliares para eles fazerem greve e fecharem as escolas. Temendo ser ultrapassada pela dinâmica deste novo sindicalismo, Catarina Martins, do BE, após reflexão, concluiu que, apesar dos “problemas” levantados por estas formas de greve, o que importa é que as maiorias absolutas (burguesas e parlamentares) “nada podem contra as maiorias sociais, que fazem mover montanhas e tremer o mundo”. Lenine disse o mesmo há mais de 100 anos e praticou-o. Uma vez conquistado o poder em nome das massas, ele fez tremer o mundo. Começou por liquidar — literalmente, fuzilando e massacrando numa orgia de sangue — os burgueses e os parlamentares, os anarcossindicalistas, os sociais-democratas, os socialistas revolucionários e todos os companheiros de caminho até ao partido único, e depois os operários que faziam greve e os camponeses que não entregavam as suas colheitas, para, sobre um cemitério de milhões de mortos, erguer um “mundo novo” a que chamaram URSS. É absolutamente extraordinário que, passados mais de 100 anos, ainda haja quem, por pudor ou por puro oportunismo político, ainda se atreva a desafiar a história.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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Assim, o Brasil não vai dar certo

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 27/01/2023)

Miguel Sousa Tavares

Sai o general Tapioca, entra o general Alcazar; sai o general Alcazar, entra o general Tapioca: por estes dias, ainda nem um mês se completou sobre a posse de Lula da Silva, o Brasil remete-nos para a descrição que Hergé fez de um qualquer país da América do Sul há mais de 50 anos. Poucas semanas depois de ter sido nomeado, o Comandante-Chefe do Exército, general Arruda, foi demitido para dar o lugar ao general Paiva. A separá-los, duas frases que fizeram toda a diferença: enquanto o primeiro classificou como “manifestantes em democracia” os bolsonaristas acampados em frente ao quartel-general de Brasília, de onde partiram para o assalto à Praça dos Três Poderes, em 8 de Janeiro, o segundo declarou simplesmente uma coisa pacífica em qualquer democracia, que havia que respeitar o resultado das urnas. Porém, as coisas estão longe de ser tão pacíficas assim: comentando a troca de comandos, um tenente-coronel comentou nas redes sociais: “Saiu um patriota, entrou um prostituto do ladrão. Agora venham-me punir, mas muitos outros pensam o mesmo que eu.” O “ladrão”, bem entendido, é como os bolsonaristas — metade dos brasileiros — se referem a Lula, e, de facto, calcula-se que pelo menos 70% dos oficiais, em especial os de média patente, pensem o mesmo que aquele oficial, a quem nada aconteceu até à data.

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O Brasil tem as segundas maiores Forças Armadas das Américas, só atrás dos Estados Unidos. São 360 mil efectivos profissionais, mais 1,6 milhões do SMO e cinco mil generais na reserva. Todos os profissionais gozam de um catálogo imenso de privilégios de toda a ordem, a que, no tempo de Bolsonaro, juntaram uns milhares de cargos públicos em acumulação e de que eles agora estão a ser dispensados. Esta imensa força militar não tem, para além da patrulha da imensa fronteira norte contra o tráfico de droga, objectivos que a justifiquem: o Brasil não tem nem inimigos externos nem alianças militares de que faça parte. Mas tem, em contrapartida, uma tradição, ainda recente e traumática, de intervenção militar no Governo do país. Para os militares, toda a esquerda representa uma ameaça comunista e para a maioria dos brasileiros as Forças Armadas são a instituição mais fiável do país: por isso os bolsonaristas acampavam em frente aos quartéis, pedindo aos militares que interviessem para reverter pelas armas a vitória de Lula nas urnas. Este é parte do ambiente político em que Lula é chamado a começar a governar.

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Na semana passada, ele reuniu no Palácio do Planalto um curioso grupo de trabalho: dois ministros, três dirigentes empresariais de peso e os chefes dos três ramos das Forças Armadas. O objectivo era demonstrar que os empresários estavam com a normalização democrática e exigir o mesmo aos militares, designadamente a punição disciplinar dos envolvidos nos acontecimentos de 8 de Janeiro. A resposta dos militares foi um “sim, mas”, que na prática não vai significar coisa alguma. Em contrapartida, levavam no bolso a factura a pagar: um submarino nuclear para a Marinha, novos caças para a Força Aérea e tanques para o Exército. Uns biliões a mais para um Governo que diz ter herdado uma tesouraria arruinada. Cautelosa ou esperançosa, a imprensa brasileira finge que ficou tudo bem. Mas não ficou: basta falar com as pessoas no Brasil para perceber que esta normalidade está colada com cuspo. As divisões permanecem irredutíveis e insanáveis, o benefício da dúvida dado ao novo Governo pelos seus adversários é zero e este parece apostado em dar-lhes razão, cavando ainda mais as divisões e repetindo erros passados.

Longe de começar a tentar serenar os ânimos e reaproximar um país dividido ao meio, Lula usou o discurso de posse e o discurso em cima dos acontecimentos de 8 de Janeiro — ambos escritos — para, em tom revanchista e ainda de campanha, atacar quem já fora vencido nas urnas. Na própria campanha, em que precisava de atrair eleitores do centro, não se poupou a excessos de linguagem, como o de chamar aos herdeiros de uma herança “bando de parasitas que sacam dinheiro enquanto o povo está passando fome”. E esta semana, na sua primeira visita ao estrangeiro, na Argentina, prometeu solidariedade, ajuda financeira e “carinho” a Cuba e Venezuela (enquanto o povo brasileiro está passando fome…). Para garantir a necessária maioria no Congresso recorreu ao inevitável ‘centrão’, formando um Governo com 37 ministros, alguns dos quais com processos pendentes por corrupção e alguns outros que fatalmente acabarão a conspirar contra ele dentro do próprio Governo. Mas também tem aliados, e alguns que não se recomendam. Um deles é o presidente do Supremo Tribunal Federal, Alexandre Moraes, um incendiário à solta. Ultrapassando sem freio os seus poderes constitucionais e qualquer disfarce de isenção, o presidente do STF manda investigar, prender, derrubar bloqueios em estradas e tudo o mais que lhe vem à cabeça, usurpando os poderes do Ministério Público e do próprio Governo e tratando antecipadamente por “terroristas” e “criminosos” aqueles que talvez um dia lhe caiba julgar — afinal, a única função que lhe compete. O outro aliado de Lula que não se recomenda (e esta é uma intuição puramente pessoal) é a sua nova mulher, Rosângela, dita Janja, que ele conheceu quando estava preso em Curitiba. Janja tem quase 40 anos a menos que Lula e, mesmo que tentasse, não conseguiria disfarçar a sua ambição, que vai muito para além de ser a primeira-dama do Brasil. Ela não é a mulher por detrás dele, é já a mulher ao lado dele e palpita-me que logo será a mulher à frente dele. Mas há um ditado popular brasileiro que diz que “o que mata velho é queda, vento frio pelas costas ou mulher quente pela frente”. Agora, na sua segunda visita ao estrangeiro, Lula irá aos Estados Unidos, e aí, sim, está o seu grande seguro de vida contra um golpe militar e talvez alguns conselhos de bom senso que Joe Biden lhe possa dar.

2 Pede Augusto Santos Silva que julguemos os governantes pelos resultados e não pela “roupa suja”. É um pedido compreensível, mas é também insustentável. Se nos rendêssemos a essa lógica, acabaría­mos sem pinga de vergonha própria a votar em quem também não teria pinga de vergonha sua. A razão pela qual não nos devem bastar os resultados, mas também que quem nos governa seja gente de carácter e princípios, é porque, no limite, não podemos aceitar a doutrina do “roubo, mas faço”, imortalizada pelo político brasileiro Ademar de Barros. Se bem que não seja bom exemplo, por via dos resultados, custa a acreditar que Pedro Nuno Santos tenha precisado de um mês para se lembrar de que, afinal, tinha autorizado o pagamento de 500 mil euros a Alexandra Reis: sendo mentira, é grave; sendo verdade, é sintomático de uma forma de governar que revela um desprezo profundo pelos contribuintes — e nada disso tem que ver com “roupa suja”. O mesmo se diga dos sucessivos contorcionismos de João Gomes Cravinho para evitar dizer aquilo que era a única coisa exigível que dissesse: “Sim, eu tomei conhecimento da derrapagem do custo das obras do Hospital Militar e nada fiz para as evitar. E depois ainda fui nomear o seu responsável para presidir a uma empresa pública.” Em vez disso, ditou para a acta esta pérola de malabarismo político: “Em nenhuma circunstância se pode imaginar que, não dizendo nada, estava tacitamente aprovado.” Governar assim é fácil, dar-se ao respeito é que é difícil.

3 Quando não são os políticos a enterrarem-se a si próprios, é a frutuosa associação entre a PJ e o “Correio da Manhã” a fazê-lo. Quando são inocentes ou culpados, apenas suspeitos ou nem isso, é a incontinência populista do Ministério Público a crucificá-los todos por antecipação na praça pública. Depois, as investigações, abertas por vezes sem qualquer razão de ser e anunciadas aos quatro ventos, arrastam-se sem destino útil durante anos, liquidando a honra e a vida profissional dos inocentes e dissolvendo no nevoeiro o nome dos culpados, e, na abertura do ano judicial, a PGR queixa-se protocolarmente da falta de meios para concluir todos os inquéritos que os seus serviços gostam de anunciar para os títulos da imprensa. Ou avançam-se outras desculpas, como a que deu o presidente da Associação Sindical dos Juízes, Manuel Ramos Soares: os processos envolvendo políticos arrastam-se longamente porque eles recorrem a advogados “mais competentes”. Ou seja, tivessem eles advogados incompetentes ou defensores oficiosos nomeados pelo tribunal, e que os defendessem mal, e o Ministério Público, vejam lá, trabalharia melhor e mais depressa.

PS: No meu último texto, referindo as câmaras municipais para as quais Luís Montenegro trabalhou, referi Espinho e Ovar, quando foram, sim, Espinho e Vagos. Pelo erro, peço desculpa à edilidade de Ovar e em especial ao seu presidente, Salvador Malheiro.

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