Montenegro vai ferido de asa

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 20/01/2023)

Miguel Sousa Tavares

Na caça, quando um caçador atira a uma perdiz brava em voo, acontece por vezes que não lhe acerta em cheio, mas apenas na asa, e a perdiz, apesar de ferida, continua a voar. O caçador sabe que ela está condenada, ela não. E por isso o caçador tenta imediatamente acertar-lhe novo tiro, o de misericórdia, mas também o que fará com que ela vá cair a uma distância capaz de ser “cobrada” por ele ou pelo seu cão.

De outro modo, a perdiz continuará a voar, impelida pelo balanço que leva e tirando partido do vento, até finalmente pousar fora de alcance. Então julgar-se-á a salvo, mas não está: se consegue manter o voo só com uma asa e sobreviver no chão, uma perdiz não consegue, porém, levantar voo só com uma asa, e o voo é a sua defesa. Ferida de asa, no solo, a perdiz, como dizem os caçadores, “fica para a raposa”. Para a raposa, para o saca-rabos, para o javali, para o lince, para a águia, para qualquer predador.

Não será exactamente assim na política, mas eu lembrei-me exactamente disto quando vi Luís Montenegro em claro desassossego para conseguir explicar a Bernardo Ferrão, na SIC, os seus negócios de advogado com as Câmaras de Espinho e Vagos. Quanto mais ele se abespinhava e exaltava, declarando não admitir a ninguém dúvidas sobre a sua conduta, mais eu via ali um voo de perdiz atingida por um tiro na asa. Porque aqui não há qualquer dúvida quanto aos factos, incontestados pelo próprio: durante os anos em que esteve afastado da política, o escritório de advogados de que o agora presidente do PSD detinha 50% de quota celebrou vários contratos de prestação de serviços jurídicos com as câmaras, à frente das quais estavam amigos, conterrâneos e correligionários de partido seus. O escritório facturou com isto mais de 400 mil euros e, uma vez regressado Montenegro à política como presidente do partido, fez do presidente da Câmara de Vagos membro da direcção do partido e do da Câmara de Espinho, que entretanto perdera a reeleição, vice-presidente da sua bancada parlamentar e presidente da comissão parlamentar de revisão constitucional. Tudo isto é absolutamente legal e juridicamente inatacável. Porém…

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Porém, como Luís Montenegro facilmente percebe e sabe que nós percebemos, a questão está em saber se ele e o seu escritório de advogados foram contratados por aquelas duas câmaras municipais por à frente de ambas estarem dois amigos e colegas de partido. Para quem, como eu, vê como um dos maiores perigos nas constantes tentativas de regionalizar o país o compadrio entre amigos e correligionários políticos que fatalmente se instalaria na distribuição de cargos, subsídios e dinheiros públicos, esta questão é tudo menos menor. Ora, para melhor se defender, Montenegro realçou que apenas tinha celebrado contrato com aquelas duas câmaras. Justamente: eis o que agrava a suspeita, em vez de a afastar. Fosse ele ou o seu escritório tidos como especialistas em acompanhamento jurídico de matérias do âmbito municipal, e o normal seria que outras câmaras e de outras filiações políticas recorressem aos seus serviços, e não apenas aquelas duas onde reinavam amigos e colegas de partido dele. E, vendo a questão pelo outro lado, uma consulta ao portal da Ordem dos Advogados revela-nos que há inscritos em Espinho 57 advogados e 67 em Ovar, e, mesmo não contando com as centenas que estão no Porto, ali mesmo ao lado, há uma profusão deles nas comarcas vizinhas de Espinho e Ovar: 177 em Aveiro, 74 em Oliveira de Azeméis, 60 em Paços de Ferreira, 78 em S. João da Madeira, 208 em Santa Maria da Feira. Como é que todos os contratos de Espinho durante vários anos foram sempre parar às mãos dos mesmos? E resta ainda uma outra questão, que também está longe de ser menor: como é sabido, a gestão do anterior presidente da Câmara de Espinho, Joaquim Pinto Moreira, que contratou durante anos os serviços do escritório de Luís Montenegro, está sob investigação criminal. Até agora ele não foi ainda declarado suspeito de nada nem constituído arguido, apenas alvo de buscas e apreensão do computador e telemóvel: o suficiente para ter de renunciar aos cargos que exercia na bancada parlamentar do PSD. Mas antes mesmo de as coisas avançarem mais um passo que seja, Luís Montenegro, na qualidade de ex-advogado da Câmara Municipal de Espinho nesse período, já deveria ter esclarecido que não teve conhecimento de nenhum acto ilícito da vereação e, menos ainda, deu aconselhamento ou cobertura jurídica ao mesmo.

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Devo dizer que sempre tive Luís Montenegro em grande consideração. Julgo que foi um bom líder parlamentar do PSD e não me esqueci nunca quando Ferro Rodrigues, acabado de ser eleito presidente da Assembleia da República pela maioria de esquerda e contra a tradição de sempre de o cargo pertencer ao partido mais votado, fez um lastimável discurso de posse, revanchista e ressabiado. Montenegro pediu a palavra e tranquilamente explicou-lhe como é que ele tinha acabado de perder uma primeira e única oportunidade de se estrear com grandeza. Depois disso, também o vi afastar-se tranquilamente quando o PSD entendeu não ser a sua hora e ele foi à sua vida. Mas os factos são o que são: não sabia que a sua vida tinha passado por aquilo. E aquilo foi um tiro na asa.

2 A entrevista que a presidente da Comissão Técnica Independente para o Novo Aeroporto de Lisboa (NAEL), Rosário Partidário, deu esta semana ao “Público” é de deixar um português batido nestas coisas de cabelos em pé. A comissão, saída de uma resolução do Conselho de Ministros de 14 de Outubro passado, “já está a trabalhar” para apresentar até 31 de Dezembro um relatório final que indique ao Governo a localização do futuro aeroporto. Nesta fase, “temos cerca de 20 entidades com quem nos estamos a reunir agora para saber as perspectivas, as preocupações”. E depois, acrescenta ela, vão haver “vários momentos de interacção”, como “sessões com plataformas cívicas, associações de moradores… vários grupos desses”, pois que, confessa a presidente, a parte de que mais gosta do cronograma de trabalho elaborado é “diálogos, participação e envolvimento”. Ou, traduzido para português laboral, reunite aguda, intensa e inútil. Mas porque a discussão se quer o mais abrangente possível e “porque não se quer deixar ninguém de fora” nem nenhum devaneio por contemplar, a comissão não vai limitar a escolha final às cinco alternativas indicadas pelo Conselho de Ministros, mas sim alargá-la às sugestões de qualquer um, qualquer português que algum dia se descobriu capaz de decidir onde deveria ser o futuro aeroporto de Lisboa. “Vamos ter” — anunciou ela — “um mapa interactivo onde as pessoas vão poder pôr lá o aviãozinho no local que consideram ser adequado para o aeroporto e vamos acolher todas as propostas que recebermos. Não quero que ninguém fique insatisfeito”.

Eis um original método de adjudicação de obras públicas. O futuro aeroporto de Lisboa poderá ser em qualquer lugar de Portugal e ser decidido em assembleia-geral de todos os portugueses que se inscrevam para tal. Não admira que com tantas boas intenções e frutuosas reuniões no horizonte a senhora confesse que, quanto a prazos, “espera não ser controlada ao minuto, até porque ainda não consegui pôr equipas a trabalhar”. Mas, pelo sim pelo não, vai já pedir ao Governo uma prorrogação preventiva do prazo final de 31 de Dezembro, fixado apenas em Outubro passado. Presumindo que o que ela chama de “equipas” sejam os peritos que percebem do assunto e em quem temos de confiar para uma boa solução final, é estarrecedor pensar que há mais pressa em activar os curiosos que irão pôr aviõezinhos no mapa do que os que supostamente irão pôr o aeroporto no chão. Mas isto é Portugal no seu habitual.

3 Quando o ministro da Educação resolve perguntar à Procuradoria-Geral da República se esta engenhosa greve dos professores é legal — o que, além de um direito que lhe assiste, é um dever para quem governa num Estado de direito —, o líder do S.T.O.P. ameaça que, se o ministro for avante com a sua “chantagem”, convocará outros sectores para greves iguais. Mas, com a honrosa excepção do director do “Público”, Manuel Carvalho, que lhe chamou uma “greve cobarde”, tenho visto como toda a gente, todo o espectro político e a sociedade civil, se curva no temor reverencial de criticar os métodos jamais vistos desta forma de “luta”. Para uns, são 120 mil votos, para outros, são os filhos e os netos na escola.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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Que gente é esta?

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 13/01/2023)

Miguel Sousa Tavares

Pode-se, de facto, instituir um sistema de vetting que preceda a nomeação para cargos políticos e altos cargos dirigentes da Administração a cargo da Assembleia da República ou de um qualquer organismo a criar para o efeito. Podem os partidos, como sugeriu Miguel Poiares Maduro, criar eles próprios comissões de ética que procedam ao escrutínio antes de escolherem os seus nomeados. Pode e deve um primeiro-ministro impor a si mesmo e aos membros do seu Governo a exigência de recolherem previamente toda a informação possível sobre quem querem nomear e exigirem destes uma declaração de honra de que não têm telhados de vidro que possam vir a desabar sobre o edifício comum do Governo e da democracia. Tudo isso pode ser feito, mas nada disso vai à raiz do mal. Porque o mal, como bem vimos da experiência traumática das últimas semanas, reside em duas questões prévias: a diferente percepção por parte de quem nomeia e por parte da opinião pública daquilo que é ou não é admissível e a falta de consciência, ou de simples vergonha, da parte de quem é nomeado sobre a sua incapacidade pessoal para desempenhar o cargo.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

A primeira questão tornou-se para mim evidente quando ouvi António Costa, no papel de advogado de defesa da rapidíssima secretária de Estado da Agricultura, Carla Alves, defender o indefensável: que não podia excluir alguém só porque o marido tinha às costas um processo-crime por corrupção e contas conjuntas com ela, cujo dinheiro seria apenas dele, mas onde estavam 700 mil euros inexplicáveis face aos rendimentos declarados do casal. António Costa não sabe o que é uma conta conjunta? E nunca ouviu aquela de “casam-se para a saúde e a doença, a riqueza e a pobreza”? E a sua ministra da Agricultura, responsável pela escolha, quem julgou ela que tomava por idiotas quando, perguntada se sabia a situação da sua secretária de Estado, respondeu por comunicado que sabia apenas que ela não tinha problemas com a justiça? Já a senhora tinha regressado a Vinhais, esfumadas as suas 26 horas de fama na capital, e ainda perdurava o meu espanto pela humilhação que alguém com a enorme experiência política de António Costa se tinha auto-inflingido por ter recusado ver o que entrava pelos olhos adentro de quem quer que tivesse lido o “Correio da Manhã” nesse dia. E de Miguel Alves, que escolheu para ser seu secretário de Estado Adjunto e coordenador político do Governo, também desconhecia as suas aventuras autárquicas com um vigarista encartado a quem adiantara 300 mil euros para um pavilhão inexistente? Afinal de contas, para que serve o aparelho local do PS? Para avisar a capital de que tenha cuidado ao escolher os locais ou para empurrar os locais para a capital e abrir outras vagas locais?

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A segunda questão, porém, não é da responsabilidade do Governo, deste ou de qualquer outro. Não é culpa directa de quem escolhe, mas de quem é escolhido. Por mais que os governantes tomem consciência daquilo que é insuportável aos olhos das pessoas de boa-fé e por mais que acautelem os seus critérios de escolha, estão sempre à mercê de serem enganados. No limite, na hora da escolha, um candidato até pode ter um registo imaculadamente limpo — criminal, fiscal, ético — e, depois de estar em funções, o passado oculto, esse ladrão, vir assaltá-lo nas páginas de um jornal, numa denúncia anónima ou numa esquecida zanga de compadres ou comadres. Não que ele não o soubesse, mas julgava-o sepultado para sempre, com pedras, cal e terra, ao abrigo de ressurreições.

Por isso, no princípio e no fim de tudo, está a consciência de cada um dos escolhidos. A sua noção de serviço público e o seu sentido de missão, que implica que, ao aceitar determinado cargo, não apenas tem de ter um passado, um presente e um futuro próximo imaculadamente à prova de bala, como também estar disposto a abdicar por completo de qualquer interesse pes­soal em benefício do interesse público.

Concedo sem esforço que é bem mais fácil exigir isto do que estar disposto a dar isto. Como várias vezes já escrevi, governar Portugal deve ser dos piores empregos que aqui se podem ter. No entanto, por boas ou más razões, há quem não se importe e até quem goste: e ainda bem, porque é preciso que haja quem nos governe. Mas o preço a pagar é este e todos deviam saber ao que vão. Casos como o da ex-secretária de Estado do Turismo, que 45 dias depois de sair do Governo vai, em flagrante violação da lei, mas desdenhando de uma sanção meramente simbólica, trabalhar para uma empresa a quem concedeu um estatuto de privilégio legal, subsídios e isenções fiscais, são casos praticamente invencíveis. A menos que se substitua a sanção de inibição de desempenho de cargos públicos pela de três anos de prisão efectiva, não há nada a fazer contra quem demonstra uma absoluta falta de respeito pela lei e pelos cidadãos que ainda há poucas semanas era suposta servir e, sobretudo, uma absoluta falta de respeito por si própria. Espanta-me, primeiro, que, nos tempos de hoje, esta gente ache que pode passar sem ser descoberta e posta a nu, e, depois, que não se importe de andar nua, perante a família, os amigos, os vizinhos, os outros. Mas esta gente existe e causa sérios danos, muitos mais do que a si mesma.

2 Vem aí, então, uma mais do que necessária comissão parlamentar de inquérito à TAP. Provavelmente uma oportunidade para determinada facção do PS apertar Pedro Nuno Santos e/ou preparar a despedida da CEO da TAP. Mesmo que seja o caso, pela parte que me toca, a de contribuinte, não tenho objecções a nenhuma das intenções ocultas. Como quer que seja, trata-se de uma oportunidade imperdível para fazer algumas perguntas que permanecem por fazer ou por responder. Adianto algumas: 1) quanto custou a indemnização por despedimento aos antigos administradores da gestão privada? 2) Porque resolveu a actual administração mudar a sede para o Parque das Nações? Comprou um edifício ou alugou-o? Num ou noutro caso, por quanto? 3) Que ­aviões foram comprados desde a renacionalização? Por quanto? Que comissões se pagaram e a quem? 4) Quanto gastava a TAP com os vencimentos dos directores antes da renacionalização e quanto gasta agora com os actuais? 5) A mesma pergunta em relação aos administradores. 6) O actual subsídio de 450 euros mensais pagos aos 78 directores para utilizarem ubers acumula com a disponibilidade dos antigos carros de serviço que não foram trocados? E é para durar até quando? 7) Quais as razões inultrapassáveis que determinaram o despedimento de Alexandra Reis? 8) Quem tomou a iniciativa dele? 9) Por que razão recorreu a administração a outsourcing jurídico para negociar o despedimento de Alexandra Reis quando dispõe de um departamento jurídico próprio? 10) Quem indicou para tal o gabinete de advogados Rebelo de Sousa e Associados e quanto custou o serviço? 11) Por que razão determinaram que o acordo de rescisão deveria permanecer confidencial? 12) Porque mentiram no comunicado sobre a rescisão? 13) A quem, fora da TAP, foi dado conhecimento sobre o acordo de rescisão e a indemnização a pagar? 14) Consultaram antes a tutela? O secretário de Estado, o ministro, ambos? 15) Porque escolheram para substituir a ante­rior chefe do departamento jurídico, e mulher do ministro das Finanças, a mulher ou namorada do ex-secretário de Estado socialista e advogado da Morais Leitão e Associados Tiago Silveira? Quem lhes indicou o nome? Não lhes ocorreu que eram demasiadas coincidências socialistas? 16) Em que estado real estão as conversações formais, se é que existem, para a venda da TAP? Com quem decorrem, se é que decorrem? 17) Que condições estão à partida em cima da mesa para a venda da TAP: quanto é que é para ser vendido, por quanto e quando? 18) Como vai a administração actuar para conseguir desbloquear a greve dos tripulantes de cabina convocada para entre 25 e 31 de janeiro?

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Bonita, ingénua, bem-intencionada: a Europa

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 16/12/2022)

Miguel Sousa Tavares

Eva Kaili não é apenas uma mulher bonita, é linda. Linda, nova, prestigiada, com um emprego de luxo e uma vida magnífica a fazer aquilo que gosta: a participar directamente na definição das políticas europeias como deputada e vice-presidente do Parlamento Europeu durante os últimos oito anos. É difícil de perceber e, menos ainda, de aceitar o que mais poderia ainda esta grega desejar para si ao ponto de agora estar fechada numa cela de uma prisão belga acusada do mais indigno dos crimes que podem recair sobre alguém que faz política em representação dos cidadãos: ter-se deixado subornar para sustentar no Parlamento Europeu opiniões contrárias a todo o seu historial político e, a troco de um montão de dinheiro a perder de vista, acabar a defender a política de direitos humanos e laborais do Catar. Vem-me à memória uma reportagem que fiz na Grécia, quando Portugal entrou na então CEE, com um dono de uma exploração agrícola, que me explicava que era costume estenderem grandes superfícies de redes verdes nos campos para que os satélites de observação pensassem que eram plantações e Bruxelas lhes pagasse os subsídios acordados, ou as 140 profissões de “desgaste rápido” que permitiam aos gregos reformarem-se com a pensão por inteiro ao fim de 25 anos de trabalho, ou o recurso aos especialistas do Goldman Sachs para os ensinarem a martelar as contas públicas antes de entrarem em inevitável default, ou algumas outras experiências desagradáveis de simples honestidade de tratamento lá vividas, e pergunto-me se haverá alguma coisa de errado com os gregos e o dinheiro. Mas sei que é injusto e perigoso generalizar e que o mais justo e mais seguro é tomar o caso de Eva Kaili e dos seus asso­ciados (incluindo o namorado italiano) por aquilo que é à vista: mais um caso da aparentemente insaciável cobiça de alguns humanos por cada vez mais dinheiro. O síndroma Tio Patinhas, que aprendemos na infância sob a forma de brincadeira e não de coisa séria.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Como quer que seja, este é um caso-limite que, pelos seus contornos e natureza, atinge profundamente um país, uma instituição fundamental da UE e toda a classe política que os inimigos da democracia tanto prazer têm em destruir. Muitos colegas de Eva Kaili, sobretudo do seu grupo parlamentar socialista, declararam-se a posteriori espantados com a veemência da defesa do Catar que ela levou ao PE, de forma espontânea e inesperada. De facto, mesmo paga para tal, é surpreendente que um deputado europeu se tenha permitido argumentar contra factos públicos e notórios e, para alguém cuja área de trabalho são os direitos humanos, fazer tábua rasa de tudo aquilo que se sabe sobre os infelizes que puseram de pé, ao preço das suas vidas, o Mundial do Catar. Pelo que a dúvida tem toda a razão de ser: como é que ela se atreveu a tal?

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Atreveu-se por duas razões: a primeira porque, com o Mundial a decorrer e milhões no mundo inteiro concentrados nos destinos dos jogos, a hora era de esquecer o resto, como disse o nosso Presidente. E a segunda porque, como o próprio PE estabeleceu há duas semanas, de momento, para a Europa, só há um Estado no mundo à margem da lei e da decência: a Rússia, o primeiro e único país até hoje declarado “patrocinador do terrorismo”. Pelo que Eva Kaili concluiu que tudo o resto podia ser branqueado porque também aqui as atenções estavam todas concentradas noutro lado. Ainda esta semana o nosso eurodeputado Paulo Rangel assinou, a meias com um colega lituano, um artigo a justificar aquela resolução do PE, tomando como justificação primeira os 8400 mortos civis já causados pela guerra na Ucrânia (como se fossem todos causados pelo lado russo e não por ambos os lados…), num texto que, aliás, é uma grosseira manipulação de números, de conceitos e de conclusões. Mas todos os dias há textos semelhantes na imprensa europeia escritos por eurodeputados ou por uma imensa legião de alinhados acríticos com as posições da NATO, de tal forma que é de perguntar se tamanho Blitz opinativo não esconde o medo de que as pessoas comecem a pensar pela própria cabeça. Entre nós, várias vozes chegaram mesmo ao delírio de tentar passar a ideia de que Putin é igual a Estaline e que os bombardeamentos russos às centrais eléctricas ucranianas são o novo Holodomor — a Grande Fome, de 1932/33, quando Estaline, em represália pela resistência dos camponeses ucrania­nos à colectivização das terras, lhes confiscou todos os cereais, condenando 7 a 10 milhões a morrerem de fome. Deliberadamente, confunde-se o que é uma guerra em si mesma ilegítima com os actos inevitáveis decorrentes dessa ou de qualquer outra guerra, como os ataques a instalações civis, que neste caso passam a ser todos “crimes de guerra” e “terrorismo”.

E como todos os olhares, todas as atenções e todos os esforços estão concentrados em fazer frente ao único patrocinador do “terrorismo”, que é a Rússia, presume-se, ao menos por um interregno, que o resto do mundo é um oásis de paz e de respeito pelos direitos humanos. Para o qual a Europa olha com o seu olhar complacente, ingénuo e bem-intencionado. Porém, lá longe, o louco da Coreia voltou aos seus ensaios de mísseis de longo alcance, mas agora nem há um louco americano que o ache suficientemente simpático para falar com ele e Biden está demasiado preocupado com Putin e Xi para prestar atenção a Kim. No Irão, o acordo que estava iminente para travar a bomba nuclear congelou e o enriquecimento do urânio prossegue a bom ritmo. Aliás, tanto com a Coreia como com o Irão a participação da Rússia nas negociações de desarmamento era crucial, mas, embora isso suceda por vezes nas séries de espionagem, neste caso pedir a um “terrorista” que ajude a negociar com outros terroristas está fora de questão. E, contudo, tanto no Irão como no Afeganistão, devolvido aos talibãs por falta de interesse estratégico, o Ocidente assiste, mudo e quieto, ao maior retrocesso civilizacional em matéria de direitos humanos desde que Genghis Khan invadiu a Europa. O nosso aliado saudita prossegue no Iémen uma guerra escondida dos olhares televisivos onde diariamente morrem 10 vezes mais civis do que na Ucrânia, mas o príncipe regente que mandou cortar o americano às postas na Embaixada de Ancara viu Biden ir visitá-lo para lhe beijar a mão e pedir petróleo que não fosse “terrorista”, e agora, que mediou a libertação da basquetebolista americana das garras dos “terroristas” russos, está definitivamente limpo. O aliado israelita está transformado num Estado racista declarado, onde o apartheid é doutrina oficial do Governo e jurisprudência dos tribunais e todos os dias invade e expropria mais um pedaço de um país alheio: a Palestina. Mas os Estados Unidos consentem e a Europa cala. E, enfim, temos o caso verdadeiramente bicudo do aliado turco, membro da NATO, e que não é parceiro europeu porque a Europa lhe bateu com a porta na cara há uns anos. Até ver, a Turquia é, juntamente com os Estados Unidos, um dos únicos ganhadores desta guerra. Havia uma grande oportunidade a passar em frente da porta e Erdogan não a desperdiçou. E para a história (para quem a sabe) ficará o feito notável do Ocidente, e sobretudo da Europa, de conseguir empurrar a Rússia para os braços da Turquia, e vice-versa.

Para já, o que preocupa Bruxelas é que Erdogan está a dar a Putin a possibilidade de furar o isolamento comercial a que as sanções pretendiam condenar a Rússia. Mas, para além de uma via alternativa para o escoamento da energia e dos cereais russos, a Turquia, aliada da Rússia, dar-lhe-á o controlo do mar Negro e da saída através do Bósforo para o Mediterrâneo Oriental, no flanco sul da NATO e numa zona estratégica da Europa. Porém, a desforra de Erdogan vai mais longe: para não vetar a adesão da Suécia e da Finlândia à NATO, ele exige a humilhação destes dois países (apoiada por Stoltenberg) e carta branca para, invadindo países vizinhos, dizimar os curdos — que foram os aliados decisivos do Ocidente para derrotar no terreno os verdadeiros terroristas do Daesh. E, cego pela sua nova ambição imperial, cresce agora sobre a Grécia, ameaçando tomar as ilhas do Egeu e atingir Atenas com os seus novos brinquedos de morte. Explicitamente.

Eis onde estamos. Eis onde chegou a Europa. A obsessão de ver tudo a preto e branco fez esquecer a geopolítica, fechou a porta à diplomacia, confundiu infiltrados com aliados e facilitou nos valores apregoados em benefício da narrativa que se quis impor às opiniões públicas. No fim, a Europa irá descobrir que ficou sozinha num continente em desagregação e num mundo sem eixos de referência nem pontes entre realidades diversas e interesses diferentes, onde triunfará a lei dos mais fortes. E não será a nossa.

2 Não sei se foi impressão minha ou se foi mesmo assim que as coisas aconteceram. Mas assisti, primeiro no Algarve e depois em Lisboa, à forma como o IPMA e a protecção civil (um deles ou ambos) falharam absolutamente em avisar as populações para os dilúvios que se iam abater sobre elas. No Algarve, a justificação foi de que o radar estava fora de uso por falta de uma peça; em Lisboa foi qualquer coisa relacionada com uma “tempestade perfeita” e imprevisível. E vi como, nos dias seguintes em Lisboa, a protecção civil compensou recorrendo a constantes avisos laranjas e vermelhos de cada vez que ia chover, criando um constante clima de histeria, a culminar com uma cidade sitiada na manhã de terça-feira. É o seu padrão habitual: alarmar sem motivo e estar a dormir quando devia dar o alerta. Já tínhamos visto semelhante nos incêndios de Pedrógão Grande, em 2017, onde morreram 66 pessoas e todos os responsáveis foram absolvidos em tribunal porque a culpa era do “sistema” e da “trovoada seca” e de ninguém em particular. Nunca teremos emenda enquanto não exigirmos responsabilidades a sério a quem as tem. Porque, mesmo nas raras ocasiões em que rolam cabeças, elas limitam-se a mudar de sítio, levando a sua intocável impunidade para outro lado.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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