Ensaios sobre a lucidez

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 09/12/2022)

Miguel Sousa Tavares

Comecemos pelas casas de banho e balneários nas escolas públicas, um tema pertinente e candente que interessa aos alunos que se declaram de sexo indeterminado ou contrário àquele que aparentam ter (peço desculpa por eventual imprecisão, mas isto é de compreensão difícil para leigos). Houve um primeiro despacho do Governo a regulamentar o assunto, em 2019, mas o Tribunal Constitucional declarou-o inconstitucional por ser matéria reservada da AR, sendo então retomado por projectos de lei do PS e do BE. E esses projectos foram agora a parecer do Conselho Nacional de Ética e Ciências da Vida, cujos conselheiros se dividiram: alguns propõem que às casas de banho e balneários já existentes, para rapazes e raparigas, se acrescentem novas construções para sexos indeterminados; outros, mais simplesmente, propõem que as casas de banho já existentes passem a ser “neutras”, servindo todos os sexos — existentes, declarados e a existir ou a declarar no futuro. Sobre isto e as soluções propostas tenho várias dúvidas substanciais e uma terminal.

 <span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

São dúvidas substanciais as seguintes:

— uma casa de banho é um lugar onde se satisfazem necessidades fisio­lógicas ou é um lugar onde se afirma a identidade sexual perante o mundo?

— se, como pretende o segundo grupo de conselheiros, todas as casas de banho e balneários devem passar a ser de regime livre, como se assegura o apregoado direito à intimidade, por exemplo, de raparigas assumidas como tal que veem entrar nas suas instalações um rapaz que ali vai satisfazer as suas necessidades a pretexto de que se sente rapariga? E quem garante que está a ser genuíno?

— mas se, pelo contrário, se optar pela solução alternativa de cons­truir um terceiro género de instalações para o terceiro género de orientações se­xuais, calcularam os conselheiros defensores desta solução quanto custaria ao país — em grosso e por aluno interessado — proceder a esse acrescento nos milhares de escolas públicas?

— e, já agora e por força do princípio da igualdade, por que razão se há-de limitar este revolucionário direito a jovens quase todos menores de idade? Não deveria ele ser estendido a todos os portugueses e, por maioria de razão, a adultos com a sexualidade mais bem definida, em todos os edifícios públicos e privados do país?

Quanto à dúvida terminal, é muito simples:

— este importantíssimo passo, a que poderemos com justiça chamar a “Revolução das Casas de Banho”, é mesmo essencial para melhorar a qualidade da democracia e da vida em sociedade? Não seria mais digno darmos casas de banho decentes aos trabalhadores imigrantes da agricultura alentejana?

2 A mando do Chega, prepara-se uma revisão constitucional que temo seja pretexto para infestar a Constituição com mais um elenco de direitos e garantias que mais parecem saídos de um programa de Governo ou de uma aula de catequese do que de um texto fundamental. Quando foi feita, em 1976, os constituintes gabaram-se de ter parido a segunda maior Constituição do mundo, só atrás da da então Jugoslávia, ignorando que a História tinha já ensinado que quanto mais pequena é uma Constituição mais fiável, duradoura e respeitada se torna. Agora, entre outros acrescentos e “aperfeiçoa­mentos” ditados pelas modas do tempo, pretende-se criminalizar constitucionalmente os maus-tratos e abandono de animais. Mas uma Constituição não é um Código Penal, e mesmo um Código Penal não consegue reprimir aquilo que tem que ver com má-educação, maus instintos e má natureza. E, como disse alguém cujo nome infelizmente não retive, como se pode pretender criminalizar o abandono de animais e não o fazer para aqueles que abandonam seres humanos, os seus pais ou avós, em hospitais, lares ou sozinhos em casa? Se eu pudesse, acrescentaria apenas um artigo novo à Constituição: “São proibidas todas as formas de demagogia.”

3 A poucos dias de mais uma tentativa de votar uma lei da eutanásia que há nove anos se arrasta num exaustivo processo legislativo no Parlamento (e tudo menos precipitado, como disse Cavaco Silva), Luís Montenegro veio, a destempo, propor um referendo. É lícito que ele tenha — como eu tenho e tantos têm — dúvidas, porventura insolúveis, sobre a eutanásia. Mas para aqueles que ainda mais licitamente a reclamam para si mesmos não vejo que “outras alternativas” de que ele fala pudessem ser consideradas através de um referendo ou de mais um adiamento.

4 Para um jornal como o “Público”, que, desde o início da guerra na Ucrânia, subscreveu abertamente as posições e a informação da NATO e do Ocidente no conflito, é de saudar a entrevista feita ao historiador russo Yuri Slezkine. Embora Slezkine seja um historiador da nova geração, crítico de Putin e do regime e de há muito a viver nos Estados Unidos, como professor em Berkeley, o seu olhar sobre o conflito não deixa de reflectir uma outra visão das coisas — que a informação dos media ocidentais tem sido comodamente avessa a escutar. Sobretudo quando ele procura na História parte das razões do conflito — mais uma aversão dos comentadores pró-NATO, que acham que a História começou a 24 de Fevereiro: “Como historiador, não consigo imaginar nenhum governante russo, nenhum czar, nenhum secretário-geral do partido comunista a dizer que se a Ucrânia se quer juntar a uma aliança militar hostil está no seu direito… Se a NATO está a aproximar-se e a tornar-se mais hostil, o que faria se estivesse no Kremlin?” Slezkine recorda, aliás, como a Rússia pós-soviética tentou várias vezes aproximar-se do Ocidente — inclusivamente, pedindo a adesão à NATO — e foi sempre repudiada.

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Agora, que o Parlamento Europeu declarou a Rússia como um “Estado patrocinador do terrorismo” — uma figura inexistente no direito público internacional — e se fala na criação de um tribunal ad hoc para julgar retroactivamente os crimes de guerra russos na Ucrânia, as subsequentes declarações de Ursula von der Leyen parecem trazer alguma luz ao objectivo pretendido: condenar a Rússia ao pagamento de uma indemnização de guerra, destinada a financiar a reconstrução da Ucrânia e o custo de todo o armamento que lhe foi sendo fornecido para manter a guerra. Custo estimado: 300 mil milhões de euros — equivalente ao montante das reservas russas, públicas e privadas, congeladas em bancos ocidentais. A arquitectura jurídica que teria de ser montada para pôr de pé esta operação não tem precedente algum no direito internacional, nem sequer nos Acordos de Versalhes ou de Nuremberga, subverteria de futuro todo o comércio mundial e as próprias relações entre Estados e, obviamente, equivaleria a uma declaração de guerra formal à Rússia, com consequências permanentes para a paz no mundo e, em especial, na Europa.

É suicidário que seja a própria Europa a escolher este caminho e a recusar qualquer via negocial para o fim da guerra. E é incompreen­sível que o faça no momento em que os Estados Unidos dão sinais crescentes de estarem fartos desta guerra e cada vez mais virados para o Oriente, ao mesmo tempo que a uma Europa que já está a pagar, na energia e nos alimentos, o grosso da factura de guerra se preparam para lhe acrescentar o custo de uma guerra comercial “aliada”, desencadeada pela nova Lei de Redução da Inflação, autêntica machadada nas exportações europeias para os EUA. Já houve tempos em que o secretário de Estado Kissinger, para se justificar de maltratar a Europa, dizia que não sabia o número de telefone da Europa, querendo significar que não sabia quem respondia pela Europa. Esses tempos parecem repetir-se agora, mas com uma diferença: já há um número de telefone na Europa — é o do secretário-geral da NATO.

A “ressuscitada” NATO, tão saudada pelos europeus, que deveria ser o braço armado da política externa consensual do Ocidente, é hoje, pela mão do seu secretário-geral, apenas o braço armado da política externa americana — da Ucrânia até à China. Mas Stoltenberg é também, e se repararem, o ministro dos Estrangeiros da Europa. É ele quem viaja pelas várias capitais europeias, quem está presente em todos os fóruns, quem fala antes e acima de todos os dirigentes europeus não sobre a disposição de forças ou sequer sobre a política de defesa europeia mas sobre a política externa europeia — da Ucrânia até à China. Agora, quando os americanos querem falar com a Europa, falar pela Europa ou dar ordens à Europa, telefonam a Jens Stoltenberg.

5 Desde que a selecção de futebol chegou ao Catar, Cristiano Ronaldo fez tudo para chamar sobre si o exclusivo das atenções, e os jornalistas portugueses presentes fizeram-lhe a vontade, massacrando-nos diariamente com as novelas à volta do CR7 como se nada mais existisse de importante do que ele e os seus estados de espírito. E mesmo depois de três jogos de absoluta desilusão e de uma manifestação de mal-educada insubordinação contra o treinador, não ouvi nem li, entre as dezenas de jornalistas e comentadores de futebol que pululam por todos os lados — desde o mais insignificante estagiário até aos mais encartados, como Marcelo Rebelo de Sousa —, um só que se tenha atrevido a defender a sua saída da equipa. Porém, atreveu-se, enfim, o treinador. E, como já se tinha visto no ensaio geral contra a Nigéria, a equipa joga infinitamente melhor sem ele, liberta da escravidão de ter de servir os seus interesses pessoais, os seus recordes, o seu egoísmo, o seu ego. É, de facto, uma tristeza ver terminar assim uma carreira verdadeiramente notável, mas não se pode ajudar eternamente quem não quer e tudo faz para não merecer ser ajudado.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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Um impasse chamado Portugal. E o Mundial

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 02/12/2022)

Miguel Sousa Tavares

A propósito da notícia de que a Roménia nos ultrapassará no PIB nacional em 2024, fui “revisitar”, como agora se diz, a entrevista que fiz a António Costa em Setembro do ano passado, um dos meus últimos trabalhos televisivos. Aí, perguntava-lhe justamente como era possível que a Roménia — um país que eu conhecera umas décadas antes como quase medieval —, que entrara para a UE apenas 14 anos antes, e 20 anos depois de nós, estivesse à beira de nos ultrapassar, em termos de riqueza produzida. António Costa respondeu que quando tínhamos entrado na UE o nosso PIB era 53% da média europeia e agora é 73%: tínhamos convergido, portanto. Contrapus que isso era um facto, sustentado em 160.000 milhões de euros, recebidos da Europa desde 86, mas que a questão é que os outros, vindos de trás e depois de nós, tinham convergido mais e mais depressa (a Roménia cresceu cinco vezes mais neste século). António Costa, que nunca deixa de ter resposta pronta para tudo, disse que a diferença é que quando nós aderimos 72% dos portugueses tinham apenas o ensino básico, enquanto que nos países do Leste que entraram depois 70% tinham qualificações superiores a isso. Bom, mas a verdade é que quando eles entraram as qualificações dos portugueses já não eram as de 1986, mas sim iguais, pelo menos, às dos novos membros, fruto de investimentos brutais na “paixão” da educação — e isso não impediu que nós e a Grécia ficássemos a marcar passo onde estávamos, enquanto que os outros aproveitavam a oportunidade para dar o grande salto em frente.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Essa é a grande questão. Enquanto os fundos europeus nos permitiram fazer obra pública em infraestruturas que estavam por realizar — umas necessárias, outras inúteis ou sumptuárias —, enquanto o investimento público foi a alavanca do desenvolvimento, Portugal cresceu. Mas a partir da viragem do século foi como se tivesse batido contra uma parede. Podemos discutir indefinidamente se o mal foi a adesão ao euro ou se, mais genericamente, foi a entrada numa economia mais competitiva e menos protegida pelo Estado, para a qual décadas de embalo e já dois resgates financeiros nos tinham desaprendido de viver. Facto é que, a partir de então, concluídas todas as auto-estradas e centros de congressos do país, Portugal passou a viver de pacote em pacote e de empréstimo em empréstimo, com todo o investimento público canalizado para a paixão educativa e o financia­mento do próprio Estado e o investimento privado todo virado para o turismo e o imobiliário. Sem nenhum pensamento estratégico de médio ou longo prazo, assistimos impávidos à venda a estrangeiros das poucas empresas portuguesas com dimensão fora do sector do retalho e ao desmantelamento ou desaparecimento de clusters industriais onde outrora liderávamos. Depois veio nova crise financeira do Estado e novo resgate e, no rescaldo, foi-se a banca em mãos nacionais e sectores determinantes da própria soberania nacional, em termos de política económica. Para o Estado restou a gestão dos problemas acumulados e insolúveis: o desastre demográfico, a desertificação do país, a sustentabilidade financeira da Segurança Social, o sorvedouro insaciável e ingerível da Saúde e das empresas públicas eternamente ruinosas e más prestadoras de serviços. Basta assistir às discussões anuais para a aprovação dos Orçamentos para constatar que, seja qual for o governo, a nenhum é consentida qualquer reflexão financeira sobre o futuro do país, mas apenas um regateio sobre o dinheiro a atribuir a todas e cada uma das clientelas do Orçamento. E assim, em lugar de fomentar uma sociedade de gente livre e empreendedora, onde se incentiva e premeia o risco e a iniciativa, transformámo-nos aos poucos numa sociedade de dependentes do Estado, hipotecando qualquer hipótese de futuro em nome da satisfação das reivindicações do presente.

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É verdade que alguma coisa, apesar de tudo, fizemos com tanto dinheiro da Europa, dos contribuintes e dos empréstimos lançados aos quatro ventos. Porém, a maior parte das vezes, é difícil perceber o benefício das coisas. Lideramos na utilização de energias renováveis, mas, através de uma nebulosa incompreensível de esquemas jurídicos e contratuais, continuamos a ter das energias mais caras de todas — o que é um imposto oculto para as famílias e um travão à competitividade das empresas; temos a “geração mais qualificada de sempre”, mas condenada a trabalhar em call centers ou a ganhar ordenados humilhantes e sem casas onde viver; gastamos fortunas, todos os anos acrescidas acima da taxa de inflação, na Saúde, mas só vemos é filas de espera intermináveis para tudo, demissões em bloco nos hospitais, cada vez mais horas extraordinárias pagas e menos médicos nos serviços; temos um centro cultural em cada freguesia do país mas uma cultura que só existe subsidiada.

Mas, acima de tudo, temos intermináveis discussões sobre tudo e mais alguma coisa, com debates, conferências, grupos de trabalho e de missão, especialistas, estudos, pareceres, andando à roda e à roda de cada problema sem jamais mostrar qualquer pressa em resolvê-lo.

Na “ferrovia” (como gostam de dizer em tom pomposo), andam há cinco anos em anúncios e planos tão grandiosos que, quem se distrair, até vai achar que, ao contrário da realidade, nestes cinco anos já foi construído um só quilómetro a mais de via férrea ou ganho um quilómetro a mais de velocidade média nas principais ligações. No hipotético futuro Aeroporto de Lisboa (se é que ainda se lhe pode chamar assim), 50 anos de discussões e estudos culminaram com um acordo entre PS e PSD para prolongarem os estudos por mais um ano, e ainda esta semana, num encontro de altíssimo nível entre a nata dos especialistas na matéria, tivemo-los a defenderem cinco alternativas diferentes: Montijo, Alverca, Ota, Alcochete e Santarém (e ainda falta alguém dos que defendem o Aeroporto de Lisboa… em Beja). E, quando a coisa for finalmente decidida, vamos ter, além de mais discussões sem fim, providências cautelares e acções judiciais — de quem foi escolhido e não quer ser e de quem foi preterido e queria ser escolhido.

É assim que funcionamos. E depois admiramo-nos de que a Roménia, e outros mais, nos passem à frente. Sobre isto, também assisti a um debate televisivo, com quatro ilustres economistas e conhecedores do funcionamento do Estado, que prometia algum esclarecimento: porque razão vamos ser ultrapassados pela Roménia e qual o motivo, ou os motivos determinantes, da nossa eterna apatia. Uma hora depois, desisti de tentar perceber. É tudo muito, muito, complicado.

2 Já li alguns textos em que uns candidatos a aiatolas defendem a tese de que quem criticou a realização do Mundial de Futebol no Catar, por coerência, não deveria sequer ver os jogos. Ver o Mundial seria pois um privilégio reservado para os que não enxergaram nada que os incomodasse nas circunstâncias em que este Mundial foi atribuído pela FIFA e erguido pelo Catar. Não só há cada vez mais gente a querer mandar nos outros como agora até querem mandar dentro das nossas casas. Mas eu percebo-os: uns querem ter o exclusivo da crítica; os outros querem que ninguém a tenha para que o futebol possa continuar a ser um planeta à parte. Ignorando alegremente a sua fatwa, eis as minhas impressões sobre a primeira fase deste Mundial:

— De há muito que fui cimentando esta ideia: os treinadores estão a matar o futebol. Todas as equipas, das grandes às pequenas, das europeias às africanas, jogam um futebol igual — cauteloso, defensivo, sem riscos, em que metade dos passes é feita para trás e metade do tempo é gasto em passes entre o guarda-redes e os defesas. Há dias, um comentador dizia: “Agora, o jogo tornou-se caótico, como nós e o público gostamos e os treinadores detestam.” É exactamente isso: o futebol de que o público gosta é aquele de que os treinadores fogem.

— O melhor jogador de Portugal tem sido Bruno Fernandes, que nem sequer era titular de caras, na equipa de Fernando Santos. Dentro do campo, foi determinante nos dois jogos e, fora dele, foi o único que se pronunciou sobre o incómodo de jogar em estádios onde muitos trabalhadores morreram para os construir. Num golo que toda a gente viu que fora dele, como a FIFA confirmou, tratou de o atribuir a Ronaldo, enquanto este, contra a tecnologia e a evidência, e o insaciável ego contra o espírito de equipa, o atribuía a si mesmo.

— Pelo contrário, mas como é habitual, o nosso trio de estrelas — Ronaldo, Bernardo Silva e João Félix — todos indiscutíveis para Fernando Santos, até agora, não jogaram nada. Continuando assim e sempre com lugar cativo, dá para perceber porque razão Rafa desistiu de servir a Selecção.

— Espero que os árbitros portugueses estejam a aprender alguma coisa com as arbitragens deste Mundial e a meditar que não é por acaso que não está lá nenhum árbitro português. Por feliz coincidência, os dois erros mais evidentes que vi foram a nosso favor: os penáltis contra o Gana e o Uruguai, ambos inventados. Também não será por acaso que o único treinador expulso até agora é português: Paulo Bento.

— Melhores equipas até agora: Espanha, França e Brasil, mas todas só a espaços. E Portugal? Melhorou do primeiro para o segundo jogo, sobretudo em atitude, mas ainda sabe a pouco quando olhamos para aquele banco. Até onde podemos ir? Talvez até onde o treinador deixar.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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E o Catar aqui tão perto!

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 25/11/2022)

Miguel Sousa Tavares

Confesso que depois de várias vezes me ter indignado e escrito acerca da vergonha da nossa “moderna agricultura” intensiva, sustentada com mão-de-obra intensiva importada e explorada por máfias nacionais e estrangeiras e sofregamente aproveitada nas tais modernas explorações agrícolas, já não esperava que nada mudasse algum dia e que algum assomo de escrúpulos ou de pudor viesse perturbar o negócio. Das estufas de frutos vermelhos do litoral alentejano aos olivais e amendoais a perder de vista da região do Alqueva, há todo um mundo de donos de terrenos a servirem-se dessa mão-de-obra subcontratada, de proprietários de par­dieiros a alugá-los como habitações aos desgraçados que atravessaram por vezes meio mundo para virem aqui ser explorados como novos escravos, submetidos a uma lei da kafala por máfias organizadas e actuando à luz do dia.

Agora, que tanto falamos do Catar, é ainda mais extraordinário que tenhamos passado tantos anos a fingir que não víamos o Catar entre nós. Só porque a escala é diferente não erguemos um Mundial de futebol e não gastámos 220 mil milhões de euros sobre as vidas perdidas dos nossos imigrantes.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

E porque tantas vezes escrevi, indignado, sobre isto, agora venho saudar o que parece ser o fim da inércia e da impunidade. A imensa operação lançada pela PJ na madrugada de quarta-feira no Alentejo, visando uma das redes mafiosas, pode ser o princípio do fim do desmantelamento do nosso Catar escondido e o restabelecimento do Estado de direito em grande parte do sector agrícola. Foram feitas 35 prisões sob suspeitas dos crimes de tráfico de seres humanos, branquea­mento de capitais e evasão fiscal, numa investigação que presumo não ser fácil e onde a obtenção de prova é dificultada pelo silêncio das vítimas, receosas de represálias sobre elas e as suas famílias nos países de origem. Agora é preciso que as inevitáveis pressões dos beneficiários da situação ou a brandura da justiça não venham conseguir deitar por terra este primeiro passo para pôr termo a uma situação que é uma vergonha para o país. E que esta investida das autoridades sirva de aviso para os proprietários que aceitam mão-de-obra subcontratada a empresas de fachada que sabem não garantir quaisquer direitos laborais aos trabalhadores.

2 Porque as duas primeiras razões invocadas por Marcelo para o seu passeio ao Catar não colheram — o “interesse nacional” e o “apoio à selecção” —, o Presidente viu-se forçado a ensaiar uma terceira: “a defesa dos direitos humanos”. Não sei qual das três razões é mais ridícula, qual é mais rebuscada, qual a que nos pretende tomar mais por tolinhos. O interesse nacional é aquilo que uma maioria clara de cidadãos sente consensualmente como tal, e não aquilo que um Presidente invoca como interpretação privilegiada da sua parte. Só é assim nas autocracias terceiro-mundistas, e mesmo aí às vezes há alguma contenção: neste Mundial e até à data, o nosso é o único Presidente que foi ao Catar. Ridículo mesmo é o argumento do apoio à selecção, como se esta não conseguisse jogar bem sem vislumbrar, lá no alto da tribuna de honra dos estádios, alguma das mais altas figuras da nação: no caso de Augusto Santos Silva, duvido mesmo que algum dos jogadores saiba até da sua existência. Resta então a oportunidade dos direitos humanos. Afinal, Marcelo tinha tudo planeado: ir ao Catar para dar in loco uma lição de direitos humanos. Se isso fosse verdade, seria de uma enorme indelicadeza diplomática. Mas não é verdade: Marcelo, segundo o próprio, terá aproveitado uma palestra sobre educação na Fundação Aga Khan para falar sobre direitos humanos, que, como se sabe, “têm tudo a ver com educação”. Umas dezenas de pessoas talvez assistam à palestra, e presume-se que a imprensa local e os jornalistas internacionais presentes no Mundial certamente não deixarão de fazer disso o acontecimento do dia, e assim a viagem estará safa. O Falcon pode continuar a ir e vir até Doha e, depois, como diz o Presidente, “vamos esquecer isso”. Vamos esquecer isso, vamos esquecer as visitas humilhantes a Bolsonaro, ao narco-Estado da Guiné-Bissau, os suplicados 15 minutos com Donald Trump para falar de Ronaldo (“um instrumento essencial da nossa política externa”) ou o desgaste de conviver de manhã à noite com um Presidente que não nos dá um minuto de tréguas e que fala mais depressa do que consegue reflectir e viaja mais do que consegue ver.

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Mas quando penso para além de Marcelo e, sobretudo, quando penso nos putativos sucessores que a imprensa nos quer impingir — Marques Mendes, Durão Barroso e por aí fora —, eu que, ao contrário de Marcelo, nunca senti qualquer pulsão monárquica se não fosse por esse “detalhe” de não podermos eleger nem despedir o Rei, até ficaria a pensar duas vezes. É que hoje em dia é bem mais fácil ter mão num Rei constitucional do que num Presidente eleito com tentações majestáticas. O infeliz Carlos III de Inglaterra, por exemplo, que toda a vida foi ambientalista, bem quis ir à COP27 no Egipto, mas a ex-PM Liz Truss, “a Breve”, disse-lhe simplesmente: “Nem pensar, só lá ia atrapalhar.” E Sua Majestade ficou em terra.

3 Outro ex-PM inglês, Boris Johnson, esteve esta semana em Lisboa para falar no jantar comemorativo do 1º aniversário desse projecto de sucesso que é a CNN Portugal. É uma bela vida, esta dos outrora grandes do mundo, que, uma vez retirados, andam por aí, pagos a peso de ouro, fazendo-se escutar como oráculos de sabedoria. Porém, se me é permitida a ousadia, em Lisboa Boris Johnson não esteve à altura do acontecimento que era suposto abrilhantar. Ele, que foi talvez o principal artífice do ‘Brexit’ — cujos desastrosos resultados económicos para os ingleses começam agora a ficar à vista —, escolheu fugir do tema e concentrar-se apenas na guerra da Ucrânia. E, sobre isso, não foi além de generalidades e banalidades de todos sabidas, oferecendo à audiência um banal panfleto anti-Rússia, com a conclusão de que não há lugar a quaisquer negociações de paz e a única opção para a guerra é a derrota total de Putin, através do conti­nuado fornecimento de armamento à Ucrânia até à vitória. Ele, que foi um biógrafo de Churchill, cujo estilo sempre quis copiar, encostou-se, desde o início da guerra e por razões de política interna, à figura de Zelensky, que apresentou ao mundo como o Churchill do nosso tempo. Na sua palestra, aliás, não resistiu a recordar a visita que fez a Kiev, para insinuar a coragem que ele e Zelensky demonstraram em exporem-se a eventuais disparos de snipers russos eventualmente emboscados nos telhados da cidade (os quais nunca existiram para além da sua imaginação). Uma fraca comparação com o seu biografado: Churchill, o verdadeiro, percorreu durante a guerra mais de 220 mil quilómetros em navios e aviões de guerra, navegando e voando sobre território inimigo em circunstâncias verdadeiramente aventurosas e visitando várias vezes a frente de batalha em África ou na Normandia. Mas Churchill, que combatia contra Hitler, que não era propriamente Putin, e que tinha de se entender com Estaline, que também não era exactamente Putin, chegou ao desespero por não conseguir convencer os polacos a aceitarem um acordo com os russos e exigirem antes que a Inglaterra os apoiasse militarmente nas suas exigências absolutas. A história conta que, no final, Estaline não cumpriria nenhuma das promessas feitas a Churchill e acabaria por engolir toda a Polónia de forma maquiavélica, mas ficou por se saber se poderia ter sido diferente se o Governo polaco no exílio tivesse aceitado o acordo que Churchill e Estaline lhe propuseram antes. Acontece que as vitórias totais apregoadas em palestras são sempre infinitamente mais fáceis do que as vitórias possíveis arrancadas no campo de batalha.

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