Um dia negro

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 10/11/2023)

No jornalismo aprende-se a redigir as notícias começando-se por resumir o essencial numa frase de abertura, a que se chama lead. No caso de notícias pouco importantes ou relativamente a situações ou países pouco importantes, o lead é curto e directo ao assunto. Na imprensa internacional de referência, o que aconteceu quarta-feira em Portugal resumiu-se a um simples lead: “O Governo português — um dos raros na Europa de maioria absoluta — caiu na sequência de o primeiro-ministro e algumas pessoas do seu círculo próximo terem sido alvo de abertura de processos-crime por suspeitas de corrupção nos projectos relativos à transição energética do país.”

E assim, curto e grosso, o país viu-se sumariamente enxovalhado e na lista negra de lugares onde seja saudável e prudente investir. De caminho, também e para efeitos internos, interrompeu-se a meio uma legislatura de maioria absoluta, atirou-se ao lixo um Orçamento prestes a ser votado e várias medidas urgentes e úteis para as pessoas dele constantes, interromperam-se as inadiáveis negociações com os médicos e a reestruturação do SNS, paralisou-se a execução do PRR e lançou-se em Bruxelas a suspeita sobre a boa aplicação dos seus dinheiros, aplicou-se um golpe de consequências ainda imprevisíveis na política de transição energética essencial a um país sem petróleo, gás ou centrais nucleares, mais uma vez protelou-se a escolha sobre o novo aeroporto de Lisboa, deixou-se a gestão governamental suspensa num momento em que paira uma recessão no horizonte, soltou-se, ufano, o populismo e a descrença nas instituições no ano das celebrações do 25 de Abril e devolveu-se a praça a alternativas forçadas que não existiam por si há três dias. Independentemente das culpas, da razão ou da sem razão de tudo isto, do lugar de esquerda ou de direita de onde se olhe para o fatídico 7 de Novembro, quem ainda consegue angustiar-se com o destino deste infortunado país não pode deixar de lamentar mais uma oportunidade perdida. Uma maio­ria absoluta, um Governo sem albergue para extremistas, contas certas, a dívida pública a ser paulatinamente diminuída a benefício de agora e dos que virão e o dinheiro europeu como nunca mais virá: tudo desperdiçado, outra vez.

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Em 7 de Novembro aconteceu uma de duas coisas, e apenas uma de duas coisas, pois não há terceira hipótese. Ou um impensável cancro andou a ser congeminado e a germinar entre várias pessoas do círculo íntimo do poder e do primeiro-ministro, sem que ele desse por nada — o que eu quero acreditar, e acredito —, ou vários magistrados do Ministério Público (MP), confundindo diligências de governantes com indícios de crime de corrupção e “intervenções para desbloquear procedimentos” com crime de tráfico de influências, decidiram, leviana ou conscientemente, derrubar um Governo eleito pelos portugueses e agora ficarem tranquilamente sentados durante 10 anos a assistir à “justiça a seguir o seu curso” e à história a mudar abruptamente o seu.

Não sei qual das duas hipóteses seja pior, mas nenhuma delas pode passar sem consequências. Se toda a política de transição energética, essencial para o futuro do país, assentou até aqui numa teia de corrupção e tráfico de influências, que passa pelos concursos, pelas licenças e pelos pareceres ambientais, essa gente não merece misericórdia alguma. Mas se, pelo contrário, estamos perante mais uma das irresponsáveis aventuras políticas do MP — como nos casos Casa Pia, Leo­nor Beleza ou Azeredo Lopes —, então é preciso acabar com as falinhas mansas e a vaca sagrada da autonomia dos magistrados do MP.

Só é autónomo e independente quem é responsabilizável, não quem é impune, quem pode, sem consequências algumas, destruir nomes e carreiras ou derrubar Governos legitimamente eleitos. Sob pena de ninguém mais, em perfeito juízo ou com intenções sérias, querer governar esta chafarica.

Imagino o delírio popular que por aí irá com a razia que o MP fez na situa­ção política. Mas acho que ninguém, nem mesmo esses entusiastas do descrédito do sistema democrático que acabam de viver um dia de glória, se apercebeu do impacto que tudo isto vai ter no concreto do seu dia-a-dia. Não que o Governo fosse brilhante ou insubstituível, mas porque o vazio e a descrença não são uma escolha nem uma alternativa, mas um buraco negro onde só se salva quem puder.

Não reivindico para mim o estatuto de cidadão exemplar, longe disso. Faço os mínimos: pago os impostos devidos ao Estado e voto, sem falhar, em todas as eleições. Mas há leis a que deliberadamente não obedeço, porque as acho abusivas, ordens que não cumpro, políticos ou poderosos que não respeito, instituições que, se pudesse, mandaria encerrar amanhã, coisas em que deixei de acreditar há muito, comendadores e outros heróis que não reconheço como tal, exaltações patrióticas que desprezo, amanhãs prometidos que sei que jamais chegarão. Como muitos, olho para o meu país com um misto de cepticismo, tristeza e conformismo. Se alguma vez fomos um grande país, há muito que deixámos de o ser: somos descendentes dos que ficaram, não dos que partiram. Não foi por acaso que suportámos 50 anos de ditadura, em que só um punhado de bravos resistiu, todos os outros consentindo, calados e obedientes. Faço parte daqueles para quem o dia 25 de Abril de 1974 foi o dia mais feliz de sempre, mas também dos que rapidamente perceberam o que um povo calado e obediente durante décadas iria fazer com a festa. Isso aconteceu no dia em que li num jornal “Trabalhadores da Tinturaria Cambournac exigem a nacionalização pelo Estado”. Mesmo a liberdade não tinha mudado o essencial das mentalidades: viver sob a protecção do Estado, como bem tinha pregado Salazar.

Na verdade, a liberdade não passou a ser uma atitude individual, mas antes foi apropriada em benefício próprio e colectivo por corporações, como a do MP, que antes eram silenciosas e dependentes e que logo reclamaram uma independência equivalente ao privilégio de não ter de prestar contas a ninguém.

Mas também há mínimos que gente como eu deve exigir a quem tem o poder de entrar por uma casa adentro às sete da manhã e virar uma vida ou um país do avesso. Temos o direito de exigir que quem tem o poder imenso de derrubar um Governo por via extraparlamentar explique devidamente por que ponderosas razões o faz.

Não nos chega que a procuradora-geral da República, a quem, pelo estatuto do MP, compete “dirigir, coordenar e fiscalizar a acção do MP”, informe o país, através de um comunicado do seu gabinete de imprensa, que instaurou um processo de inquérito criminal ao primeiro-ministro porque, segundo os seus supostos “subordinados”, haverá indícios de ele ter tido “intervenção para desbloquear procedimentos” — seja isso o que for. E que com isso se contente, entendendo não dever mais explicações a ninguém. Porque com isso se derruba um Governo eleito legitimamente pelos portugueses, se destrói uma carreira política e se mancha o nome de um homem. E, para ajudar à festa, temos um presidente do Supremo Tribunal de Justiça que, alinhando com o discurso da direita antidemocrática, declara displicentemente que Portugal está afogado em corrupção — como se, chegado ao topo da carreira, olhasse para o assunto como um turista, ou se, como alguém disse, lhe fosse apropriado falar disso em tom de conversa de tasca.

Por acaso temos três magistrados superiores condenados como corruptos, mas que continuam há anos em liberdade graças a recursos para os “Venerandos Conselheiros”, e temos um procurador do MP condenado num indecente caso de corrupção que espera inexplicavelmente uma prisão que o acolha há meia dúzia de anos. Querem dar-se ao respeito? Comecem por si mesmos.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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Heróis de guerra

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 27/10/2023)

O imperador Frederico II, do Sacro Império Romano-Germânico, que passou quase todo o seu reinado em guerra (chegou a participar pessoalmente numa Cruzada), disse um dia, num momento de lúcida reflexão: “Se os meus soldados pensassem, não restaria nenhum nas fileiras.” Esta semana, inscrevendo-se no cortejo a Jerusalém dos mesmos dirigentes ocidentais que aqui há tempos desfilavam em Kiev — e pela ordem protocolar estabelecida: primeiro os Estados Unidos, depois a Inglaterra e a seguir os vassalos da União Europeia — Macron lá foi também oferecer a sua solidariedade, na defesa dos “valores comuns” que nós, ocidentais, teremos com a Israel de Benjamin Netanyahu e os seus ministros ortodoxos, executores mandatados da vontade do profeta Abraão. Mas fez mais o Presidente francês: sem uma palavra sobre o futuro dos palestinianos, propôs uma coligação militar do Ocidente — e das democracias, presumo — contra os terroristas muçulmanos do Hamas: uma nova Cruzada, enfim.

Desde que o mundo é mundo, desde que é invocável o valor da civilização contra a barbárie ou as guerras santas dos fiéis contra os hereges, ou qualquer outro invocado justo pretexto, que é insaciável a vontade de sangue e morte dos grandes do mundo. A única diferença relevante é que dantes combatia-se nas guerras a pé e a cavalo, com espadas e lanças, e agora combate-se com uma tão sofisticada e tão cara panóplia de armas que, à falta de outros motivos mais nobres, a guerra é sempre uma imperdível oportunidade de negócios para a mais rentável indústria mundial, a do armamento — como o explicou o ex-Presidente Eisenhower e como o vimos, por exemplo, na metódica destruição aérea de Belgrado.

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Qualquer guerra é necessariamente precedida de uma preparação, que começa junto da opinião pública antes mesmo de as forças combatentes estarem prontas para avançar. Há excepções, claro, em casos flagrantes, mas essa é a regra: a propaganda a favor da guerra deve antecedê-la e jamais esmorecer, custe o que custar em sacrifício de soldados ou de civis. Vemo-lo há 20 meses na Ucrânia, onde, por maiores que sejam os danos causados, ali e no mundo em geral, e por maior que seja o impasse militar no terreno, qualquer tímida tentativa para falar de paz — e a própria palavra paz — é vista imediatamente, e por ambos os lados, como uma capitulação, uma traição inadmissível. Não por acaso, vemos sempre Zelensky ou Putin a falar aos generais e às vezes aos soldados, a condecorá-los, a incentivá-los, mas nunca os vemos entre os civis vítimas da guerra, ao contrário do que fazia Churchill depois de cada bombardeamento da aviação alemã sobre as cidades inglesas. Em Israel, as sondagens e os testemunhos dos jornalistas relatam-nos a existência de uma clara maioria, mesmo entre as famílias dos reféns em poder do Hamas, favoráveis à ofensiva terrestre sobre Gaza, ainda que ela tenha como desfecho quase inevitável a morte de todos eles. Seria curioso fazer saber aos reféns o resultado destas sondagens e fazer-lhes a mesma pergunta: “Concorda que, em vez de negociar a vossa libertação, Israel invada Gaza, com o resultado presumível de morrerem você e todos os outros reféns?”

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Mas o pacifismo, muito embora por vezes tenha triunfado contra todas as esperanças (Gandhi, Mandela), não é, só por si, uma solução universal nem uma doutrina sempre aceitável. Há uma diferença entre ser a favor da paz como solução preferencial ou ser pacifista por definição. Na série da Netflix que estou a ver — “The Pacific”, de Steven Spielberg e Tom Hanks —, um capitão marine, vendo um soldado destroçado, física e emocionalmente, pela violência dos combates contra os japoneses, diz-lhe: “A única razão que nos pode fazer continuar é sabermos que esta é uma guerra justa.” Porque há guerras justas e que têm de ser travadas, como a do Pacífico depois do ataque japonês a Pearl Harbour, ou a primeira guerra do Iraque, depois da invasão do Koweit por Saddam Hussein. E há guerras absolutamente injustas e por razões manipuladas, como a segunda guerra do Iraque, levada a cabo para satisfazer a vaidade de George W. Bush e o desejo de mostrar a importância de alguns serviçais, como o Portugal de Durão Barroso. E depois há situações em que é difícil ver claro e o pacifismo vem a ser julgado como uma opção nefasta — mas regra geral, só depois da guerra travada e ganha. Talvez o caso mais notável — e, por isso, tantas vezes citado a propósito ou a despropósito — seja o acordo de Munique, assinado entre o PM inglês Neville Chamberlain e Adolf Hitler. Recebido triunfalmente em Inglaterra por uma opinião pública ainda traumatizada por uma guerra terminada apenas 20 anos antes e de uma ferocidade inaudita, Chamberlain seria impiedosamente julgado por Churchill: “Entre a guerra e a desonra, você escolheu a desonra. Mas terá a guerra.” Churchill não dispunha de muito mais informação do que Chamberlain sobre o grau de rearmamento da Alemanha ou a natureza profunda do nazismo. Mas tinha mais instinto político e nenhum medo da guerra, ao contrário de Chamberlain, que, antevendo o seu horror, queria evitá-la até ao limite. Na verdade, olhando friamente para os factos, ambos tinham razão: nada deteve Hitler e, menos de um ano depois de Munique, a guerra, inevitável e justa, começava; e o que se seguiu foi uma tragédia mundial.

Transplantando para os dias de hoje, com as devidas e muitas diferenças, poderíamos ver em António Guterres o Chamberlain de agora e em todos os que desfilam em Jerusalém, mais Netanyahu, mais Zelensky (este, aliás, já consagrado como tal) os Churchills do nosso tempo. Mas a percepção é falsa e parte de premissas falsificadas. Analisando aquilo que António Guterres disse no seu discurso perante o Conselho de Segurança da ONU acerca do conflito em Israel, podemos questionarmo-nos se, tal como já o havia feito no início do conflito na Ucrânia, a sua emotiva declaração não terá comprometido uma posição de intermediário, dele e da ONU, no conflito. Na Ucrânia, ainda conseguiu, depois de uma reacção negativa da Rússia, negociar com ela a saída de civis da Azovstal e o primeiro acordo de exportação de cereais ucranianos através do Mar Negro. Agora, a avaliar pela reacção de Israel, tal estará definitivamente fora de questão. O que, se diplomaticamente poderá ter sido uma precipitação, não significa que não tenha razão no que disse. Essencialmente, Guterres disse três coisas: que o ataque de 7 de Outubro do Hamas foi uma barbaridade que nada pode justificar; mas que esse ataque também não pode justificar a “punição colectiva” de todo um povo, como a que Israel está a levar a cabo em Gaza; e que o 7 de Outubro não apareceu do “vácuo”, mas de uma “ocupação sufocante” de 56 anos, em que os palestinianos foram expulsos das suas terras, viram as suas casas destruídas e ficaram condenados a viver em guetos, cercados de muros e instalações militares. Tudo isto é rigorosamente verdade, tudo isto seria intolerável em qualquer lado do mundo e tudo isto é feito à revelia das decisões das Nações Unidas. Nenhum secretário-geral da ONU pode ignorá-lo e deixar de insistir para que aquilo que a ONU decide seja aplicado. Ou então não está lá a fazer nada.

Numa televisão perto de mim, vi uma denominada “especialista em política internacional” dissertar contra Guterres e classificar a ONU como “pró-palestiniana” porque ao longo da sua história aprovou várias decisões contra Israel. Seguindo o seu raciocínio, a ONU não poderia então tomar posição sobre nenhum assunto, discutindo-o e votando: ou seja, teria a importância política e jurídica de uma reunião de Tupperware. Mas a “especialista” parece ignorar que a ONU não é uma entidade dotada de autonomia própria em matéria de decisões, mas sim o resultado da opinião de todos os seus membros, expressa na Assembleia-Geral onde estão representados todos os países do mundo, mais de 190, e no Conselho de Segurança, com 15 membros, 5 dos quais permanentes, com direito de veto. A Assembleia-Geral, senhora “especia­lista”, aprova moções, que não são vinculativas mas reflectem a vontade da maioria dos seus membros — e já aprovou dezenas condenando Israel; o Conselho de Segurança aprova resoluções, que são vinculativas para todos os membros da ONU — e já rejeitou dezenas condenando Israel graças ao veto protector dos Estados Unidos, mas, mesmo assim, aprovou algumas, nomeadamente a 242 e a 336, que são estruturantes juridicamente nos termos do conflito palestiniano e que, se tivessem sido cumpridas por Israel ou impostas pelos desfilantes de Jerusalém, não teriam conduzido à situação em que hoje estamos e que desembocou no 7 de Outubro.

Portanto, Srª “especialista”, não é a ONU que é pró-palestiniana, são os países que aceitaram os princípios da Carta das Nações Unidas, entre os quais Israel, os países que aceitam a prevalência do direito internacional, que condenam a ocupação israelita das terras dos palestinianos.

2 Poucos portugueses saberão quem é Umaro Sissoco Embaló e não perdem nada em não saber. Trata-se do pouco recomendável Presidente da pouco recomendável Guiné-Bissau, esse Estado cuja história independente tanto dignifica a confraria dos PALOP. Mas, além de se autodefinir, não como um ditador, como correntemente o vêem, mas apenas como “um defensor da ordem e da disciplina”, o ilustre Umaro Sissoco Embaló deve ter outros atributos de mérito tão elevados que levaram o Presidente Marcelo a atribuir-lhe a mais alta condecoração habitualmente reservada a Chefes de Estado estrangeiros: o Grande Colar da Ordem do Infante D. Henrique. Umaro Embaló passa, assim, a figurar ao lado de figuras como Nelson Mandela, François Mitterrand ou Lech Walesa, a quem outros Presidentes portugueses haviam atribuído idêntica condecoração. Não sei se o problema estará em Marcelo não conseguir encontrar mais ilustres pescoços prontos a inclinarem-se diante das suas generosas mãos ou na sua continuada incapacidade de conseguir entender que um Presidente não condecora em nome próprio ou das suas escolhas pessoais, mas em nome de todos nós e alguém que todos nós respeitemos.

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Mas onde estão as dúvidas?

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 20/10/2023)

Enquanto vamos vendo desfilar imagens de terror, destruição e sofrimento humano de uma violência inaudita, assistimos aqui, paralelamente, a uma espécie de competição Benfica-Sporting pela primazia do mal ou a prevalência do bem, com cada lado a desafiar o outro a denunciar as vilanias dos seus, enquanto cala as dos próprios. Tal como na Ucrânia, o que interessa é a vitória dos nossos “bons” e a derrota dos “maus” deles, mesmo que no final tudo o que restar seja, como escreveu Eugénio de Andrade, “um horizonte de cidades bombardeadas”, ou “duas nações, a dos vivos e a dos mortos”, como escreveu Mia Couto. Mas eles acreditam que mais vale a sua razão sobre os mortos do que a paz entre os vivos.

Temos assim, de um lado, aqueles que não são capazes de dizer com todas as letras que o ataque do Hamas em Israel representou o ponto extremo da bestialidade humana, um verdadeiro festim da morte, levado a cabo — a palavra custa-lhes a sair da boca — por terroristas (e não me refiro aos jornalistas, que, tal como explica e pratica a BBC, não têm nem devem adjectivar como terroristas ou qualquer outra coisa um dos lados de um confronto). E temos, do outro lado, aqueles para quem o terror é exclusivo de organizações terroristas e os crimes de guerra, de uma crueldade programada, com que Israel se sacia há 10 dias em Gaza, são apenas uma “legítima defesa” e justa retaliação. Não por acaso, são os mesmos que vivem a denunciar os crimes de guerra e os ataques a civis da Rússia na Ucrânia, cuja dimensão e cenário de guerra não tem absolutamente nada a ver com o que está a acontecer em Gaza.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Mas será assim tão complicado tentar ver claro? Condenar, de todas as formas e em todas as circunstâncias, um terror como o de 7 de Outubro e exigir que o Hamas liberte os reféns que fez. Condenar também Benjamin Netanyahu e o seu Governo de extremistas e fanáticos religiosos, que vêm destruindo paulatinamente o Estado de direito em Israel e que, para protegerem os colonatos ilegais da Cisjordânia, deixaram o país indefeso contra o Hamas. Aceitar que Israel tem o direito de perseguir e caçar, um por um, todos os executantes e mandantes do 7 de Outubro, como o fez sempre ao longo da sua História, depois de Munique ou de Entebbe, depois de cada ataque mortífero do terrorismo islâmico, e através do Kidon, a unidade especial de extermínio do Mossad. Perceber que neste caso são muitos os inimigos a perseguir e isso levará muito tempo. Que a sociedade israelita, em estado de choque, exige uma reacção em força, a destruição da raiz do mal em Gaza, a eterna garantia do “nunca mais” e, simultaneamente, a libertação de 150 reféns: uma missão quase impossível e absolutamente impossível sem derramamento de sangue inocente. Mas não aceitar também que isso equivalha à destruição sistemática da cidade, à morte indiscriminada de civis debaixo dos bombardeamentos (que já vai em três mil, dos quais grande parte crianças), não aceitar a desculpa do “escudo humano”, que afinal foi Israel que proporcionou. Indignar-se contra a punição colectiva de todo um povo privado de água, alimentos, energia, intimado a debandar das suas terras e casas para aquilo que o Presidente Herzog garantiu ser uma “zona segura”, no Sul de Gaza, mas onde 600 mil fugitivos continuam privados de tudo, bombardeados na mesma e até impedidos por Israel de receber o auxílio internacional estacionado há dias do outro lado da fronteira egípcia. (Quando oiço o activíssimo embaixador de Israel em Lisboa dizer que “não há um problema humanitário em Gaza”, só posso concluir que ele não considera aquela gente como humana.) Nem tão-pouco se pode aceitar a estratégia, já denunciada por Hussein, da Jordânia, de Israel aproveitar a situação que está a criar em Gaza para “exportar” mais um milhão de refugiados palestinianos para fora do seu território, dando mais um passo em direcção à solução final: na Palestina, um só povo, um só território, uma só nação — a judaica. Por isso, finalmente, a comunidade internacional tem a obrigação de exigir a Israel que desvende os seus planos para quando der por terminado o exercício do seu direito, que será de defesa ou de vingança, conforme a dimensão e duração do mesmo. Porque não é aceitável a declaração do Presidente de Israel à CNN Internacional de que não será mais possível falar de paz ou de dois Estados com os palestinianos.

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Mas essa é, sempre foi e continuará a ser a questão central: quando foi a última vez, desde a cimeira falhada de Camp David, em 2000, com Clinton, Ehud Barak e Yasser Arafat, que Israel quis falar de paz com os palestinianos? O que fez Israel desde então a não ser precisamente promover a emergência do fanatismo religioso dos islamistas do Hamas em Gaza para assim dividir os palestinianos e enfraquecer a OLP, o único interlocutor com quem poderia discutir? Foi uma brilhante jogada de estratégia política, que 20 anos depois — 20 anos de Sharon e Bibi — acaba agora de mostrar os seus resultados.

Ultimamente, e com o pretexto justamente de não ter interlocutor com quem negociar, Israel conseguiu, com sucesso, tirar partido do cansaço geral em todo o Médio Oriente de uma questão que parecia adormecida num impasse definitivo e experimentou a tentação de negociar a paz separadamente com vários países árabes, começando por Marrocos, a quem cedeu o seu sofisticado sistema de escutas em troca do reconhecimento diplomático. Daí até aos Acordos de Abraão, negociados sob a égide dos Estados Unidos, com vários países outrora inimigos, foi um passo — não pequeno, mas de gigante. Faltava a Arábia Saudita, o país do príncipe “assassino”, como lhe chamou Biden, antes de a necessidade política o ter obrigado a visitá-lo e a curvar-se diante dele. Mas faltava também outro dado essencial: em nenhum desses acordos bilaterais, incluindo o iminente acordo com os sauditas, estava presente qualquer cláusula sobre o destino dos palestinia­nos e muito menos sobre a criação do Estado Palestiniano, há tanto tempo reclamado pela comunidade internacional: era como se o problema não existisse, eles não existissem. Foi fácil ao Hamas explorar o sentimento de abandono que, a seguir à comunidade internacional, os palestinianos sentiram por parte do próprio mundo árabe. O 7 de Outubro do Hamas teve como objectivo político impedir, desde logo, o acordo com a Arábia Saudita e, antevendo e provocando a resposta sangrenta de Israel, levantar a rua árabe contra os acordos de paz negociados pelos líderes no silêncio dos seus palácios. E por mais selvática que tenha sido a acção desse sábado sangrento, aos olhos populares foi também a primeira vitória árabe contra Israel em muitos anos: morreram mil civis desarmados, mas morreram também 300 soldados israe­litas, cujas sofisticadas barreiras defensivas foram ultrapassadas. Desde o Yom Kippur, quando Israel foi atacado simultaneamente pelos exércitos de dois países, que não se via nada assim. Mas agora os atacantes que apanharam Israel de surpresa eram um exército de guerrilha, armado de AK-47 e granadas de mão fabricadas em casa. Chamem-lhes assassinos ou combatentes, eles mudaram todo o panorama estabelecido.

Agora seria altura para respirar fundo e pensar — um luxo que parece antes um milagre impossível de alcançar entre dois opositores que só pensam no extermínio mútuo. Mas deve saudar-se o extraordinário esforço diplomático que os Estados Unidos e o Presidente Biden têm estado a fazer para segurar a mão vingadora de Is­rael e obrigá-los a pensar. Fosse Trump o Presidente, e já tudo teria ido pelos ares. Fosse a UE a gerir a crise, e a sua gestão seria uma anedota dentro da tragédia.

Mas o que aí vem, por mais esforços diplomáticos americanos — os únicos viáveis —, não será nada de bom. Ou será mau ou será catastrófico. Para que fique de lição, convém não esquecer que tanto o Hamas como o actual Governo de Israel chegaram ao poder por voto do povo em eleições livres. Não há mesmo inocentes ali.

2 Por voto do povo e em eleições livres, duvido que Luís Montenegro alguma vez chegue a primeiro-ministro de Portugal. A menos que o PS um dia decida suicidar-se e pôr-lhe à frente, para lhe disputar o lugar, Pedro Nuno Santos. Mas, mesmo assim, não sei: a forma, o tom e as razões invocadas por Montenegro para anunciar o chumbo ao Orçamento, sem apresentar qualquer alternativa, ainda que vaga, para mim representam o fim da linha. Não vejo o que possa ainda sair dali que entusiasme um eleitor a votar num PSD dirigido por ele. Por mais que uma maioria possa estar cansada deste Governo, ou vir a estar, entre o cansaço de viver assim e a tentação do vazio não vejo os portugueses a embarcarem no navio-fantasma de Luís Montenegro.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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