Sinais de fogo

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 31/07/2026)


A Europa, o continente mais exposto ao aquecimento global, o território do fogo descontrolado, corta nas verbas destinadas a combatê-lo, em benefício das verbas destinadas a combater a Rússia.


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Enquanto a França e a Espanha começavam a arder, no que viriam a ser os piores incêndios de ambos os países em décadas, Luís Montenegro estava em viagem oficial a Itália — que juntamente com Portugal e Grécia, completa o eixo de fogo que todos os Verões, em simultâneo ou à vez, devasta o sul da Europa. Mas em Roma, Montenegro e Meloni conversaram sobre outro tipo de fogo, que de tal forma aqueceu os seus corações que Montenegro declarou mesmo que ali se tinha atingido o ponto mais alto das relações Portugal-Itália, também em décadas. Porém, este novo êxito da nossa diplomacia e esta renovada amizade vêm com um custo: 3,9 mil milhões de euros, que é o preço que iremos pagar pelas três fragatas que encomendámos em Itália para a nossa Marinha de Guerra. O custo representa mais de metade do que Portugal prometeu gastar a armar-se para a anunciada guerra contra a Rússia e para cumprir as ordens de Trump, e é assumido ao abrigo da estratégia consagrada pelo programa de rearmamento europeu SAFE: encomende agora, pague depois. E o depois não será provavelmente apenas um problema financeiro, mas também operacional: quem nos diz que quando as fragatas forem entregues elas ainda farão algum sentido na guerra do mar, se já hoje os drones submarinos e os avanços militares com a IA estão a mudar tudo? (Veja-se como, sem nenhuma fragata, o Irão anda há cinco meses a humilhar a força naval e aérea, carregadas de testosterona, dos Estados Unidos…) Seria mais prudente, pensarão, começar por encomendar apenas uma fragata e esperar para ver, mas tal é impossível, pois que se dá com as fragatas o mesmo que com os submarinos: é preciso comprar três de uma vez, porque enquanto uma está no mar, outra está de prevenção acostada na base e a terceira está no estaleiro em reparação. São brinquedos muito caros. São tão caros e o negócio é de tal maneira rentável para os vendedores — mais ainda que o tráfico de droga — que desta vez anunciaram-nos que seria nomeada uma das tais “comissões independentes”, para tentar garantir “transparência” e seriedade nos negócios em que seremos sempre compradores. Porém, ainda nem a comissão está composta e Montenegro já gastou €3,9 mil milhões sem dar justificações do essencial: porquê fragatas, porquê italianas e porquê a pressa.

Valha a verdade que o nosso primeiro-ministro se limita a acompanhar e cumprir o que ficou acordado com a NATO, a UE e os EUA de Donald Trump (as três entidades confundem-se hoje em dia). Devagar e passo a passo, encomenda a encomenda, comprometemo-nos a caminhar em direcção aos 5% do PIB em gastos militares, ao mesmo tempo que se anunciam investimentos públicos de há muito não vistos: um novo aeroporto para Lisboa, o TGV Lisboa-Porto, uma nova ponte no Porto e outra e mais um túnel no Tejo, em Lisboa, mantendo intactos o sistema de pensões e os restantes apoios sociais, bem como a satisfação, sempre premente, das reivindicações das corporações do Estado. A perspectiva é de tal maneira insana que, aqui ao lado, Pedro Sánchez declarou logo que a Espanha governada por ele não cumpriria os 5%. Mas foi o único entre todos os dirigentes europeus, reduzidos voluntariamente à condição de capachos obedientes do ‘aliado’ americano, com quem não poupam gestos de apaziguamento, todavia inúteis, como se viu na recente Cimeira da NATO em Ancara. Muitas vezes, e até para justificar este desvario guerreiro, esta gente e os seus propagandistas têm defendido as suas decisões com a necessidade de não repetir o erro de Chamberlain em Munique, tentando fazer-nos acreditar que a inacção perante a ameaça que Putin representará é igual à que Hitler representava em 1938. Mas não só a Europa, no seu conjunto, dispõe de muito mais poderio militar convencional do que a Rússia (a qual, ao mesmo tempo, nos garantem estar exaurida por quatro anos de guerra na Ucrânia), como também as duas situações não são nem objectiva nem subjectivamente comparáveis. Aliás, não fosse esta uma geração lastimável de dirigentes europeus — de que o defunto Keir Starmer era o perfeito exemplo do líder plastificado, desde o cérebro até aos sapatos — e poderiam dar-se uma pausa para meditação sobre os verdadeiros grandes problemas e grandes inimigos que a Europa tem de enfrentar. Se o fizessem, se por um momento quisessem pensar pela própria cabeça, esquecendo as ordens de Trump ou do seu capacho Mark Rutte, talvez chegassem à conclusão de que os dois grandes inimigos da Europa chamam-se Donald Trump e alterações climáticas.

Sinais de fogo
Hugo Pinto

Saiba mais aqui

 

Sobre o primeiro inimigo da Europa, Donald Trump, já tudo foi dito e sabido e só não vê o perigo que ele representa quem não quer ver ou está interessado em não ver. Sobre a ameaça presente do descontrolo do clima (clear and present danger, chamar-lhe-iam os americanos, no tempo em que ainda eram uma democracia decente), tem-se visto como a UE tem recuado e abandonado todas as suas metas definidas e ajuramentadas para enfrentar as consequências das alterações climáticas. A Europa, o continente mais exposto ao aquecimento global, o território do fogo descontrolado, corta nas verbas destinadas a combatê-lo, em benefício das verbas destinadas a combater a Rússia, no dia em que nos juram que Putin virá por aí abaixo. Portugal é um bom exemplo disso mesmo: na necessidade que houve de realocar verbas do PRR, tirando de um lado para pôr no outro, os dois maiores cortes, ambos de 15%, foram nos investimentos previstos para a transição climática e a transição digital da economia — outro sector crítico, em que a Europa não se limita a ficar para trás relativamente à China e Estados Unidos, mas assim cava a sua dependência futura, como já a tem na energia, entusiasmada que anda, por exemplo, a sequestrar navios-fantasmas da frota petroleira russa — verdadeiros actos de pirataria, sem qualquer sustentação legal.

Em França, cujo Presidente passou de intermediário para tentar evitar a guerra na Ucrânia a defensor da continuação e agravamento da mesma, anunciando o reforço extraordinário das capacidades militares da França, Emmanuel Macron acabou esta semana a ter de recorrer aos militares para ajudarem a dominar o grande incêndio de Bordéus. Afinal, parece que, na hora da verdade, aquilo que os cidadãos esperam da sua República é que lhes garanta a segurança de pessoas e bens contra um perigo real e presente e não contra um hipotético perigo futuro. Daqui a uns anos os nossos filhos e netos hão-de perguntar-nos o que andámos nós a fazer, gastando fortunas em armamento e alimentando os lucros das multinacionais das armas e da energia, enquanto víamos, fingindo surpresa, as terras a arder, o gelo dos pólos a derreter e as temperaturas a subir sempre.

2 Sinal destes tempos de mentira organizada e desinformação planeada, o Governo de Israel, depois de matar todos os jornalistas árabes que conseguiram estar em Gaza (para cima de 150!) e proibir a entrada da imprensa ocidental independente, aposta agora em profissionais da aldrabice, dispostos a serem contratados para negar o que vimos e sabemos: Gaza reduzida a cinzas, 73 mil mortos, dos quais mais de 20 mil crianças, a Cisjordânia transformada num faroeste, onde os colonos israelitas, apoiados pela IDF, caçam palestinianos, ocupam as suas terras, destroem as suas casas e culturas. Vemos, ouvimos e lemos. Mas é possível fingir ignorar: entre os €500 milhões que o Governo de Netanyahu já destina anualmente para propaganda amiga, estão verbas para convidar uns mercenários da verdade a visitarem a “única democracia do Médio Oriente”. Oito tristes patetas portugueses, ditos influencers, responderam assim à chamada e lá foram eles, descobrindo, cito, que “o mais fixe em Israel é que eles não têm a intenção de se vingar de ninguém. O amor é a palavra que mais usam”. E lá foram recebidos por um anfitrião, dito jornalista, Henrique Cymerman, a quem chamaram um “anjo da paz” e o qual lhes fez uma prelecção sobre as mentiras que a imprensa ocidental veicula sobre Israel, sobrepondo-se ao silêncio cúmplice dos dirigentes europeus. Os 73 mil mortos vítimas do amor de Israel, de facto, é como se nunca tivessem existido.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

A mais estúpida de todas as guerras

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 19/06/2026)


Agora, resta a Trump tentar que o Irão aceite regressar aos termos do acordo negociado com a Administração Obama e que ele classificou como “o pior acordo alguma vez assinado na história dos Estados Unidos”.


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Sempre me pareceu inverosímil que o assassínio do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, por um anarquista sérvio, em Sarajevo, tivesse sido motivo suficiente para o desencadear de uma guerra generalizada na Europa, que durou quatro anos e deixou caídas dez milhões de vítimas. E também me pareceu difícil de acreditar que durante a maior parte desses quatro anos, de 1914 a 1918, a estratégia militar de ambos os lados em confronto tenha consistido quase exclusivamente numa guerra de trincheiras contra trincheiras, esporadicamente interrompida com cargas de infantaria dizimadas pelos canhões do inimigo: a “carne para canhão”, que passou à história como a mais estúpida estratégia militar de todos os tempos, ao serviço da mais estúpida guerra de sempre.

Com sorte, e com a capacidade de conter as provocações israelitas, a guerra que Donald Trump levou ao Irão e ao Médio Oriente terá durado apenas quatro meses. Mas quatro meses em que a estupidez de quem manda no mundo atingiu um grau de perfeição que ultrapassa os dirigentes políticos da I Guerra Mundial. Todos os objectivos que o ignorante Presidente dos Estados Unidos visava com a guerra que o parceiro israelita o convenceu a desencadear, sem mandato internacio­nal e até sem conhecimento prévio dos aliados, a quem depois acusou de não o ajudarem (com a “honrosa” excepção portuguesa), saíram frustrados e as suas razões agravadas. Claro que todos preferíamos ter visto derrubado um dos regimes mais repressivos do planeta e ver os seus ayatollahs despojados de uma arma nuclear que dizem iminente. Mas há mais regimes religiosamente fanáticos, como o de Israel, e já quase o dos próprios Estados Unidos — e há mais países que já dispõem da bomba e inspiram tudo menos confiança, como a Coreia do Norte, o Paquistão ou o próprio Israel — hoje, mas já de há uns tempos, a maior ameaça à paz no mundo. Trump falhou rotundamente qualquer desses dois objectivos e, de caminho, ao não ter inacreditavelmente previsto que o Irão responderia à agressão israelo-americana com o fecho do estreito de Ormuz à navegação, viu o fornecimento de petróleo às economias diminuir 20% da noite para o dia, mergulhando o mundo inteiro numa crise sem pára-quedas — ele, o grande defensor da economia baseada no petróleo. É preciso ser um lambe-botas consagrado, como o secretário-geral da NATO, o infeliz Mark Rutte, para louvar Trump pelo desfecho da desventura iraniana. Quatro meses de humilhação militar, de desprestígio político e de uma lição de geopolítica aprendida à custa de nós todos desembocaram naquela patética declaração de que, firmado um memorando de entendimento com o Irão para posteriores e incertas negociações de paz, tinha “ordenado a reabertura ao tráfego do estreito de Ormuz”, como se houvesse por aí alguma alma penada que ignorasse que o estreito só abriu quando o Irão o consentiu. Agora resta-lhe tentar que o Irão aceite regressar aos termos do acordo negociado com a Administração Obama, a Europa, a China e a Rússia, e que ele classificou como “o pior acordo alguma vez assinado na história dos Estados Unidos”. Se conseguir fazer regredir a situação ao ponto em que estava antes da guerra, reclamará vitória — depois de ter gasto na aventura 120 mil milhões de dólares dos contribuintes americanos e uns tri­liões de danos incalculáveis causados às economias de todos. Mas, se o conseguir, terá ainda de segurar a fúria destruidora de Israel e os seus planos para erguer a toda a sua volta o “Grande Israel” — que, não vale a pena iludirmo-nos, não é só o sonho do Governo criminoso de Netanyahu e do seu bando, ou a satisfação dos interesses pessoais do PM israelita, mas também, e desgraçadamente, a vontade largamente maioritária da população de um país que já foi governado por gente com a estatura de uma Golda Meir ou de um Shimon Peres e que hoje é defensor do genocídio de Gaza, do terrorismo dos colonos judeus na Cisjordânia, da ocupação do Líbano, da Síria e, se possível ou julgado necessário, da Jordânia e do Irão.

A mais estúpida de todas as guerras
Ilustração Hugo Pinto

2 A verdade, porém, é que, para já, todos suspiramos de alívio com a “pax trumpiana”. Frágil, incerta, tardia, é pelo menos uma esperança. Já na Ucrânia, cuja guerra já ultrapassou em tempo a I Guerra Mundial, tal como esta, nada de novo na frente de batalha. Exaustos, massacrados, sem vitória militar à vista, ambos os lados gritam por alguém que os vá ajudar a pôr fim àquilo. Com Donald Trump desinteressado do assunto, concentrado noutras frentes e tendo deixado para os europeus os custos do apoio militar à Ucrânia, esta seria então a hora de a Europa tentar mediar um esforço de paz, depois de se ter queixado que a falhada mediação de Trump a deixou de fora, há uns meses. Mas qual quê? Como se não houvesse nem urgência nem novidades, a Europa prossegue na sua política de sempre: armas e dinheiro para a Ucrânia ganhar a guerra (!) e sanções para a Rússia. Todos contentes, acabam de aprovar o 21º pacote de sanções a Moscovo, cujo principal efeito é o de impedir os europeus de comprar petróleo a 50 dólares a Putin e fazê-lo a 90 dólares a Trump — fora o gás, que preventivamente se tratou de impedir que chegasse à Europa dinamitando os gasodutos russos. Simultaneamente, e tomando como pretexto o sobrevoo de dois drones supostamente russos sobre a Roménia e a Letónia, até já o chefe da Luftwaffe se oferece para dizimar os russos em combate aéreo. Que recordações felizes, que regresso à história! Que estratégia vencedora e oportuna!

3 Não tenho nenhuma posição de princípio relativamente a privatizações. Sou a favor quando o Estado não responde às necessidades das pessoas, como seria de esperar e aparentemente a privatização de um serviço ou de uma empresa pública ou a abertura à concorrência entre público e privado aparece como melhor solução. Sou contra quando estão em causa funções de soberania ou bens e serviços alienáveis pelo Estado, como a água, as praias, etc. Mas sou contra também quando se torna evidente que a principal razão de uma privatização é a satisfação de interesses particulares, e não a melhor prestação do serviço público. Entre todas as privatizações a que já assistimos nos últimos 50 anos, nenhuma me pareceu mais desnecessária e mais prejudicial ao interesse público do que a da ANA — Aeroportos de Portugal. Tratava-se de uma empresa pública que tinha o monopólio da exploração de um serviço essencial: a exploração do espaço aéreo e da entrada por via aérea em território nacional de um número de estrangeiros que é o dobro da população residente. Era um grande negócio, e com ele o Estado ganhava dinheiro tranquilamente. Mas, a troco de um preço que ao fim de oito anos já estava amortizado pelos lucros, esse grande negócio foi oferecido à francesa Vinci, com experiência incipiente no sector. E a Vinci revelou aquilo que era de prever: uma absoluta incapacidade ou desinteresse em prestar um serviço aceitável para os passageiros, a par de uma insaciável voracidade pelo lucro, bem patente nas 24 actualizações de taxas que já levou a cabo no aeroporto de Lisboa e que, nos Açores, levou mesmo ao abandono da Easyjet, indisponível para pagar os preços exigidos pelos franceses. A própria IATA veio recentemente dizer que a Vinci estava apenas centrada nos lucros, sem realizar investimentos correspondentes. E a AirHelp, uma organização votada aos direitos dos passageiros, deu à Vinci a honrosa medalha de ter visto o aeroporto de Lisboa classificado em 274º lugar entre 277 aeroportos analisados no mundo inteiro — uma classificação perfeitamente adequada àquilo que cada passageiro do Aeroporto Humberto Delgado pode constatar quando o frequenta. E é esta empresa, a que um Governo do PSD deu a concessão da exploração de dez aeroportos em Portugal, que outro Governo do PSD confia agora para que ela leve a cabo a construção do futuro aeroporto de Lisboa sem custos para os contribuintes. Esperem sentados ou não percam mais tempo a alimentar ilusões.

4 E agora vamos para umas semanas de genuíno “patriotismo”: bandeirinhas nacio­nais nas janelas das casas ou dos carros, camisola da Selecção vestida, mão no peito a escutar o hino e inevitáveis vénias, que nunca serão de mais, a Cristiano Ronaldo. Com isto nos consolamos.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Literalmente

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 21/05/2026)


Estamos literalmente amarrados a soluções do passado, tendo desperdiçado os tempos de calmaria e abundância para agora enfrentarmos um mundo que se estilhaça à vista de todos.


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

 Já aqui desabafei que é absolutamente inacreditável como é que em tão pouco tempo o planeta inteiro ficou nas mãos de um louco perigoso e ignorante, em roda livre perante uma caterva de líderes mundiais quase todos acobardados e complacentes com o louco. Todos, à vez, convidam-no, vão visitá-lo, humilham-se a seus pés, tentam adoçar-lhe a boca de lobo faminto. Tudo em vão: quanto mais cedem e rastejam, mais ele quer. Primeiro foi Zelensky, quase insultado à vista do mundo por se ter atrevido a pedir mais armas. Depois foi Von der Leyen, em representação da Europa, humilhada e obrigada a aceitar um acordo desastroso para que ele não continuasse a sua demencial guerra de tarifas contra os europeus. Depois, o secretário-geral da NATO, serventuário obediente, que lhe manda bilhetes privados com elogios e que ele, educado como é, logo trata de tornar públicos. Depois foram os ingleses, recebendo-o em Windsor com as honras devidas ao rei que ele imagina ser e apenas para ganharem um desconto de velhos amigos nas tarifas. Seguiram-se, em fila obediente, alemães, franceses, italianos, japoneses, árabes e a Prémio Nobel da Paz e confessa admiradora do homem, que julgava obter a bênção dele para suceder na presidência da Venezuela ao raptado Maduro e acabou por vê-lo escolher antes uma marioneta que lhe faz todas as vontades — a última das quais a entrega para julgamento nos EUA do ministro da Indústria, extraditado à revelia da Constituição e sem sequer passar por um tribunal local. Os únicos que não se curvaram aos mandos e desmandos do louco foram o primeiro-ministro do Canadá, que ele ameaçou tornar o 51º estado da União, e o primeiro-ministro de Espanha, que, ao contrário dos restantes membros da NATO, não aceitou a ordem para passar a gastar 5% do PIB em Defesa e também recusou ceder as bases espanholas como plataforma do ataque ao Irão — enquanto ele vai retirando tropas da defesa europeia para as alocar a outras guerras que mantém ou que cogita. E, claro, Putin e Xi Jinping, pois que, como é sabido, este grande homem é forte com os fracos e fraco com os fortes. Estamos literalmente tramados.

Literalmente
Ilustração Hugo Pinto

Quanto a nós, portugueses, recebemos do secretário de Estado Marco Rubio, primeiro, a honra de integrar a shortlist dos países amigos que não tinham falhado com apoio à aventura militar no Irão — um extraor­dinário case study de incompetência, ignorância e impreparação da maior potência militar e económica do mundo. E depois, há dias, a honra de sermos apontados solitariamente como o país que cedeu uma base essencial à aventura sem sequer perguntar para quê. E a troco de nada, nem um descontozinho nas tarifas, nem uma gratificação, ainda que simbólica, pelo uso das Lajes. O infeliz Paulo Rangel, que se toma pelo chefe de uma coisa inexistente, que é a nossa política externa, assim duas vezes humilhado publicamente, quis vir esclarecer, com toda a “clareza”, a declaração “não literal” de Rubio. Uma coisa, diz ele, foi a utilização das Lajes antes da ofensiva contra o Irão, outra coisa foi depois disso. Mas, tanto quanto se percebeu, antes não perguntámos para que queriam utilizar a base e autorizámos e depois de sabermos continuámos a autorizar. Literalmente. E até se dá este facto irónico: enquanto as Lajes albergam 15 gigantescos ­aviões KC-30, que abastecem em voo os aviões que vão atacar o Irão, as mesmas Lajes ficaram dias sem jet fuel para os voos comerciais com a ilha. Mas já nada me surpreende nesta profunda e profícua relação de amizade com os nossos “aliados” do Atlântico Norte: não é verdade que depois de os ucranianos terem mostrado ao mundo inteiro que um drone, que custa uns €20 mil, é mais eficaz como arma defensiva e arma ofensiva, ao solo, ao ar ou ao mar, do que um caça F-35, que custa €100 milhões (fora as peças e os upgrades), nós nos preparamos para comprar ao fiel amigo umas esquadrilhas de F-35 para os quais nem sequer sabemos se teremos pilotos? E isto num país que tem uma das melhores empresas de fabrico de drones, bastamente usados na Ucrânia, e que tem em construção na Roménia um porta-drones encomendado pela visão de Gouveia e Melo? Somos, literalmente, o mais fiel dos aliados.

Um bom exemplo do brilhantismo da visão de futuro dos líderes europeus, de cujo conclave fazemos parte, foi a condecoração de Cavaco Silva com a Ordem Europeia de Mérito pelo seu papel na “política de coesão europeia”. Não sei ao certo em que terá consistido tal papel, que, pelos vistos, impressionou os seus pares, mas do fundamental que retenho da década de governação cavaquista fica a construção de milhares de quilómetros de auto-estradas, a par do desmantelamento ou abandono de mil quilómetros de via férrea, a aposta total na eucaliptização do país, que a seguir pagamos com incêndios e o abandono da agricultura e do interior, ou no turismo de massas como alavanca principal da economia, mas à mercê de crises cíclicas demolidoras: pandemias, falta de combustível, incapacidade de resposta nos aeroportos. Uma visão de futuro, pois. Quanto à “coesão europeia”, que nos valeu milhões a perder de vista, e agora que o ciclo de recebedores líquidos parece estar a chegar ao fim, fica-nos o saldo de um país cuja produtividade laboral por hora está nos €29, contra os €44 da média na União Europeia, e um Estado que, em consequência, se substitui à falta de dinamismo da sociedade, transformando-se no maior gastador de riqueza do país para sustentar uma população de subsidiodependentes. Hoje somos uma sociedade onde nada do que é público funciona decentemente e tudo o que é privado só funciona à custa do trabalho imigrante. Claro, não foi Cavaco Silva o responsável por tudo isso: a seguir a ele vieram outros, socialistas ou centristas, que prolongaram ou até agravaram o estilo e o destino da governação. Mas foi ele quem deixou que se instalasse a mentalidade do facilitismo, de viver à sombra da bananeira dos dinheiros europeus e de optar sempre pelas soluções mais fáceis, atractivas para a próxima eleição, desastrosas para o futuro.

Estamos literalmente amarrados a soluções do passado, tendo desperdiçado os tempos de calmaria e abundância para agora enfrentarmos um mundo que se estilhaça à vista de todos. Sem regras, sem princípios, sem concertação quanto aos problemas comuns, ocupado em guerras sem sentido e numa irresponsável corrida às armas, que faz a felicidade dos seus fabricantes, enquanto o Ártico se derrete, a Amazónia seca e os pobres entre os pobres foram abandonados à sua sorte, porque os ricos precisam do dinheiro para armas, para pagar os custos da aventura iraniana ou do massacre dos palestinianos. E governados ou por criminosos ou pelos seus vassalos.

Saiba mais aqui

 

2 Mão amiga deu-me conhecimento de uma notícia da CNN online de que existe uma escuta que me envolve com, presumo, algum eventual suspeito no processo chamado Monte Branco. Se bem me lembro, o referido processo investigava um senhor que se dedicava a transferir fortunas para o estrangeiro ilegalmente. E a dita escuta ficou lá a germinar mais de 12 anos, à espera de qualquer coisa mais que pudesse aparecer pelo chamado “método de arrasto” da investigação. No DCIAP aplica-se a lei de Lavoisier: nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Porém, no meu caso concreto bem podem esperar sentados: nunca tive um tostão que fosse no estrangeiro e do Monte Branco só conheço a montanha suíça. Mas já nada me espanta depois de ouvir o procurador-geral da República e ex-chefe do DCIAP declarar, imperturbável, que sete anos de investigação preliminar a José Sócrates, no Processo Marquês, lhe parece um “prazo razoável”. Assim como, presumo, os quatro anos de investigação que já leva o Processo Influencer: dois ex-primeiros-ministros publicamente apresentados como suspeitos de corrupção no exercício de funções — num caso até conduzindo à sua demissão e subsequente queda de um Governo de maioria absoluta. É assim que eles vêem a missão da Justiça e as regras de conduta de quem investiga para acusar. E estamos literalmente à sua mercê.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia