Nas mãos de um louco mau

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 08/05/2026)


Não sei quanto mais tempo é que o mundo, o Ocidente, a Europa, as democracias e as nações civilizadas esperarão ainda para encarar Donald Trump como um terrorista planetário e organizarem-se para lhe fazer frente.


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Gengis Khan era um pacifista ao pé de Trump. Nero era um aprendiz de incendiário que pegou fogo a Roma mas não ao mundo inteiro. Calígula era um pobre vaidoso comparado com a demência narcísica do Presidente dos Estados Unidos. Até o grande, o infalível Kim Jong-il fica aquém do culto de personalidade deste louco insaciável. E mesmo Estaline, Hitler, Mao ou Pol Pot, encarnações do mal absoluto, tinham pelo menos um plano de acção coerente, ainda que tenebroso, enquanto que com Trump nem ele próprio sabe onde o conduzirão as suas bravatas — como se está a ver no Irão. É verdade que eles perseguiam e fuzilavam os adversários, ao passo que Trump também os persegue, mas ainda não os fuzila, apenas porque não pode, embora, como qualquer outro ditador, vá dando os passos necessários para lá chegar. Os seus recentes ataques à Alemanha e, por arrasto, à Europa e à NATO mostraram, para quem ainda tivesse dúvidas, que ele não respeita tratados, nem acordos, nem palavra dada. Que não conhece regras, nem limites, nem vergonha, e por isso é capaz de se gabar e orgulhar-se de actos de pirataria internacio­nal ou de ameaçar destruir numa noite toda uma civilização pelo método Hiroxima de vitória militar.

Não sei quanto mais tempo é que o mundo, o Ocidente, a Europa, as democracias e as nações civilizadas esperarão ainda para encarar Donald Trump como um terrorista planetário e organizarem-se para lhe fazer frente. Mas as coisas agora parece que finalmente começam a mudar e vemos aliados ou contemporizadores do trumpismo, como Merz, Meloni, Starmer, Von der Leyen ou António Costa, já a balançarem face ao óbvio. A recente Cimeira Política Europeia, na Arménia — para a qual foram convidados países outros como Inglaterra, Turquia ou Canadá —, foi a prova disso, com uma agenda centrada na coordenação de uma resposta política ao destrambelhamento (até fisicamente patente) deste alucinado. Porém, ocupado com o banco de horas e a caça aos imigrantes (também aí em contracorrente com o resto da Europa), o nosso primeiro-ministro não “teve agenda” para estar presente. Mas há que compreender: Erevan fica longe e o que iria fazer a uma cimeira convocada em parte para responder a Trump, o único Governo que, além do Governo genocida de Israel, apoia sem rodeios, compreende e ajuda Donald Trump no seu crescente desvario? O nosso Governo, em nome de Portugal, face ao ataque sem aviso contra o Irão, “está com o nosso aliado americano” e oferece as Lajes, de borla e sem questionar. Face às sucessivas amea­ças de Trump de retirar os Estados Unidos da NATO ou de desproteger a Europa, obedece à ordem de se arruinar a comprar armas — e de preferência americanas, como uma caterva de F-35 ao preço de €100 milhões cada e mesmo que depois não haja pilotos para os aviões. Ele manda e Montenegro e Rangel obedecem e até agradecem, na mais indecente postura da nossa diplomacia desde o “orgulhosamente sós” de Salazar.

Nas mãos de um louco mau

2 Nunca hei-de perceber por que razão é que os nossos deputados acham que é gritando que se tornam mais credíveis, ou mais verdadeiros, ou mais populares. Não são todos, é claro, mas há um grupo seleccionado deles e delas que só sabe falar aos gritos — e por vezes até servidos por vozes estridentes ou esganiçadas, que transformam a Assembleia da República não numa peixeirada de mercado, porque as peixeiras não gritam assim, mas numa espécie de gaiola das loucas, onde é suposto estarmos representados. Também constato que quanto maior é a demagogia do discurso maior é a gritaria, como se achassem que o povo é mais facilmente enganado por quem mais estardalhaço causa. E nesse capítulo ninguém bate os deputados do grupo parlamentar do Chega, que, seja qual for o tema e o pretexto, gritam como se quisessem vender casacos de pele aos tuaregues do Saara num souk da Argélia. Seguem as pisadas do seu líder, André Ventura, forçado a gritar ainda mais para vender ao povo o supra-sumo da demagogia: subida das pensões e baixa da idade de reforma. De facto, é preciso gritar muito para conseguir argumentar a favor de uma progressão aritmética contra uma progressão geométrica: as pessoas a viverem cada vez mais e as pensões a subirem sempre. Se pensarmos que baixando apenas um ano na idade da reforma haveria 100 mil portugueses que automaticamente deixavam de ser contribuintes da Segurança Social e passavam a ser beneficiá­rios, quanto anos seriam necessá­rios para o sistema rebentar? Como explicar ao povo, mesmo aos gritos, que a geração no activo deve pagar os custos insustentáveis da geração reformada até que o sistema vá à falência e os que andaram a pagar não tenham depois reformas?

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3 Por más razões, fui um privilegiado no que respeita a saber de perto o que significa a violação do direito à intimidade da vida privada e o direito ao sigilo da correspondência, que é um direito instrumental do outro e ambos consagrados na nossa Constituição: cresci numa casa onde fui ensinado a saber que a PIDE escutava todas as conversas telefónicas, e anos mais tarde, na Comissão de Extinção da PIDE, não quis, obviamente, consultar a transcrição das nossas conversas escutadas pelos esbirros da PIDE, mas encontrei cartas enviadas pelos meus pais e que nunca chegaram ao destino ou outras que nunca receberam. Julguei que tudo isso tinha acabado de vez na manhã do Largo do Carmo, mas a verdade é que desde o 25 de Abril só tenho visto, revisão legal após revisão, recuarem as garantias individuais e avançarem as excepções permitidas à investigação penal.

Uma semana depois de ser conhecido um relatório de uma inspecção interna ao DCIAP — o coração e a jóia da coroa do Ministério Público (MP) —, que, entre outras graves descobertas, se deparou com processos há anos sem qualquer movimento, enquanto os investigados continuavam com computadores apreendidos, contas bancárias congeladas e suspeitas públicas permanentes, eis que um grupo de trabalho do mesmo MP veio apresentar as suas propostas para acelerar a tramitação dos processos. A primeira conclusão dessas propostas (lidas na imprensa), que não constitui surpresa, mas não deixa de ser chocante, é que não existe uma só medida prevista para penalizar os procuradores que arrastam processos sem sentido nem desfecho previsível, majestaticamente sentados em cima do tempo como se não houvesse ninguém a sofrer consequências enquanto eles dormem o sono dos justos: chamam a isso, a essa absoluta irresponsabilidade profissional, a autonomia do MP. Logicamente também é sem surpresa que vemos o grupo de trabalho propor duas medidas que tinham sido recomendadas pelo Conselho Superior da Magistratura e, ao que parece, em vias de serem adoptadas pelo Governo: multas pesadas aos arguidos ou seus defensores que usem “expedientes dilatórios” para atrasarem o andamento dos processos (uma avaliação subjectiva unicamente a cargo dos próprios magistrados) e a impossibilidade de recorrer de uma sentença para o Supremo Tribunal de Justiça por quem não foi condenado a menos de 12 anos de prisão. Mas é no campo da invasão da privacidade alheia que os senhores procuradores mais exibem as suas pretensões visionárias. Eles querem poder ter acesso à geolocalização instantânea de quem considerem suspeitos, a poder examinar todo o correio electrónico apreendido em computadores sem antes passarem pelo crivo de um juiz de instrução que lhes diga o que podem e não podem usar e, cereja no topo da libertinagem, poderem aceder remotamente ao correio electrónico dos visados sem sequer terem de examinar os seus computadores na sequência de um mandado de busca e apreensão de um magistrado e da sua autorização para tal. Ou seja, e indo isto para a frente, um cidadão, que pode ser absolutamente inocente de qualquer suspeita — vítima, por exemplo, de uma simples denúncia anónima por razões de vingança pessoal —, pode ter os seus telefonemas escutados sem qualquer motivo para desconfiar de tal e indefinidamente; pode, via telemóvel, dar a conhecer a um procurador onde está e por quanto tempo, em qualquer momento, e pode, tranquilamente e como todos nós, estar a usar o seu computador, nele armazenando a sua correspondência privada, a sua vida profissio­nal, financeira, familiar e pessoal, enquanto à distância o vigilante procurador vai seguindo passo a passo tudo o que acontece na sua vida.

Creio que não vale a pena perder muito latim a classificar estas 130 medidas reivindicadas: trata-se de propor, sem mais, a substituição de um Estado democrático, fundado no respeito pelos direitos das pessoas, num Estado policial. Mas seguramente haverá quem não se importe: por alguma razão havia tantos informadores da PIDE e muitos até voluntariamente e pro bono.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

O que une um governante, uns banqueiros e uns bispos?

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 10/04/2026)


O que há então de comum entre um governante, uns banqueiros e uns bispos, para lá de todas as boas acções e toda a recta conduta de que todos dão provas, cada um em seu sítio? O dinheiro, o amor ao dinheiro. Eis o que os une.


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Tivemos, durante o Estado Novo, uma diplomacia que, à falta de melhor e pretendendo defender a justiça de um colonialismo aberrante, há muito já denunciado e descartado pela História, se dizia “orgulhosamente só”. Mas não era orgulhosamente e sim vergonhosamente, mantendo três guerras coloniais em África e uma ditadura na pátria. Tivemos depois, entre o saloio e o arrogante-subserviente, o episódio em que o primeiro-ministro Durão Barroso ofereceu a Base das Lajes e o nosso comprometimento para que um refractário à guerra do Vietname, George W. Bush, pudesse limpar o seu cadastro e declarar-se “um Presidente em guerra” — uma guerra, levada ao Iraque, ilegítima, à revelia da ONU e com pretextos inventados e provas falsificadas, que Durão Barroso declarou autênticas. Mas talvez na era contemporânea, nunca a nossa diplomacia tenha descido tão baixo como agora, em que as Lajes servem de tapete voador sobre o qual nos curvamos à passagem dos aviões e drones do louco perigoso que governa os Estados Unidos e que levou ao Irão uma guerra sem sombra de legitimidade e até de estratégia política e militar, e, por arrasto, ao mundo inteiro. Hoje, graças à diplomacia de Luís Montenegro e Paulo Rangel, tenho vergonha de ser português e só me consolo um pouco pensando que quem só faz o que sabe não é inteiramente responsável por toda a ignorância que carrega.

Porém, não se trata apenas de política ou de diplomacia. Trata-se também da segurança nacional. Colocando Portugal na primeira linha de apoio à linha da frente desta demência trumpiana-israelita, o Governo coloca-nos também na posição de alvo legítimo e natural de represálias iranianas. É possível que o preclaro presidente do Governo Regional dos Açores ainda não tenha visto o assunto a esta luz e por isso declara não ter opinião sobre a legitimidade desta guerra e do apoio que lhes estamos a dar, preferindo, diz ele, confiar na justeza da decisão do Governo da República e do seu próprio partido. O homem ouve o desvairado narciso americano dizer que vai varrer uma civilização milenar numa noite, levando-a de volta à Idade da Pedra (pelo método Hiroxima-Nagasáqui, supõe-se), e não tem opinião sobre o assunto. Mas quando interrogado sobre se o nosso “aliado” americano não deveria ao menos pagar uns tostões, ou uns peanuts, pela utilização das Lajes, aí já José Manuel Bolieiro tem opinião própria e pronta. Sim, declara ele, atendendo à importância que agora se voltou a confirmar da Base das Lajes para as guerras dos Estados Unidos deste lado do mar, seria justo que, tal como sucedeu no passado, eles pagassem alguma coisa… aos Açores. Ou seja, entendamo-lo: princípios, ele não tem nem o incomodam; mas uma esmolinha nunca fez mal a ninguém.

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2 Em 2025, os três maiores bancos portugueses, a Caixa, o BCP/Millennium e o Novo Banco, por circunstâncias diferentes, registaram a maior margem de lucro em toda a Zona Euro. Juntos, e alavancados nas taxas de juro do BCE, tiveram uma média de 15,37% de lucro, de tal maneira os deixando eufóricos que decidiram distribuir dividendos exorbitantes pelos seus accionistas, oferecendo-se ainda para lhes recomprar, com ganhos imensos, acções dos próprios bancos. O Novo Banco, sustentado durante anos com as injecções de dinheiro público a título de “capital contingente”, e após ter-se desembaraçado a mata-cavalos e estranhamente do imenso património herdado do Grupo BES, vai ainda mais longe na euforia, propondo-se reservar já 500 milhões para oferecer ao futuro dono do banco, os franceses do BPCE, que assim começam a facturar antes mesmo de entrar. Mas se tudo isto voltar a dar para o torto (longe vá o agoiro!) adivinhem a que porta irão eles bater para pedir ajuda? Sim, aos mesmo contribuintes e depositantes, que, à falta de alternativa, vêm as suas poupanças depositadas a render pouco mais que zero, enquanto ouvem os banqueiros gabarem-se de ter conseguido “lucros históricos”. Felizmente, nem tudo são más notícias: somos um país pobre mas com bancos ricos — ciclicamente ricos, num país eternamente em apertos.

3 A Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa — (só o nome já diz muito sobre a ignomínia de que se tratava) — começou por apurar 4815 crianças abusadas em escolas católicas, seminários, residências paroquiais ou até nos confessionários, em Portugal e ao longo dos anos. Esse número, que se supõe ser apenas uma pequena parte da realidade vivida, desceu primeiro, e após exaustivas e traumáticas inquirições às vítimas que tiveram a coragem de se apresentar, para 512 pedidos de indemnização “validados”; depois para 95 “aprovados”; e finalmente, e após repetição da devassa inquisitória sobre as vítimas, para 57 a indemnizar. Cinquenta e sete casos que a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) aceitou indemnizar por anos de abusos silenciosos e — (reconheceu-o a Comissão Independente) — deliberadamente encobertos e silenciados pela hierarquia católica ao longo dos anos: 57! E assim, com esta ligeireza sobre os ombros, a CEP estabeleceu como valores indemnizatórios a pagar quantias entre os 9000 e os 45.000 euros, tudo desembocando num esforço de indulgência plenária a si própria que no total monta a 1,6 milhões: uma gota de água na imensa riqueza de que dispõe a Igreja Católica Portuguesa e uma redução “significativa” sobre os valores propostos pela Comissão Independente. E com isto, comunicou a CEP, os bispos portugueses “expressam o compromisso que sempre assumiram” de honrar as suas responsabilidades, “colocando as vítimas no centro das nossas prioridades”. Deveras? Será mesmo isso em que eles acreditam e que julgam que nós acreditamos?

Numa conclusão misericordiosa, posso pensar que os nossos bispos não entenderam bem o que estava em causa e a dimensão do pântano que foram chamados a drenar. Só isso poderá explicar, benevolamente, todos os inúmeros esforços para minimizar o assunto, desmotivar as vítimas, desvalorizar e desconsiderar as queixas, ignorar as recomendações da Comissão nomeada e, de um modo geral, tentar passar a mensagem de que nada do que tinha acontecido fora excessivamente grave, frequente e sabido, conforme logo se apressou a declarar o bispo do Porto, quase brincando com a situação. Já tínhamos visto isto com o caso do infame padre Frederico, da Madeira, pedófilo e assassino, cujo julgamento foi comparado pelo bispo do Funchal ao “martírio de Cristo”. Mas precisamente porque já tínhamos visto isso e porque em toda a Cristandade, e sob o impulso intransigente do Papa Francisco, se sucediam as revelações dos escândalos ocultados durante décadas e a responsabilização da hierarquia envolvida, por acção ou por omissão, houve quem acreditasse que a Igreja Portuguesa, embora chegando tarde, estaria à altura das exigências. Puro engano: foi tudo o contrário aquilo que aconteceu. Mas ao pensarem que assim fecham o caso à luz da justiça humana (porque na divina, se existir, não terão perdão), os nossos bispos mostraram que preservam mais os criminosos do que as vítimas, o dinheiro do que a justiça, o esquecimento do que a dignidade. E pior: assim decidindo, passam a mensagem de que tudo o que de sinistro aconteceu foi feito com o seu conhecimento, talvez mesmo com o seu consentimento, mas seguramente com a sua conivência. Porém, se a pedofilia já é, sem mais, um crime difícil de perdoar, em que uma vítima inocente é arrastada e marcada para a vida pelas perversões sexuais do seu algoz, pior ainda é imaginar que estes crimes foram cometidos sobre crianças indefesas, cuja guarda e educação tinha sido confiada aos criminosos pelas famílias ou pela sociedade.

Eu sei que é injusto tomar a parte pelo todo e que, dentro desta Igreja, existem milhares de exemplos anónimos de sacerdócio dedicado aos outros e ao bem comum. Mas precisamente porque o nosso episcopado pareceu tão pouco interessado em apurar o que verdadeiramente se passou e reparar o que foi feito, não sabemos que parte do todo esteve envolvida. E essa é a injustiça final: manchar a imagem dos bons achando que assim se protege a imagem de todos, incluindo os que não mereciam protecção alguma.

4 O que há então de comum entre um governante, uns banqueiros e uns bispos, para lá de todas as boas acções e toda a recta conduta de que todos dão provas, cada um em seu sítio? O dinheiro, o amor ao dinheiro. Eis o que os une.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

O tempo

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 26/03/2026)

O mundo tornou-se tão apressado e complexo que deixou de haver tempo e distância para o analisarmos conscientemente, ao mesmo tempo que a emergência 
de uma cultura de desinformação planeada e programada, tratou de destruir tudo o que tínhamos como verdade e como notícia.


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Quarta-feira à tarde, quando escrevo este texto, não sei se Trump vai desembarcar marines no Irão, se vai tomar “aquela ilha” ao largo da costa, ou se vai negociar com os iranianos, apesar de, como ele diz, já não haver ninguém vivo com quem negociar. E negociando, não sei o que vai exigir para declarar a retumbante vitória que precisa de declarar ou se, falhada a negociação, vai “levar o inferno ao Irão”, conforme promete. E depois, também não sei se a paz que agora parece pretender, apesar de disfarçada de vitória, seja aceite pelos seus parceiros de Israel e estes se contentem em abocanhar mais um bocado do Líbano e fazer mais uns milhares largos de deslocados. Eu não sei, ninguém sabe: tudo depende de como o homem acordar na sexta, no sábado ou no domingo. Ao certo sabemos só que ele, como já era de prever e se tornou evidente depois, não fazia ideia do que era o Irão — politicamente, militarmente, geograficamente; que nunca imaginou até que ponto a sua estupidez poderia conduzir toda a economia do mundo, pois que também nunca previu o óbvio: que os iranianos fechassem o estreito de Ormuz — por onde, aliás, ele também não sabia que passa 20% da energia fóssil consumida no planeta; e sabemos também que a única coisa que o pode fazer parar são as bolsas a desabar, a economia americana a patinar por conta de uma guerra que os americanos não entendem a não ser como um serviço prestado a Israel, e, em consequência, uma derrota anunciada nas eleições intercalares de Novembro, se ele não puser fim a esta loucura.

A Europa espera para ver, dependente dos achaques do louco de Washington. Espera caladinha, como convém desta vez, não vá o homem deixar de decidir pelo bom senso, sentindo-se empurrado de fora. Mas, dure a guerra quanto mais tempo durar, há coisas que a Europa aprendeu com ela e a cuja lição não se pode furtar. Primeiro, que continuar a achar que os Estados Unidos de Donald Trump — e depois provavelmente de J. D. Vance — são um aliado fiável e um parceiro de confiança, partilhando dos mesmos valores, é meio caminho andado para o suicídio, para serem apanhados numa guerra ou numa crise desencadeada pelo suposto aliado, sem aviso algum mas com consequências imediatas. Segundo, que desatar a endividar-se para comprar armas às empresas de armamento americano, sem quaisquer garantias de contrapartidas sérias, como quer o secretário-geral da NATO, é uma aventura que não faz sentido algum. Em terceiro lugar, a Europa não pode abrandar, antes intensificar, o seu esforço de apostar nas energias alternativas, libertando-se da dependência mortal dos hidrocarbonetos. E por último, deve prosseguir no caminho recentemente inaugurado de procurar outros parceiros comerciais e diplomáticos, pois que por aí também passa muito da sua independência.

O tempo
Hugo Pinto

2 Olhada à luz do desarranjo do mundo, a cena política portuguesa oscila entre o surreal e o patético. Andar a discutir o novo estatuto dos transexuais, a inultrapassável escolha de juízes para o Tribunal Constitucional, indicados pelos partidos mas supostamente independentes, ou os almoços de Isaltino Morais em Oeiras, enquanto o mundo conhecido desaba à nossa volta, oscila entre a inconsciência e a irrelevância. E se olharmos para o lado, para a grande Espanha, e virmos que têm combustíveis mais baratos, electricidade mais barata, verdadeiras medidas de apoio à economia sustentadas com uma diminuição real da receita fiscal, e, em cima de tudo isso e para desespero da direita espanhola e dos seus admiradores lusos, uma política externa que a torna admirada em todo o lado, deveríamos corar, se não de vergonha, pelo menos de inveja. Mas continuaremos assim, o Governo propagandeando a inércia, a incapacidade de pensar para a frente e de agir, como se estivesse ocupado em grandes reformas, a oposição armadilhada na vontade de propor diferente e o medo de ter de enfrentar eleições antes de ter convencido alguém de que faria diferente e melhor, e o Chega afogado em sucessivos escândalos escabrosos, como era de prever assim que começasse a ter os tais “tachos” e que com eles viesse o respectivo escrutínio. A ideia que dá é que nada, nem as notícias do mundo, abala o inabalável sono pátrio. E que é isso que o povo quer.

3 Comecei a ler jornais diariamente aos 12 anos, numa época em que, só em Lisboa, tínhamos uns cinco diários matutinos e três vespertinos. Ao longo da vida, nunca perdi o hábito de ler jornais todos os dias, quatro ou cinco por dia e de preferência em papel: sou um confesso dinossauro da imprensa. Depois, e ao longo dos meus mais de 40 anos de jornalismo, a leitura de jornais passou a ser, mais do que um vício, uma obrigação. E mesmo depois de deixar o jornalismo, poucos anos atrás, a actividade de articulista ou comentador continuou a exigir-me a consulta diária de jornais, portugueses e estrangeiros, acrescida dos jornais televisivos e noticiários da rádio — que, por sinal, acho péssimos. A informação confunde-se com o meu dia-a-dia, como uma segunda pele ou a roupa que visto para sair à rua. Mas com o tempo, este doce Nirvana, pessoal e profissional, foi-se alterando e, em algumas situações mesmo, adulterando, deixando de serem consideradas “All the News That’s Fit to Print”, conforme reza o cabeçalho do “The New York Times”, numa das mais certeiras definições do que é informação que conheço. O triunfo ululante da ignorância, associado ao desvario das redes sociais e dos seus algoritmos programados para conduzir os incautos aos abismos de desinformação e manipulação a que os Bezos e os Zuckerbergs deste tempo os querem conduzir docilmente, como carneiros ao redil, inaugurou uma época de nova luta de classes. Só que desta vez não é entre o capital e o trabalho, mas entre o que chamam a “elite” informada e desprezada e a grande massa de ignorantes felizes. E se alguém podia imaginar, como eu imaginei em tempos, que nesta nova luta de classes os vencedores seriam os que se deram ao trabalho de tentar saber, aprender, distinguir a verdade da mentira, tentar ver claro o que não é nítido, enganaram-se redondamente: os vencedores são os ignorantes e os que tiram partido dessa ignorância, servindo, pronto-a-vestir, um simplismo opinativo que se torna irresistível para os crentes. Donald Trump é, obviamente, o exemplo consumado deste mundo assustador, cuja história não vejo como possa não acabar mal.

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E então, chegado àquilo que consta ser a idade da sabedoria, dei-me conta de que talvez saiba mais do que percebo — uma armadilha muito comum. Parece-me que, incapaz de continuar a acompanhar eternamente a urgência e a abundância dos acontecimentos, a menos que nada mais de jeito faça, e mesmo já desinteressado de tanta espuma noticiosa, é chegado o tempo de me deter e recuar — como fazemos diante de um quadro, para melhor o fixarmos, melhor o decifrarmos. Quero tentar entender em vez de saber, olhar em vez de contar, escutar em vez de declarar, pensar em vez de concluir. Quero um dia novo, com menos notícias, menos ruído do mundo e das gentes. A partir de hoje, a minha colaboração com o Expresso passa a quinzenal — um pedido meu que a direcção do jornal teve a delicadeza de compreender e aceitar. Quem sabe se assim mais desprendido desta voragem em que vivemos, não ficarei mais lúcido ou, pelo menos, mais esclarecido!

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia