Truques pró menino e prá menina

(Francisco Louçã, in Público, 29/08/2017)

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Numa reveladora entrevista ao Público, Manuel Pizarro, líder do PS-Porto e seu candidato autárquico, explica como fará campanha simultaneamente em separado do seu presidente da Câmara, Rui Moreira, e a favor de uma nova coligação com ele, que restabeleça a ordem natural das coisas – a que ele candidamente chamou “fazer pelos dois”, escarrapachado em conspícuos outdoors. Assim, quando os jornalistas perguntaram: “Não é fácil fazer campanha contra o parceiro de coligação…”, Pizarro respondeu: “Acho que o truque está em não fazer uma campanha contra ninguém, mas a favor da nossa ideia para o Porto”.

O uso da palavra “truque” nesta resposta não deve ser empolado, afinal palavras excessivas podem sempre ser usadas na linguagem corrente e só quem nunca falou se pode atrever a atirar a primeira pedra. Pizarro usou “truque” e podia ter dito “a arte” ou “a estratégia”, se quisesse ser mais subtil. Nada indica que ele queira enganar os eleitores, até acho que lhes quer dizer precisamente o que pretende para o Porto e para a sua própria carreira como vereador de Rui Moreira. O problema é que aqui arte ou estratégia se parecem demasiado com um truque, este bem à vista de todos: ser candidato só para poder vir a apoiar de novo o outro candidato que espera que ganhe e de que só se separou por umas semanas e por circunstâncias anómalas que ambos lamentam. É nesse sentido que é um truque, é um intervalo em que fala grosso, “fazer pelos dois” segue dentro de momentos. Pizarro “não fará uma campanha contra ninguém” porque precisa desse ninguém para ser alguém no seu projecto para o Porto.

Ora, pergunto-me se isto é assim tão excepcional. Não será que os truques, porventura sem outdoors tão declarativos e sem candura tão expressa, não se estão a tornar o nosso dia a dia do final de agosto?

Dois exemplos de tipos de truques (e já sem contar com a enfastiante polémica acerca dos poemas de Chico Buarque, um pequeno truque para ajustar contas com ele pelo papel que desempenhou na luta contra o golpe palaciano no Brasil e a ascensão de Temer e do seu gang parlamentar) ilustram esta tendência tardo-veranil.

O primeiro truque é o “tudo ao molho e fé em deus”. Exemplo: Cristas, que se atirou ao primeiro-ministro (que a tinha criticado com pouca elegância) lembrando que Costa acabou com os guardas florestais, para esconjurar o seu próprio passado como ministra da agricultura, que a persegue todos os dias, transformando a razão da sua eleição para o cargo que desempenha na sua principal vulnerabilidade. Daí o contra-ataque, mas só a presunção de que o passa-culpas resulta no imediato alimenta esta polémica, enquanto a dirigente do CDS esquece que a voragem da culpabilização nunca a poupará (ela que queria ter feito muito pela floresta mas não fez, excepto promover os eucaliptos e acabar com os serviços florestais).

O segundo truque é o “deita-me poeira para os olhos”. É o caso dos “meninos e meninas”, que se tornou tema favorito da brigada neoconservadora e dos trumpificadores.

meninoReconheço quMENINAe o governo permitiu desastradamente a politização desse conflito com uma editora e não tenho nenhuma simpatia pela ideia de uma norma que defina livros aconselháveis. Mas a questão de saber se livros que apresentam os meninos como garbosos candidatos à aventura de piratas e as meninas como nenúfares caminhando para rainhas convêm aos nossos filhos, essa sim, diz mais sobre os pais do que sobre os filhos.

O PÚBLICO resumia assim os livros: “No conjunto das 62 actividades propostas, existem seis cuja resolução é mais difícil no livro dos rapazes e três que apresentam um grau de dificuldade superior no das meninas. Mas a maior parte das actividades reproduzem uma série de velhos estereótipos. Apenas alguns exemplos: eles brincam com dinossauros, com carrinhos e vão ao futebol, enquanto elas brincam com novelos de lã, ajudam as mães e vão ao ballet; eles pintam piratas, elas desenham princesas”.

O que é que se lê nos trumpificadores? Escândalo, as meninas até aparecem melhor tratadas do que os rapazes. Não percebo bem como é que essa distinção entusiasma esses pais (querem os filhos mal tratados?) e justifica que diferença de tratamento (acham que as meninas sonham e os meninos fazem?). Mas tenho um conselho para lhes dar: se pensam que as vossas filhas vão ser felizes com vestidos de princesas preparem-se para um choque. Elas vão querer mesmo ter uma profissão e uma vida.

O gambozino da maioria absoluta

(Francisco Louçã, in Público, 22/08/2017)

 

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Este texto sugere-me alguns comentários caro Louçã:

  1. A direita já viu que a Geringonça vai até ao fim da legislatura.
  2. Tenta atrair o PS com “os cânticos da sereia” da maioria absoluta.
  3. Prepara a saída de Passos Coelho para tornar eventuais acordos ao centro mais tentadores e menos indigestos para o PS.
  4. Tenta convencer o PS que, mesmo sózinho, a maioria absoluta pode estar ao virar da esquina.
  5. Tudo fábulas encantatórias. Em eleições gerais, em 2019, antevejo um reforço eleitoral dos partidos à esquerda do PS, se até lá não cometerem grandes asneiras, como, por exemplo, abrirem uma crise política.
  6. E a razão é simples: todas as reversões na política de rendimentos que melhorou a vida das pessoas foram consequência das exigências ao PS feitas por esses partidos. Os eleitores viram que o seu voto quer no BE quer no PCP deixou de ser apenas um voto de protesto e que passou a ter influência na governação, logo nas suas vidas. 
  7. Logo, não há razão para que mudem o seu sentido de voto,, antes pelo contrário: muitos pragmáticos de centro-esquerda terão tendência a reforçar tal sentido de voto, porque ele passou a ter relevância prática e para que o PS enterre de vez as suas tentações de construir alianças ao centro, tipo bloco central.

Estátua de Sal, 22/08/2017


Que há quem garanta que os gambozinos existem, é ponto assente; mas que nunca foi caçado tal bicho, parece mais do que certo. Descontando as inquietações popperianas sobre a dificuldade de refutar a primeira hipótese, resta o problema maior para os duvidantes: devemos caçar gambozinos na presunção de que existem ou de que não existem? A questão complica-se ainda mais para quem sustenta que a inexistência de provas documentadas sobre alguma aparição do animal sugere que se trate de uma ficção. Então, a questão passa a ser: devemos aceitar a ideia da caçada que tomamos por pueril ou devemos recusar o jogo, ainda que algum dia pudesse ser provado que a ausência do registo do bicho foi descuido nosso?

A questão da maioria absoluta é mais ou menos como escolher com que estado de espírito se devem caçar gambozinos. Se tomamos por certo que não haverá maioria absoluta possível na actual configuração da relação de forças, então nem vale a pena considerar a fera. E há boas razões para tal agnosticismo: para uma maioria absoluta, o PS teria de comprimir o PSD muito para além do seu mínimo histórico, mesmo considerando que o CDS já está enfraquecido. Então, a única questão interessante passa a ser: porque é que se fala de coisa nenhuma e se discute uma inviabilidade, ou porque é que nos entretemos com uma veleidade gabozinesca?

A resposta pode ser: não interessa a fantasiosa maioria absoluta, interessam os motivos para se falar dela. Exemplo, para o director do Expresso é preciso que o PS tenha maioria absoluta para então ser mais pressionado do que agora. O raciocínio é decerto contraditório com a experiência dos eleitores: eles sabem que se o PS tivesse tido maioria absoluta teríamos tido pensões congeladas por mais quatro anos, redução nas pensões sociais (o previsto era 1020 milhões) e uma nova regra para facilitar despedimentos, pelo menos. O problema não é de pressões, é de realizações.

O director do PÚBLICO segue outra via e pergunta-se se a entrevista recente de Costa, sugerindo um pacto com o PSD depois das autárquicas para decidir fundos estruturais, é mesmo uma abertura a um novo bloco central e portanto a uma maioria absoluta que “só será possível se for construída por quem tem ideias semelhantes sobre como funciona a economia livre, num mercado europeu e cada vez mais global e competitivo.”

Desculpem a franqueza, mas são gambozinos. Nem haverá pacto, cujo enunciado é o tradicional jogo do empurra das culpas, nem haverá vontade de mudar de parceiro a meio do tango. Haverá mais dificuldades nesta segunda metade do mandato, isso tratarei proximamente, mas ninguém pode voltar para trás. É aliás por causa desta certeza que alguns preferem sonhar com a maioria absoluta, reconhecendo que nada podem fazer agora contra as condições que impuseram esta forma de maioria.

Para o PS, a maioria absoluta é também um gambozino: é evidentemente desejada, mas para jogar esse jogo tem de garantir que não conhece o bicho. Ora, vale a pena perguntar porquê. Qualquer enlevo do PS com essa ideia faria ressuscitar os temores de muitos dos seus eleitores, e mais ainda daqueles que precisa de ganhar para concretizar tal ambição, de que o PS volte ao seu programa e à sua política tradicional. Ou seja, para muitos eleitores do PS, a satisfação com a governação actual deriva essencialmente da certeza de que as circunstâncias excepcionais obrigaram o PS a um acordo com a esquerda. E uma maioria absoluta do PS significaria romper com esse acordo para voltar a um passado que assusta.

Assim, a equação gambozino passa a ser: o PS sabe que só conseguiria a maioria absoluta que lhe permitiria afastar os seus parceiros de esquerda se garantisse aos eleitores que nunca o faria e que, se tivesse o poder absoluto, nunca cumpriria o seu programa, antes continuaria submetido a esse mesmo compromisso que pretenderia romper. Gambozinos, portanto.

Ó faxavor, juros baratinhos

(Francisco Louçã, in Público, 19/08/2017)

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Mensagem no telemóvel. “Sr. fulano, transfira mil euros para a sua conta à ordem, sem juros, um ano (TAN de 0%). Acresce comissão de 59 euros na primeira mensalidade. Ligue o número tal, prima 2 e fale com um consultor de crédito. TAEG 17,5% para um limite de cinco mil euros”. Percebeu? Não é para perceber, mas o juro são 17,5%.

Toca o telemóvel.

“Está? É o sr. fulano? Daqui fala João Silva, da agência financeira Tudobom, queria falar-lhe do nosso cartão de crédito…”

“Quem lhe deu o número do meu telemóvel?”

“Bem, está aqui na base de dados.”

“Quem lhe deu a base de dados?”

“Vou perguntar, é um momento… Obrigado por ter esperado. É a base de dados Todostelefones, que regista pessoas que concorreram a sorteios de automóveis.”

“Mas eu nunca na vida concorri a um sorteio de automóveis, não posso estar nessa base de dados. Sabe que é punível por lei utilizar uma base de dados ilegal e há uma Autoridade para vigiar esses abusos?”

“Pois então pode apresentar queixa à tal Autoridade. Mas entretanto vou apresentar-lhe o nosso novo cartão de crédito…”

Toca outra vez o telemóvel.

“Bom dia, sr. fulano. Sou Luís Silva, da Boasaúde, quero apresentar-lhe um plano financeiro que lhe garante todos os cuidados de saúde…”

“Não estou interessado.”

“Porquê? Porque é que não quer um plano que lhe garante todos os cuidados de saúde?”

“Não tenho de lhe dar explicações, não estou interessado.”

“Vou então registar, sr. fulano, que não está interessado num plano que lhe garante todos os cuidados de saúde.”

Saio do Metropolitano e encontro uns jovens vestidos com coletes reflectores cor de laranja. As farpelas têm Idosossós escrito em letras garrafais. Aproximam-se de todos os adultos que não tenham ar de estrangeiro.

“Bom dia, sabe que há idosos sós que vivem abandonados?”

“Sim.”

“E acha que eles devem ficar abandonados?”

“Não.”

“Somos da Idosossós e estmos a proteger os idosos abandonados. Se quiser apoiar o nosso trabalho para proteger os idosos abandonados, tenho aqui um folha para que desconte pelo banco só 60 cêntimos por dia para proteger os idosos abandonados.”

“Portanto, pede-me um contributo de cerca de 200 euros por ano, mas eu nunca ouvi falar da vossa organização, importa-se de me dar algum folheto que descreva a vossa actividade, quem são os corpos gerentes, e referências de onde trabalha com os idosos abandonados?”

“Isso não temos.”

“Site da internet com essas informações?”

“Isso também não temos.”

Chego a casa, toca o telefone fixo.

“Bom dia, é de casa do doutor fulano?”

“Que deseja?”

“É para lhe comunicar que ganhou um prémio na agência de viagens Todomundo e que o pode vir levantar a partir das 9h dos dias de semana.”

“Mas não concorri a nenhum prémio.”

Não lhe aconteceu nada disto? Adivinho que é todos os dias. A sua vida, como a minha, é uma aventura em que navegamos no meio de manipulações, truques, extorsões, seduções e juros baratinhos. Dizem-nos que tudo é fácil, prémios, sorteios, viagens, cartões de crédito, telemóveis. As empresas não vendem, distribuem. A finança não empresta, entrega. Não há contratos, há palavras doces. É um mundo maravilhoso.