E no fim do jogo perde sempre a Alemanha

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 15/02/2022)

Um comentador com acesso aos palácios revelou que, durante a campanha eleitoral, Costa teria sigilosamente acordado com Rio o envio de tropas portuguesas para a Roménia, no contexto da escalada russo-ucraniana e seguindo o princípio de ter tropas próximo dos aliados para que sejam vistas, mas não demasiado próximas. Não passa despercebido que a exuberância desta comunicação, que o Governo assim anuncia por interposta pessoa, contrasta com a contenção pública de quem a teria que promover o envio dos soldados, o Presidente, que se limitou a repetir o apelo a soluções diplomáticas e mesmo a lembrar que a aprovação ainda não ocorreu. Qualquer que seja o significado destes percursos florentinos, em que até pode acontecer que nada seja o que parece, o Estado fala para já a duas (ou a três) vozes: o governo faz constar mas não diz, confirmando a fidelidade Nato a um pedido militar de que, aliás, o país não tem conhecimento, enquanto o Presidente, sem o qual a operação não é legal, sugere reservas em relação à corrida para a guerra.

Este jogo de sombras tem justificações e cálculos, diferentes para uns e para o outro. O Governo não quer enfrentar a desconfiança popular em relação a estas guerras por interposta pessoa, já tivemos a nossa dose neste século, mas não deixará de se mostrar fiel a Washington quando chegar o momento. Por isso, quer mandar tropa, mas pouca, para que os entusiastas da guerra não se sintam fora do mapa, mas esperando também que os opositores não se indignem demasiado, não chega a ser um regimento mas não é só uma patrulha. E nada diz sobre o assunto, até chegar o dia de repetir as suas juras à aliança militar, o que fará sem rebuço – mas o mais tarde possível. Entretanto, o Presidente, que pode estar a ver um pouco mais longe, talvez se interrogue sobre o futuro da Europa no novo tempo das botas cardadas.

A Europa está dividida entre o partido da guerra e o partido da economia. O partido da guerra é esta ponte entre Washington e Kiev, em que perpassa um perfume a pólvora que entusiasma algumas chancelarias, em particular os governantes que, como o da Ucrânia, buscam na estratégia de tensão criar um sentimento de unidade nacional que lhes resolva a fragilidade da liderança, obter os fundos suficientes para simular um governo e garantir a proteção militar que permita ameaçar os vizinhos. Esse partido marca a data da guerra, incentiva Moscovo a avançar, mantém a imprensa ocupada com “sinais”, retira embaixadores em tropel, faz fugir os deputados mais impressionáveis e pinta a tragédia, mesmo que a população ucraniana pareça desconfiada e dê aos enviados das televisões imagens de menos pânico do que o adequado para compor tanto apocalipse.

Só falta agora um incidente da Baía de Tonquim ou um incêndio do Reichstag, para tanto bastam uns paisanos fardados de soldados ucranianos ou de soldados russos e uns tiros, para que a previsão se possa concretizar, dado que, se a Casa Branca marca a guerra para quarta-feira e não acontecer nada, a operação transformar-se-ia na anedota do Solnado e isso não pode ser.

Putin é um bom ajudante deste partido da guerra, mesmo que tenha a sua própria agenda. Procurou impedir a Ucrânia de aderir à Nato, qualquer outro no seu lugar faria o mesmo, seja em nome de garantias anteriormente seladas, seja por um conceito elementar de segurança nacional. Mas, na falta de uma estratégia socialmente mobilizadora e perante contradições que só se podem agravar, convém-lhe o tambor da guerra como ordem hegemónica.

Para os que, à esquerda, entendem que está aqui uma apresentável mistura entre Pedro, o Grande, e Lenine, convém que tenham em atenção que se trata de um autoritário ultraconservador, que restabeleceu a tutela da Igreja Ortodoxa, anulou a legislação contra a violência de género, reforçou uma oligarquia milionária e desprezou os direitos sociais, não deixando de se aliar a Orban ou de promover o financiamento da extrema-direita europeia. Não é um aliado da paz, é um títere que, se esperava que Washington negociasse e cedesse alguma concessão, fez um cálculo errado. Assim, Putin persiste numa forma de confronto que o confirma como instrumento da estratégia norte-americana, cujo alvo é a Alemanha.

Face ao partido da guerra, dirigido por Biden, o partido da economia está aflito. Scholz e Macron sabem bem do que se trata e por isso multiplicam iniciativas de última hora, que aliás sabem destinadas ao fracasso. Eles pouco querem, mas em todo o caso não podem. Biden, para que não tivessem dúvidas, tornou transparente que o seu objetivo é o NordStream2, o gasoduto que está pronto para entrar em funcionamento depois de mais de uma década de construção e compromissos (a empresa russa é presidida por Schroeder, o ex-chanceler alemão, e fica tudo dito).

Era agora ou nunca que os EUA impediam a Alemanha de reforçar esta relação económica com a Rússia (a Alemanha fecha este ano as suas últimas centrais nucleares e depende em quase 60% do gás russo), o que comprometeria os dois países a uma estratégia comum de estabilização europeia.

Lamento desiludir quem sonhava com uma saga heroica, feita de gestos generosos e de estandartes da liberdade, mas esta guerra anunciada só tem por objetivo impedir a exportação de gás russo para a Alemanha e, assim, reconfigurar o mapa europeu ao sabor do ditado de Washington. Antes mesmo da “guerra da quarta-feira” começar, se é que começa, o resultado fica sabido: o NordStream2 morreu.

Havia de vir o dia em que, no final do jogo, perde sempre a Alemanha.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Coitadinho do Pacheco de Amorim, tão maltratado

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 08/02/2022)

Ventura, matreiro, quer fazer da disputa pela vice-presidência do Parlamento uma telenovela que se arraste pela amargura da vitimização, quanto mais longa melhor, para lhe dourar os galões de antissistema. Escolheu para isso o candidato que lhe dava mais garantias de ser chumbado. Hic Rhodus, hic salta, eis não sei quantos dos profetas da direita a responderem a este apelo e a rasgarem as vestes pela elevação do Pacheco de Amorim a vice, ora apresentando-a como uma obrigação estatutária, ora terçando pela conveniência educativa da iniciativa.

Como seria de esperar, é do Observador que chegam os mais enfáticos, e o seu chefe, José Manuel Fernandes, apresenta numa emissão de rádio o argumento definitivo: “Se querem discutir a eleição de Pacheco de Amorim, discutam a Constituição, pois é lá que está prevista. O que a Constituição não prevê e não devia ser tolerado é uma ‘socranete’ como presidente da AR.”

“Está prevista” a eleição de Amorim na Constituição, curiosa escolha de palavras. De facto, o que o texto constitucional determina é que os deputados têm o poder de “eleger por maioria absoluta dos deputados em efetividade de funções o seu presidente e os demais membros da Mesa, sendo os quatro Vice-Presidentes eleitos sob proposta dos quatro maiores grupos parlamentares” (Artigo 175º, alínea b).

Seria demais pedir ao ideólogo alguma atenção à redação, que atribui o poder de “proposta” aos quatro grupos parlamentares e o poder de “eleger” aos deputados, que são naturalmente livres de exprimirem o seu voto. Tavares, no Público, apimenta a coisa com uma alegada tradição: teríamos um problema se os deputados exercessem o seu voto de modo a produzirem um “corte com a tradição parlamentar desde 1975” (o que, a talhe de foice, é uma “tradição” frequentemente “cortada”, ou seja, sempre que os deputados entenderam diversamente dos proponentes).

Pode-se perguntar em que mais assuntos transcendentes é que esta defesa da “tradição” ou da “previsão” constitucional obrigaria os deputados a abdicarem do seu direito de opinião para aprovarem de cruz o que lhes é proposto. O resultado seria uma estranha democracia, mas certamente obediente.

A rapidez com que os dois ideólogos se escapulem para a eventual proposta de Edite Estrela para a presidência do Parlamento não deixa de ser reveladora de algum desconforto com a sua adesão à candidatura de Amorim. Aliás, os termos em que o fazem denunciam o estratagema, pois seguem a máxima dos aflitos: se a conversa corre mal dispara depressa noutra direção. Acresce que Fernandes não se coíbe de usar uma grosseria que só mobiliza por se tratar de uma mulher. Ela é uma “socranete”, pois claro.

Imagine quem lê esta prosa se alguma vez o diretor do Observador escreveria de Pacheco de Amorim que é um “venturete”. Já sabe a resposta: nunca, afinal o dito cujo é um homem, homens não são majorettes, quanto a mulheres bem podem ser, não é? Tavares, que é mais prudente na escolha das palavras, limita-se a atirar contra “a madrinha do Sócrates”. Veremos se Estrela é mesmo a candidata à presidência do Parlamento pelo PS, o que pareceria uma escolha infeliz – mas compará-la com alguém que fez carreira numa organização responsável por atentados e que se orgulha desse passado, isso é uma abominação. Nesse plano, nenhuma confusão é possível.

Temos então, na direita, três atitudes sobre o Chega, que se vão consolidando e que este episódio volta a revelar. A primeira é de quem quer a extrema-direita para o porradismo social. É, por exemplo, a de Fátima Bonifácio, que explicou que, como “a direita não se conseguiu impor com boas maneiras e falinhas mansas”, um avanço do Chega será o início de “uma barrela de alto a baixo” no país. A segunda é a de quem lhe quer garantir um estatuto na direita, eles que se entendam. Ao que se percebe, é a do Observador. Finalmente, a terceira é a de quem prefere abrir a porta da sala de aula, esperando que os rufias do recreio se sentem sossegadinhos, como parecem ser os casos de Marques Mendes e Lobo Xavier ou, mais enfático, de Pinto Luz.

Para Ventura é um gosto aliar-se com as duas primeiras versões da direita e usar a terceira a seu bel-prazer. Fica a saber que a cartada Pacheco de Amorim mete em sentido uma parte daquela ala e desbarreta outra, afinal foi fácil. Com isso, já ganhou alguma coisa.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

O PS seria a primeira vítima da sua maioria absoluta

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 28/12/2021)

A subida rápida e radical do número de indecisos devia estar a funcionar como alerta para todos os partidos. Não é o caso. A displicência com que a maioria trata as eleições (raros partidos publicaram o seu programa a um mês da votação), ou o contentamento com que alguns as encaram apesar de a maior parte das pessoas continuar a não as perceber ou mesmo a lamentá-las, ou ainda a tentativa de dramatização para efeitos de ganhos imediatos, um truque tão evidente quanto repetido, tudo isso acentua o nevoeiro em que esta pré-campanha mergulhou o país. A combinação de dúvida e de confusão impõe que o resultado seja agora mais incerto do que em algum momento do ano que finda. Ou seja, o estratagema da encenação da crise política falhou e isso tem consequências pesadas.

Saiba mais aqui

 

É por isso que o PS é o partido que mais arrisca com o crescimento da incerteza nestas eleições. Manda o rigor reconhecer que foi o próprio primeiro-ministro quem se colocou na posição mais agressiva, aquela em que só vence se tiver maioria absoluta, como ontem repetiu com todas as letras. Desse modo, perde se perder e também perde se ganhar sem um maremoto. Mais ainda, ao afirmar que não negociará com a esquerda se não obtiver a dita maioria de metade-mais-um, já parece anunciar que se lançaria no dia 31 de janeiro em campanha para novas eleições, repetindo portanto o que faz desde 2019. A lógica da maioria absoluta tornou-se um turbilhão de irresponsabilidade. Essa locomotiva acelerou.

Para conseguir este “mais um”, o PS precisa de provocar um drama que ninguém parece estar a sentir, o que arrisca uma campanha fora de tom. Perdido se tiver oito, reclama oitenta, ou seja, o poder total. Fá-lo contra a história, pois toda a gente sabe que Costa só foi primeiro-ministro porque as esquerdas recusaram em 2015 a continuidade do governo da direita e estabeleceram um acordo escrito com o PS – e que esse acordo foi cumprido. Se o PS tivesse tido então a maioria absoluta, nada disso tinha existido e, pelo contrário, teria sido aplicado o programa “para a década”, que, por exemplo, introduzia uma nova regra de despedimento facilitado, o que então encantava os futuros ministros. O que impediu que o governo Costa continuasse a austeridade foi ter tido que negociar com a esquerda.

Assim, a maioria absoluta é reclamada contra o saber e a cultura da esquerda e, talvez pior, contra a memória concreta e recente daquela supremacia que, gozada triunfalmente a partir de 2005, conduziu a uma catástrofe política para o governo e para o seu partido. Não só o triunfo foi um preâmbulo do seguinte governo de direita, como esse poder total fez destacar uma realidade mais prosaica: se algum eleitor do PS se perguntar onde estão os arautos da maioria absoluta que o seu partido já gozou, verificará que, além dos que continuam no executivo atual, outros foram exemplos de carreiras apetecíveis, como o ministro das finanças que foi presidir a um banco de Isabel dos Santos.

Por isso, não poucos eleitores do próprio PS terão a percepção de que o seu partido seria a principal vítima dessa putativa maioria absoluta. A primeira razão é que deixaria o governo sem a proteção de entendimentos e, portanto, como alvo de desgaste num tempo que se afigura difícil, com regras orçamentais de novo apertadas e um mundo em ebulição. Sem parceiros, o PS será o alvo de toda a contestação e não há maioria que o escude da sociedade.

A segunda razão é pior, é que essa contestação nasce inevitavelmente da forma de governar de uma maioria absoluta: como o PS é um partido de interesses, mergulhou sempre que lhe foi possível na teia de favorecimentos, como o caso Pinho está aí para o lembrar eloquentemente. Se as condições políticas não impõem alguma forma de controlo, a voluptuosidade dos interesses clama pelo seu prémio.

Há, por isso, uma conclusão desse caminho que vai conduzir a campanha do PS de dramalhão em dramalhão. E os eleitores do PS bem a conhecem: de uma maioria absoluta do PS só pode nascer um ciclo de direita. Não nasce uma resposta para o serviço de saúde, porque incomodaria os hospitais privados. Não nasce uma reforma da segurança social, porque incomodaria a finança. Não nasce uma política de investimento e emprego, porque incomoda a precarização do trabalho. A maioria absoluta poria no governo seguinte a direita e a sua extrema-direita, passado o tempo curto da acelerada erosão e da exibição dos tiques absolutistas do PS. O poder absoluto é o centro que se esforça por se liquidar. É um preço demasiado alto para Portugal.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.