Porque Trump não enfrenta Putin

(Por Alberto Carvalho, in Facebook, 20/05/2025, Revisão da Estátua)


(Este texto é polémico – e talvez por isso – convoca diversas vertentes a exigir reflexão e debate, mas assenta na interpretação de várias pistas que decorrem da factualidade do comportamento dos visados, para chegar à construção de uma tese que os transcende. A Estátua não foje nem quer ignorar as polémicas, antes tem mais queda para as provocar. E, por isso, aqui fica o texto. Parabéns ao autor.

Estátua de Sal, 21/05/2025)


Nota Introdutória: Porquê este texto?

Este ensaio nasce de um momento banal, quase despercebido: uma pergunta feita por uma jornalista da CNN a um general português. A pergunta era simples – por que razão Donald Trump não enfrenta Vladimir Putin? O general respondeu com a posição habitual: cautela, cálculo político, respeito entre homens fortes, ou até possível simpatia pessoal. Nada de novo.

Essa resposta – como tantas outras – assenta numa leitura que se tornou dominante: a de que a política internacional se move por interesses, gestos táticos e temperamentos individuais. É uma visão pragmática, funcional, e suficientemente segura para circular nos estúdios de televisão. Mas talvez seja também limitada. Talvez não diga tudo. Talvez o silêncio de Trump sobre Putin não seja um acidente – nem fraqueza, nem cálculo eleitoral, nem estratégia de bastidores. Talvez seja uma linguagem. Uma mensagem. Um sinal de que está a emergir algo mais profundo – algo que quase ninguém se atreve a nomear.

Foi esse silêncio que me fez parar. E perguntar: e se a verdadeira razão da ausência de confronto entre Trump e Putin não for tática, mas doutrinária? E se ambos partilharem, mesmo de forma distinta, uma crítica radical à ordem liberal que moldou o mundo após 1945? E se, por detrás das divergências formais, existir entre eles uma convergência filosófica, civilizacional – até teológica – que nunca foi verdadeiramente discutida?

Esta é a reflexão que se segue. Não parte de alinhamentos partidários, nem de indignações fáceis. Parte da suspeita de que há aqui uma visão alternativa da política mundial – subterrânea, mas consistente – que desafia as categorias com que ainda tentamos compreender o presente. Uma crítica convergente ao liberalismo como fundamento da nova política de poder.

2.

Num tempo em que as análises geopolíticas são rasas, presas a ciclos noticiosos ou à polarização tribal, urge compreender a aliança implícita entre Donald Trump e Vladimir Putin por aquilo que ela verdadeiramente é: uma convergência civilizacional contra a matriz liberal da ordem ocidental.

O silêncio de Trump perante a guerra russa na Ucrânia, a sua ambiguidade face à NATO e o seu desinteresse estratégico em contrariar Putin não são sinais de fraqueza ou submissão. São expressão coerente de uma visão partilhada do mundo. E essa visão é, acima de tudo, antiliberal.

3.

É preciso começar pela pergunta: que tipo de liberalismo rejeita Trump e também Putin? Não se trata apenas de uma rejeição do liberalismo económico (a globalização financeira), nem exclusivamente do liberalismo político (democracia representativa, separação de poderes). O alvo é mais profundo: trata-se de uma recusa civilizacional do liberalismo como conceção do ser humano.

4.

Vladimir Putin, no discurso de Valdai (2021), afirmou com clareza: “As tentativas de impor ao mundo o chamado progresso social estão a degenerar numa nova forma de dogmatismo, que beira o absurdo. […] Eles exigem que as crianças aprendam desde tenra idade que um menino pode facilmente tornar-se menina.”

Esta frase não é apenas um ataque à política de género. É uma rejeição da antropologia liberal, que concebe o indivíduo como autónomo, auto determinável, e liberto de pertenças coletivas (Nação, religião, tradição). Para Putin, tal conceção dissolve o que há de permanente e enraizado na natureza humana. A sua crítica é, neste sentido, nietzschiana e conservadora: a civilização ocidental liberal perdeu a ligação à tragédia, ao sacrifício e à identidade.

5.

Donald Trump, por sua vez, não articula uma doutrina com a densidade russa. Mas a sua retórica política segue a mesma matriz. Num discurso em Mount Rushmore (2020), afirmou: “A nossa nação está a ser atacada por um movimento radical que procura demolir a herança americana […] e abolir os valores cristãos.”

O liberalismo, para Trump, deixou de ser o regime da liberdade – passou a ser o sistema da decadência. Ele não vê no liberalismo uma teoria política neutra, mas um instrumento ideológico das elites globais para dissolver a nação, a fé, a autoridade e a história comum. Nesse sentido, Trump não é conservador no sentido tradicional – é contrarrevolucionário.

6.

Sendo assim, Trump e Putin convergem num ponto axial: a soberania como categoria suprema da política. Recusam qualquer subordinação da vontade nacional a instituições supranacionais, regras globais ou valores universais. Putin, no seu discurso à Duma (2022), declarou:“A Rússia continuará a defender os seus interesses soberanos, mesmo que isso signifique confrontar o mundo inteiro.”

Trump, num discurso na ONU (2019), afirmou: “O futuro pertence aos patriotas, não aos globalistas.”

Esta linguagem, longe de ser apenas populista, assenta numa visão do mundo pós universalista. Ambos rejeitam a ideia de que existe uma moralidade política válida para todos os povos. Voltam, de facto, ao jus naturalismo pré-moderno: o bem e o justo são definidos pela comunidade concreta, pela cultura, pela história própria – não por tratados redigidos em Nova Iorque ou Bruxelas.

7.

A NATO, a UE, o sistema de Bretton Woods, a ONU – para Trump e Putin, tudo isto é fachada de um império liberal, onde os interesses da elite transnacional se mascaram de “valores universais”. Putin denuncia-o como “imperialismo cultural ocidental”. Trump denuncia-o como “o pântano de Washington”, com os seus diplomatas, jornalistas e tecnocratas globalistas.

Ambos veem no liberalismo não um regime da liberdade, mas uma máquina de despolitização e controlo. Neste quadro, o conflito na Ucrânia não é interpretado como invasão ou defesa da democracia. Para ambos, trata-se de uma guerra civilizacional – um braço de ferro entre um bloco liberal decadente e uma visão alternativa, enraizada em soberania, fé, identidade.

8.

Sendo assim, o silêncio de Trump sobre Putin não é diplomacia ou ignorância. É reconhecimento estratégico. Trump vê em Putin um espelho invertido: um chefe de Estado que afirma a primazia da nação sobre os dogmas globais. É por isso que, mesmo quando pressionado a condenar a Rússia, Trump responde com desinteresse ou ambiguidade – porque, no seu código político, Putin não é o verdadeiro inimigo. O inimigo está em Davos, em Bruxelas, em Silicon Valley, em Harvard.

Ao recusar confrontar Putin, Trump está a declarar guerra não à Rússia, mas ao liberalismo como sistema totalizante – o mesmo que Putin combate a partir de Moscovo. Este silêncio é, por isso, a expressão mais radical do novo eixo antiliberal do século XXI.

9.

É um erro ler o mundo através da grelha moral herdada do pós-Guerra Fria. A linguagem dos “direitos humanos”, da “ordem baseada em regras” e da “comunidade internacional” está em colapso – não por acidente, mas por recusa ativa dos seus antigos protagonistas.

Trump e Putin representam dois rostos, distintos mas convergentes, de uma nova era antiliberal. O silêncio estratégico entre eles não é vazio. É aliança ideológica tácita, sustentada por uma crítica civilizacional profunda. Compreendê-lo exige mais do que indignação ou partidarismo. Exige uma pergunta difícil: e se o liberalismo, tal como o conhecemos, deixou de ser a linguagem comum da política internacional?

X.

Portugal raramente entra nesta equação – e, quando entra, fá-lo de forma automática, quase sem debate. Alinha-se com o Ocidente liberal porque é esse o espaço institucional que habita: membro da NATO, da União Europeia, da ordem atlântica. Mas esta adesão, hoje, é mais inercial do que crítica. Durante décadas, a política externa portuguesa oscilou entre o seguidismo europeu e a vocação atlântica. Não formulou doutrina própria. Aceitou os pressupostos do liberalismo internacional sem os interrogar, como se fossem neutros, naturais, inevitáveis.

Mas num mundo em reconfiguração, essa neutralidade já não basta. Portugal terá de escolher, não apenas entre blocos, mas entre visões do mundo. A pergunta já não é só geoestratégica – é civilizacional: continua a acreditar na ordem liberal enquanto regime universal? Ou reconhece que esse modelo está em crise profunda – e que a sua renovação exigirá mais do que alianças formais?

Num país com memória de império, de tragédia e de transição, talvez valesse a pena começar a pensar e a discutir a sua própria identidade internacional. Repito: Pensar, Discutir. Não como satélite de potências maiores, mas como ator que compreende a complexidade do novo tempo – e decidirá um dia com lucidez. Neste contexto, sinto a responsabilidade de contribuir para este debate, partilhando esta reflexão.

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Portugal no limiar: o Chega, a Iniciativa Liberal e a falência política do liberalismo democrático

(Por Alberto Carvalho, in Facebook, 19/05/2025, Revisão da Estátua)


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Este texto dormia entre páginas dispersas, embrulhado num ficheiro sem nome, à espera de ocasião ou sentido. Foi escrito num tempo anterior, como quem prepara explicações sem saber ainda as perguntas. Hoje, depois das eleições legislativas de 18 de maio de 2025, torna-se, tragicamente, atual.

Nessas eleições, a Aliança Democrática (AD) – coligação entre PSD e CDS-PP – foi o partido mais votado, com 32,1% dos votos e 89 deputados, sem alcançar a maioria absoluta. O Partido Socialista, em queda histórica, obteve 23,4% e 58 deputados, o mesmo número de mandatos conquistados pelo Chega, que subiu para 22,6% e se tornou, na prática, a segunda ou a terceira força política nacional, empatada com o PS em assentos parlamentares. A Iniciativa Liberal, por sua vez, atingiu 5,5% dos votos, elegendo 9 deputados – o seu melhor resultado até hoje.

Estes números não são meros resultados eleitorais: são sintomas de uma fratura civilizacional em curso. O Chega e a IL são filhos diferentes de um mesmo vazio. Representam duas respostas antagónicas ao colapso do contrato social: uma pela raiva, outra pela fuga.

O Chega cresce nas franjas sociais da desesperança, nos bairros periféricos, nos concelhos desertificados, entre os desiludidos de tudo. Aponta os culpados com dedo firme – os imigrantes, os ciganos, os políticos, os juízes – e propõe castigos, exclusão, força. Cresce onde a liberdade se tornou apenas sobrevivência.

A Iniciativa Liberal cresce entre jovens urbanos e escolarizados, entre os que tentam competir no mercado global e sentem o Estado como obstáculo. Mas promete liberdade sem garantir equidade; autonomia sem solidariedade. Cresce onde o Estado já se ausentou – na habitação, na saúde, nos salários, na justiça fiscal.

A coincidência temporal é clara: ambos os partidos surgem em 2019 com um deputado cada no Parlamento, se não me falha a memória. Ambos crescem significativamente em 2022, e consolidam-se em 2025, num quadro de profunda erosão da democracia representativa. Ambos canalizam o descontentamento de segmentos distintos da sociedade portuguesa, mas nenhum oferece uma reconstrução do espaço comum. Cada um, à sua maneira, acelera o colapso do ideal democrático.

Entre as causas estruturais desta fragmentação, avultam os números:

  1. A habitação aumentou 70% em Lisboa na última década, tornando-se inacessível para a maioria (INE);
  2. O número de sem-abrigo duplicou entre 2018 e 2022 (ENIPSSA);
  3. O SNS perdeu milhares de profissionais, incapaz de competir com o privado;
  4. Os jovens altamente qualificados emigraram ou vivem em precariedade, sem esperança de habitação própria.

Neste cenário, o PS colapsa, vítima da sua incapacidade de construir respostas novas. A sua linguagem é conhecida, mas soa a desvio; as suas promessas, recicladas. E a AD vence, mas sem capacidade de formar maioria. O país não aclamou um vencedor: fragmentou-se.

O mais grave, porém, não é o que se vê, mas o que se adivinha. O discurso democrático tornou-se irrelevante para amplas camadas da população. O debate político foi colonizado pelo ressentimento ou pelo cálculo tecnocrático. E os partidos centrais, em vez de reconstruírem uma visão comum, disputam migalhas no meio dos escombros.

Este texto não defende regressos fáceis, nem procura bodes expiatórios. Apenas assinala: o liberalismo, em Portugal como noutros lugares, prometeu liberdade e entregou fragilidade. Fragilidade do Estado, da coesão, da esperança. A política transformou-se em administração de danos, e a sociedade em mercado de sobrevivência. E sobre essas ruínas surgem os extremos – diferentes na estética, sim, mas convergentes no efeito: destruição do comum.

O Chega cresce com a promessa de restaurar autoridade e castigo. A Iniciativa Liberal com a promessa de restaurar mérito e competição. Ambas prometem rutura, mas nenhuma constrói comunidade. Ambas prosperam sobre o cansaço – da espera, da promessa, do empobrecimento. São sintomas opostos do mesmo colapso: o da confiança.

Chegados aqui, impõe-se uma escolha – não apenas eleitoral, mas civilizacional. Ou a política resgata a ideia de bem comum, com coragem para proteger os frágeis, reequilibrar o mercado, refazer os laços sociais e devolver dignidade à palavra pública; ou aceitaremos a lenta corrosão das instituições, o abandono dos jovens, o medo dos velhos, a substituição do diálogo pela retórica bélica, e o triunfo de forças que não querem governar – querem vingar-se.

Não se trata de “virar à esquerda” ou “à direita”, mas de escolher entre reconstruir ou destruir. Portugal pode, ainda, escolher reconstruir. Mas essa reconstrução não será feita pelos partidos que cederam à lógica da contabilidade neoliberal, nem pelos que se limitaram a gerir expectativas enquanto se rompia o tecido social. Tampouco pelos que exploram a miséria e o ódio como capital político.

Será feita por quem tiver a coragem de dizer que a liberdade precisa de justiça, a democracia precisa de verdade, e a comunidade precisa de cuidar dos seus – antes que os seus deixem de acreditar nela.

Portugal entre a guerra e a urna

(Por Alberto Carvalho, in Facebook, 16/05/2025, Revisão da Estátua)


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Há momentos em que a história muda de tom sem mudar de tema.

O regresso de Trump à presidência dos EUA, a ausência estratégica de Putin em Istambul e a persistência quase solitária de Zelensky em palco mostram que a guerra já não se faz só de tiros – faz-se de tempos, gestos e simbologias.

Num Ocidente onde o ruído vale mais do que a razão, é fundamental saber reconhecer quem pensa – e quem apenas reage.

2. Putin sabe que a guerra, como a política, é uma arte de paciência. Ao recusar Istambul, não recusa a paz – recusa a pressa. Manda emissários de segunda linha para medir o pulso, mas mantém-se ausente como quem diz: “Nada de essencial acontecerá sem mim.” A sua estratégia é clara: esperar pelo enfraquecimento ocidental. E nisso, conta com o aliado que acaba de regressar à Casa Branca.

3. Trump não voltou para gerir – voltou para dominar. O seu estilo é personalista, imprevisível e brutalmente eficaz em dividir. Ao insinuar que só ele e Putin podem resolver a guerra, diz ao mundo que os sistemas coletivos falharam – e que resta confiar nos homens fortes. É o regresso da diplomacia do espetáculo, da política como encenação – e da geopolítica como negócio.

O que se perde? A ideia de bem comum. O que se ganha? Um mundo à mercê de impulsos.

4. Zelensky resiste com palavras, porque sabe que o silêncio é agora mais perigoso que o fogo. Vai a Istambul, fala em fóruns internacionais, apela a uma Europa que já não sabe se quer ouvir. Ele não representa apenas a Ucrânia – representa o último elo entre a convicção e a desilusão, entre o ideal europeu e a sua erosão interna. Se for abandonado, não cairá só Kiev – cairá a ilusão de que os princípios ainda mandam no mundo.

5. Putin joga com o tempo. Trump com a encenação. Zelensky com o desgaste. E os europeus? Os europeus oscilam – entre o medo e a amnésia. A tentação de um acordo “possível” cresce. Mas há paz que, sendo assinada, soa a capitulação. E há soluções que, sendo convenientes, só adiam a próxima tragédia.

6. E enquanto tudo isto acontece, Portugal vota no domingo. Num tempo em que o ruído político é global, importa lembrar que o voto não é um grito – é uma escolha. E que a lucidez exige mais do que indignação.

Há partidos que prometem ruturas – mas sem planos. Outros, que encenam coragem – mas sem coerência.

E há quem, com todos os erros, tenha sustentado o país em crises internacionais, financeiras e sociais – e evite agora cair no canto fácil do populismo? Mesmo entre dúvidas e críticas, mantém o rumo da estabilidade e da solidariedade social, com um Estado forte que Portugal tanto necessita? Não se trata de fanatismos. Trata-se de responsabilidade. De perceber que há alturas em que o centro não é cobardia – é resistência. Que o populismo não precisa de tanques – basta-lhe o desânimo. E que, num mundo a braços com a erosão das democracias liberais, votar com a cabeça fria pode ser o último ato de cidadania lúcida.

No domingo, como em Kiev, como em Bruxelas, como em Washington, joga-se mais do que parece. Joga-se o futuro – e a forma como ainda queremos enfrentá-lo.