Há um padrão a consolidar-se: a humilhação dos fracos pelos fortes

(Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 26/11/2025)


É sempre assim que começa: não com um ditador a bater à porta, mas com pequenos sinais que a sociedade finge não ver.

Uma criança brasileira entra na escola e sai dela sem dois dedos, depois de meses a pedir ajuda que ninguém quis ouvir, a direção encolhe os ombros.

Um jovem bombeiro é violado num quartel que deveria ser símbolo de coragem, com os seus superiores a gravar o vídeo da humilhação.

Centenas de imigrantes são empurrados pelo Estado para a ilegalidade, para alimentarem máquinas de lucro de máfias que corrompem funcionários do estado.

Militares da GNR são detidos por proteger redes que transformam pessoas desesperadas em escravos descartáveis.

Empresários sem escrúpulos pagam 80 euros por mês a um imigrante que o próprio Estado força a permanecer ilegal, apenas para alimentar os apetites de ódio que nos mergulharam nesta desumanização do outro.

Nada disto acontece porque “algo correu mal”.

Acontece precisamente porque está a correr como alguns querem: uma sociedade desenhada para que os de cima pisem os de baixo, para que a violência pareça normal e a indiferença, inevitável.

E esta normalização do mal não nasceu do nada.

Foi semeada, regada e fertilizada por um discurso político que, há anos, ensina o país a culpar os mais fracos em vez de olhar para cima.

Há um padrão a consolidar-se, a humilhação dos fracos pelos fortes.

Uma hierarquização moral, racial, económica, étnica e ideológica.

A paranoia colectiva repete sempre o mesmo refrão: o inimigo é o imigrante, o cigano, o pobre, a mãe solteira, o sem-abrigo, a pessoa que chega sem nada.

É nesses alvos — e nunca nos verdadeiros predadores — que a extrema-direita treina a raiva do país.

Quem está em baixo é convidado a pisar quem está ainda mais em baixo, com a promessa que assim sobe mais alto.

E assim, a crueldade pinga da política para a sociedade, e da sociedade para as instituições.

Nada disto é acaso; tudo isto é ideologia em prática.

Quando a extrema-direita repete que há “pessoas que valem menos”, que há “portugueses de primeira” e “intrusos”, que os problemas do país se resolvem “limpando” quem está em baixo, está a ensinar uma ética perversa.

Essa ética infiltra-se nos corredores das escolas, nos balneários dos quartéis, nas empresas de trabalho temporário, nas esquadras e até nos partidos que antes se diziam moderados.

De repente, já ninguém estranha um pacote laboral feito para o topo esmagar o fundo, nem uma reforma fiscal criada para aliviar os muito ricos e sufocar quem depende da escola pública ou do SNS.

O Estado desprotege imigrantes, impedindo a sua legalização para que possam ser explorados.

Os impostos descem para quem tem mais, os serviços descem para quem tem menos.

A justiça torna-se suave para os poderosos e brutal para os vulneráveis.

As escolas dividem-se entre as dos meninos ricos e as dos meninos pobres.

Dividir. Hierarquizar. Dominar.

E a tragédia maior é que muitos dos que repetem estas ideias não percebem que estão a entregar a própria vida aos poderosos.

Defendem bilionários que nunca conhecerão, atacam trabalhadores iguais a si, culpam imigrantes que fazem os empregos que eles recusam e entregam o país a elites que só prosperam porque há uma massa de gente ocupada a odiar-se mutuamente.

O fascismo funciona sempre assim: recruta os fracos para proteger os fortes, oferecendo apenas a ilusão de poder — o poder de pisar alguém.

A sociedade dá sinais antes de implodir. Os partidos sociais-democratas e humanistas perdem eleições, nasce um ódio visceral por tudo o que seja socialismo, sem que a maioria perceba o que isso quer dizer.

A democracia vai sendo abafada por algoritmos, por TikToks de ódio, por influencers políticos que transformam racismo, xenofobia e violência num produto viral.

Os berros abafam a lógica.

E esse veneno espalha-se até contaminar tudo: famílias, escolas, instituições, partidos, a linguagem do dia-a-dia… as nossas próprias crianças e jovens.

Quando finalmente acordamos, já a crueldade deixou de chocar. Já o discurso hierarquizante se tornou norma. Já a exploração passou a ser tratada como inevitável.

E um país que se habitua a esmagar os mais fracos não tarda a descobrir que a esmagadora maioria vive do lado dos esmagados… mas, nessa altura, será tarde demais.

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As fantasias da cimeira União Europeia-União Africana. Enquanto o Ocidente discursa, a China faz obra

(Fórum da Escolha, in Facebook, 24/11/2025, Revisão da Estátua)


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Costuma dizer-se que Pequim avança em silêncio. Isso é falso. Avança tão ruidosamente que até os relatórios oficiais dos EUA gritam pânico — mas, como o Ocidente está demasiado ocupado a olhar para si próprio, não ouve nada.

No seu mais recente relatório, a Comissão de Revisão Económica e de Segurança EUA-China brada que a China representa “a ameaça mais séria à segurança nacional dos EUA”.

Tradução: eles estão a ganhar tudo enquanto nós organizamos mesas redondas. Enquanto Washington dramatiza, Bruxelas moraliza e Paris organiza uma comissão para criar uma comissão, Pequim implementa a sua estratégia africana como um rolo compressor.

📌 70% do 5G africano? Huawei.

📌 200.000 km de fibra ótica? Pequim.

📌 Data Centers? China.

📌 Segurança digital? China outra vez.

Onde o Ocidente promete, Pequim liga. Onde o Ocidente adverte, Pequim instala. Onde o Ocidente ameaça, Pequim cobra.

Mas, o mais corrosivo é que a China não está apenas a vender cabos: está a vender o sistema operativo político que os acompanha. A própria ONU observa, com resignação, que Pequim está a “moldar os padrões digitais africanos”. Em linguagem diplomática: o continente escolheu o seu fornecedor — e não somos nós.

Enquanto Bruxelas se encanta com o seu “Portal Global”, um magnífico projeto que nado-morto, soterrado pela burocracia e autossatisfação europeia, a China está a transformar África numa extensão tecnológica de Shenzhen.

A UE promete “uma alternativa democrática”. É lindo. Poético. Quase sol. Mas falta um pormenor: infraestruturas. Não se pode substituir a Huawei por comunicados de imprensa. Não se pode competir com a fibra ótica chinesa com um PDF de 146 páginas aprovado em trílogo. Não se pode contrabalançar um império digital com uma apresentação animada em PowerPoint.

Quanto aos Estados Unidos, abriram a carteira: 350 milhões de dólares para a tecnologia digital africana. Só que a Huawei gasta isso a levar a sua equipa para almoçar.

E depois África olha para o Ocidente. E vê:

  • Sermões.
  • Condicionalidades.
  • Conferências.
  • Ideologia numa caixa.

Depois olha para a China. E vê:

  • Cabos.
  • Portos.
  • Estradas.
  • Servidores.
  • Concreto.
  • Zero demoralidade.

A escolha não é difícil.

Enquanto o Ocidente gasta as suas energias a “defender a democracia” na Ucrânia, “contendo a China” em Taiwan e a “estabilizar” um Médio Oriente que tem vindo a destabilizar há 30 anos, Pequim está a construir o futuro do continente que dominará o século XXI.

Washington e Bruxelas estão a jogar Risk. Pequim está a jogar SimCity. E adivinha quem está a ganhar? A questão já não é: “África tornar-se-á digital?” Isso já está decidido desde 2018. A verdadeira questão é: “Preferimos uma África ligada à Huawei… ou uma África ligada a nada?” Porque, ao ritmo a que o Ocidente caminha, é o segundo cenário que se aproxima: uma África sem Ocidente.

Um Ocidente sem influência. E uma China que liga o planeta como quem liga um aspirador à tomada. A tomada já está ligada. Só falta ligar o interruptor. E não será o Ocidente que o ativará.

(@BPartisanss

Negociações de paz em Genebra – o teatro das ilusões

(Fórum da Escolha, in Facebook, 24/11/2025, Revisão da Estátua)


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Enquanto os atores vão ensaiando, a Rússia, que não participa nas discussões, vai continuando a destruir o exército ucraniano e a conquistar território.

O único acordo de paz que um dia será assinado será o da capitulação da Ucrânia, que Trump tenta evitar a todo o custo mas que a Europa não quer.

As imagens de Genebra deveriam ter sido vistas com um certo distanciamento — digamos, o distanciamento de um espectador que já sabe que o episódio é uma repetição. Marco Rubio, o novo Secretário de Estado na versão da “paz expressa”, apareceu perante as câmaras com o sorriso de um vendedor diplomático de aspiradores. Afirmou, sem pestanejar, que as discussões tinham sido “as mais produtivas e importantes” de todo o processo. Só isso. Quase se ouvia a orquestra sinfónica atrás dele. Além disso, segundo Rubio, tudo está a avançar: “progresso enorme”, um plano de “26 ou 28 pontos, dependendo da versão”, e apenas restam “algumas questões” para resolver.

Vindo de um país onde o Congresso não consegue sequer aprovar o seu próprio orçamento, a promessa de um acordo de paz rápido é quase um milagre bíblico. Rubio diz ainda que compreende as “linhas vermelhas” de Moscovo. Um feito admirável: compreender linhas vermelhas que 30 anos de diplomacia ocidental ignoraram cuidadosamente. Mas desta vez — prometemos — compreendemos. As linhas vermelhas russas? Muito simples: tudo o que o Ocidente tem vindo a propor nos últimos dez anos, só que ao contrário.

Enquanto Washington se agita, Kiev luta para recuperar

O único momento sincero do dia veio da imprensa americana. O Axios revela que a fase inicial com os ucranianos foi… como podemos dizer… tensa. Os norte-americanos acusaram Kiev de ter “vazado informações negativas” sobre o plano aos meios de comunicação social. Porque, claro, um país em guerra, exausto, arruinado e 90% dependente da ajuda externa… ainda sonha em negociar.

 No Politico: Em Genebra, a Casa Branca garante-nos que os ucranianos declararam finalmente que “a atual proposta reflete os seus interesses”. Claro. Imagine a cena:

Washington: “É do seu interesse, certo?”

Kiev, cercada, exausta, dependente: “Sim, sim… totalmente do nosso interesse…”. A diplomacia é também uma forma de teatro. Trump, por sua vez, já nem sequer está a atuar.

Depois vem Donald Trump, que tem a delicadeza de um rinoceronte numa loja de porcelana. Denuncia os “ingratos líderes ucranianos”, acusando Kiev de ser responsável pelo conflito com a ajuda das anteriores administrações americanas — nomeadamente, Biden, Obama, Bush, Jefferson e, provavelmente, Luís XIV. Mas admite que os Estados Unidos continuam a enviar, e cito: “enormes quantidades de armas para os países da NATO para transferência para a Ucrânia”. Uma espécie de lavagem de dinheiro militar: não entregam diretamente, externalizam a entrega. Como um traficante de droga que usa um subcontratado para manter as mãos limpas.

E a Europa em tudo isto?

A Europa, fiel ao seu estilo, observa à margem. Não se pronuncia, apenas comenta. Não decide, apenas espera. Não negoceia, apenas “apoia o processo”. Não nos preocupemos: tudo continua como sempre.

Genebra apresenta um “avanço histórico”, Moscovo diz que não viu nada, Washington afirma que percebeu tudo e Kiev repete o que lhe dizem.

Conclusão. Genebra 2025 ficará para a história não como uma cimeira de paz, mas como um momento em que todos fingiram acreditar — exceto talvez Trump, que acredita apenas em si próprio.

E enquanto diplomatas e generais competem para ver quem mente melhor, apenas uma certeza surge: Não é um acordo que está a ser preparado. É um álibi.